4.1 T HE ADAPTIVE IMMUNE SYSTEM AND MECHANISMS OF AUTOIMMUNITY
4.1.1 A brief introduction to the adaptive immune system
Em paralelo com as discussões sobre as características do trabalho em tempos de capitalismo flexível, seguem estudos relacionados às teses de “fim do trabalho” ou, pelo menos, de fim da centralidade do trabalho como categoria definidora da dinâmica da sociedade e de formação identitária do indivíduo. Para os principais autores desta linha de discussão, o trabalho estaria perdendo seu significado e as inovações tecnológicas crescentes estariam assumindo a centralidade na produção de riqueza capitalista, implicando em acentuadas mudanças e transformações na classe trabalhadora. Para estes autores não se coloca mais como pauta central a construção de uma nova sociedade em que a classe trabalhadora assumiria a direção do processo político e da propriedade dos meios de produção, mas a necessidade de construir uma sociedade do tempo livre (Prieb, 2002). Apesar das diferenças provenientes das especificidades de suas análises, os trabalhos de Gorz (1987), Offe (1989), Aznar (1995) e Rifkin (1995), Méda (1999), por exemplo, convergem na compreensão de que o desenvolvimento do capitalismo vem reduzindo a centralidade do trabalho.
Gorz (1987) identificou a tendência de redução de emprego industrial nas sociedades capitalistas avançadas, a redução da jornada de trabalho, o aumento de atividades de serviço e o crescimento do desemprego e relacionou tais características com a superação da sociedade do trabalho e da classe trabalhadora.
A abolição do trabalho é um processo em curso e que parece acelerar-se. Para cada um dos três principais países industrializados da Europa Ocidental, institutos independentes de previsão econômica estimaram que a automatização irá suprimir, no espaço de dez anos, entre quatro e cinco milhões de empregos, a menos que haja uma revisão profunda da duração do trabalho, das finalidades da atividade e de sua natureza. Keynes está morto: no contexto da crise e da revolução tecnológica atuais, é rigorosamente impossível restabelecer o pleno emprego por um crescimento econômico quantitativo (GORZ, 1987 : p.11).
27 Para Gorz (1987), a presença crescente da tecnologia no processo produtivo vem transformando o chão de fábrica e reduzindo a relevância do trabalhador manual na produção de bens, ao mesmo tempo em que poupa trabalho e tempo de produção, além de maximizar a produtividade. O autor centra suas discussões na tensão entre a liberdade do tempo e a abolição do trabalho, entendido como trabalho assalariado ou emprego (Toni, 2003). Segundo Gorz (1987 : 16), “a abolição do trabalho (...) é um objetivo central para aqueles que, não importa o que tenham aprendido a fazer, acham que 'seu' trabalho [o trabalho capitalista] jamais poderá constituir para eles uma fonte de realização pessoal nem o conteúdo principal de suas vidas”. Vieira e Ouriques (2006) apontam que as propostas do autor são centradas na redução da duração do trabalho e em uma política de renda assegurada para todos que garantissem a transformação de uma sociedade produtivista para uma sociedade de tempo liberado em que o cultural predominasse sobre o econômico.
Também nos anos 80, o sociólogo Offe (1989) desenvolveu um trabalho construindo a tese de que, objetivamente, o trabalho estaria gradativamente perdendo o papel de força motora subjetiva da atividade dos indivíduos e tendo reduzido seu status de fato da vida (Toni, 2003). Offe (1989) argumenta que se justifica entender o trabalho como categoria central no período compreendido entre o fim do século XVII e o término da Primeira Guerra Mundial, posto que o mesmo assumiu, nessa época, posição estratégica no desenvolvimento da sociedade burguesa, mas que, na atualidade, o trabalho tem se configurado como demasiado heterogêneo como categoria. O autor questiona se
Não seria mais apropriado concluir que o trabalho teria se tornado 'abstrato', no sentido de considerá-lo tão só como categoria da estatística social descritiva, e não mais como categoria analítica para a explicação das estruturas, conflitos e ações sociais?” (Offe, 1989: 20).
Entre os fatores que, para Offe (1989), implicam na redução ou mesmo anulação do papel do trabalho na constituição da identidade dos trabalhadores, destacam-se: a redução do tempo dedicado ao trabalho, a expansão do setor de serviços, o aumento do desemprego estrutural e a erosão de tradições culturais. Pode-se perceber que muitos fatores presentes na análise de Offe (1989) são comuns à compreensão de Gorz (1987). Toni (2003) resume os fundamentos dos questionamentos de Offe (1989) em quatro pontos: (1) o trabalho não ser mais o principal elemento organizador das
28 estruturas sociais, posto que as pesquisas voltam-se, cada vez mais acentuadamente, para questões cotidianas externas à vida laboral; (2) a acentuada heterogeneidade do trabalho o que lhe furta o lugar de foco da identidade coletiva e da divisão social e política; (3) a desintegração do trabalho como um dever humano ético; e (4) o trabalho não mais se coloca como fundamental para a integração ao sistema.
