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A Análise Contrastiva foi o primeiro modelo de investigação da Linguística Contrastiva a ser desenvolvido. Como vimos no tópico 1 deste capítulo, Charles Fries e Robert Lado foram os responsáveis pelo seu surgimento em meados do século XX. Baseia-se em estabelecer-se um contraste entre dois sistemas linguísticos — o da língua materna (LM) e o da língua estrangeira (LE) — para se identificarem semelhanças e diferenças entre elas, mas sobretudo as diferenças. A partir desta identificação, busca-se elaborar uma gramática contrastiva que apresente uma hierarquia das correspondências entre as estruturas fonológicas, morfológicas e sintáticas, para se identificar os pontos que irão gerar dificuldades no aprendizado da LE, e controlar as possíveis interferências24 (GARGALLO, 1993). Tem, portanto, uma finalidade claramente didática. Adja Balbino Durão (1999) esclarece:

[A Análise Contrastiva] se interessa pelos efeitos que as diferenças e semelhanças existentes entre a estrutura da língua materna e da língua meta

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produzem na aprendizagem da LE, estabelecendo uma relação de causalidade entre o grau de dificuldade de aprendizagem desta LE e o grau de divergência contrastiva com a LM.

Chamado também de Versão Forte, este modelo tem sua base teórica na Linguística Estrutural25 e no Comportamentalismo26. Concebe o processo de aprendizagem de uma língua estrangeira como a aquisição de uma série de hábitos, baseados no binômio estímulo-resposta. Segundo Fernandez Gonzalez (1995), as línguas são consideradas “conjuntos de hábitos adquiridos que respondiam a estímulos externos”. O erro é visto como fator negativo, pois representa um desvio da norma da língua que se está aprendendo. De acordo com esse modelo, a principal causa do erro é a interferência da língua materna sobre a aprendizagem da língua estrangeira.

O objetivo principal dos estudos contrastivos era melhorar o processo de ensino- aprendizagem de idiomas, por isso seu foco de investigação eram as divergências linguísticas. Segundo este modelo de análise, são as diferenças entre as línguas que causam as difculdades da aprendizagem da LE. A estratégia para se superar as dificuldades é realizar um trabalho de graduação dessas diferenças. De acordo com Weinreich (1953), quanto maior for a diferença entre dois sistemas, isto é, à medida que sejam mais numerosas as formas e padrões de cada um, maior será a dificuldade de aprendizagem e onde mais interferências acontecerão.

A Análise Contrastiva serviu de base para a criação do método audiolingual — como explicamos no tópico 2 deste capítulo —, para a produção de materiais didáticos e para o planejamento de cursos de idiomas.

Ronald Wardhaugh (apud DURÃO, 2004), em 1970, criticou o modelo sobretudo por este desprezar a produção escrita e oral dos alunos. Esse autor apoia a denominada Versão Fraca, centrada na produção linguística dos aprendizes. Porém, essa proposta tinha a mesma base teórica que a Versão Forte, pois se apoiava no fator transferência: positiva, quando a LM e a LE eram semelhantes, e negativa, quando eram diferentes. Analisaremos a versão fraca no próximo tópico.

O modelo de Análise Contrastiva foi muito criticado durante a década de 70 do século XX. Adja Balbino Durão (2004) aponta três críticas como as mais relevantes. A primeira é a respeito da base behaviorista, combatida por Chomsky. Este linguista recebeu pleno apoio dos

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Ver nota 6.

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teóricos da área ao defender a ideia de que a língua é uma faculdade vinculada ao sistema cognitivo do ser humano, e não um conjunto de hábitos adquiridos.

A segunda crítica refere-se à ideia de que todas as diferenças entre LM e LE necessariamente representariam dificuldades e provocariam erros durante o processo de aprendizagem da LE. Pesquisas indicaram que nem sempre isso acontecia, ou quando acontecia, muitos erros eram rapidamente superados.

