Nesta parte, será apresentada a trajetória intelectual de Juan Villoro no contexto literário mexicano, utilizando, para tanto, as reflexões críticas dos ensaios e artigos que compõem Materias dispuestas: Juan Villoro ante la crítica (2011), procurando demonstrar a composição de suas obras, principalmente de El testigo.
Juan Villoro, nascido em 1956, na Cidade do México, é filho do filósofo catalão Luis Villoro e herdeiro direto dos escritores da Onda. Ele e sua geração foram os primeiros a se libertar da obsessiva busca da identidade nacional, resolvida de maneira bastante humorística. Estudou em colégio alemão, no México, e se licenciou em Sociologia na Universidad Autónoma Metropolitana (UAM), campus Iztapalapa.
Cabe salientar que sua obra abrange diversos campos, ainda que tenha se iniciado, em 1977, como roteirista radiofônico para o programa El lado oscuro de la luna na Rádio Educação. Aluno da oficina literária de Augusto Monterroso entre 1976 e 1977, exerceu o cargo de adido cultural na Embaixada do México em Berlim, entre 1981 e 1984. Além da narrativa, da crônica, dos artigos jornalísticos, do ensaio, da literatura infantil e da tradução, Villoro produziu também roteiro para teatro e cinema.
Esse autor se desenvolveu culturalmente cercado de figuras importantes. No entanto, a “lectura de De perfil, de José Agustín, [foi] la que despertó su vocación literaria a los quince años”. (ESQUEMBRE, 2011 p.1) Suas primeiras criações literárias foram três contos incluídos em Zeppelín compartido, uma coletânea organizada por Miguel Donoso Pareja, que se iniciou como escritor. Mas foi na narrativa breve que fez sua estreia, com um conjunto de onze contos em seu primeiro livro, La noche navegable (1980).
Como os escritores da Onda, os contos de Villoro têm características de crônica, o que se observa desde sua primeira obra. Cinco anos depois, lança seu segundo livro de contos, Albercas (1985), no qual o fantástico e o realismo se fundem em uma clara “homenaje a Onetti, a Borges, a Bioy Casares y a Cortázar”. (ESQUEMBRE, 2011 p.1)
Nos dez relatos de La casa pierde (1999), nota-se que o olhar atua em uma perspectiva horizontal, percorrendo circularmente uma variada realidade de protagonistas, que, em geral, configuram uma galeria de gloriosos perdedores: um boxeador, um escultor, um fazendeiro, um treinador de futebol, um aprendiz de escultor, um professor de economia, entre outros. No entanto, cabe destacar que tais protagonistas estão afastados da problemática da Onda, que “fue una literatura sobre adolescentes capitalinos, centrada en la problemática que estos enfrentaban en los sesenta, en especial la de beber y la de las drogas.” (PATÁN, 2011, p. 174) Tal ideia foi comentada por Ignacio Echevarría em seu artigo “Lo que empieza cuando la gasolina se acaba: La casa pierde de Juan Villoro” (2011) que:
En todos los relatos se produce una revelación, o la inminencia de una revelación, a la que suele ir asociada una claudicación, una experiencia de fracaso. Esa claudicación, ese fracaso son el conocimiento – siempre particular y sin embargo universal – a que se llega en cada caso. En la partida que cada uno emprende con su propia vida, la ganancia consiste en el juego mismo, pues la casa siempre pierde” (ECHEVARRÍA, 2011, p. 170)
Em Los culpables (2006) estão reunidos seis contos e uma nouvelle. Neles, Villoro mostra com enganosa simplicidade que, se a confissão religiosa é para descarregar a culpa, nesses relatos ocorre exatamente o oposto, pois os protagonistas se incriminam pelo que revelam para tentar se desculpar.
Outro gênero que Villoro pratica há muitos anos é a crônica, exercendo-a em vários jornais. Em Tiempo transcurrido (1986), seu primeiro livro de crônicas, Villoro destaca a juventude rockera que havia surgido como resposta à rigidez do establishment mexicano. Três anos depois, publica Palmeras de la brisa rápida: un viaje al Yucatán (1989), no qual um jovem cronista percorre de carro a península de Yucatán e apresenta com muita ironia o ponto de vista desse viajante.
