1. Introduction
1.3. Supporting information for the assessment
1.3.3. Previous risk assessments
Prestemos atenção à crônica de 25 de março de 1894 em ―A Semana‖ de Gazeta de Notícias, em que o cronista, durante a Semana Santa, encontra-se numa igreja ouvindo as orações e em segundos é movido pelo incenso e pelas ladainhas ao tempo de Cristo, aos pés do Messias ouvindo diretamente da boca de Jesus o
Sermão da Montanha, que servirá de resposta para todos os males do homem.
Mesmo assim, como São Tomé não crê no que escuta e em posição de igualdade contra-argumenta, citando o livro de Eclesiastes.
Tomemos o início da crônica, quando destaca de forma carregada de espanto, a chegada da semana santa, e indaga sobre aqueles que nasceram após a guerra do Paraguai e depois da batalha de Aquibadã. A guerra do Paraguai é o primeiro marco inicial do diálogo do cronista com a História.
A Semana foi santa – mas não foi a semana santa que eu conheci quando tinha a idade de mocinho nascido de pois da guerra do Paraguai. Deus meu! Há pessoas que nasceram depois da guerra do Paraguai! Há rapazes que fazem a barba, que namoram, que se casam, que têm filhos e, não obstante, nasceram depois da batalha de Aquidabã! Mas então o que é o tempo? É a brisa fresca e preguiçosa de outros anos, ou este tufão impetuoso que aparece apostar com a eletricidade? Não há dúvida que os relógios, depois da morte de López, andam muito mais depressa. (op. cit.).
São quatro marcas que evidenciam o diálogo da crônica com a história do Brasil, com seus personagens e seus eventos importantes. O primeiro deles remete à guerra do Paraguai, além de ser um dado histórico pontual nesta crônica, serve como parâmetro para a tessitura fantasiosa do cronista ao se posicionar como alguém que tivesse nascido depois da guerra do Paraguai, que ocorreu entre 1864 e 1870. Se a crônica é de 25 de março de 1894 e Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, logo estaria com 54 anos quando escreveu este texto, então, se ficcionaliza na figura do cronista e se põe como um jovem de mais ou menos dez ou doze anos ―idade de mocinho nascido depois da guerra do Paraguai‖. (ASSIS, 1959, p. 628).
Outro ponto de encontro com a história se refere ao encouraçado Aquidabã, que foi uma embarcação militar que esteve presente na última batalha da guerra do Paraguai em 1870, seguida da morte de Solano López, o ditador paraguaio e, por último, a revolta armada em 1871.
O tempo é uma curva no dobrar de páginas da imaginação ficcional e nele o cronista viaja ao passado ou ao futuro, vai ao ano de 1920 e se coloca na posição de um leitor que se tornará o cronista da crônica do dia seguinte. O cronista põe o leitor em seu papel de cronista, o que nos faz perceber o jogo entre o ler e o escrever, isto é, o leitor será o escritor (cronista) do futuro na própria coluna em que o cronista está escrevendo.
Aí vou escorrendo para o passado, cousa que não interessa no presente. O passado que o jovem leitor há de encontrar é o presente, lá para 1920, quando os relógios e os almanaques criarem asa. Então, se ele escrever nesta coluna, aos domingos, será igualmente insípido com suas recordações. (ASSIS, 1959, p. 628).
O cronista não só lida com a noção de tempo-histórico como trata da relatividade do tempo ao posicionar o leitor no lugar do cronista, depois de situá-lo em 1920, passa a dar voz a esse ―cronista do futuro‖, indaga sobre as mudanças comerciais ocorridas na Rua do Ouvidor com a Gonçalves Dias, que antes era uma confeitaria, relata a transformação da confeitaria para uma casa de jóias de um italiano Cesar Farani. Este aspecto relativo do tempo usado por Machado, que se desloca do século XIX ao século XX, como o colibri que voa de uma a flor a outra,
meio desordenadamente, pode ser visto sob a perspectiva do trabalho da citação, cujos recortes fragmentários praticados por Machado de Assis dão a entender que se vai de uma obra a outra.
Depois de fazer longo comentário sobre a natureza do tempo, principalmente trazendo personagens históricos, o cronista trata de narrar um fato estranho que lhe aconteceu, precisamente, num domingo de Ramos; neste evento, a imaginação- alucinação invade o relato com a presença de Cristo e sua pregação do ―Sermão‖ na Galileia.
