Como afirmamos no tópico 3.2 deste capítulo, o modelo de Análise Contrastiva tem uma finalidade científica e por isso está ligado à gramática descritiva; mas também tem uma finalidade pedagógica, que o liga à gramática normativa ou prescritiva. Esta gramática determina, através de um conjunto de regras, como uma dada língua deve ser usada, estabelecendo, assim, a língua padrão ou norma culta, que pode ser usada nos níveis de linguagem41 formal, informal ou coloquial e técnico, tanto na fala quanto na escrita.
Qualquer produção linguística que infrinja as regras da gramática normativa configura erro para esta gramática. Existe um nível de linguagem, frequentemente identificado como nível inculto, cuja principal característica é o grande número de erros gramaticais na produção oral e escrita dos falantes. Esse é o nível de linguagem usado principalmente por pessoas que tiveram pouco ou nenhum acesso ao estudo da língua padrão e, por isso, não a dominam. Celso Pedro Luft (2002) fala a esse respeito:
[...] as várias camadas sociais espelham-se em camadas linguísticas (já que toda língua retrata as realidades humanas). A estratificação social determina uma correspondente estratificação linguística. [...] Toda estratificação sociolinguística é mais ou menos complexa. Mas, simplificando as coisas para o essencial que aqui interessa, podemos adotar a dicotomia nível culto / nível inculto, tomando por critério o fato cultural da leitura: os falantes que leem (escolarizados, etc.), de um lado, e de outro os que não leem, os analfabetos.
41
Os chamados níveis de linguagem são maneiras diferentes de se comunicar através de um idioma, determinadas por fatores como nível instrucional, situação social e idade dos falantes.
A gramática normativa privilegia a modalidade escrita da língua e se baseia em obras literárias consagradas e em textos formais, como os científicos. Sobre a língua padrão e a modalidade escrita da língua, Azeredo (2011, p. 131) afirma o seguinte:
Sua condição de modelo de uso faz da língua padrão uma referência idealmente homogênea, uma espécie de repertório que inclui usos de um espectro de tempo amplo e fatos que frequentemente conflitam com tendências da língua falada usual [...]. A língua padrão deve este perfil conservador a um poderoso aliado: a codificação escrita. Na história de todas as sociedades, a escrita atua como um instrumento de unidade política e intercâmbio cultural na medida em que garante a permanência da mensagem através do tempo e promove sua difusão no espaço.
A existência da gramática normativa é importante para unificar o idioma através da norma culta, difundindo a língua oficial de uma nação, dentro e fora do território desta. A falta de uma língua nacional põe em risco a existência da própria nação. Luiz Antônio Sacconi (1990) fala a esse respeito: “A norma culta, forma linguística que todo povo civilizado possui, é a que assegura a unidade da língua nacional. É justamente em nome dessa unidade, tão importante do ponto de vista político-cultural, que é ensinada nas escolas e difundida nas gramáticas”.
A Itália viveu um drama em relação à sua língua nacional. Até o século XIX o italiano oficial era falado apenas pela minoria da população, aproximadamente 2,5% dos italianos. Havia diversos dialetos muito diferentes entre si, que dividiam o povo. Em 1861 havia um altíssimo índice de analfabetismo. Com a unificação política da Itália — ocorrida entre 1959 e 1970 —, inicia-se o processo de unificação linguística do país. Com muitos esforços do governo e do povo italiano, foi possível superar o problema linguístico. Contribuíram para isso a instrução obrigatória nas escolas, o serviço militar, realizando migrações internas, e a atuação da mídia, sobretudo da televisão no século XX (MAURO, 1993). Simone Fornara (2009, p. 109), na obra Breve storia della grammatica italiana, destaca a questão gramatical nesse cenário: “Depois da Unificação da Itália (1861), a produção gramatical sofreu um notável aumento, favorecido pela política de alfabetização empreendida pelo governo com o objetivo de difundir uma língua nacional” (tradução nossa). O autor refere-se à gramática normativa usada na difusão do italiano padrão.
A gramática normativa modifica-se à medida que a língua, sendo um organismo vivo, modifica-se ao longo do tempo. As mudanças ocorrem sobretudo no léxico e no campo ortográfico.
Conforme vimos no tópico 3.1 deste capítulo, segundo Azeredo (2010, p. 131), a gramática normativa é antes de tudo uma gramática descritiva, pois a prescrição de uma variação linguística depende da sua identificação através de uma descrição prévia.
A Análise Contrastiva, portanto, se utiliza das gramáticas normativas das línguas em contraste para elaborar uma gramática descritiva contrastiva, que aponte semelhanças e diferenças entre essas línguas. Esse modelo da Linguística Contrastiva e a gramática normativa consideram o erro como um fator negativo no processo de ensino-aprendizagem de uma LE, devendo ser evitado. Todo o trabalho do modelo de Análise Contrastiva, que, lembramos, tem um caráter científico, tem o objetivo de evitar que aprendizes de línguas estrangeiras cometam erros durante o processo de aprendizagem destas. Esse modelo busca facilitar a aprendizagem evidenciando as diferenças entre as línguas e “alertando” sobre os riscos de se cometerem erros durante o uso de uma LE. Uma vez que erros sejam cometidos, a Análise Contrastiva não se ocupa em buscar meios para corrigi-los. Essa “tarefa” cabe à metodologia de ensino de línguas estrangeiras. Cursos norteados pela gramática normativa costumam utilizar métodos de base estruturalista.