Além desses, há também Los once de la tribu: crónicas de rock, fútbol, arte y más (1995), obra em que, como menciona o crítico español Juan Antonio Masoliver
Ródenas em seu artigo, “Juan Villoro: itinerarios de la invención” (2011), “encontramos las claves que explican toda la escritura de Villoro. Cada uno de los aspectos que hemos visto de forma dispersa en sus otros libros aparecen ahora plenamente desarrollados”. (MASOLIVER RÓDENAS, 2011, p. 38)
Já no livro de crônicas Safari accidental (2005), que aparentemente trata de uma coletânea de temas separados, mas, certamente, não é, pois nos eventuais encontros com celebridades do rock ou em viajes pelo México com Salman Rushie ou nas oficinas literárias de Augusto Monterroso, Villoro tece a memória de eventos e expressa conclusões sobre a vida no México pós-68, recordando a participação de seu pai durante o movimento estudantil. Já o livro de crônicas 8.8: El miedo en el espejo (2011), sua publicação mais recente, relata, desde uma perspectiva descentrada e insólita, o violento terremoto de intensidade 8.8 que fez tremer o Chile e do qual foi testemunha.
Villoro, assim como Julio Cortázar, Eduardo Galeano, Mempo Giardinelli, Roberto Bolaño, entre outros; também tem contos centrados no esporte, como “Campeón ligero” e “El extremo fantasma” em La casa pierde (1999), obra elaborada ao longo de doze anos. Nela, é apresentada uma galeria de gloriosos perdedores, pois, frequentemente, quem perde ganha, e vice-versa.
Em Dios es redondo (2006), uma pequena blasfêmia infantil, observa-se a combinação de crônica jornalística com reflexões sociológicas e anedotas pessoais do vivido e sentido no trabalho cotidiano, rendendo tributo velado a Diego Armando Maradona e registrando, de maneira divertida, as mitologias e superstições em torno do futebol. Através de uma exploração narrativa, analisam-se os meandros dessa cultura de massa, característica que remete ao prólogo de Su majestad el fútbol
(1968) de Eduardo Galeano sobre o posicionamento dos intelectuais diante de um esporte como o futebol:
Hay intelectuales que niegan los sentimientos que no son capaces de experimentar ni, en consecuencia, de compartir: sólo podrían referirse al fútbol con una mueca de disgusto, asco o indignación. No es menos típica la búsqueda de chivos emisarios para expiar la propia impotencia, y el fútbol es ideal en este sentido; está allí, tan a mano del intelectual como de cualquiera, sin ganas ni necesidad de defenderse: el fútbol es, pues, cómodamente, señalado con el dedo índice como la causa primera y última de todos los males, el culpable de la ignorancia y la resignación de las masas populares […]. (GALEANO, 1968, p. 5)
Villoro, nesse livro de crônicas, aproxima o futebol da literatura e demonstra que parte da racionalização do jogo está em mostrar sua importância política. Ele comenta que, na inauguração do Mundial do México em 1986, o futebol transformou a massa e fez o presidente saber que o povo não estava contente com ele. Sobre esse incidente, comenta “no es exagero decir que ahí nació una sociedad civil consciente de su poder que emprendería la larga marcha para derrocar al PRI 14 años después”. (VILLORO apud MARROQUÍN, 2011, p. 252)
O cronista e romancista Villoro também escreve roteiro para cinema, como Vivir mata (2002), dirigida por Nicolás Echevarría, para o qual escreveu inclusive as letras das várias canções inéditas musicalizadas pelo grupo de rock Café Tacuba.
Embora Villoro se considere um escritor que às vezes traduz e que suas traduções são “hijos solitarios de un padre disperso” (POLLACK, 2009, p. 2.), suas publicações são bastante extensas, indo desde Engaños (1985) de Arthur Schnitzler, Aforismos de Christoph Linchtenberg, sua tradução mais destacada publicada em 1989, Memorias de un antisemita (1988) de Gregor Von Rezzori, Un árbol de noche (1989) de Truman Capote a El teniente Gustl (2006), também de Arthur Schnitzler, entre outras.
Ler para escrever ou escrever para ler, as reflexões críticas do ensaísta Villoro aparecem desde seu primeiro livro de ensaios: Efectos personales (2001), que propõe um fluido diálogo entre as literaturas de América e Europa, no qual, já a partir do prólogo, deixa claro o conflito estabelecido quando um escritor se torna também ensaísta:
Los ensayos literarios se ocupan de voces ajenas, delegan las emociones y los méritos en el trabajo de los otros; sin embargo, incluso los más renuentes a adoptar el tono autobiográfico delatan un temperamento. Con los efectos personales, entregan el retrato íntimo y accidental de sus autores. (VILLORO, 2001, p. 8)
Já em De eso se trata (2008a), Villoro relata que o ensaísta é como um dedo indicador apontado para um fato que não havia sido visto, e que não há como captar em fotografia esse instante, entre a mão que aponta e o olhar de quem observa. E é desse gesto que depende o ensaio.