Soou o canto-chão. Chegou-me o incenso. A imaginação deixou-se-me embalar pela música e inebriar pelo aroma, duas fortes asas que a levaram de oeste a leste. Atrás dela foi o coração, tornado à simpleza antiga. E eu ressurgi, antes de Jesus. E Jesus apareceu-me antes de morto e ressuscitado, como nos dias em que rodeava a Galileia, e, abrindo os lábios, disse-me que sua palavra dá solução a tudo.
- Senhor, disse eu então, a vida é aflitiva, e aí está o Eclesiastes que diz ter visto a lágrimas dos inocentes, e que ninguém os consolava.
- Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.
- Vede a injustiça do mundo. ―nem sempre o prêmio é dos que melhor correm, diz ainda o Eclesiastes, e tudo se faz por encontro e casualidade. - Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.
- Mas ainda é o Eclesiastes que proclama haver justos, aos quais provêm males...
- Bem-aventurados os que são perseguidos por amor à justiça, porque é deles o reino do céu.
E assim por diante. A cada palavra de lástima respondia Jesus com uma palavra de esperança. Mas já então não era ele que me aparecia, era eu que estava na própria Galiléia, diante da montanha, ouvindo com o povo. E o sermão continuava. Bem-aventurados os pacíficos. Bem-aventurados os mansos... (ASSIS, 1959, p. 629-630).
O cronista inverte a ordem cronológica dos fatos históricos, regride e progride temporalmente, migra do passado para o futuro e vice-versa, assim como sofre de um súbito alucinógeno, que projeta Jesus diante de si. Tamanha desfaçatez proporciona um diálogo entre a figura máxima do cristianismo e o abusado cronista,
que rebate as frases do sermão com respostas supostamente retiradas do livro de Eclesiastes.
A suposta argumentação retirada de Eclesiastes pelo cronista para rebater e provocar as possíveis respostas de Jesus, também são citações truncadas e paródicas, como se pode cotejá-las com a fonte abaixo.
(sic)
10º vi também levarem os ímpios; quando saem do lugar santo, esquecem de como eles tinham agido na cidade. Isso também é vaidade.
12º Um pecador sobrevive, mesmo que cometa cem vezes o mal. Mas eu sei que acontece o bem aos que temem a Deus, porque eles o temem; 13º mas que não acontece o bem ao ímpio e que, com a sombra, não prolongar seus dias, porque não tem a Deus.
14º Há uma vaidade que se faz sobre a terra:há ímpios que são tratados conforme a conduta dos justos. (A BIBLIA DE JERUSALÉM, 1973, p. 1177).
O cronista recorre a passagens de Eclesiastes, cuja etimologia vem do hebraico Coélet que significa aquele que fala perante assembleia, o termo foi traduzido para o correspondente português o pregador. Pensemos na estratégia usada pelo cronista em seu devaneio: ele se coloca diante do maior pregador da tradição religiosa judaica e contra-argumenta citando parodicamente trechos truncados do livro de Eclesiastes, que apresenta supostamente como autor um personagem judeu considerado o edificador do templo de Israel: Rei Salomão.
Colocam-se frente a frente duas tradições em conflito, a do velho testamento, presa ao judaísmo conservador e a do cristianismo, inaugurada pelo pregador do
Sermão da Montanha. As citações truncadas do livro de Eclesiastes assumem um
tom irônico diante da prédica, pois, a ironia e a dubiedade da fala do cronista podem ser levantadas pelo questionamento sobre a autoria de Eclesiastes, como nos aponta texto introdutório ao livro na Bíblia de Jerusalém.
(sic)
Eclesiastes [...] é um nome de ofício e designa aquele que fala na assembléia, [...] é chamado ―filho de Davi e rei em Jerusalém‖, embora o nome não seja mencionado, ele é certamente identificado como Salomão, [...] Embora essa atribuição do autor não passe de mera ficção literária do autor, [...] Muitas vezes se tem contestado a unidade de autor e distinguido duas mãos, ,. três,.. quatro e até oito mãos distintas. (BÍBLIA DE JERUSALÉM, 1973, p.1165).
A partir da leitura do comentário crítico sobre a autoria do livro de Eclesiastes, ficamos tentados a pensar sobre como o cronista estrutura as estratégias de produção de sentido nesta crônica: primeiro, temos um fragmento citado e deturpado, pois o trecho apresentado como sendo de Eclesiastes fora modificado livremente, numa releitura irônica; segundo, foi usado como resposta à prédica de Jesus; terceiro, o livro de Eclesiastes tem este nome porque significa em português: ―pregador‖; quarto, a autoria é posta em dúvida, talvez nem haja um autor, mas vários autores; e, por último, a estrutura do livro é um compósito, isto é, ele é digressivo, num movimento de ―vai e vem‖. (op. cit.).
