Os romances de Andrea Camilleri são ambientados em Vigáta, cidade imaginária, situada na também fictícia província de Montelusa, que corresponde a Porto Empendocle, cidade da província de Agrigento, onde o escritor nasceu. Em todos os seus romances, como já dissemos, encontra-se a forte presença da cultura siciliana, na caracterização das personagens, na descrição do ambiente, na questão da língua e na abordagem de temas do mundo contemporâneo, como, por exemplo, a violência, as drogas, a máfia, a imigração clandestina.
terrível, que somente poderia ser compreendido por quem sabia abandonar-se completamente ao som, à onda do som. Fechou os olhos, profundamente abalado e perturbado. Mas, internamente, estava maravilhado: como aquele violino tinha feito para mudar tanto assim de timbre desde a última vez que o havia ouvido? Sempre com os olhos fechados, se deixou guiar pela voz. E viu-se entrar na mansão, atravessar a sala de visitas, pegar o estojo do violino com as mãos... Isso, era aquilo que o havia atormentado, o elemento que não combinava com o conjunto! A luz fortíssima, que explodiu dentro da sua cabeça o fez deixar escapar um lamento. (Tradução da autora)
67
A influência exercida pelos romances de Camilleri na Sicília é tão forte que, a partir 2003, a cidade de Porto Empendocle passou a ser reconhecida como Porto Empendocle-Vigàta, em homenagem à cidade imaginária do autor.
Prossima uscita, Vigata. Nessuna perplessità se, viaggiando per le strade della Sicilia, vi capiterà di intravedere un cartello con l'indicazione della città di Salvo Montalbano. Perché Andrea Camilleri ha dato il suo benestare al comune di Porto Empedocle, che gli aveva chiesto di poter adottare, come secondo nome, quello del paese in cui vive e lavora il celebre commissario. 42
Porém, em 2009, a decisão foi revogada, mas certamente Porto Empendocle jamais deixará de ser Vigàta para os camillerianos espalhados pelo mundo.
Sobre a Vigàta de Camilleri, de Montalbano e de todas as personagens que a habitam, Luca Crovi escreve:
Scrutando una delle tante cartine stradali vi sarà impossibile trovare Vigàta. Eppure milioni di italiani potranno confessarvi di conoscerla, di esservi stati almeno una volta in compagnia del commissario Salvo Montalbano, in villeggiatura per qualche ora o magari per qualche giorno. Stiamo parlando di una città situata, secondo Camilleri, tra Porto Empedocle e Agrigento in una delle zone più solari della Sicilia. Come ha scritto un critico letterario, potremmo definirlo “il centro più inventato della Sicilia più tipica”. (CROVI, 2002: 183-84)43
Vigàta, a cidade criada por Andrea Camilleri, foi transformada, de acordo com a definição de Luca Crovi, numa verdadeira capitale del delitto. Dentro dos limites da cidade estão reunidos os heróis, os vilões, as vítimas e todas as personagens que povoam os romances do autor, sendo o palco principal, onde todas as narrativas de Camilleri estão ambientadas. O êxito alcançado pelos
42 http://www.repubblica.it/online/cronaca/vigata/vigata/vigata.html Próxima saída, Vigata. Nenhuma
perplexidade se, viajando pelas estradas da Sicília, avistar um cartaz com a indicação da cidade de Salvo Montalbano. Porque Andrea Camilleri deu o seu consentimento à comuna de Porto Empedocle, que lhe tinha pedido para adotar, como segundo nome, o lugar em que vive e trabalha o célebre comissário. (Tradução da autora)
43 Escrutando um dos tantos mapas rodoviários, será impossível encontrar Vigàta. Mesmo assim, milhões de
italianos poderão confessar conhecê-la, de ter estado ali ao menos uma vez em companhia do comissário Salvo Montalbano, em veraneio por algumas horas ou, talvez, por alguns dias. Estamos falando de uma cidade situada, segundo Camilleri, entre Porto Empedocle e Agrigento, em uma das zonas mais solares da Sicília. Como escreveu um crítico literário, poderemos defini-lo "o centro mais inventado da Sicília mais típica." (Tradução da autora)
68
romances do autor fizeram de Vigàta mais que uma cidade existente apenas nos livros; o impacto causado nos leitores foi tamanho que, como lemos acima, chegou a causar a mudança de nome de Porto Empendocle para Porto Empendocle-Vigàta, e independentemente disso, Vigàta já passou a existir de maneira definitiva no mundo da literatura e nas outras formas artísticas que reproduzem a obra camilleriana, como a televisão e o teatro.
