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PSC etiology and pathogenesis I: Genes and environmental factors

4.3 P RIMARY SCLEROSING CHOLANGITIS

4.3.6 PSC etiology and pathogenesis I: Genes and environmental factors

114 Morin et al. (2007) apontam que o trabalho pode assumir desde uma condição de neutralidade até a de completa centralidade para o sujeito. Morin (2001) também indica que o trabalho pode assumir conotações negativas e positivas. De forma convergente, Blanch Ribas (2003) identifica três posições em relação aos sentidos do trabalho: polo negativo, centro do contínuo e polo positivo. O polo negativo caracteriza-se pela ideia de trabalho relacionado a aspectos como maldição, castigo, jugo, estigma, coerção, esforço e penalidade. No centro do contínuo estariam as representações de trabalho com uma função instrumental, trabalho como meio para sobrevivência material. Um trabalho com esse sentido merece dedicação relativa, restrita ao alcance deste objetivo. No polo positivo, o trabalho é relacionado a ideias como missão, vocação, valor. É um trabalho que se apresenta como fonte de satisfação e de auto-realização. Uma leitura baseada em uma perspectiva sócio- histórica percebe essas diferenças não como elementos de um contínuo, mas como facetas contraditórias de um mesmo fenômeno.

Bastos, Pinho e Costa (1995), estudando os sentidos do trabalho no contexto brasileiro, identificaram que o trabalho apresenta alta centralidade na vida dos trabalhadores. Morin, Tonelli e Pliopas (2007), ao realizarem pesquisa na mesma área, verificaram, ainda, que os trabalhadores brasileiros demonstraram uma tendência a convergir para concepções mais positivas sobre o trabalho, construindo sentidos que se distanciam de posicionamentos neutros ou negativos em relação à centralidade do trabalho em suas vidas.

As narrativas dos trabalhadores brasileiros da indústria automobilística entrevistados nesta pesquisa parecem indicar a mesma centralidade do trabalho na vida das pessoas que o realizam, como identificada nos estudos realizados por Bastos, Pinho e Costa (1995) e por Morin, Tonelli e Pliopas (2007). As entrevistas evidenciam a centralidade do trabalho, localizando-o como eixo organizador da vida do trabalhador, seja no que se refere ao uso do tempo, na relação com outras dimensões como vida familiar e lazer e como garantia de estabilidade. A figura abaixo apresenta a organização desses discursos, destacando seus marcos principais:

115 Figura 8: Categorias Emergentes dos Sentidos do Trabalho para Trabalhadores Brasileiros – Trabalho como Eixo Organizador da Vida

Fonte: a autora (2016)

Na busca de compreensão do universo laboral dos trabalhadores brasileiros da indústria automobilística e do sentido que eles conferem ao seu trabalho, observou-se que, nas narrativas, centralidade do trabalho se confirma, como relataram Morin et al. (2007) e Blanch Ribas (2003). Kilimnik et al. (2015) entendem que a centralidade do trabalho caracteriza-se pela importância que o indivíduo confere ao trabalho em sua vida e que tal importância é dinâmica e influenciada por valores próprios de cada pessoa. Os autores indicam, ainda, que a centralidade do trabalho pode ser reconhecida na crença que o indivíduo tem quanto ao grau de importância do trabalho na sua própria vida. Pode-se perceber essa crença entre os entrevistados, seja como afirmativa, em enunciados tais como, “O trabalho é minha vida”, seja como questionamento. Encontra-se um discurso não linear, pois o trabalho ora parece ser relacionado com a morte e se questiona seu lugar como dimensão única da vida, ora se reconhece sua importância para a sustentação da própria vida.

Tem gente que morre pelo trabalho, não tá aguentando, mas… Não dá o dinheiro pra viver, aí não adianta. Dá a vida pelo trabalho, trabalho é importante, o dinheiro é importante, mas seu lazer também

116 é importante, sua vida. Não gosta de pescar? Mas deve gostar de jogar uma bolinha, gosta de um churrasquinho, gosta de uma pizzaria, alguma coisa você gosta. Você viver só dentro de uma firma também não é jeito.(EB2)

