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O termo semântica vem do grego semantikós (sema, signo, sinal). É a ciência que estuda o significado, em todos os sentidos do termo. Seu campo investigativo é bastante amplo, abarcando tanto a linguagem humana quanto, por exemplo, a de softwares.

A Semântica Linguística é parte da Semiótica, que é a ciência que estuda o sistema de signos verbais e não-verbais das línguas naturais. Neste caso, ela analisa a relação entre signo e referente sem considerar as implicações sociológicas e psicológicas da linguagem (ZINGARELLI, 1995). Estuda a relação de significação nos signos e a representação do sentido dos enunciados.

O signo linguístico — a palavra — possui dois aspectos inseparáveis: um material e outro imaterial. O aspecto material são os sons da fala e as letras, na escrita. O aspecto imaterial é o significado da palavra. Muitos linguistas, como Saussure, Pierce, Hjelmslev, Guiraud, Greimas, Barthes, Borba, Bakhtin, Fillmore e Vigotsky, dedicaram-se ao estudo do signo linguístico e suas significações.

No âmbito das investigações sobre significação das palavras e de suas relações, a Semântica trata de fenômenos como sinonímia, antonímia, homonímia, paronímia, polissemia; denotação e conotação; figuras e vícios de linguagem. O estudo do significado pode ser feito a

partir de ângulos diferentes, por isso a Semântica, enquanto disciplina, possui vários ramos: Textual, Cognitiva, Lexical, Argumentativa, Discursiva etc.. A Semântica Frásica, por exemplo, é considerada um ramo da Linguística Descritiva e trata do conteúdo proposicional das frases. Irène Tamba-Mecz (2006, p. 8-9) destaca duas vertentes da Semântica:

[...] a estruturação linguística do sentido sugere dois tipos de abordagens semânticas das línguas: uma, voltada para a compreensão e a formulação das significações no quadro da “palavra” e da “frase”; a outra, exclusivamente interpretativa, busca os dispositivos linguísticos de encadeamento, de progressão e de coerência, que permitem compreender enunciados sequenciais.

Como vimos no tópico 3.3.1 desta tese, a preocupação com a linguagem, com a significação e com a interpretação dos signos linguísticos é manifestada desde pelo menos o século V a.C. com os filósofos gregos. Mas o termo semântica foi usado pela primeira vez somente em 1883, no artigo As leis intelectuais da linguagem: fragmento semântico, de Michael Bréal, para designar uma “ciência da significação”. Em 1897, este autor francês publicou a obra Ensaio de semântica (ciência das significações). Na época, pretendia-se criar uma ciência que estudasse as mudanças de sentido das palavras. A ideia era identificar os mecanismos reguladores dessas mudanças, através de um estudo diacrônico. A investigação era restrita ao léxico, porém, posteriormente percebeu-se que as significações linguísticas extrapolavam os limites das palavras. Então, a partir de 1930, a abordagem histórica começou a ser substituída pela investigação sincrônica e pela abordagem estruturalista, que se baseava em princípios saussurianos e focava os enunciados linguísticos. Nos anos 60, surge a chamada Semântica Estrutural, baseada na dupla articulação da linguagem: plano do conteúdo e plano da expressão. A proposta era realizar análise dos morfemas, decompondo-os em unidades menores, chamadas de semas ou traços semânticos.

Assim, atribuem-se três períodos à história da Semântica: o evolucionista; o misto; e o período das teorias formalizadas. O evolucionista aconteceu de 1883 a 1931 e foi chamado assim, porque, nessa época, estava em evidência o Evolucionismo, através dos estudos desenvolvidos pelo cientista inglês Charles Robert Darwin54, no campo das ciências naturais, e pelo filósofo

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Charles Robert Darwin (1809-1882) publicou, em 1859, a sua obra On the origin of species by means of natural

selection or the preservation of favoured races in the struggle for life, identificada em português simplesmente como A origem das espécies. Trata-se de uma obra revolucionária, em que Darwin defende a ideia de que as espécies

evoluem a partir de um ancestral comum, através da chamada seleção natural. A teoria evolucionista de Darwin influenciou inúmeros campos de estudo.

também inglês Herbert Spencer55, no campo da Sociologia.

