4.4 Utfordringer i Lidcombe-programmet
4.4.3 Forhold ved barnets stamming
Em sua volta, a primeira figura com quem Valdivieso se depara é um amigo de faculdade, Juan Ruiz, “o Vikingo” (é preciso lembrar que o nome completo do autor é Juan Villoro Ruiz). É graças a ele que se estabelece uma conexão entre o seu passado universitário e o presente dominado pelos poderes da mídia, da igreja e do narcotráfico, os quais parecem mexer os fios do poder.
Vikingo, que está à frente do projeto da telenovela histórica financiada pelo narcotráfico, aproveitará o recente ressurgimento do fervor religioso e apresentará uma versão “não estigmatizada” das lutas cristeras. Como Valdivieso, ele também é viciado em drogas, fato do qual se toma conhecimento logo no primeiro capítulo: “Inhaló en el baño y el beneficio fue instantáneo. [...] Se sintió, por definirse de algún modo, como un «archipiélago de soledades».” (VILLORO, 2004a, p. 33) Esse roteirista publicitário de cinquenta anos, com dois filhos, havia passado por muitas tribulações em sua vida pessoal, resultando em dois casamentos e diversos relacionamentos fracassados.
Juan Ruiz había pasado por dos matrimonios fallidos en medio de toda clase de affaires. Las mujeres habían sido para él un derroche del que estaba orgulloso pero en el que ya no quería incurrir. Se sentía como un piloto que ha chocado demasiados coches, un sobreviviente de lujo, al que le sobraban cicatrices. (VILLORO, 2004a, pp. 28-29)
O publicitário já havia sido um bom crítico literário e, quando a obra começa, está envolvido em um relacionamento com uma jovem atriz, sem talento: “La novia de veintidós años se llamaba Vladimira Vieyra, nombre tan vergonzoso que hacía soportable el seudónimo de Vlady Vey” (VILLORO, 2004a, p. 30). Ela é muito bonita
e, através dele, consegue pequenos papéis, desde que não tenha que falar, pois tem dificuldade em decorar, e o objetivo é somente mostrar suas formas, fazendo comerciais sensuais de qualquer tipo de produto:
La invitó a su siguiente comercial, de Pato Purific. De un mundo que aceptaba un producto llamado así, se podía esperar cualquier cosa, incluyendo: 1) que fuera excitante acariciar la botella de Pato Purific, y 2) que ella se excitara acariciando a un publicista de cincuenta años. [...] No sabía que los griegos iban antes que los romanos, pero era algo más que una belleza que cachondea envases y confía en la expresividad poscoital de su pelo revuelto. (VILLORO, 2004a, p. 31)
Em Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos (2003), o sociólogo polonês Zygmunt Bauman discute a liquidez das relações humanas na sociedade atual, quando os laços afetivos e a convivência se degradam por não possuírem mais elos capazes de unir verdadeiramente as pessoas.
Vikingo é a figura que, logo no início do romance, tenta convencer Valdivieso a escrever o roteiro da telenovela, demonstrando também interesse nos documentos de Donasiano e na fazenda Los Cominos como espaço de locação. Afinal, o protagonista havia nascido e passado parte da infância e juventude exatamente nesse lugar, o qual, por ser guardião de muitos segredos e documentos, apresenta um funcionamento muito semelhante ao de um personagem. Lá é o espaço físico do arquivo, onde se concentra a memória. É, também, nesta paisagem desértica, com geografia exótica, terra de cristeros, rota para o tráfico de drogas e possível locação da telenovela nacional e dos inéditos de López Velarde, que se encontra a possibilidade de memória. É, enfim, o lugar de conexão entre dimensões, espaços, tempos e interesses.
E de onde vem o nome, Los Cominos? Um antepassado de Valdivieso, um asturiano rancoroso, batizou a fazenda com esse nome em homenagem ao seu pai, que disse que seu destino valia um cominho. Quando se tornou um latifúndio, ele a
batizou com ostentação: “Los Cominos. El plural aumentaba la venganza: muchas nadas.” (VILLORO, 2004a, p. 63)
Villoro também problematiza a questão agrária, central para a história do México, ao tocar no espaço de Los Cominos, pois a fazenda que se apresenta hoje, em 2000, não é a que já havia sido antes do PRI: “¿Le parecen poco setenta y un años con el PRI en el poder? Vea esta hacienda. Los cominos era un Vergel. Ahora está hundida, como el resto del país, devastada por el agrarismo.” (VILLORO, 2004a, p. 93) Ele a compara ao México, falido após tanto tempo de um mesmo partido no poder.