A abrangência da influência literária na topografia siciliana vai além de Porto Empedocle-Vigàta, atingindo também outras cidades, conforme relata Crovi (2002: 183-84):
Se volessimo controllare infatti la toponomastica ci accorgeremmo subito a colpo d’occhio che alle immaginarie Fela, Fiacca, Montelusa, Montereale, Raccadali, Sampedusa, descritte da Camilleri corrispondono le reali Gela, Sciacca, Agrigento, Realmonte, Raffadali, Lampedusa.44
O período da história vigatense contada nas páginas de Camilleri vão do século XIX ao século XXI. Nos limites de Vigàta não se concentram somente os delitos e virtudes de todo o mundo, mas a própria história do homem do século XIX ao século XXI.
A Vigàta de Camilleri está dividida entre dois grupos de romances, os que frequentemente são considerados “históricos” e os “atuais ou contemporâneos”, protagonizados por Salvo Montalbano, o mais famoso comissário fictício italiano que, apesar de não atuar no Il birraio di Preston, o romance-rapsódia focalizado nesta tese, merece a nossa atenção.
2.2.2 Montalbano: um policial antiinstitucional
De todos os investigadores criados por Andrea Camilleri, o mais célebre, sem dúvida, é Salvo Montalbano. Os romances por ele protagonizados foram
44 Se quiséssemos controlar de fato a toponomástica, perceberemos rapidamente que as imaginárias Fela,
Fiacca, Montelusa, Montereale, Raccadali, Sampedusa, descritas por Camilleri correspondem às reais Gela, Sciacca, Agrigento, Realmonte, Raffadali, Lampedusa. (Tradução da autora)
69
adaptados, em sua maioria, em filmes produzidos pela RAI, e obtiveram grande sucesso de público e de vendas no mundo.
Intelecto privilegiado, Montalbano resolve os crimes utilizando o raciocínio lógico, seguindo os princípios do detetive clássico, quase nunca utilizando a força bruta. No entanto, muitas vezes, recorre à ação para solucionar os mistérios e confirmar suas hipóteses. Mas não se trata do auxílio policial, pois, na maioria das ocasiões, ele utiliza seus próprios meios para solucionar os crimes, seguindo seus instintos. Age sozinho em busca de pistas, ou conta com o auxílio de seus amigos particulares, conforme veremos mais adiante.
Embora várias das características atribuídas ao detetive clássico sejam econtradas em Montalbano, como seu poder de elucidar mistérios a partir da observação e raciocínio, bem como o fato de recorrer o mínimo possível à ação e à força bruta, em diversos momentos ele rompe com essas características. Ao contrário do detetive clássico, cuja vida particular é quase sempre um mistério para o público, o leitor dos romances de Camilleri é informado de praticamente todos os aspectos da vida de Salvo Montalbano, desde sua infância difícil, visto que cresceu sem mãe, até seu eterno noivado com Livia, que vive em Boccadasse, em Gênova.
Há um conflito entre o investigador e o homem. Na vida profissional, Montalbano é um homem bem-sucedido, de caráter irrepreensível, possuindo nome e renome em seu meio. Já a vida privada de Montalbano é marcada pela indefinição de seu relacionamento com Livia. Embora ele demonstre amar a noiva, em momento algum observamos seu desejo de casar-se com ela. Esse fato é reforçado em diversas ocasiões, nas quais ele sempre procura esquivar-se, quando o assunto é casamento ou mesmo um passo mais sério na relação.