Assim, o período evolucionista se apoiava em três princípios:

1) o objeto de estudo da Semântica é a evolução das significações das palavras; 2) leis gerais norteiam a referida evolução;

3) depreendem-se as referidas leis gerais através da observação dos fatos de sentido.

Na época desse primeiro período de desenvolvimento da Semântica como ciência autônoma, havia a preocupação em se estabelecer seu domínio e seu objeto de investigação. Teve como principais representantes Michael Bréal e Hermann Paul. Bréal, considerado o fundador da Semântica Moderna, estudou cientificamente a multiplicação de significado das palavras, chamando esse fenômeno de polissemia. Hermann Paul deu atenção especial à mutação semântica das palavras; defendeu a ideia de que as palavras têm uma significação usual e uma significação ocasional.

O segundo período de desenvolvimento da Semântica, chamado misto, foi de 1931 a 1963 e caracterizou-se pela coexistência de estudos evolucionistas remanescentes e estudos sincrônicos, sobre a estruturação léxica. Este último tipo de estudo se desenvolveu por influência do estruturalismo saussuriano. Propunha analisar a língua como um sistema em si mesmo; a significação deixa de ser considerada somente como propriedade inerente às palavras e passa a ser estudada a partir das relações internas no sistema linguístico. Apresenta-se a noção de léxico como sendo um conjunto de unidades lexicais, o qual deveria ser estudado sob o aspecto sincrônico; por isso se fala em Semântica Sincrônica ou Lexicologia. Os semanticistas desse segundo período revelaram que o léxico se estrutura em multiestruturas independentes ou campos. Esse princípio levou à formação de duas correntes europeias: a dos campos semânticos e a da análise sêmica. A primeira corrente citada foi iniciada por Gunther Ipsen e desenvolvida por Jost Trier; nela defende-se que o léxico compõe-se de campos, os quais são unidades de conceito que permitem identificar as relações de sentido das palavras. Articula-se um campo conceitual ou associativo a um campo lexical. A segunda corrente — a teoria da análise sêmica — analisa o léxico a partir de seus elementos distintivos, que, como já afirmamos, são chamados de semas.

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Herbert Spencer (1820-1903) foi um profundo admirador de Charles Darwin; procurou aplicar as ideias do Evolucionismo do célebre naturalista ao campo da Sociologia, por isso, é considerado o Pai do chamado Darwinismo Social.

Dois representantes desse segundo período são Stephen Ullmann e Pierre Guiraud. Segundo este último, a Semântica tem sido instrumento de investigação não só da Linguística, mas também de outras ciências, como a Psicologia e a Lógica.

O terceiro período é o das teorias linguísticas e do tratamento informático e teve início em 1963 com a Semântica Formal, desenvolvida com base na gramática gerativa de Noam Chomsky. Os estudos de gramática gerativa eram autônomos e formais e não consideravam o componente semântico. Em 1965, Chomsky reformula sua teoria e concebe a gramática gerativo- transformacional, dando atenção não só ao aspecto sintático do enunciado, como também ao aspecto semântico-interpretativo. Passava-se de uma semântica lexical para uma semântica da frase. As significações conceituais dão lugar às significações relacionais, em que se combinam significados estruturais e lexicais. A visão diacrônica é excluída, prevalecendo a sincrônica.

Chomsky defendia que uma teoria linguística deveria atualizar a gramática universal. Esta é concebida como inata e capaz de explicar a competência linguística humana e a aprendizagem natural das línguas. Desenvolvem-se, então, estudos ligando a Semântica à cognição.

Houve, ainda neste terceiro período, as teorias pragmático-enunciativas da significação, com destaque para três correntes: a pragmática lógica; o pragmatismo dos atos de linguagem; e a semântica enunciativa.

