O termo “intelectual” entra como derivado da memória coletiva no vocabulário europeu ocidental desde o Iluminismo, e é nesse período que se estabelece a síndrome poder/conhecimento, “o atributo mais visível da modernidade”. (BAUMAN, 2010, p.16) No entanto, ele se propaga a partir de 1898 quando o jornal L‘ Aurore publica carta dirigida ao presidente da República por Émile Zola, exigindo revisão do processo do Caso Dreyfuss, como menciona Carlos Monsiváis em seu artigo “De los intelectuales en América Latina” (2007) que:
El término se propaga durante el Caso Dreyfuss para reconocer a los impugnadores del antisemitismo y, de fines del siglo XIX a 1930, se esparce en América. Sin embargo, sólo se difunde masivamente en la década de 1930, luego del auge de algunos escritores, cuya autoridad moral hace que se les conceda el rol de Maestros de la Juventud, augures y guías exaltados por las multitudes. Durante una etapa desempeñan notablemente ese papel José Vasconcelos y Antonio Caso en México […]. (MONSIVÁIS, 2007, p.19)
O termo em questão ocupa espaço em várias tribunas, merecendo atenção particular as reflexões críticas de Julien Benda, Antonio Gramsci e Jean Paul-Sartre, entre outros. Cabe destacar também que A traição dos intelectuais de Julien Benda “fue leído por los intelectuales mexicanos de los años 30 con particular atención
suscitando debates abiertos y sigue siendo citado incluso en los años 90.” (SÁNCHEZ-PRADO, 2006, p. 37)
No que se refere às acepções adquiridas em relação ao papel dos intelectuais na sociedade, pode-se destacar a de Gramsci, a qual relata que “todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer então: mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais”. (GRAMSCI, 1982, p. 7)
A noção clássica de “intelectual orgânico” de Gramsci, ou seja, o que se envolve nas transformações de uma sociedade democrática, em oposição, segundo ele, ao tipo comum de intelectual, como os administradores, os professores, os clérigos, devido à postura mantenedora da ordem tradicional, é bastante útil para discutir os intelectuais nessa pesquisa, pois permite pensar nos intelectuais relacionados a uma classe, em oposição aos intelectuais hegemônicos.
Cabe destacar, entretanto, que a noção de intelectual de Gramsci é muito ampla, uma vez que não envolve somente os homme de lettres, mas também a classe profissional. Essa noção, porém, permite compreender as articulações entre o intelectual e o Estado, mesmo que o objetivo aqui seja especificamente no campo literário. Em conhecida passagem sobre a origem e a tarefa dos intelectuais orgânicos, Gramsci define:
Uma das mais marcantes características de todo grupo social que se desenvolve no sentido do domínio é sua luta pela assimilação e pela conquista "ideológica" dos intelectuais tradicionais, assimilação e conquista que são tão mais rápidas e eficazes quanto mais o grupo em questão elaborar simultaneamente seus próprios intelectuais orgânicos. (GRAMSCI, 1982, p.7)
Com base nessa concepção, o intelectual orgânico não é somente o que representa ideias de um grupo hegemônico, mas, sobretudo, “aquél que es capaz de
generar consensos hacia dentro de los grupos intelectuales “tradicionales”” (SÁNCHEZ-PRADO, 2006, p.38)
Sendo assim, observa-se que no México, como na maioria dos países que experimentaram uma mudança social brusca introduzida pelas novas formas econômicas, o termo intelectual: “ha llegado a tener una connotación tan amplia como la que habría que tener en una sociedad capitalista establecida como a de los Estados Unidos” (COCKCROFT, 2005, p. 8). Tal ocorre porque a situação econômica de crescimento rápido em que se encontrava, devido ao progresso burguês, grande parte das nações latino-americanas por volta de 1900, propiciou conforto e distinção no período que se convencionou chamar de belle époque.