Apenas em Il ladro di Merendine e no romance que o segue, La voce del violino, constatamos que o comissário faz um movimento com vistas a resolver sua vida afetiva, pois, na tentativa de obter a adotação de um menino, Francois, que conhecera no primeiro romance, Montalbano leva a sério a ideia de casar-se com Livia e constituir uma família, para a felicidade da noiva, que sonhava com o casamento e a ideia de ter um filho. Entretanto, o sonho do casal não se concretiza. Enquanto os dois procuravam oficializar a união civil, o menino fica aos cuidados da irmã de Mimì Augello, um subordinado a Montalbano. Tal
70
convivência faz que Francois não queira mais se afastar da família de Augello, onde encontrara pais e irmãos, ponha um ponto final à tentativa de adoção por parte de Salvo e Livia. Embora o matrimônio nunca se concretize, o relacionamento dos dois pode se acompanhado ao longo dos anos, através dos romances.
Outra característica marcante na personalidade de Montalbano é seu amor pelo mar. Em La prima indagine di Montalbano, conto que narra como se deu a sua promoção como comissário, o leitor acompanha toda a expectativa havida em torno do fato: a ansiedade de Montalbano, sua alegria ao receber a notícia sobre o local em que atuaria – Vigàta –, cidade de sua infância, até sua mudança para uma casa em Marinella, que é um dos cenários importantes em todos os romances da saga Montalbano.
Além do espaço geográfico, a culinária representa outro ponto de destaque nos romances nos quais Montalbano é protagonista. A relação do detetive com a boa mesa é estreita; o momento da refeição é sagrado e segue um verdadeiro ritual. Comer, para ele, não significa apenas nutrir-se, mas representa um momento de prazer, que deve ser apreciado em silêncio, ora em seu restaurante preferido, onde mantém uma relação de amizade e confiança com o chefe, ora em sua casa, em Marinella, quando, sentado à varanda, saboreia as especialidades que Adelina, sua empregada, lhe prepara.
Vale ressaltar que o delegado Puglisi, o detetive de Il birraio di Preston, em alguns momentos na narrativa, também não segue o protocolo policial. Assim como acontece nas aventuras protagonizadas por Montalbano, o leitor acompanha a jornada de Puglisi, seu caráter, seu compromisso com a verdade e a busca incessante para alcançá-la, sua luta contra a corrupção de seus superiores e, ainda, seus delitos. Puglisi também mente e engana, por amor, indo contra seus deveres de policial, ao alterar o cenário da morte da viúva e seu amante, tudo por amor a Agatina, irmã da falecida, que se desespera ao constatar a iminente desonra que recairia sobre a imagem de sua irmã, tão logo fosse divulgada as circusntâncias de sua morte. Esse deslize acaba manchando a honra de Puglisi, questionada por um anônimo, que escreve ao marido de Agatina.
71
Observamos que o modelo de detetive instituído na tipologia do romance policial, onde o detetive perfeito é racional pura e simplesmente, não se reflete nas personagens camillerianas. Temos, sim, brilhantes detetives que, porém, são suscetíveis às paixões e aos defeitos inerentes ao homem comum, sem que isso, no entanto, afete a capacidade investigativa dessas personagens.
Apresentado o autor e sua produção poética, na sequência, nos acercaremos da obra escolhida para nossa análise: Il birraio di Preston.
72 CAPÍTULO III
IL BIRRAIO DI PRESTON: UMA RAPSÓDIA EM GIALLO
Il birraio di Preston (1995) é considerado a obra-prima de Andrea Camileri, baseada em fatos reais, extraídos da obra Inchiesta sulle condizioni della Sicilia del 1875-76. Está ambientada na cidade fictícia de Vigàta, à qual dedicamos o item 2.2.1, no ano de 1875, a trama tem como ponto de partida um incêndio ocorrido no Teatro Re d’Italia, que ocorre exatamente no dia de sua inauguração, ocasião em que seria apresentada a ópera Il birraio di Preston, de Luigi Ricci.
Camilleri constrói sua narrativa de maneira não-linear. Embora o leitor venha a obter todas as informações, no decorrer do romance, essas são apresentadas paulatinamente, em capítulos fechados. Um dos recursos utilizados é o do flashback. Os capítulos se intercalam entre os que descrevem acontecimentos anteriores ao incêndio, os que apresentam personagens e situações e, ainda, os que se referem aos fatos ocorridos no pós-incêndio.