Ao usar a referência de Eclesiastes, é como se colocasse a fala suposta de Salomão em oposição à fala de Jesus, dois homens sábios digladiando-se pela boca do cronista, dois pregadores disputando entre si. Outro aspecto que merece ser salientado é a possível não autoria do livro por Salomão, o que realça o caráter irônico da citação, pois se o papel da citação, o da alusão e o da paródia, grosso modo, é o afastamento da fonte, da autoria, nada mais apócrifo do que usar uma citação cuja autoria é contestada, por isso, há elementos suficientes para se duvidar da intenção do cronista que cria dois jogos duplos de sentido: o diálogo paródico da crônica com o Sermão da Montanha e o circuito entre o velho e o novo testamento, ambos representados, respectivamente, pelo livro de Eclesiastes e pelo Sermão da
Montanha.
Machado nesta crônica vai do relato histórico aludido pelos personagens apresentados a começar, por ordem cronológica, Jesus, Solano López, Visconde do Rio Branco, Visconde de Sinimbu e por associação ao imperador Dom Pedro II, à viagem ficcional, quando se projeta no leitor do futuro e ao pô-lo no papel de cronista, à paródia bíblica pela citação e recriação do Sermão da Montanha, com direito à participação de Jesus, ao diálogo travado entre ambos. Todos estes
apontamentos revelam a ligação das crônicas machadianas estudadas à linhagem luciânica de sátira menipeia.
A alusão a elementos históricos e elementos bíblicos situados num mesmo contexto enunciativo, unindo-se à mistura de gêneros textuais e à liberdade criadora, isto é, à desnecessidade da verossimilhança pautada pela presença de um cronista no futuro, assim como a presença imagética de Jesus em diálogo com o cronista, só pode ser revelado por uma fala do cronista machadiano nesse texto: ―Tenho mais critério que meu sucessor de 1920; não quero matá-lo com algumas notícias que ele não há de entender.‖ (ASSIS, 1959, p. 628). O cronista do futuro não se interessará pelas notícias do passado, pois elas não têm valor histórico suficiente para se tornar parte da história, é apenas parte do universo miúdo colhido pelo escriba do cotidiano.
O que podemos entender da afirmação do cronista? Entendemos que a crônica estaria presa ao seu tempo, porém, o cronista nesta crônica, trata de dar a ela um tratamento que a tornaria memorável, revestindo-a do tecido literário. Tecido conseguido pela sobreposição de elementos fragmentários da guerra do Paraguai e de recortes particulares de sua memória à citação truncada do Sermão da
Montanha e fragmentos do livro de Eclesiastes, configurando todo o aparato
inversivo e paródico que encobre a citação ao sermão bíblico.
O ponto de partida para o relato ficcional e fantástico da aparição de Jesus foi uma espécie de prefácio memorialístico dos domingos de Ramos da sua infância, que também são frutos de uma construção imaginária; a história real mescla-se com a inventada pela imaginação do cronista. Fundem-se os espaços: o ficcional e o histórico, porque o cronista é também um observador do miúdo, daquilo que é considerado menor para os historiadores. O cronista é aquele que observa, colhe pela sua imaginação e reinventa a história cotidiana do fundo ―de seu gabinete escuro‖. (ASSIS, 1959, p. 395).
E é de dentro do seu gabinete escuro que o Sermão da Montanha sai aos poucos, pinçado em pedaços, em citações e alusões, e é na escuridão desse gabinete que, como míope, escreve enviesado, torto, ao avesso. Por isso, a citação paródica principia pela maneira como o cronista se posiciona diante de Jesus, ao mudar o início do sermão e a ordem dos versículos, conforme poderemos perceber pelo confronto com a fonte.
1º E vendo Jesus a grande Multidão do Povo, subiu a um monte, e depois de ter sentado, se chegaram para o pé dele os seus discípulos;
2°E ele abrindo a sua boca os ensinava, dizendo:
3º Bem-aventurados os pobres de espíritos, porque deles é o reino dos céus;
5º Bem-aventurados os que choram: porque eles serão consolados.
6º Bem-aventurados os que têm fome, e sede de justiça: porque eles serão fartos.
9º Bem-aventurados os pacíficos: porque eles serão chamados filhos de Deus.
10º Bem-aventurados os que padecem perseguição por amor de justiça: porque deles é o reino dos Céus... (BIBLIA SAGRADA, 2006, p. 568).
