5.2 User Engagement with the Heat Pump
5.2.2 Negotiating with the heat pump
Segundo António Franco ([1989?]), “é ponto assente entre os que trabalham na área da contrastividade que a comparação sincrônica de duas línguas se faz com base no mesmo modelo de gramática”, ou seja, deve haver coerência entre os fundamentos teóricos da Linguística Contrastiva, em quaisquer de seus três modelos, e os tipos de gramática utilizados no trabalho de contrastação. Vejamos essa relação mais a fundo, verificando primeiramente quais conceitos de gramática devem-se considerar neste estudo.
O termo gramática veio do grego grammatiké. Formou-se a partir da expressão grámma que significava letra. Originalmente, designava a “arte de ler e de escrever”, referindo-se a um conjunto de técnicas de leitura e de escrita; posteriormente passou a ter outras acepções (INFANTE, 1997), e aqui nos interessam duas delas. A primeira é a que concebe a gramática como um conjunto de princípios que regem o funcionamento de uma língua. Esses princípios envolvem os elementos constitutivos da língua, ou seja, os sons, as formas, as palavras, as construções, os recursos expressivos. Estes elementos são agrupados e estudados em partes. A Nomenclatura Gramatical Brasileira (HENRIQUES, 2009), adotada em 1959, aponta três partes: Fonética, Morfologia e Sintaxe. Explicando sucintamente, a Fonética trata do estudo dos sons; como devem ser escritos, pronunciados etc.. A Morfologia trata da estrutura e da formação das palavras, agrupando-as em classes. E a Sintaxe é a parte que estuda as relações lógicas entre as palavras, as combinações e as funções destas nos enunciados.
Interessa-nos também entender gramática como livro didático que contém essa disciplina. Nesta tese, trabalhamos com algumas gramáticas da língua italiana e da língua portuguesa, conforme veremos com mais detalhes no capítulo 5. Em geral, esses manuais didáticos — como os elaborados para o ensino do português nas escolas de níveis Fundamental e Médio35 no Brasil — trazem as três partes fundamentais da gramática — citadas no parágrafo anterior — e ainda outras divisões, tais como a Semântica, que trata das relações de significado das palavras, e a Estilística, que trata do uso estético da linguagem.
35
O Ensino Fundamental vai do primeiro ano — no qual a criança deve ingressar ao completar seis anos — ao nono ano de escolaridade. O Ensino Médio vem após o Ensino Fundamental e é constituído de três anos.
Há diferentes tipos de gramática enquanto disciplina: geral ou universal, implícita, histórica, descritiva, normativa, gerativa, funcional, contrastiva, reflexiva etc.. Não cabe aqui explicar todas essas modalidades, mas veremos algumas com mais detalhes.
Ataliba de Castilho (2010, p. 42) atribui o que ele chama de “quatro grandes direções” às teorias linguísticas e gramaticais: a gramática descritiva, a funcionalista-cognitivista, a histórica e a prescritiva.
A gramática descritiva ou expositiva trata a língua como um conjunto de produtos estruturados; busca registrar e descrever cientificamente as variações da língua, considerando o seu uso real pelos falantes. De acordo com a corrente linguística que dela se ocupe, a gramática descritiva também pode ser chamada de estrutural, gerativa-transformacional, estratificacional, funcional etc..
A gramática funcionalista-cognitivista trata a língua enquanto conjunto de processos mentais estruturantes e a vê como um instrumento de comunicação sujeito às pressões das situações comunicativas.
A gramática histórica se ocupa da origem e da evolução das línguas. Trata a língua como um conjunto de processos e produtos que mudam ao longo do tempo.
A gramática prescritiva ou prescritivista é mais conhecida como gramática normativa ou tradicional. Ela estabelece a norma culta — que é a modalidade de língua valorizada socialmente — e forma o que Castilho chama de “conjunto de ‘usos bons’”. A norma culta é tida como modelo, como padrão linguístico. Geralmente é elaborada e revista por grupo de gramáticos e linguistas conceituados nas Academias de Letras de cada país. A gramática normativa se ocupa mais da modalidade escrita da língua. Não é uma disciplina com finalidade científica e sim pedagógica (BECHARA, 1999).
Os manuais didáticos para ensino de línguas — maternas e estrangeiras — se propõem, em geral, a trabalhar ou a gramática normativa ou a descritiva. Esse fato leva a extensas discussões sobre metodologia de ensino, as quais não desenvolveremos aqui, mas destacaremos alguns pontos interessantes.
Há anos existe uma polêmica a respeito de se fazer ou não estudo gramatical tanto em aulas de língua materna quanto nas de línguas estrangeiras. Surgiu da alegação de que as aulas baseadas no estudo da gramática normativa são maçantes e não levam os alunos nem a melhorarem o domínio do próprio idioma nem a aprenderem línguas estrangeiras. Há quem
defenda a ideia radical de que esse tipo de estudo deve ser completamente abolido. Luiz Carlos de Assis Rocha, na sua obra Gramática: nunca mais (2007, p.16-17), compartilha esse posicionamento no contexto do ensino do português como língua materna nas escolas brasileiras:
Se defendemos que o objetivo primordial da escola é ensinar a língua padrão, isso não quer dizer que o aprendizado dessa modalidade de língua deva ser feito através do estudo da gramática. Defenderemos [...] a posição de que a gramática não só não é necessária ao aprendizado da língua padrão, como também de que ela é prejudicial ao ensino de Português. É necessário que se adote uma postura incisiva com relação a esse assunto e não se faça como certos autores, que condenam, renegam e execram a gramática, mas não conseguem se livrar de suas amarras e não apresentam alternativas viáveis ao estudo da língua materna sem o jugo da gramática.