Iniciando o estudo de Il birraio di Preston, convém justificar a proposta do subtítulo da nossa tese, “rapsódia in giallo”. Assim, vejamos o significado do termo “rapsódia”, a partir do verbete encontrado no Dicionário de Termos Literários de Carlos Ceia45:
Originário do grego rhapsodía, significando “canção costurada” (em latim, rhapsodia; em alemão, rapsodie; em espanhol, rapsodia; em francês: rapsodie; em inglês, rhapsody; em italiano, rapsodia ), o termo “rapsódia” designa, desde a Grécia arcaica, tanto cada um dos livros de Homero (século VIII a.C.) quanto os poemas épicos cantados por alguém que não fosse o criador dos poemas, como o aedo o era. Rapsodo (em grego clássico ραψῳδός / rhapsôidós) é o nome dado a um artista popular ou cantor que, na antiga Grécia, ia de cidade em cidade recitando poemas, principalmente epopéias. Diferia-se do aedo, que compunha os próprios poemas e os cantava, acompanhado de um instrumento (lira ou fórminx). O rapsodo não se fazia acompanhar de nenhum instrumento e, durante a declamação, ficava geralmente em pé e segurava um ramo de loureiro, símbolo de Apolo. Platão, no seu tratado de poesia Íon, explica a Sócrates a apresentação de uma rapsódia.
45 http://www.edtl.com.pt/index.php option=com_mtree&task=viewlink&link_id=1534&Itemid=2 .
73
O significado de “canção costurada” muito se assemelha ao tipo de narrativa que se encontra em Il birraio di Preston, que é composto por um conjunto de várias pequenas histórias que, juntas, contam uma história maior. Conforme a própria proposta narrativa ali apresentada, a partir de um único narrador, Gerd Hoffer poderia ser considerado um rapsodo, pois a ele coube unir os pedaços de história vivenciados por outras personagens:
No código musical, “rapsódia” nomeia, portanto, toda fantasia instrumental que utiliza temas e processos de composição improvisada, tirados de cantos tradicionais ou populares, de que são exemplos as rapsódias húngaras de Franz Liszt (1811- 1886). Justaposição de escassa unidade formal de melodias populares ou folclóricas e de temas conhecidos, extraídos com frequência de óperas e operetas, as rapsódias caracterizam-se por terem apenas um movimento, mas podem integrar fortes variações de tema, intensidade, tonalidade, sem necessidade, todavia, de seguir uma estrutura pré-definida. Com uma forma mais livre que as variações, uma vez que não há necessidade de se repetirem os temas, podem-se, ao sabor da inspiração, criar novos temas [...] (Idem)
Diversos dos elementos acima mencionados encontram-se presentes em Il birraio de Preston. A variação de temas é uma constante em toda a narrativa. Embora o percurso seja o mesmo, isto é, contar a história da inauguração e incêndio do teatro Re d’Italia, os capítulos estão dispostos de forma não-linear, a narrativa é conduzida em cenas, ou pequenas histórias, parecendo às vezes desconexas, dentro da história principal. Em um capítulo, por exemplo, nos encontramos diante do teatro incendiado; no seguinte, somos transportados à vida íntima de uma autoridade e, na sequência, assistimos Nando Traquandi planejando os detalhes do incêndio. Embora a variação temática seja uma constante, a narrativa se completa ao final.
A carga dramática também tem intensidade diferente em cada capítulo: uns apresentam ligação mais estreita ao caso do incêndio, mostrando detalhes da tragédia. Outros são mais leves, como o que narra a discussão entre os membros do Circolo cittadino di Vigàta, ou, ainda, o que mostra as reações e os diálogos da plateia durante a apresentação da ópera, naquela fatídica noite. A música, que é
74
tema em diversos capítulos do livro, pode ser considerada uma personagem na trama analisada.
A condição humana é outro tema explorado: o desejo de o prefeito expressar o seu amor, levado às ultimas consequências pelo prefeito; o drama vivido pelo professor Carnazza, cuja esposa é bem jovem do que ele, fato que o leva a realizar todas as vontades da mulher, pelo simples medo de perdê-la; a sede de poder de dom Memè; o idealismo sem limites de Nando Traquandi; e, ainda, o conflito entre o amor e o dever, vivido pelo delegado Puglisi.
