4 Analysing the case
4.2 Participants
A dislexia ainda é uma disfunção pouco conhecida, porém sabe-se que é hereditária e que interfere no registro, processamento da informação ou na elaboração da resposta. O histórico escolar do aluno disléxico é muito semelhante, pois 80% deles têm sérias dificuldades para ler e são quase sempre repreendidos pelos respectivos professores, por essa limitação.
Esses docentes não conseguem compreender, na maioria das vezes, como por exemplo, alguém esteja acima da média em Matemática e tenha sérias dificuldades de alfabetização: escreve palavras ininteligíveis ou não consegue ler. Além disso, o disléxico é acusado de ser desorganizado e esquecido e é definido, por conseguinte, como preguiçoso. Segundo Baroja, Paret e Riesgo (2000), é freqüente que a dislexia se confunda com outros problemas de adaptação escolar, principalmente com os de nível mental e apatia em relação ao estudo. Segundo as autoras,
Isto é devido a uma visão superficial da problemática do aluno, sem que se tenha estudado as causas que motivam sua falta de rendimento escolar, e a uma atitude de espera de que, à medida que o discente vai amadurecendo psiquicamente, suas deficiências resolvam espontaneamente. (BAROJA; PARET; RIESGO, 2000, p. 105).
Um dos grandes problemas para alguns disléxicos é a dificuldade de concentração. Por isso, eles podem se tornar muito confusos e inconsistentes. Visto que há oscilação no nível de capacidade de concentração, há dias em que elas podem melhor corresponder à expectativa escolar de ensino-aprendizagem e outros em que não. Nesse último caso, o aluno se mostra disperso e parece ter esquecido tudo o que aprendera até então. Com isso, os docentes desinformados podem julgá-los de desatentos e negligentes, por não levarem seus estudos a sério.
A criança que não sabe ler ou o adolescente que lê com dificuldade fracassa na maioria das matérias escolares, como também afirmou Shaywitz (2006). São incapacitados de interpretar textos ou exercícios com lógica e coerência. Conforme Condemarin e Blomquist (1989, p. 16),
[...] aprender a ler é uma parte do desenvolvimento total da linguagem. Da mesma forma, as dificuldades da leitura não podem considerar-se de maneira isolada, mas formando parte de uma deficiência na estrutura e (ou) organização da linguagem geral.
Para melhora no ensino-aprendizagem do aluno com dislexia, é importante a aceitação e a adaptação do próprio disléxico às práticas pedagógicas adotadas pelo educador. Isso se fundamenta na principal característica dos disléxicos que é a dificuldade da relação entre a letra e o som (fonema e grafema).
Condemarin e Blomquist (1989) afirmam que os disléxicos com mais de doze anos (incluindo os que cursam o ensino médio), normalmente, não revelam os sinais descritos na sua leitura oral. No entanto, segundo elas, é fácil de detectá-los na leitura silenciosa. Alertam que os alunos disléxicos, ao ler, realizam uma leitura subvocal, ou seja, murmuram ou movem os lábios, pois se vêem obrigados a pronunciar as palavras para poder compreendê-las. Consequentemente, por utilizarem a mesma técnica da leitura oral, a velocidade torna-se muito lenta.
Devem-se, portanto, salientar métodos de ensino diferenciados que treinem a memória imediata, a percepção visual e a auditiva. Dessa forma, é sugerida a adoção do
método multissensorial17, cumulativo e sistemático para que o aluno utilize todos os sentidos.
Os disléxicos podem superar, consideravelmente, o distúrbio de aprendizagem. Mas, isso depende de uma boa orientação pedagógica e de uma instrução organizada. Para esse fim, o docente deve se preocupar em conhecer determinados princípios metodológicos que possibilitem educar esses alunos. Condemarin e Blomquist (1989) propõem que os métodos tradicionais devem ser substituídos por um sistema mais fonético ou analítico, a aprendizagem visual deve ser reforçada, o material de leitura deve ser estimulante e interessante (variando de acordo com a faixa etária do aluno) e, principalmente, o ensino deve ser individual e intenso.
O docente, paralelamente ao psicólogo, deve trabalhar para a educação para a leitura dos alunos portadores de dislexia. Porém, para que isso seja possível, o professor precisa obter, em princípio, além do conhecimento do ensino de leitura básica e do conhecimento dos métodos terapêuticos das dificuldades da leitura, investigações e teorias relativas à leitura terapêutica e de algumas conclusões atuais da aprendizagem e das alterações desta.
O professor deve ter habilidade para organizar, adaptar ou criar materiais e aplicar conhecimentos teóricos às necessidades do aluno e a seu problema específico. Destaca-se, além disso, que se deve possuir capacidade de estabelecer uma relação positiva com os pais dele, a fim de obter sua colaboração na solução das dificuldades da criança.