O autor declara haver uma “confusão reinante” no que tange ao ensino do português. Na obra Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio36, publicada pelo Ministério da Educação do Brasil (1999, p. 137), através da Secretaria de Educação Média e Tecnológica, admite-se que esse problema vem ocorrendo há anos:
A perspectiva dos estudos gramaticais na escola até hoje centra-se, em grande parte, no entendimento da nomenclatura gramatical como eixo principal; descrição e norma se confundem na análise da frase, essa deslocada do uso, da função e do texto. [...] O estudo gramatical aparece nos planos curriculares de Português, desde as séries iniciais, sem que os alunos, até as séries finais do Ensino Médio, dominem a nomenclatura. Estaria a falha nos alunos? Será que a gramática que se ensina faz sentido para aqueles que sabem gramática porque são falantes nativos? A confusão entre norma e gramaticalidade é o grande problema da gramática ensinada na escola. O que deveria ser um exercício para o falar/escrever/ler melhor se transforma em uma camisa de força incompreensível.
Assis Rocha (2007, p. 16) faz uma crítica direta ao estudo da gramática descritiva em instituições de ensino de vários níveis. O autor considera inútil essa prática:
[...] ao sair da escola fundamental, média ou superior, a imensa maioria dos indivíduos vai precisar é da língua padrão — falada ou escrita — para ingressar
36
Os chamados Parâmetros Curriculares Nacionais são diretrizes propostas pelo Governo Federal para a educação básica no Brasil. São dirigidos aos professores para orientá-los sobretudo na elaboração dos planos de curso das disciplinas do Ensino Fundamental e do Ensino Médio no Brasil.
no mercado de trabalho ou para se tornar um cidadão engajado na sociedade em que vive. Para esse cidadão, de quase nada vai adiantar o estudo descritivo da língua que ele usa em casa ou o estudo de textos literários.
De fato, se a gramática descritiva é uma disciplina científica e não pedagógica, não deveria haver manuais didáticos baseados nela, mas não é o que acontece. Muitas publicações voltadas para o ensino do português como língua materna em escolas da educação básica no Brasil se propõem a trabalhar a gramática descritiva. É o caso da obra Português: Linguagens, de William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães (2003), muito adotada por escolas tanto da rede pública quanto particular. A obra abrange uma coleção de 4 livros para o Ensino Fundamental (do 6º ao 9º ano) e três livros ou um volume único para o Ensino Médio. Nesta última publicação, na contracapa, temos a seguinte declaração sobre a proposta da obra: “O trabalho com a gramática privilegia os conteúdos essenciais para a leitura e a produção de textos, mas oferece também atividades de revisão de gramática descritiva”.
Os autores de manuais como o citado optam pela gramática descritiva, no intuito de se aproximarem da realidade linguística dos alunos, pois acreditam que, assim fazendo, tornarão o material didático mais interessante para os estudantes. Assis Rocha (2007, p. 15-16) fala do tipo de linguagem que tem sido privilegiado em sala de aula:
Parece estar havendo um equívoco com certos professores de Português e mesmo com determinados autores que tratam do assunto, com relação ao tipo de liguagem que se deve ensinar na escola. Com o intuito de tornar o ensino da língua materna mais soft e mais light, alguns professores se deixam levar pelo charme e pelo glamour da linguagem criativa, literária e privilegiam o aspecto recreativo, lúdico e artístico da linguagem, chegando mesmo, muitas vezes, a negligenciar ou desdenhar o ensino da língua padrão. O argumento utilizado é sempre o mesmo: as aulas de Português são maçantes, estéreis, cansativas — é preciso fugir da rotina, da mesmice... Em outros casos, com o mesmo objetivo, os professores preferem privilegiar o estudo da linguagem que o aluno traz de casa.
O resultado da falta de foco no ensino da língua padrão é que os alunos não progridem no processo de domínio do próprio idioma. Assis Rocha (2007, p. 63) acrescenta o seguinte a respeito desta situação:
Sob o ponto de vista exclusivamente científico, não há dúvida de que a língua é um fenômeno oral, e como tal deve ser analisada (ROCHA, 1998b). Parece haver, no entanto, um equívoco lastimável de alguns linguistas, que querem levar para a sala de aula o estudo científico da linguagem humana, esquecendo- se de que a sociedade letrada em que vivemos prestigia, enfatiza e privilegia o domínio da língua padrão pelo indivíduo.
Como afirmamos anteriormente, essas questões a respeito da gramática são polêmicas e subjetivas. Fazer ou não estudo gramatical em sala de aula depende de uma série de questões. De fato, o ensino da língua padrão nas escolas não precisa ser feito através do referido estudo, mas há contextos em que o mesmo é adequado e até necessário, como é o caso do curso de Licenciatura em Letras, de Ensino Superior, que forma professores de língua portuguesa e de línguas estrangeiras. Esses profissionais obviamente precisam ter um domínio profundo das gramáticas das línguas.
Por fim, vale a pena ressaltar o que diz José Carlos de Azeredo (2010, p. 131) a respeito das gramáticas descritiva e normativa:
(...) deixemos claro o seguinte: qualquer gramática normativa é necessariamente também uma gramática descritiva, pois só se pode prescrever uma forma da linguagem (prescrição) se ela foi preliminarmente identificada mediante uma descrição. A rigor, uma gramática normativa não passa de uma descrição da variedade padrão da língua apresentada a seus usuários como modelo de uso supradialetal e socialmente prestigioso.
A afirmação acima é muito importante, porque explica de modo simples a relação entre os dois tipos de gramática em questão, evidenciando o caráter abrangente da gramática descritiva. Vejamos, nos próximos tópicos, as gramáticas ligadas aos modelos da Linguística Contrastiva.