Cabe destacar que Villoro, através dos personagens Padre Monteverde, Vikingo e Félix Rovirosa, deixa transparecer uma visão ácida e extremamente particular da mistura de meios de comunicação, Igreja, poder político e narcotráfico, como pilares podres no qual o povo tenta inutilmente se apoiar. Em uma lúcida reflexão, padre Monteverde menciona:
—Hay quienes dicen que Juan Pablo II es la mezcla de la Edad Media y la televisión. Dos pilares equivocados. Ahora, la mejor forma de divulgar una verdad, una verdad fuerte, resistente, es esconderla, guardarla hasta que encuentre su propio espacio y estalle. La propaganda sirve de muy poco. Su amigo Félix es un vendedor de espejos, nada más.
—En Los Cominos dijo que México había cambiado.
—Sí, pero cambió para atrás. En vez de un presidente patriarcal tenemos una confederación de autoritarismos: el viejo PRI, el PAN, los católicos recalcitrantes, el Opus, los narcos, los judiciales, la televisión. Los une la sangre, el culto de la muerte. Le digo que estoy hasta el copete de la imaginería mortuoria. ¿Le parece extraño en un sacerdote? (VILLORO, 2004a, p. 401)
Nota-se que, com a ascensão do PAN, o país não evoluiu, pelo contrário, isso fez com que retrocedesse ainda mais, como fica claro nesse trecho em que o padre coloca a televisão no mesmo nível de atraso das outras instituições. A televisão é, então, apresentada na obra, o tempo todo, como “telebasura”, lixo, refugo. Ao refletir sobre a mídia, Beatriz Sarlo (2005) afirma que:
Em sociedades midiatizadas, a esfera da comunicação processa os dados da experiência, reforça-os ou debilita, operando com ou contra eles, ainda que poucas vezes se possa contradizê-los abertamente, salvo na ficção e, mesmo neste caso, apenas de acordo com determinadas regras. (SARLO, 2005, p. 60)
Vikingo, que no final do romance é assassinado como bode expiratório pelos narcotraficantes, é um dos personagens que funciona como testemunha. É através dele que Valdivieso se informa a respeito do país e de seu próprio passado, obtendo assim dados para escrever o roteiro que lhe fora encomendado. Diferentemente de Valdivieso, Vikingo não saiu do país, sobrevivendo como pôde todo o período de dificuldade econômica e política atravessado pelo México nos anos 70 e 80. No romance, esse personagem confuso e debilitado funciona como um superstes, que significa a testemunha que atravessa todo o período de crise.
O ex-professor universitário, ex-crítico literário e atual homem de negócios da maior rede de televisão mexicana, Félix Rovirosa, carrega consigo o comportamento metódico de quem serviu na rígida Academia Militar dos Estados Unidos: “Rovirosa había hecho la preparatória en West Point. [...] Había sufrido en el internato pero se ufanaba de la disciplina castrense.” (VILLORO, 2004a, p. 21) Ele é rico, frio, calculista, solitário e não escolhe meios para atingir seu objetivo, pois ser o braço direito do dono da televisão permite manipular pessoas: “Félix es asesor de primera fila, mueve más hilos de los supones. [...] debía de verse a sí mismo de ese modo. Un héroe solitario, que no deponía las armas.” (VILLORO, 2004a, pp. 160 e 177)
Nos personagens dessa obra, de uma maneira geral, pode-se observar a crise da ética e de princípios por que passam os seres humanos “Todos são ao mesmo tempo autores e vítimas. Não há inocentes. Só culpados. O estado de violência atinge todos e cada um” (LEÃO, 2001, p. 6).