Ao estabelecermos o paralelo entre os dois textos, as diferenças acentuam- se, primeiro quando o cronista desloca Jesus da cena bíblica, colocando-se diante dele como um discípulo, pondo-se no mesmo nível de Cristo, dialogando e contra- argumentando a mensagem bíblica. ―E Jesus apareceu-me antes de morto e ressuscitado, como nos dias em que rodeava a Galiléia e, abrindo os lábios, disse- me que sua palavra dá solução a tudo. (ASSIS, 1959, p. 630).
No texto bíblico, não há menção de que Cristo tenha dito que a sua mensagem seria a solução para tudo, essa inserção já é fruto do trabalho escritural machadiano, além do deslocamento temos o truncamento, a intromissão escritural, isto é, a livre interferência do autor. A grande multidão, à que se refere Cristo, torna- se apenas um homem, presente ao sermão, é ele o discípulo a quem Cristo profere o sermão, tudo fruto de sua alucinação.
O cronista coloca palavras na boca de Jesus, interfere no texto citado, muda o contexto, trunca a ordem dos versículos, altera o sentido bíblico e inaugura um diálogo entre o velho testamento e o novo testamento. Este diálogo serve de parâmetro ao método de escritura-leitura machadiana.
Esta crônica serve de exemplo claro para uma das características da sátira menipeia de tradição luciânica, pois além do Sermão da Montanha parodiado, temos alguns elementos que demonstram certa gradação em que o circuito do sermão é tomado, nela encontraremos uma reinvenção da história do Brasil, em específico o conflito chamado de ―Guerra do Paraguai‖ que marcou a década de setenta do Século XIX no Brasil. Esta liberdade fantasiosa é uma das características da sátira menipeia, porque Machado toma um fato histórico e subverte, revira-o à
sua maneira, como faz com o ―sermão‖. Primeiro, observamos os procedimentos históricos e imaginários em torno da história do Brasil, depois, percebemos o sermão adulterado em diálogo com o livro de Eclesiastes, que é citado pelo cronista como se fizesse parte de um mesmo corpo textual.
Considerações Finais
Ler e escrever nas trincheiras da citação e da alusão
Machado de Assis citou, aludiu, parodiou e satirizou textos bíblicos, principalmente, o Sermão da Montanha e, é este texto que tomamos como base para esta dissertação. Pudemos perceber que a incidência do texto sacro configurava um circuito dialogal, um procedimento escritural usado por Machado de Assis como método de escrita. Este método revelou-se em sua duplicidade de ler e de escrever.
O trabalho de Machado de Assis apresenta um movimento que direciona todo jogo de leitura e escritura, a maneira com que Machado escreve revela o seu percurso de leitor, tem-se um rastro que indica como as ideias foram sendo desenvolvidas, a partir de uma citação, de um fragmento textual, de uma alusão. É interessante notar que o Sermão da Montanha está presente em vários momentos escriturais de Machado de Assis, tanto na crônica, quanto no ensaio, no conto e no romance, o que nos permite entender que se caracteriza como parte de um procedimento escritural, que pode se iniciar na citação, ou na alusão e chega à paródia, configurando um diálogo entre o velho e o novo.
Machado de Assis usa a citação, a alusão e a paródia como estratagemas, pois no texto machadiano uma leitura por si só não basta. As crônicas machadianas se abrem a novas frentes interpretativas, antes relegadas a gênero menor, passaram a ser observadas sob a ótica da crítica especializada como literatura, fato que as torna texto escriptível, aberto e não apenas legível, muito embora, necessitassem também, da aprovação crítica dos especialistas.
Este cronista deixa aos leitores o convite para se aventurar nos meandros complexos de sua teia. O que fizemos, foi tentar evidenciar por quais fios são tecidas as crônicas que se fiam no Sermão da Montanha. Os detalhes que estabelecem esta teia em torno do sermão nas cinco crônicas espalham pistas que mostram o trabalho escritural machadiano que percorre o citar, o aludir e o parodiar, todos numa linhagem luciânica de sátira menipeia. Apontamento que denuncia
serem menipeicas as crônicas estudadas nesta dissertação, muito antes das produções consideradas da fase madura do autor de Capitu.
Acreditamos ter contribuído no estudo da citação e da alusão, bem como o da paródia de linhagem luciânica, lançando luzes sobre o método machadiano de ler e escrever, entendendo que este método consolida-se nas crônicas como um esquema de leitura-escritura pelo avesso que denuncia um sistema pautado no uso da ironia e da paródia, a fim de esvaziar a canonicidade da tradição bíblica, representada pelo Sermão da Montanha.
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