A trajetória do povo vigatense é contada: cenas do cotidiano, da vida privada, do mundo político, do movimento revolucionário dos mazzinianos estão lado a lado, misturados, unindo-se. As diversas histórias e perspectivas dão a unidade à rapsódia. As estruturas narrativas de Il birraio do Preston assemelham- se às de Macunaíma:
De migração semântica dá-se como singular exemplo o caso de Mário de Andrade (1893-1945), que, no “momento épico” do modernismo brasileiro, por ele protagonizado, e não sabendo como classificar um texto que escrevera, durante uma semana, em 1928, deitado numa rede, no sítio de seu “Tio” (na realidade era seu primo) Pio, batizou de “rapsódia” seu livro Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, usando o mesmo estratagema de musicista com que intitulara um texto anterior – “Amar, verbo intransitivo, de 1927, romance por ele designado “Idílio”. Principal romance do movimento modernista nacional, Macunaíma, o herói sem nenhum caráter emblema a cultura que retrata: colcha de retalhos, miscelânea, mosaico, puzzle de cores, etnias, sons, vezes e vozes.46
Elementos folclóricos, religiosos, étnicos e até fantasiosos estão lado a lado na trama de Macunaína, de Mário de Andrade, romance que o próprio autor classificou como rapsódia. Em Il birraio di Preston, observamos a existência de uma miscelânea semelhante à do livro de Mario de Andrade como, por exemplo, as diferenças culturais entre as personagens – as intenções diante de uma mesma situação; a questão linguística, que se une à cidadania de algumas figuras de ficção, como no caso do engenheiro alemão Hoffer, do prefeito Bortuzzi, que é toscano, e de Nando Traquandi, romano, ou seja, três cidadãos oriundos de cidades distintas e inseridos na realidade Siciliana.
46
75
Assim, estamos convencidos de que Il birraio di Preston também pode ser lido como um romance rapsódico, uma vez que temas diversos estão ali presentes. As diferentes culturas que conviviam em Vigàta, a música, a história, os interesses políticos, os jogos de poder e até mesmo o dia-a-dia, os fatos do cotidiano aparecem de maneira concreta na obra. É rapsódico porque conta, denuncia, revela a realidade daquela região, no período imediatamente posterior à Unificação Italiana, quando as pessoas ainda conviviam com duas realidades distintas, o velho e o novo lado a lado.
Cabe informar, ao darmos início à análise da obra, que todos os textos extraídos de Il birraio di Preston (Palermo: Sellerio, 1995) serão referenciados somente com o ano da publicação e o número da página. Também, que a tradução aos textos citados, transcritos da publicação brasileira da citada obra – CAMILLERI, Andrea. A ópera maldita. Tradução de Giuseppe D’Angelo e Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004 –, receberá o mesmo tratamento. Também, que, quando considerarmos necessário, interferiremos em algumas soluções encontradas pelos tradutores.
O primeiro capítulo da rapsódia, “Era una notte che faceva spavento” (“Era uma noite de dar medo”), apresenta o evento central da trama, ou seja, o incêndio do teatro Re d'Italia. A primeira personagem a entrar em cena é o menino Gerd, de nove anos, filho do engenheiro alemão Fridolin Hoffer. O garoto acorda no meio da noite e se depara com um imenso clarão vindo de Vigàta. Sem entender o que se passava, mas consciente de que o fato certamente fugia à realidade, corre para contar a novidade ao pai que, exultante, se dirige imediatamente para cidade, pois, além de ser engenheiro, era também inventor e acabara de criar uma máquina de apagar chamas, a vapor. Via, portanto, nesse incêndio a oportunidade para, finalmente, testar seu experimento:
“Mein Gott!” Fece l’ingegnere quasi senza fiatto. Poi, trattenendo a stento, urla e vociate di gioia, di purissima felicità, febbrilmente si vestì, raprì il cassetto grande dello scagno, ne trasse una grande tromba dorata munita di cordone per tenerla ad armacollo ed uscì di casa di corsa senza manco preoccuparsi di chiudere la porta alle sue spalle. (1995: 12)47
47
"Mein Gott", exclamou o engenheiro, quase sem fôlego. Em seguida, reprimindo com esforço suas exclamações e gritos de alegria, da mais pura felicidade, vestiu-se febrilmente, abriu o gavetão da