Deste modo, se, em seu primeiro livro de ensaios, o autor de El testigo se concentra em autores do século XX, em De eso se trata (2008a), amplia o arco, indo desde o Renascimento até os autores hispano-americanos, os quais, como ele mesmo relata, são essenciais para sua formação, como Onetti, Borges e Bioy Casares, uma vez que, entre as muitas conceituações de ensaio para Villoro, destaca-se:
Ensayar es una forma de ejercer la traducción, un intento de volver próximo lo ajeno, buscar que autores de épocas y territorios distantes dispongan de una lengua y de una moneda común. […] Un viaje tiene sentido por la emoción cómplice que cristaliza cuando alguien comenta lo que ve. Ensayar: leer en compañía. De eso se trata. (VILLORO, 2008a, p. 10)
Na já extensa trajetória literária de Villoro, encontra-se também a literatura infantil, sendo Las golosinas secretas (1985) a primeira obra desse gênero. Nela, o autor aborda, com muita sutileza, temas como amor, ódio e inveja. Esse último
sentimento aparece também em sua obra infantil mais destacada: El profesor Zípez y la fabulosa guitarra eléctrica (1992).
Além das já citadas, ele publicou diversas outras obras infantis, como El libro salvaje (2008), a qual tem como protagonista um menino que tenta ler um livro resistente à leitura. A última obra infantil do autor conhecida até o momento é La cavalera de cristal (2011). Povoada por heróis e vilões, os personagens tentam, através de uma mítica história de paragens arqueológicas, decifrar pistas e desfazer enigmas.
Cabe ressaltar, no entanto, que a variedade de gêneros não é um privilégio particular de Villoro, pois parece mais geracional, uma vez que é também característica de outros escritores mexicanos. O reconhecimento aparece numa coletânea de prêmios importantes, como: Premio Xavier Villaurrutia por La casa pierde em 1999, Premio Herralde de Novela por El testigo em 2004 (com um jurado composto por Enrique Vila-Matas, Salvador Clotas, Juan Cueto entre outros) e Premio Internacional de Periodismo “Rey de España” por La Alfombra roja, el imperio del narcotráfico em 2010, entre outros.
Villoro, aficionado pelo rock e pelo futebol, é colaborador ativo do jornalismo mexicano, tendo trabalhado em diversos órgãos de imprensa, como: Vuelta, Nexos, Proceso, Cambio e La Reforma. Atualmente, colabora na revista literária Letras Libres e nos jornais La Jornada e El País, entre outros. Também é professor de literatura da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) e professor convidado das Universidade de Yale, Boston, Pompeu Fabra e Princeton.
Desta forma, a vasta experiência permite que esse escritor percorra uma diversidade de gêneros, tendo como fio condutor a sociedade mexicana. “Con Villoro todo empieza en la Ciudad de México” (TEDESCHI, 2006, p. 1), assim inicia Stefano
Tedeschi seu artigo “El testigo y las monedas en la obra narrativa de Juan Villoro”, ao abordar a cidade como um tema recorrente em sua obra, assim como o habitante dos grandes centros urbanos no final do século XX.
Ainda que em seus inúmeros artigos e ensaios transpareçam um caráter social, não há uma busca pela tipicidade nem pelo espírito nacional, tratando-se basicamente de uma visão crítica diante dos fatos de relevância ocorridos na sociedade mexicana.
Desde os primeiros contos, ensaios e narrativas de Villoro, transparece a vertiginosa, acelerada e desestabilizadora prosa de seu primeiro romance, El disparo de argón (1991), no qual submerge, assim como em Materia dispuesta (1996), uma experiência irônica. Em ambas aparecem a classe média baixa e os velhos bairros, que não conseguem ser subúrbios norte-americanos nem possuem o glamour das antigas cidades espanholas.