Dada a crise da sociedade do trabalho que Offe (1989) identifica, sua proposta compreensiva volta-se para o estudo das formas de vida fora e além da esfera da produção, o cotidiano, a ação comunicativa, a produção doméstica e um entendimento da sociedade como pós-industrial.
Cada um à sua maneira, Gorz e Offe indicaram em seus estudos o fim da sociedade do trabalho, ou porque o mesmo perdeu seu lugar central na formação das identidades dos trabalhadores ou pelo questionamento do papel de sujeito de transformação social conferido à classe trabalhadora. Ambos mostraram-se otimistas quanto às possibilidades decorrentes de um trabalho autônomo, do uso extensivo do tempo livre e do desligamento dos trabalhadores em relação ao trabalho assalariado.
A década de 90 trouxe novas reflexões que aumentaram a abrangência das abordagens relativas à ideia de fim da sociedade do trabalho. Surgidos em um contexto em que o desemprego já se mostrava acentuadamente elevado e com grande expansão de trabalho precarizado, os trabalhos de Rifkin (1995) e Beck (1997) destacam-se na defesa da criação de novas formas de trabalho como, por exemplo, no terceiro setor, de forma a absorver os indivíduos deslocados e preencher o tempo livre, colocando-se como novos espaços de formação de identidades políticas. Esses autores preocupam-se com o impacto das novas tecnologias nas novas formas de produzir, organizar e gerir o trabalho. Rifkin (1995), especificamente, postula a redução da jornada de trabalho, entendendo que isto teria efeito positivo no processo de minimizar o desemprego.
Outra autora relevante na crítica à sociedade do trabalho é Dominique Méda. Ela argumenta que a categoria trabalho tem se tornado obsoleta em um momento no qual prevalece a expansão da produtividade e que, sendo uma categoria inventada, não há razão senão conservadorismo intelectual, insistir nela como central na organização individual e da sociedade (Fecina & Moraes, 2013). Um dos suportes que a autora utiliza na sua argumentação é a constatação de que o trabalho estrutura, disciplina e domina as sociedades modernas, mas não é um fator ahistórico e houve outras
29 sociedades que não o tinham como eixo orientador; assim, deduz a autora, é possível novamente desenvolver sociedades em que ele não ocupe esse papel.
Méda (1999) aponta que já não é o trabalho, mas o emprego – ou seja, uma modalidade do trabalho caracterizada pelo assalariamento – que parece funcionar como canal ou garantia de formação, segurança e acesso a bens materiais, o que configura o exercício laboral. E, assim exercido, o trabalho não funciona como laço social, a não ser por acidente, posto que não foi criado com o fim de agregar indivíduos em torno da realização de uma obra comum. A autora reconhece, ainda, o trabalho como mediador da aprendizagem da vida em sociedade e meio de socialização dos indivíduos, mas apenas como forma derivada.
A proposta de Méda (1999) propõe a redução do tempo de trabalho individual visando o desenvolvimento de modelos de sociabilidade que transcendam à esfera produtiva, aproximando-se, nesse aspecto, das idéias de Rifkin (1995). A autora propõe, ainda, para além da redução do tempo do trabalho, a partilha do trabalho, entendendo que rever a forma como se partilha o trabalho implica em repensar a maneira como o conjunto de bens sociais é partilhado. Seu horizonte contempla a construção de uma sociedade “plenamente ativa [que] assegure a cada indivíduo acesso a todo o espectro de atividades humanas (...) atividades políticas, produtivas e culturais, tanto quanto atividades privadas” (Méda, 1996 : 642). É preciso destacar que, ao contrário dos demais críticos à sociedade centrada no trabalho, Méda (1999) propõe a busca do pleno emprego, porém caracterizado pelo acesso ao emprego de forma justa e equitativa, sustentada por um emprego com número reduzido de horas, oportunizando a todos espaço e tempo para se dedicarem a outras atividades. Ou seja, apesar de entender o trabalho como elemento próximo à extinção e indicar a necessidade de aliviá-lo das expectativas usualmente relacionadas a ele, Méda (1999) reconhece o papel central que ele ainda ocupa na sociedade contemporânea e alerta para a necessidade de uma distribuição igualitária do tempo de trabalho favorecendo um deslocamento da centralidade ainda atribuída ao trabalho para o tempo livre.
Entende-se, pois, que o debate sobre o trabalho e seu lugar na sociedade contemporânea caracterizada pelo modo capitalista flexível de produção é um processo em andamento que abarca variadas posições, algumas complementares, outras opostas, mas que a compreensão desse debate e das implicações do lugar do trabalho na sociedade e seu papel na organização da mesma e na formação de identidades continua uma questão pertinente e abre caminho para a reflexão sobre a
30 própria transformação social. No âmago do questionamento sobre a perda da centralidade do trabalho emergem concepções que sobrepõem – e por vezes reduzem ao mesmo – diminuição do trabalho com diminuição do emprego assalariado. Entretanto, se é verdade que há redução do emprego assalariado não é possível deixar de destacar as novas e variadas formas de organização do trabalho, implicando uma reordenação das relações sociais configuradas no âmbito da produção, mas que a extrapolam.