Pode-se identificar, nas narrativas dos entrevistados brasileiros, uma tendência a designar uma centralidade de caráter positivo, tal como apontam Morin, Tonelli e Pliopas (2007). Bastos, Pinho e Costa (1995) relacionam este tipo de resposta, na qual se destaca a centralidade positiva do trabalho, com uma tradição que entende o trabalho como aplicação das capacidades humanas, vivido com empenho e esforço para atingir um objetivo, e que viabiliza o domínio da natureza, tornando-se responsável pela própria condição humana. Os discursos dos trabalhadores brasileiros parecem identificar o trabalho como algo inerente e determinante de uma essência humana (Blanch Ribas, 2003; Morin et al., 2007):

O trabalho faz parte da nossa vida. A ociosidade às vezes a gente imagina, eu vou parar de trabalhar não vou fazer nada, mas quando você fica um tempo sem trabalho e sem uma certa ocupação você se sente incomodado, então eu acho que faz parte da pessoa humana o trabalho, trabalhar, tem que trabalhar. (EB8)

Eu tenho muito comigo assim que é ruim para um homem chegar em casa e falar: Pô, queria tá cansado. Queria tá empregado, né? Acho que é bom você estar trabalhando. Chegar em casa cansado e falar: pô, cumpri minha missão, consegui ir até lá e ganhar meu pão. Acho que isso é importante.(EB8)

Trabalhar já te gera uma satisfação pessoal. Você se sentir produtivo, você se sentir alguém, você se sentir contribuindo para alguma coisa. Acho que isso é importante pro ser humano, você ter isso dentro de você, né? Você se sente importante trabalhando, você é alguém trabalhando, né? E para quê? Para conquistar os seus projetos, seja ele pessoais, seja ele políticos, seja ele, enfim. Em todos os âmbitos você trabalhando você almeja sempre alguma coisa. Acho que trabalhar é muito importante para o ser humano, que é a valorização pessoal, se fosse sintetizar eu sintetizava isso. Valorização pessoal, você está contribuindo para o seu país, está contribuindo para a sociedade, você tá contribuindo para consigo, para sua família, uma realização é você trabalhar, essa é a minha opinião.(EB13)

117 Esse mesmo trabalho, ainda com uma conotação positiva, aparece harmonizando com a vida familiar e responsável pela estabilidade financeira e aprendizagem, tal como descrito por Blanch Ribas (2003):

Acho que o trabalho ele, ele é um casamento perfeito com a família, com o lazer. Ele te ajuda, ele ajuda a harmonizar o ambiente do lar.(EB8)

A valorização mesmo do ser humano é pelo trabalho, e a gente tá com isso aí desde quando nasce, né? A pessoa só fala isso dentro de casa, fora de casa, você tem que trabalhar, trabalhar. E pra quê? Pra sustentar uma família, poder dar um bem melhor pra família, né? Eu acho que tudo gira em torno da família. Melhorar qualidade de vida deles, nossa, né?(EB12)

O trabalho me proporcionou ter uma vida estável, né? Financeiramente, graças a Deus! O bom casamento, um bom relacionamento, três filhos ótimos que eu pude ajudar, né? Financeiramente, com o trabalho a se formarem, né? Hoje está se formando através do trabalho. E a satisfação de olhar pra trás e ver que muita coisa mudou e a gente teve que acompanhar, né? E foi. Absorver isso não foi fácil, né? Mas a gente teve que absorver com satisfação, hoje a gente tá, eu no caso, né? Tá aí esperando a hora que a empresa achar que eu tenho que ser desligado. Mas eu não me arrependo de ter entrado na empresa e não me arrependo de ter me formado nessa profissão. Pelo contrário, tenho satisfação de trabalhar com que eu trabalho. E olhar às vezes pra minha família, sabe? E ver que com o trabalho eu consegui fazer meus filhos ter um caminho, né? (EB9)

A centralidade do trabalho também se manifesta relacionada a aspectos negativos (Morin, 2001; Blanch Ribas, 2003). Zanelli, Silva e Soares (2010) ressaltam em seu estudo que o trabalho pode ser vivido como esforço doloroso, tortura e sofrimento e considerado como motivo de aflição para quem o realiza. Nas narrativas dos trabalhadores brasileiros da indústria automobilística, encontra-se o trabalho sendo descrito como obrigação e como algo que, potencialmente, poderia ser produtor de prazer, mas que é exercido como uma tortura:

118 Comprometimento, saber o dever que ele tá aqui pra fazer. Ele tá aqui tem certas coisas pra fazer, tem obrigação pra fazer. Agora existe, oh, eu tenho que fazer minha obrigação, agora se ela não me dá condições de fazer, então eu não vou me matar pra fazer essa obrigação.(EB6)