A terceira crítica é direcionada ao pressuposto de que a interferência seria a única causa de dificuldades e erros. Pesquisas — sobretudo as de Dulay, Burt e Krashen — também derrubaram esse pressuposto. Muitos outros fatores influenciavam a ocorrência de erros por parte dos alunos de LE, tais como falta de motivação, idade, falta de aptidão para o estudo de línguas etc.. Segundo Vandresen (1988), muitos erros aconteciam devido à estrutura intralinguística da LE. Os verbos irregulares são exemplo disso: em inglês, *goed27, em lugar da forma correta went; em português, *fazi, em vez do correto fiz.

Vandresen (1988) chama a atenção para uma das questões mais criticadas nesse modelo de análise: o fato de estar centrado em evitar a ocorrência de erros, e não em desenvolver a comunicação. O professor devia corrigir o aluno no ato em que esse cometia algum erro ao se manifestar através da LE. Com isso, a espontaneidade e a interação em sala de aula, por exemplo, ficavam comprometidas.

Essas e outras críticas fizeram com que linguistas aplicados, já na década de 60, se desinteressassem pelo modelo de Análise Contrastiva, o que levou a formulação do próximo modelo, o de Análise de Erros.

Adja Balbino Durão (2004), porém, afirma o seguinte em defesa do modelo de Análise Contrastiva:

Apesar de o modelo de Análise Contrastiva ter sido criticado, ele contribuiu de forma inegável para o desenvolvimento das pesquisas sobre os universais da linguagem, para o estudo das variações diacrônicas e dialetais, para o estudo da aquisição da linguagem, bem como para o campo da tradução, além de propiciar uma base para o desenvolvimento de materiais eficazes para o ensino de línguas, motivo pelo qual reaparece, mesmo que modificado, no modelo de Análise de Erros e, posteriormente, no modelo de Interlíngua.

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Vandresen (1988) também aponta contribuições da Análise contrastiva para o ensino- aprendizagem de línguas estrangeiras, dentre as quais destacamos: o auxílio no planejamento de cursos; e suporte para que docentes avaliem materiais didáticos, para que preparem seus próprios materiais.

2.4.1.1. A Análise Contrastiva e o fenômeno da interferência linguística

O fenômeno da interferência da língua materna sobre a língua estrangeira é considerado natural e corriqueiro e já foi amplamente tratado por vários estudiosos das ciências da linguagem. Segundo Adja Balbino Durão (2008), foi identificado “como influência translinguística nas pesquisas desenvolvidas a partir de finais do século XIX no campo das línguas em contato”. O linguista Uriel Weinreich (1926-1967) deu importante contribuição aos estudos sobre o tema, sobretudo através da obra Languages in contact: findings and problems (Línguas em contato: aspectos e problemas), publicada em 1953. Neste trabalho, o autor defende que o fenômeno da interferência é um desvio da norma de uma língua por influência de outra língua, ocorrendo, esse fenômeno, na produção oral de indivíduos bilíngues. Este é sistemático e previsível, pois ocorre devido a fatores estruturais (linguísticos) e socioculturais. Estes últimos são, por exemplo, raça, sexo, idade, religião, status social, ocupação e religião. O referido fenômeno pode ocorrer em qualquer nível da língua, ou seja, fonológico, morfológico, sintático ou semântico. Analisemos abaixo dois exemplos de interferência do português língua materna no italiano como língua estrangeira:

EXEMPLO 1:

O número 16, em italiano, se diz sedici; é muito comum os estudantes brasileiros dizerem diciasei (forma agramatical), por interfrência da forma dezesseis, da língua portuguesa.

EXEMPLO 2:

Também é muito comum a confusão que os brasileiros fazem entre os verbos ter, do português, e avere (ter) e esserci (haver, estar presente), do italiano. Consideremos a seguinte frase: Tem uma pessoa na praça. Os brasileiros, ao tentarem dizer essa frase em italiano, costumam dizer

erradamente: Ha una persona nella piazza. A frase correta em italiano é: C’è una persona nella piazza.