Esse padrão um tanto mais elevado incrementou o volume de trabalhadores assalariados e a formação de uma classe média, particularmente urbana. É nesse “patrón social decimonónico, [...] que en la segunda mitad de la centuria habrán de convertirse en la gran cantera para el reclutamiento de intelectuales.” (ALTAMIRANO, 2010, p. 13)
A belle époque mexicana se deve em parte ao governo de Porfirio Díaz. No entanto, cabe ressaltar que “gran parte de las naciones latinoamericanas se encuentran en rápido crecimiento económico, incluidas en la órbita mundial del progreso burgués, en pleno apogeo por entonces”. (ALTAMIRANO, 2010, p. 13) Assim que assume a presidência, Díaz se declara defensor e representante de grupos regionais. Recebe o apoio dos camponeses que defendem a autonomia política e levanta a bandeira “antiautoritarista y anticentralista, pues rechazaba el excesivo poder del presidente de la república frente a los poderes legislativo y judicial y frente a los gobiernos estatales”. (SPECKMAN GUERRA, 2007, p. 192)
No entanto, o resultado entre o que Díaz declara e o que acontece nos anos seguintes demonstra oposição entre o discurso e a prática. Ao final de seu primeiro mandato, Díaz entrega o cargo a seu compadre Manuel González (1880-1884), que o devolve quatro anos depois. No início de seu segundo mandato, elimina da Constituição qualquer restrição à reeleição. Seu governo é caracterizado pela estabilidade política e econômica, à custa, principalmente, de grandes desigualdades sociais e supressão de liberdades civis entre a população. A concentração da riqueza nas mãos de um pequeno grupo, que contribuiu para incentivar investidores atraídos pelos baixos salários dos operários. A divisão de classes é acentuada, com a população indígena passando a ser tratada como um obstáculo ao progresso.
Entre os muitos desafios do governo de Díaz, destaca-se a dificuldade de consolidação da Constituição promulgada em 1857, que contempla, entre outras leis, a divisão de poderes entre executivo, legislativo e judiciário, encarregando o povo de escolher seus membros. Ocorre, também a separação entre o Estado e a religião, colocando nas mãos do governo a responsabilidade pela educação. Nesse período, a igreja estava proibida de possuir bens, de celebrar fora dos templos e de permitir que religiosos, dependendo economicamente do governo, atendessem em centros educativos, beneficentes e hospitalares. Díaz, porém, não revoga nem cumpre todas as leis, permitindo que a igreja recupere propriedades e mantenha centros educativos. Com isso, o ditador recebe o apoio da hierarquia eclesiástica, a qual:
desconoció los levantamientos populares hechos en nombre de la religión [...]. Por otro lado, al reintegrarse a la labor benéfica y educativa, cubrió espacios que el gobierno difícilmente podía llenar con recursos propios (SPECKMAN GUERRA, 2007, p. 196)
Em um período que oscila entre “construcción, unificación, pacificación, conciliación y negociación, pero también de represión” (SPECKMAN GUERRA, 2007, p. 194), Díaz obtém o reconhecimento internacional, principalmente dos Estados Unidos da América, e restabelece relações diplomáticas com a França, a Inglaterra, a Alemanha e a Bélgica, países com os quais tais relações haviam sido rompidas após a moratória decretada por Benito Juárez, presidente por cinco períodos entre 1858 e 1872. Entre a legalidade e a aparência de legalidade, Díaz manipula as eleições de deputados, senadores e magistrados federais. Uma farsa muito bem montada que, mais adiante, será novamente observada nas atuações do governo pós-revolucionário do PRI.
Dentro desse contexto, acentua-se o centralismo e o autoritarismo de Díaz e de seus governadores, com um regime mais repressivo em relação aos protestos sociais e à imprensa não oficial, composta majoritariamente por liberais, católicos e operários. O descontentamento toma as ruas, provocando manifestações e ataques a prédios públicos, saques, greves operárias e rebeliões agrárias. A esse período, remonta as origens do Partido Liberal Mexicano (PLM)14.
Nesse período as artes e a literatura exercem um importante papel na reflexão crítica sobre o movimento armado iniciado em 1910. A Revolução Mexicana tem como um de seus objetivos acabar com a ditadura de Porfirio Díaz, que governa o país durante trinta dos trinta e quatro anos que correm entre 1876 e 1911. Essa etapa, conhecida como o porfiriato, termina quando, devido à Revolução 14 Esse partido foi inicialmente formado com o intuito de reorganizar os apoiadores do Partido Liberal que haviam conseguido promulgar a Constituição de 1857. Em 28 de setembro de 1905 se instalou uma Junta Organizadora del Partido Liberal Mexicano, da que se designou presidente Ricardo Flores Magón; vice-presidente Juan Sarabia; secretário Antonio I. Villarreal; tesoureiro Enrique Flores Magón e redatores: Manuel Sarabia, Rosalío Bustamante e Librado Rivera. Depois de sucessivas prisões e fugas para os Estados Unidos e Canadá esse partido transitou do liberalismo ao anarquismo. Utilizando o jornal Reneración, surgido em 1900 como meio de divulgação de suas ideias. Eles são alguns dos autores que tiveram uma participação efetiva nos antecedentes que deram origem a Revolução de 1910. (BARRERA FUENTES, 1973, pp. 86-91)
encabeçada por Francisco Ignacio Madero, Francisco Villa, Emiliano Zapata e os irmãos Ricardo e Enrique Flores Magón, Porfírio renuncia à presidência.