Lógico que não deveria trabalhar como nós trabalhamos, né? Numa situação que mostra um trabalho degradante que vai adoecer o trabalhador, ou então funções que você vai exercer um trabalho que você não gosta, então vai ser um trabalho, isso vai ser uma tortura. Então, primeiro, acho que o trabalho tinha que ser, a gente trabalhar tinha que ser um prazer, prazer com o trabalho, mas pra isso acho que estamos longe de qualquer coisa, né?(EB5)

As narrativas acima parecem inscrever-se na compreensão tradicional do trabalho relacionado à noção de fardo, carga, peso, sacrifício, como apontam Bastos, Pinho e Costa (1995). Os autores destacam que, nessa concepção, o trabalho se caracteriza como algo que causa transtorno ou preocupação, decorrendo um sentido de obrigação, dever ou responsabilidade. Ainda no polo negativo da centralidade do trabalho, evidenciam-se narrativas em que o mesmo se sobrepõe a outras esferas da vida, a ponto de perturbar as atividades fisiológicas, como o sono:

Eu já estive em churrasco quando o telefone tocou, nós de greve, era chamando: a Volkswagen tá precisando de você agora aqui. Eu e um colega meu, a gente deixou o churrasco com os convidados em casa e viemos ao trabalho. Porque, para mim, eu acho que o trabalho é mais importante.(EB5)

É melhor e eu vou deitar no meu travesseiro, eu vou conseguir dormir, que eu cumpri com minhas obrigações, agora se eu não cumpri, eu chegou em casa, falo pra você, eu não consigo.(EB7)

De maneira geral, as narrativas dos trabalhadores brasileiros parecem conferir ao trabalho um papel organizador da vida dos trabalhadores, seja no que se refere a um aspecto pragmático, como no que tange a própria construção de autoconceito. A centralidade do trabalho, porém, não parece apresentar um contínuo desde uma caracterização positiva até um polo negativo, como caracterizou Blanch Ribas(2003). O trabalho parece congregar, nas entrevistas, de forma concomitante, não linear nem excludente, aspectos do polo positivo e do polo negativo.

119 Esse trabalho que é central na vida dos entrevistados parece ameaçado, como afirma um deles: “hoje estou feliz com o que tenho, mas não sei o dia de amanhã”. Essa frase foi dita, durante a entrevista, por um trabalhador que está há 18 anos na organização. O tom de insegurança proferido se repete no discurso de muitos outros sujeitos entrevistados, apesar de eles terem uma trajetória significativamente estável na organização.

Eu entrei aqui na Volkswagen em meados de 1989, né? Haviam vagas pra várias áreas e eu me candidatei pra área de manutenção elétrica. Passei num processo seletivo. Ou seja, no processo seletivo de duas semanas, né? Aonde na primeira semana eu fiz as provas teóricas, na segunda semana eu fiz as provas práticas, e aí fui trabalhar na ala cinco, onde fazia a fabricação de motores e câmbios de automóveis. Lá na ala cinco eu permaneci por 21 anos, né? E há quatro anos eu estou aqui na área de estamparia. (EB1)

Então, aí eu passei pra área de motores, aí depois que ela começou a fechar, fechar, porque ela ia abrir outra fábrica em São Carlos, aí começou a diminuir. Aí eu que pedi na época pro meu chefe uma transferência. Ele: não, fique aí e tal. Falei: não, ela vai embora mesmo, então eu já vou vendo lá na frente. Aí vim pra Ala 13, aí da

Ala 13 eu passei na massa, passei em vedação, passei em lixa, (…)

até que eu fui pra pintura final, pro acabamento. Na pintura final do acabamento, que é o processo que você ganha mais, no acabamento, né?(EB7)

As razões para essa sensação de insegurança parecem ser preponderantemente provenientes da relação interdependente entre as organizações e o contexto sócio- histórico, ou seja, na intersecção de onde se realiza o trabalho e o contexto do capitalismo flexível em que o mesmo é realizado. A reinvenção descontínua das organizações torna-se prática comum, substituindo a estabilidade do passado (Salm, 1993). A prática das mudanças de rompimento, irreversível, parece ocupar o lugar do padrão de continuidade das organizações (Sennett, 2007). É possível reconhecer, nas narrativas, a sensação de impotência e a percepção de que não controlam seu futuro, de que as mudanças se sucedem em um ritmo e intensidade maior do que o possível de acompanhar.