De acordo com Ataliba de Castilho (2010, p. 122), destacam-se atualmente três campos de estudo em Semântica — os quais esse linguista afirma serem “de difícil delimitação”:

[...] a Semântica Léxica, que trata dos sentidos contidos nas palavras, a Semântica Gramatical ou composicional, que trata dos significados contidos nas construções, e a Semântica Pragmática, que trata das significações geradas no “intervalo” que medeia entre os locutores e os signos linguísticos. [...] Nesse intervalo, surgem significados não contidos nas palavras nem nas construções gramaticais. Tento caracterizar essas áreas especificando os respectivos objetos empíricos através dos termos sentido, significado e significação.

Castilho (ibid.) esclarece que sentidos, significados e significações “são conceitos complexos, que ocorrem simultaneamente”.

Linguistas como Jeffrey Gruber, Charles Fillmore e Ray Jackendoff desenvolveram estudos recentes sobre a relação entre funções semânticas e sintaxe. Segundo esses linguistas, as tradicionais funções sintáticas não são suficientes para explicar certas relações estabelecidas entre algumas sentenças. Eles observaram, por exemplo, que frases muito parecidas estruturalmente

por vezes divergiam semanticamente; e frases cujas estruturas eram muito diferentes expressavam o mesmo sentido. Para resolver questões como essas, foi desenvolvida a teoria dos papéis temáticos. Estes são as funções semânticas atribuídas aos argumentos de um predicador. Quando esse predicador é, por exemplo, um verbo — este é um atribuidor por excelência —, papéis temáticos são atribuídos por ele ao sujeito e aos complementos desse verbo em uma dada sentença (CANÇADO, 2009, p. 112). Alguns papéis temáticos são: agente, paciente, tema, experienciador, locativo, causa, origem, destino, alvo, fonte. Analisemos alguns exemplos típicos.

Sentença 1: O João quebrou o vaso. Sentença 2: O vaso quebrou.

Sentença 3: O vaso foi quebrado por João.

Ao compararmos as três sentenças, verificamos que as três expressam um único evento de maneiras diferentes. Temos o verbo quebrar como atribuidor dos papéis temáticos; seus argumentos são (o) João e o vaso. As funções sintáticas dos argumentos mudam de frase para frase, mas as funções semânticas não; isso leva à conclusão de que há, nesses exemplos, uma relação de dependência semântica entre o verbo quebrar e seus argumentos.

Nas três sentenças, o vaso exerce o papel temático de paciente da ação; sintaticamente, esse argumento é objeto direto na sentença 1, e sujeito nas sentenças 2 e 3. Já o argumento (o) João é agente tanto na primeira quanto na terceira sentença; sintaticamente essa expressão é sujeito na primeira frase, e é agente da passiva na segunda.

Através desses exemplos, podemos perceber que a Sintaxe não é capaz de indicar a dependência de sentido que pode se estabelecer entre um verbo e seus argumentos; por isso, desenvolveu-se a teoria dos papéis temáticos; o problema é que não há consenso entre os semanticistas sobre quantos e quais papéis temáticos precisam existir. Diferentes linguistas já propuseram listas bastante extensas desses papéis.

Outras teorias semânticas vêm sendo desenvolvidas para se entender as relações de significado linguístico. Recebeu bastante destaque a teoria dos frames, desenvolvida pelo linguista americano Charles Fillmore, considerado um dos fundadores da Linguística Cognitiva. Um frame é um sistema de categorias estruturado com base em uma motivação contextual. Em

termos práticos, a proposta do referido linguista é a de agrupar as palavras segundo a semelhança de significado entre elas e criar papéis temáticos para cada grupo formado.

Essa teoria de Fillmore é proveniente de uma semântica empírica e não da formal. É interessante destacar que, de acordo com Fillmore, as palavras representam a categorização de nossas experiências. Cada categoria se realiza a partir de uma motivação situacional.

Acredita-se que a teoria dos frames semânticos seja uma importante contribuição para se compreender, por exemplo, os motivos que levam falantes de uma determinada língua a criarem categorias e palavras que as representem.

No próximo tópico, verificaremos a importância da Semântica para o estudo da sintaxe do período composto, foco gramatical desta tese.