Dentro da cidade e ao redor dela se movem seus protagonistas, habitantes das metrópoles no final do século XX. São seres inseguros, fracassados, em espaços agonizantes, como doutor Balmes, o oftalmologista, protagonista de seu primeiro romance, El disparo de argón (1991). Esse personagem vive somente para o trabalho, não tem caráter, apresenta uma vida amorosa desastrosa e, no momento crucial de sua vida, não lhe resta outra opção a não ser duvidar. Nessa mesma linha, podem ser citados: Mauricio Guardiola, o jovem indeciso a respeito de sua identidade sexual de Materia dispuesta (1996), vivendo na sombra de uma família desestabilizada, e Julio Valdivieso, o intelectual mexicano definido por sua “possessão por perda”.
A visibilidade e importância que a literatura de Villoro ganha nos círculos da crítica e da leitura nos últimos anos justifica sua atenção também pela academia. O
crítico mexicano Christopher Domínguez Michael, seu contemporâneo, menciona que El testigo “entusiasma y sorprende por el descaro con que Villoro decidió volver a intentar la Gran Novela Mexicana, como no se hacía desde que Carlos Fuentes, Fernando del Paso, Juan García Ponce o Jorge Aguilar Mora escribieron las suyas.” (DOMÍNGUEZ MICHAEL, 2011, p. 191). E continua, destacando a benéfica sombra de Roberto Bolaño e Enrique Vila-Matas nessa obra:
Es imposible no leer a san Ramón López Velarde a los ojos del juego literario bolañesco o de la idea, tan vilamatasiana, del escritor como protagonista de una sola novela universal: redundantemente, la literatura mundial. No culpo a Villoro: si yo escribiese novelas me sería igualmente difícil escribir sin Bolaño y sin Vila-Matas revoloteando a mis espaldas. (DOMÍNGUEZ MICHAEL, 2011, p. 193)
Em 2000, ano emblemático, principalmente pelo cenário político mexicano, Juan Villoro e Jorge Volpi, este último um dos fundadores do Crack13, são indagados na revista El Cultural sobre muitos assuntos. Questionados por que os intelectuais latino-americanos, tradicionalmente, estão comprometidos com seu tempo, sempre refletindo de maneira lúcida sobre o período em que se encontram, ambos respondem separadamente, mas, em conjunto suas respostas traçam um perfil de desconfiança diante desse novo cenário, como afirma Villoro:
El intelectual tiene un papel social protagónico en países atrasados. Como domina una forma de la dificultad (la escritura), a la que pocos tienen acceso, se convierte en intérprete de emergencia y gurú accidental de todos los asuntos. La participación de los intelectuales como profetas de lo real ha ayudado a evitar males peores y en muchas ocasiones ha sido heroica; sin embargo, también ha dotado al escritor de una aura casi religiosa. En el futuro, con más 13Movimento literário mexicano composto por Jorge Volpi, Pedro Ángel Palou, Vicente Herrasti, Ignacio Padilla, Ricardo Chávez Castañeda e Eloy Urroz que lançaram em 1996 um manifesto, inicialmente concebido como ruptura com o postboom latino-americano. Definido por Elena Poniatowska como: “una fisura, un hueso que se rompe, un vidrio que se estrella, una rama de árbol que cae y hace precisamente eso: crack” (PONIATOWSKA, 2003, p. 1). Crack é o mesmo que boom, só que para dentro, é o auge da derrota. Com o tempo os traços mais radicais foram suavizados e deram um abraço apertado aos seus “pais” e “avôs” literários: Salvador Elizondo, Juan García Ponce, Sergio Pitol, Fernando del Paso, etc; e os “pais” José Agustín, Gustavo Sainz, Juan Tovar e Parménides García Saldaña. (PONIATOWSKA, 2003, pp. 1-5)
democracia e igualdad, los escritores mexicanos serán menos importantes como guías morales y más como poetas o contadores de historias. (VILLORO y VOLPI, 2000, p.3)
O papel protagônico que menciona Villoro nessa entrevista fica claro desde seu primeiro romance, o qual, alegoricamente, ocupa-se na representação das consequências do TLCAN na vida cotidiana de um bairro na Cidade do México. Villoro inicia suas publicações durante a presidência de José López Portillo y Pacheco (1976-1982), governo que ficou caracterizado por uma grave crise econômica herdada do governo anterior de Luis Echeverría Álvarez (1970-1976. É evidente que o escritor não fica indiferente a essa situação, uma vez que sua obra segue a linha dos escritores que discutem a decadência social e os aspectos políticos de seu tempo. Desse modo, o sentido irônico presente em suas obras não tem, claramente, o objetivo de provocar o riso, mas de fazer uma crítica à realidade histórico-social à qual pertence.