120 Eu entrei aqui em 2000 através de um currículo que um amigo meu que trabalhava aqui na sala de medidas, aí entreguei um currículo, já trabalhava da área de usinagem lá fora, era frisador, mandrilhador, mandei o currículo e me mandaram pra trabalhar no PTO, que é a antiga força motriz. Aí entrei de vez lá. Aí teve uma crise na época, em 2001, teve uma crise forte em 2001-2002, a força motriz diminui a produção e mandaram eu pra armação, e continuo na armação até hoje.(EB3)

A instabilidade e a decorrente vulnerabilidade do trabalhador não é uma invenção da situação atual do mundo do trabalho. Como afirma Sennett (2006 : 23): “desde a época de Marx, a instabilidade pode parecer a única constante do capitalismo. [...] Hoje, a economia moderna parece cheia apenas dessa energia instável, em decorrência da disseminação global da produção, dos mercados e das finanças e do advento de novas tecnologias”. A sensação de deriva (Sennett, 2007) acentua a percepção de imprevisibilidade que o ser humano, de maneira geral, tem que lidar, dada a impotência que temos de controlar o futuro, em muitos aspectos. Job (2003 : 85) declara que o “ritmo frenético com que as mudanças ocorrem, em alguns casos gera dificuldades de adaptação, ou seja, o ajustamento se torna uma difícil missão que, por não ser alcançada no ritmo solicitado, provoca sofrimento”.

Ao tratar a acentuação do risco como qualidade presente no capitalismo flexível, Sennett (2007) desenvolve a ideia de que os trabalhadores passam a sentir-se em constante ameaça e sem compreensão efetiva de seu vínculo com a organização, percebendo-se como dispensáveis. As características do capitalismo flexível mencionadas anteriormente emergem nas narrativas dos entrevistados:

(a) a identificação da rapidez das mudanças:

No meu caso, eu comecei muito jovem, né? Então eu acho que a gente vai amadurecendo, né? Vai amadurecendo e tem que ir se adequando, né? Mas hoje as coisas fluem com uma velocidade muito grande e fica difícil, né? Pra uma pessoa que trabalha e principalmente constitui uma família, conseguir acompanhar toda essa tecnologia. Eu acho que a tecnologia assim, é um fator importante, mas para o trabalhador às vezes ele é um pouco radical demais, né? São muitas mudanças.(EB7)

121 Nós sabemos que vamos trabalhar ali, mas daqui a 40 minutos as coisas mudam, pode vir uma informação partindo da chefia, uma informação partindo pelos nossos representantes, né? Então aqui a coisa vira assim de uma hora pra outra, tá tudo bem, tudo agradável, tudo beleza, daqui a pouco estoura uma bombinha aqui ou estoura uma baita bomba ali.(EB13)

Porque a Volkswagen tá passando por uma transformação muito grande em termos de trabalho, pro mundo todo.(EB9)

(b) o aumento de trabalho decorre da aceleração das mudanças:

E é uma coisa que a gente sempre comenta com os colegas, né? Que as coisas mudam numa velocidade tão grande que às vezes até o ambiente de trabalho assim, quando você pensa naquela sociedade, como os colegas ali, ele fica complicado, né? Porque a velocidade aumenta no trabalho, a quantidade aumenta. As rotinas são alteradas e isso acontece no dia a dia aí, dentro da empresa.(EB7)

(c) e a demanda de adaptação constante:

A Volks ela tá passando por uma mudança, transformação. Você sabe melhor do que eu, e eu falo pra você, eu acompanho toda essa evolução.(EB5)

A característica justamente é a versatilidade que nós temos de cada um, né? É o poder de adaptação, o poder de mudança, e a vontade de aprender, né? Eu acho que todos aqueles que têm vontade de aprender coisas novas sempre estão aptos à mudança, e isso é importante na vida do ser humano.(EB1)

Furtado (2003) aponta que a situação de estar excluído do mercado de trabalho ou sentir a possibilidade disto vir a acontecer se agrava pela narrativa capitalista que tende a responsabilizar individualmente o sujeito por esta situação. Para o autor, a culpabilização individual escamoteia as condições adversas impostas pelo mercado e naturaliza uma dinâmica sócio-econômica. Job (2003), convergentemente, aponta que neste contexto de contínuas mudanças, próprio do capitalismo flexível, a maior parte dos trabalhadores passa a sentir-se despreparada para lidar com essa ansiedade e se