Segundo Maria Youssef Abreu (2008), as pesquisas de Weinreich influenciaram os estudos de Robert Lado centrados no ensino-aprendizagem de línguas. Como já vimos, a obra Linguistics across cultures (1957), deste linguista, foi a grande responsável pela fundação da Linguística Contrastiva.

Em relação ao fenômeno da interferência linguística, Robert Lado (1957) afirma que “os indivíduos tendem a transferir as formas, os significados e a distribuição das formas e dos significados da língua/cultura deles para a língua/cultura estrangeira”. Paolo Balboni (1996) também afirma o seguinte sobre essa questão: “As noções gramaticais, semânticas e comunicativas adquiridas na L1 (língua materna), e delineadas cognitivamente através de um processo de alfabetização, são automaticamente transferidas à aprendizagem da L2 (língua segunda e estrangeira)”. Anna Ciliberti, na obra Manuale di Glottodidatica (1997), também dedica atenção ao fenômeno em questão:

Os erros são cometidos por causa do fenômeno da interferência, ou transfer negativo, segundo o qual aquilo que está sendo aprendido é influenciado por aquilo que já foi aprendido. No caso da aprendizagem linguística, nos pontos em que as duas línguas são símiles, ocorrerá uma facilitação da aprendizagem devido à interferência positiva; naquilo em que as duas línguas são diferentes, o aluno encontrará dificuldade. (tradução nossa)

Dependendo do autor, o fenômeno da interferência recebe nomes diferentes. Referindo-se à qualidade da interferência, a que Ciliberti faz alusão acima, Enrico Borello (1991) esclarece:

Geralmente o termo interferência é aplicado para indicar o reflexo negativo de uma língua na aprendizagem de uma outra. A interferência positiva, isto é, aquela que ajuda na aquisição de uma nova competência linguística é frequentemente identificada através do termo transfert.

Na verdade, a Psicologia Behaviorista — uma das bases teóricas da Análise Contrastiva — propôs dois tipos de transferência: uma positiva e outra negativa. A positiva auxilia o processo de aprendizagem da LE; a negativa dificulta-o. Segundo Adja Balbino Durão (2008),

Van Oberbecke afirmou que o conceito de interferência procedeu da Física, significando “o encontro de dois movimentos ondulatórios com o resultado de um esforço da onda ou, ao contrário, da anulação da onda”. Esse conceito passou para outros ramos científicos, como Eletrônica, Pedagogia, Psicologia, até chegar à Linguística e à Linguística Aplicada. Em todas essas áreas, o termo reflete um sentido negativo, equivalente à “perturbação”.

Como já afirmamos, o modelo de Análise Contrastiva da Linguística Contrastiva está fundado nesse conceito de interferência linguística. Segundo este modelo, aprender uma determinada língua estrangeira pode ser fácil ou difícil dependendo das semelhanças e das diferenças que se estabeleçam entre língua materna do aprendiz e essa língua estrangeira. Quanto mais diferenças existam, mais difícil será o processo de aprendizagem.

Esse princípio está ligado ao conceito de distância interlinguística28. Segundo Santos Gargallo (1993), quanto maior for essa distância, maiores serão as dificuldades de aprendizagem e maiores serão as possibilidades de ocorrerem interferências. Por distância interlinguística deve- se entender grau de parentesco entre duas ou mais línguas, considerando a origem das mesmas. A distância entre as línguas românicas ou neolatinas, por exemplo, é pequena, porque elas têm o mesmo ancestral, ou seja, originaram-se do latim vulgar, por isso, são parecidas nos seus aspectos fonéticos, morfológicos, sintáticos e semânticos. A família das línguas românicas é composta por línguas como o português, o espanhol, o italiano, o francês e o romeno.