No entanto, desde 1900, um pequeno grupo de intelectuais de San Luis de Potosí (Camilo Arriaga, Juan Sarabia, Librado Rivera e Antonio Díaz Soto y Gama) “cuna de la Revolución” (COCKCROFT, 2005, p. 8), juntamente com Madero e os irmãos Flores Magón, começaram uma disputa para alcançar os objetivos do liberalismo do século XIX: “democracia, anticlericalismo y libre empresa”. (COCKCROFT, 2005, p. 9) Esses intelectuais dirigiram suas exortações às classes alta e média, que estavam descontentes com a política ditatorial de Díaz.
É importante salientar que o governo de Díaz tem uma proposta de renovação nos âmbitos culturais e educativos. A relação dos intelectuais mexicanos com esse governo no período que se estende dos finais do século XIX a princípios do XX, em geral, não é áspera, pois, de certo modo, eles se beneficiam do crescimento do aparato educativo, jornalístico e da estabilidade de um governo com demanda crescente de profissionais para a modernização da economia nacional.
No entanto, a queda do porfiriato é também a de seus intelectuais, levando muitos a padecerem longos ou definitivos exílios, como é o caso de: Francisco Bulnes, Federico Gamboa, Victoriano Salado Álvarez, Pablo Macedo, Rodolfo Reyes e Nemesio García Naranjo (GARCIADIEGO, 2010, p. 37), dando espaço ao surgimento de uma classe intelectual de origem popular. Cabe destacar que, antes da Revolução, já havia algum espaço para esses novos intelectuais, mas é somente após esse período que eles ascendem ao poder15.
15 Destaca-se aqui duas importantes figuras: o humilde professor rural Otilio Montaño (1877-1917), redator do Plan de Ayala – bandeira do exército zapatista e fundador da definição política agrária revolucionária; e o tipógrafo e sindicalista Rosendo Salazar (1888-1971) um dos fundadores da Casa del Obrero Mundial. Sua participação tornou possível a inclusão dentro da Constituição de 1917 um Capítulo do Trabalho e Previdência Social. (GARCIADIEGO, 2010, p. 33)
Desta forma, de maneira diferenciada, desponta uma atividade política profissionalizada e uma crescente especialização de escritores e de homens de saber, em geral, esboçando assim, o que mais tarde será conceituado por Pierre Bourdieu como “campo intelectual”.
Ressalte-se, nesse contexto o poeta Ramón López Velarde, a figura fundacional da poesia mexicana moderna. Esse poeta de província, afastado das disputas de um campo literário em definição, não forma parte de nenhum dos grupos que entram em disputa, como os científicos, os ateneístas e os estridentistas.
Os intelectuais, quando convocados, não pensaram ou se prepararam para a Revolução, pois “tuvieron que imaginar proyectos culturales e institucionales para el México que había brotado de la Revolución” (ALTAMIRANO, 2010, p. 16), o que os levou a negociar com chefes políticos com o intuito de defender um processo popular e nacionalista. Desse grande grupo de novos intelectuais surgidos com a Revolução, trazendo consigo múltiplos ofícios, Javier Garciadiego destaca que eles:
redactaban planes y proclamas propios, respondían a los ajenos y analizaban la situación política nacional e internacional, eran responsables de las oficinas político-administrativas y dirigieron los muchísimos periódicos que circularon durante esos años. (GARCIADIEGO, 2010, p. 33)
De modo geral, a Revolução produz pintura, literatura e música inéditas, destacando, principalmente, a obra literária de ruptura mais significativa desse período, o romance Los de abajo, de Mariano Azuela, publicada no diário El paso del Norte entre outubro e dezembro de 1915.
A passagem da geração que chega ao poder com Porfirio Díaz, conhecida como científicos16, ocorre de maneira natural, uma vez que, na virada do século XIX, 16 Os científicos foram um círculo de tecnocratas imersos no positivismo de Comte formado por: Gabino Barreda (1820-1881), precursor do grupo, médico e professor de medicina, Barreda estudou em Paris com Auguste Comte entre 1847 e 1851 e é amplamente reconhecido como o introdutor do positivismo no México e, também o organizador da Escuela Nacional Preparatoria, a primeira escola
muitos já haviam falecido ou contavam com idade avançada. Esse grupo de grande influência em seu governo era formado por homens de negócios, intelectuais destacados e membros de seu gabinete. Dentre eles estavam Gabino Barreda, Ramón Corral, José Limantour, Justo Sierra entre outros. No entanto, esse grupo, assim como Díaz já bastante envelhecido, não cede espaço à nova geração que o reclamava. Almejando o cargo de presidente, os científicos diminuem o poder dos reyistas17, que passam então a fazer oposição ao governo.