5.2 User Engagement with the Heat Pump
5.2.1 Placement
No tópico 1 deste capítulo, tratamos da diferença entre Linguística Contrastiva teórica e aplicada. Neste tópico 6, pretendo esclarecer qual das duas orientações é a da presente pesquisa, apresentando as devidas justificativas.
Na introdução deste trabalho, afirmamos que a principal motivação que tivemos para realizá-lo foi a experiência que vivemos ao ministrarmos, por um ano e meio, aulas de sintaxe do período composto da língua italiana para alunos brasileiros de oitavo período do Curso de Bacharelado em Letras em Português-Italiano na Faculdade de Letras da UFRJ. Foram três turmas com uma média de 25 alunos cada uma. O contexto era, pois, o de um curso de italiano para estrangeiros, de nível avançado, cujo conteúdo era teórico-gramatical. Observamos, durante as aulas, que os alunos tinham muita dificuldade para compreender e acompanhar esse conteúdo. Essa dificuldade nada tinha a ver com a competência comunicativa em italiano LE, pois não se tratava de problemas na produção oral ou escrita dos alunos, nem dificuldades ligadas à compreensão escrita. O problema era de compreensão teórica.
A sintaxe do período composto da língua italiana é diferente, em muitos pontos, da sintaxe do período composto da língua portuguesa. Algumas diferenças são: a quantidade de tipos de orações coordenadas e subordinadas — há mais tipos em italiano —, a nomenclatura e determinados conceitos.
Como os alunos já tinham um bom domínio da sintaxe do período composto da língua materna, a portuguesa, acontecia uma espécie de “cegueira” e uma resistência à aprendizagem de alguns tipos de orações da sintaxe do período composto da língua italiana. Ocorria o fenômeno de interferência linguística ou transferência negativa. Os alunos analisavam sintaticamente as frases, usando a nomenclatura da língua materna, só que em língua italiana. Vejamos abaixo um exemplo do que acontecia, considerando a seguinte frase em italiano:
La speranza che Anna tornasse non abbandonava Paolo. (SABATINI, 1994, p. 481)
Para fazer a análise desse período composto italiano, os alunos poderiam seguir estratégias diferentes, mas em geral seguiam os seguintes passo:
1. Traduziam a frase;
2. Identificavam os verbos, para verificar o número de orações;
3. Separavam as orações, usando barras diagonais ( / ) ou colchetes ( [ ] ); 4. Classificavam as orações.
Seguindo todos os passos, os alunos obtinham o seguinte resultado:
Tradução da frase: A esperança que Ana voltasse não abandonava Paulo. Análise:
verbo 1 verbo 2
La speranza [che Anna tornasse] non abbandonava Paolo.
1ª proposizione 2ª proposizione continuazione della 1ª proposizione
1ª proposizione: reggente
2ª proposizione: subordinata relativa determinativa
Não houve erro nos três primeiros passos. A tradução da frase e a identificação dos verbos estão corretas, mas a classificação das orações está parcialmente errada. A primeira oração (proposizione, em italiano) é, de fato, a oração reggente (principal). A segunda oração, che Anna tornasse, não é subordinata relativa determinativa, que em português significa “subordinada adjetiva restritiva”. A classificação correta dessa oração em italiano é subordinata sostantiva oggettiva diretta, que em português significa “subordinada substantiva objetiva direta”.
Por que os alunos acertaram a classificação da primeira oração e erraram a da segunda? Acertaram a classificação da primeira, porque ela é a mesma em italiano e em português. O que muda é o termo designativo: em italiano, se diz reggente e, em português, se diz principal. Já em relação à segunda oração, os alunos erraram sua classificação, porque pensaram na do português. A oração “que Ana voltasse”, de acordo com a gramática descritiva da língua portuguesa, é classsificada como “subordinada adjetiva restritiva”. Mas a gramática descritiva italiana — como já afirmamos — considera a oração che Anna tornasse uma subordinata sostantiva oggettiva diretta (subordinada substantiva objetiva direta), ou seja, uma classificação totalmente diferente
da do português. O erro ocorreu, portanto, por interferência da língua materna no estudo do italiano como língua estrangeira.
Esse tipo de problema, acontecendo em um universo de aproximadamente 34 tipos diferentes de orações italianas e 27 tipos do português — em suas formas reduzidas e desenvolvidas —, tornava o estudo bastante dificultoso.
Para resolver a questão, usamos a Análise Contrastiva como estratégia didática, porque esse modelo de análise concentra sua atenção justamente nas diferenças entre as duas línguas, e eram essas diferenças que estavam causando problema. Como a finalidade era didática, tratava-se de Linguística Contrastiva aplicada.
Primeiramente realizamos, sem os alunos, o estudo contrastivo das orações coordenadas e subordinadas do italiano e do português, a partir do livro didático adotado com as turmas: Grammatica italiana con nozioni di linguistica, de Maurizio Dardano e Pietro Trifone (DARDANO; TRIFONE, 2003). É uma gramática italiana para italianos, ou seja, não é uma gramática para o ensino-aprendizagem do italiano para estrangeiros, porém, costuma ser adotada em cursos de nível avançado do italiano para estrangeiros, sobretudo quando o objetivo é o estudo teórico-gramatical. Utilizamos também outras gramáticas italianas de mesmo tipo.
Realizamos o estudo de Análise Contrastiva e tomamos algumas medidas antes de levar os resultados para a sala de aula. Através do estudo, identificamos as semelhanças e diferenças entre italiano e português em relação à sintaxe do período composto e destacamos os pontos da matéria que poderiam apresentar dificuldades para os estudantes. Estabelecemos uma hierarquia entre as classificações de orações em italiano, partindo das mais fáceis para as mais difíceis. Elaboramos um material didático à parte com quadros contrastivos e reorganizamos o programa do curso. Em seguida, colocamos tudo em prática em sala de aula.
O resultado com os alunos foi muito bom. Eles compreenderam e assimilaram a matéria com muito mais facilidade. Chegamos a essa conclusão a partir dos bons resultados das avaliações a que submetemos os alunos — trabalhos, testes, provas, observações da produção em sala de aula etc. .
Para realizar o presente trabalho, ampliamos o estudo de Análise Contrastiva que realizamos na experiência narrada acima. O passo-a-passo do desenvolvimento dessa análise para a tese explicamos com mais detalhes no capítulo que trata da metodologia de pesquisa. Neste sexto tópico do capítulo 2, a proposta é ressaltar que trata-se de um estudo de Linguística
Contrastiva aplicada, sobretudo porque seu objetivo central é didático, ou seja, aplicar os resultados desse estudo no ensino do italiano como língua estrangeira.