Em diversas passagens se observa em Rovirosa sentimentos contraditórios, através dos quais, para manter a amizade, ele pressiona, vigia, não deixando saída, “«Félix vive para vigilarnos.» Eso había sido siempre, un vigía.” (VILLORO, 2004a, p. 168), reclama Vikingo com Julio Valdivieso. Em outros momentos, é capaz de arriscar a própria vida para salvar a de um amigo, como quando Valdivieso, totalmente drogado, estava se afogando e Rovirosa se feriu para salvá-lo:
Una tarde, a una hora de pleamar en la que casi nunca nadaban, Julio entró al agua perfectamente mariguano. Una ola lo revolcó y la corriente lo llevó adentro. [...] pero le costaba trabajo sentir gratitud ante la suficiencia con que Félix recordaba su pasado en común. Sacó del mar a un zumbi intoxicado. [...] Félix se rascó la cicatriz. (VILLORO, 2004a, pp. 168-169)
Segundo Stuart Hall, o sujeito pós-moderno é fragmentado, isto é, não apresenta uma unidade, um centro que estabeleça um eu coerente, exatamente como Rovirosa: um ser ambíguo, de subjetividade conflitante e instável. Essa instabilidade pode ser percebida em sua fragilidade no relacionamento amoroso, pois ele sente prazer em cobiçar e cortejar Paola, a esposa de Valdivieso, ao mesmo tempo que mantém um casamento com Sumi, tratando-a como se fosse um brinquedo, um enfeite, um bem a ser exibido e consumido, enfim:
El sonambulismo de Sumi, su condición de estatua móvil, tenía un innegable atractivo a la distancia. Nada hubiera sido más normal que ver a un pájaro posarse en la palma de su mano. [...] «Félix no la merece», esta idea fue común y vulgar; luego le vino otra más inquietante: «Félix la va a romper.» Sumi tenía algo de muñeca, de mujer regalo a la que de pronto le falta una pierna. (VILLORO, 2004a, p. 303)
Bauman (2003) relata essa complicada relação amorosa, uma relação de dominação e dependência, na qual o homem exerce o poder de mando, e a esposa está ali como um objeto de prazer e descarte: “Quando se trata de amor, posse, poder, fusão e desencanto são os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.” (BAUMAN, 2003, p. 12)
Cabe ressaltar ainda que é Félix quem chantageia Valdivieso, pois, pesquisando a autenticidade do único conto publicado por seu companheiro de faculdade, descobre o original da tese. Não faz nada de imediato e planeja, com cuidado, como tirar o máximo proveito disso. A ciranda do lucro acima de tudo e de todos não tem limite. É o vale tudo. Assim, Rovirosa exige que Valdivieso assuma o papel de ser o roteirista da telenovela Por el amor de Dios e também que falsifique relatos testemunhais para um programa paralelo. Segundo ele, isso ajuda no processo de beatificação que levará à canonização do poeta Ramón López Velarde.
[…]¿Qué chingados quieres?
Dos cosas: Los Cominos es una locación ideal; no quiero interferencias y, sobre todo te necesitamos para el programa paralelo sobre la santidad de López Velarde. Ya te lo dije: la gente te cree, tienes ese tipo de cara. Necesitamos testimonios de tu familia, que tú salgas a cuadro y hables del tercer milagro.
¿Un simulacro?
¡El plagiario hablando de autenticidad! (VILLORO, 2004a, p. 303)
No entanto, “No lugar da ética entrou a economia, ocupando todos os postos e funções e substituindo qualquer valor.” (LEÃO, 2001, p. 7), ou seja, não há respeito pela memória de um poeta nacional, pela amizade de toda uma vida. A ética não existe, apenas o poder e o dinheiro.
Assim, as contradições desse sujeito pós-moderno afloram, pois, ao mesmo tempo que tem consciência de ter cometido erros, tenta voltar atrás, consertar, mas não consegue, pois “as velhas identidades, que estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo” (HALL, 2002, p. 7). A sua identidade entra em conflito, está sujeita a forças que fogem de seu controle, e assim é o personagem Félix Rovirosa, um ser confuso, preocupado com o poder, com o lucro, com o controle sobre tudo e todos, pois as pessoas são, para ele, nada mais que marionetes.
A proposta de Rovirosa é que os dois projetos se juntem e que o clima religioso contribua para o surgimento de um “novo milagre”. Ele tem um papel interessante na trama, pois é quem dá suporte ao poder de manipulação dos meios de comunicação de massa, usando a tese do uruguaio para chantagear o protagonista, enquanto este tenta mostrar a ele o quanto ambos, na época da juventude, haviam pensado em fazer diferente quando chegasse a hora, pois, um dia, Rovirosa havia dito que a México faltava “Honor. Eso le falta”. (VILLORO, 2004a, 176). Valdivieso argumenta “Estás hablando de una telenovela, Félix. Telebasura. O como mucho, gracias a Portella, de telebasura de autor.” (VILLORO, 2004a, p.310) Mas, para Rovirosa, nada disso tem valor, e termina dizendo que não importa que seja verdade, mas que pareça verdade.
Desta forma, ao desenhar o perfil de um magnata e de seu principal auxiliar, o romance se aproxima do submundo da televisão, cuja lógica banalizadora, ao mesmo tempo que critica ao intelectual que se vende à TV, por outro lado não quer renunciar a esse imenso auditório tele midiático, correndo o risco de se converter em marionete dos desejos do dono do canal.