122 pergunta se existe algum papel para eles nesse novo rearranjo social e organizacional, passando a temer a perspectiva de serem considerados excedentes e substituíveis pelas novas forças da automação e informação. Esse fenômeno parece se confirmar quando a fábrica reorganiza a produção em torno da inserção de tecnologia, como eles afirmam: “a fábrica, ela tem um investimento maior assim, no meu modo de

pensar assim, acho que como toda a indústria mundial, em robotizar tudo. Então a gente acaba ficando de fora. A parte humana do trabalho hoje na empresa ela está bem restrita, né?”. Essa reorganização parece dispensar ou limitar o trabalho humano,

potencializando a sensação de vulnerabilidade e risco constante:

Agora não existem mais monitores. De um tempo pra cá, um tempo não, isso foi feito no final do ano, aí a Volkswagen acabou justamente pra ela diminuir um pouco do gasto que ela tinha com monitores.(EB6)

Eu tenho essa autonomia e a versatilidade de distribuir as ordens de serviços que é passado pra mim. Antigamente chamavam de monitores, né? Antigamente chamava de monitores, hoje não tem mais monitor. A gente fica aí com esse cargo pra ajudar a chefia, pra dividir as atividades diárias. A mão de obra, espalhar a mão de obra no setor pra gente começar a produzir as peças. Como (se fosse) encarregado. Como encarregado. Não com o salário, né?(EB6) Quando eu entrei, a empresa tinha 46.000 funcionários, hoje eu acho que são 11, né? 12.000. E tô aí. Não sei por que a empresa demite. Foi tanta gente, vi gente ir embora da minha frente, atrás, do lado esquerdo, lado direito. Passou muita gente, eu tive uma média de 32 encarregados nesse tempo, todos já foram embora, e a gente tá aí, né? Procura manter uma assiduidade com a empresa, né? Motivação pelo trabalho e a empresa reconhece isso. Aposentei já faz seis anos e a empresa tá me deixando aí, tô ficando.(EB9)

Busco novos objetivos na empresa, procuro sempre trabalhar direitinho pra não ser mandado embora.(EB8)

O que os sujeitos entrevistados identificam é uma empresa menor, mais enxuta, reorganizando a divisão do trabalho e cortando postos e, divergente de uma expectativa otimista presente na literatura técnica, os postos que permanecem não necessariamente demandam um trabalhador mais capacitado e com conhecimento

123 técnico. Eles narram é um processo de precarização quando enfatizam a extinção de áreas técnicas e a necessidade de aceitar trabalhos abaixo da sua formação.

A memória ainda está bem viva com relação a tudo que eu aprendi aqui na fábrica, né? Mas, o que se distanciou um pouco assim foi à parte mais técnica, né? A gente trabalhou numa área mais técnica, a empresa começou a extinguir determinas áreas e a coisa passou a ser muito braçal.(EB8)

No caso, lá no SENAI, a parte prática que a gente teve foi torno, ferro, frisadora. Partes mais técnicas, né? Aqui não, aqui é soldador, né? Você faz, você só ponteia no meu caso. Ah, é totalmente diferente, você muitas vezes não espera isso, eu pelo menos esperava outra coisa, não esperava que ia vir pra ponteador, esperava vir pra alguma área que eu aprendi lá, né? Uma área técnica. Mas é. Foi uma coisa diferente, mas nada que vá me prejudicar, entendeu? Eu tô acostumado já, já me acostumei com o trabalho já.(EB4)

A fábrica ela tem um investimento maior assim, no meu modo de pensar assim, acho que como toda a indústria mundial, em robotizar tudo. Então a gente acaba ficando de fora. (EB8)

A incerteza e a percepção da instabilidade em relação a todos os postos e funções parecem deflagrar uma preocupação com seu próprio lugar na organização. Sob o paradigma da flexibilidade, os trabalhadores precisam lidar com a cultura da mudança constante e irreversível, que implica perturbação e desorientação (Sennett, 2006), submetendo suas vidas às condições de revalorização do capital que se modificam permanentemente e derivam para a inexistência de acordos estáveis e definitivos nas condições de trabalho (Katz, 1995).

A gente tem sempre uma mudança daquelas pessoas que administram a área de manutenção, né? (EB2)

Porque a gente tá com dois, três modelos de carro aqui, a gente fica naquela expectativa do que vai acontecer daqui pra frente, né? A gente tá ansioso. Até 2016 isso tá pra acontecer. Então é difícil