Conforme Estienne (2001), uma boa relação afetiva entre o “reeducador” e o aluno disléxico é significativa para a recuperação das dificuldades de leitura. Leva-se em conta que esse estudante, normalmente, é triste e, às vezes, deprimido. Também pode ocorrer em menor proporção de ser agressivo devido a seus fracassos nos esforços para ler bem. Tanto os pais como o professor tendem a considerar tais atitudes como negligência, estigmatizando ainda mais o estudante.
Para que haja resultado positivo é necessário seguir determinadas recomendações. O “reeducador”, sendo professor, deve evitar avaliar negativamente os erros disléxicos e fazer as avaliações oralmente, na medida do possível. Além disso, a tarefa fundamental da reeducação é descobrir, junto com a criança e o adolescente, as fontes de sua língua, manipulando-as com ele. Dessa forma, reeducar os disléxicos, segundo Estiene (2001),
17 O método multissensorial busca combinar diferentes modalidades sensoriais no ensino da linguagem escrita às crianças. Ao unir as modalidades auditiva, visual, cinestésica e tátil, este método facilita a leitura e a escrita ao estabelecer a conexão entre aspectos visuais (a forma ortográfica da palavra), auditivos (a forma fonológica) e cinestésicos (os movimentos necessários para escrever aquela palavra).
seria exercitar a linguagem em todas as suas formas, pois cada palavra tem um significado (valor denotativo), mas também apresenta um eco ligado às vivências pessoais do reeducador e do discente (valor conotativo). Isso demonstra que
Uma das tarefas do reeducador é reconciliar a criança consigo mesma e com a linguagem. Sem dúvida, a reeducação é um em preendimento mais amplo e profundo que a simples aprendizagem de uma língua, mas, na maior parte dos casos, investir no potencial verbal da criança é também reinvestir nela, social e psicologicamente. Dessa perspectiva, não se parte de um programa pré- estabelecido a partir de lacunas constatadas, mas estimula-se a criança a exprimir-se com suas próprias palavras. São estimulados todos os meios de expressão (desenho, modelagem, texto livre etc). (ESTIENNE, 2001, p. 199).
Estienne (2001, p. 206) propõe ainda que, na reeducação dos disléxicos, devemos pensar ao mesmo tempo:
• na abordagem do ato de ler e escrever;
• na definição e nas condições de sua aprendizagem;
• no conceito de dislexia, levando em conta diversas hipóteses e certezas;
• nas concepções de sua terapia, especificando os objetivos e os meios, também justificando- os.
Além disso, Estienne (2001, p. 206) pondera que o especialista não deve limitar-se a uma técnica ou a uma escola, a uma corrente de idéias, a uma opção definitiva. Ela afirma, então, que o procedimento deve ser determinado por:
• objetivos precisos e mensuráveis, sujeitos a controle, no sentido de verificar se eles foram alcançados;
• objetivos estabelecidos de comum acordo, por meio de um contrato mútuo por escrito;
• tempo limitado para evitar tratamentos intermináveis;
• estudos estatísticos para objetivar e comparar os diferentes métodos de reeducação.
Valett (1990) alerta que as crianças disléxicas precisam que as escolas estejam organizadas de forma a permitir e encorajar que elas aprendam e progridam em seus próprios ritmos. Ainda afirma que o agrupamento tradicional baseado em idade é prejudicial para elas e outras excepcionalidades. Logo, todas as criança devem ser colocadas em classes e grupos de aprendizagem de acordo com a sua realização funcional. O agrupamento de realização desenvolvimentista em leitura é, segundo o estudioso, essencial para portadores de dislexia e deveria ser exigido em todas as escolas públicas. Conforme o autor,
Toda criança deve ter um Plano Educacional Individual projetado para atender às suas necessidades. Este plano deve incluir objetivos instrucionais e estratégias de aprendizagem. Todos os professores envolvidos necessitam conhecer este plano, assim como os estudantes e os pais. Estes objetivos individuais precisam ser reavalidados periodicamente e revisados. (VALETT, 1990, p. 281).
CAPÍTULO III. ATENDIMENTO AO JOVEM DISLÉXICO NO DISTRITO FEDERAL
Neste capítulo, serão apresentadas e analisadas as informações colhidas no decorrer da pesquisa. Inicialmente, apresentaremos o resultado do trabalho de campo realizado nas duas escolas junto aos professores de Português e orientadores educacionais. Em seguida, abordaremos o papel da família para o aluno que possui dificuldade de aprendizagem, especialmente a dislexia. Por fim, falaremos a respeito da conduta no atendimento nas instituições do Distrito Federal voltadas a estudantes da rede pública de ensino.