6 Diskusjon
6.3 Påvirkningskraft
“Quanto a outros divertimentos, nada, apenas andar pelas ruas dando topadas nas pedras, coisa que em nada se ganha à exceção de calos e roturas nos sapatos. Reduzido a ficar em casa, por não ter se quer aonde ir, e não achar prazer em andar correndo ruas, acho-me na maior insipidez possível, ansioso de deixar essa vida tediosa do mal ladrilhado São Paulo”74
.
Os comentários entediados, mórbidos e, por vezes, irritadiços de Azevedo, traduzem a necessidade do entretenimento, além de compreender o quão difícil era a vida dos jovens neste período. Os acadêmicos do largo São Francisco se entediavam, até os anos de 1860, com a falta do que fazer e por, simplesmente, não ter aonde ir. Aqui se destaca a importância dos estabelecimentos que, de forma singela aos moldes da época, possibilitaram esta prática. Esta vertente de lazer comercial, também, foi trazida pelos imigrantes, pois nem todos foram trabalhar nos cafezais e recusaram-se a vida substitutiva dos escravos, sendo assim, lançaram-se a própria sorte na Cidade.
As aplicações dos costumes e tradições em frequentar determinados estabelecimentos, foram tidas como uma oportunidade de negócio, referenciados na terra natal dos imigrantes, que encontraram na rua, uma localização estratégica favorecida pelo sistema viário e de transportes. A implantação destes estabelecimentos se deu de forma pioneira no ramo e, a partir destes, começaram a se difundir para outros pontos na Cidade. O público estrangeiro era grande e os hábitos passaram a se misturar e se adaptar aos hábitos nativos.
A “Casa de Banhos da Sereia Paulista” é um destes [Figura 17], um ponto de encontro de caráter higienizador e social, frequentado apenas por homens, muitos da colônia alemã. Inaugurado em 1865, conforme anunciado pelo jornal o “Correio
74
Cf. Carta de Álvares de Azevedo a sua mãe Maria Luísa Silveira da Mota e Azevedo, em 120JUN.1849. In: AZEVEDO, 1946, p.110.
CAMINHOS E CELEBRAÇÕES 55 Paulistano”, que por algum tempo, publicava críticas sobre a falta que fazia tal estabelecimento na Cidade75, o imóvel pertencia ao Mosteiro de São Bento e dispunha de um poço para abastecimento de água, reservatórios, aquecimento e vários quartos com uma banheira de mármore em cada. O fragmento extraído do jornal traz valiosas curiosidades sobre como tempo livre era despendido no estabelecimento.
Figura 17 - Casa de
Banhos da Sereia
Paulista, localização: fazia frente ao Largo de São Bento no entroncamento das ruas: Boa Vista, São Bento e Florêncio de Abreu. Fonte: AZEVEDO, Militão Augusto de.
“Um personagem pitoresco adquiriu a Sereia Paulista. Trata-se de José Fischer, um húngaro alto, barbudo e ranzinza que havia chegado ao Brasil no ano anterior. Fischer reformou a casa e ao longo do tempo transformou a sala onde eram servidas as bebidas em restaurante. Ficou famoso pelos bifes à Leipzig, que ficaram popularizados como bifes à cavalo. Por um bom
tempo tornou-se um bom programa paulistano ir tomar banho na Sereia e depois jantar um bife com vinho húngaro que era uma novidade para os
brasileiros. Diz o antigo cronista que, o húngaro, levava ao pé da letra a metáfora de não tolerar que na sua casa ninguém falasse mais alto do que ele. Sabendo disso, os estudantes da Academia, por gozação, entravam em fila e iam cumprimentando em tom cada vez mais alto e Fischer respondendo ainda mais alto. No final da fila estavam aos berros”76
.
Reconhecida como a melhor taverna de São Paulo, seu proprietário tinha um temperamento bastante forte. Certa vez, espalhou-se um boato sobre os vinhos oferecidos por este estabelecimento não serem importados de seu país de origem. Irritado, solicitou que fosse publicada uma nota no jornal oferecendo a quem
75
Cf. OESTADODESÃOPAULO,29NOV.2014.
76
CAMINHOS E CELEBRAÇÕES 56 provasse tal difamação “um conto de réis”, caso contrário, passaria por mentiroso77[!]. O estabelecimento cedeu lugar ao Hotel Rebecchino78 em 1892.
Outra iniciativa que chamaria a atenção popular, especialmente, do gênero masculino, foi inaugurado na rua em 1877. Um prédio térreo de aproximadamente seis portas79, que dava frente à Rua da Quitanda, que se estendia até a outra extremidade do lote, na Rua Nova de São José. Trata-se do Stadt Bern.
O local se tornaria um importante ponto de encontro, pois proporcionava a seus usuários jogos de bocha, dispunha de um bonito jardim com tiro ao alvo e descanso em caramanchões. Um atrativo diferencial e catalizador. Sua atuação não se restringia apenas ao ramo de entretenimento, funcionava também como um pequeno bar. A distinção deste estava no cardápio, oferecia aos clientes o drink “Caramanchão Florido a Cerveja Bávara”80
,produzido por um alemão custando cada copo o equivalente a quatro vezes o valor do tradicional “Caramuru”81.
Apesar de interessante, este estabelecimento recebeu pouco enfoque popular, pois era destinado “exclusivamente às classes de alta renda da cidade82”, que ali podiam consumir.
Entre os hábitos e costumes das tradições alemãs, os quais permeavam uma rede de relações sociais, acabaram por induzir as massas a imitá-los. Foi através deste empreendimento que se introduziu e acabou por difundir, o hábito do chope na
77
Idem, Idem. 78
Mesmo cientes da funcionalidade anterior, uma casa de banho, foi somente em 1946 que a rede hoteleira Othon “marcaria a história da hotelaria na Cidade ao ser pioneira em oferecer banheiro privativo em todos os quartos. Entretanto, o local escolhido para a edificação deste estabelecimento não levou em consideração estas reminiscências históricas, sendo escolhida a Praça da Bandeira por razões diversas. Cf. O ESTADO DE S. PAULO, 13 Jan.2014.
79
Cf. BARBUY, 2001, p.115. 80
Cf. TAUNAY, 1921, p.299. 81
Até o final da década de 1830, a cachaça era a bebida alcoólica mais popular do País. Além dela, eram importados licores da França e vinhos de Portugal, especialmente para atender à nobreza. Nesse período a cerveja já era produzida, mas num processo caseiro realizado por famílias de imigrantes para o seu consumo. A bebida consumida pela população era a “Gengibirra” feita de farinha de milho, gengibre, casca de limão e água, essa infusão descansava alguns dias, sendo então vendida em garrafas ou canecas ao preço de 80 réis ou, a “Caramuru” feita de milho, gengibre, açúcar mascavo e água, esta mistura fermentava por uma semana e custava 40 réis o copo (CAVALCANTE, 2011, p.149).
82
Cf. Os primeiros quatro grandes empreendedores imobiliários: os alemães Glette, Northmann, Puttkamer e Burchard, In: Anhangabaú: História e Urbanismo, por SIMÕES JUNIOR, 2005, p.65.
CAMINHOS E CELEBRAÇÕES 57 Cidade, que “só era encontrado ali e no Café Corde”83
, em substituição a gengibirra, conferindo ao local, o título de primeira cervejaria da Cidade84. Por muito tempo, o chope, seria comercializado exclusivamente no Centro.
A título de curiosidade, não muito distante da Rua de São Bento, no rio Tamanduateí, foi construída a “ilha dos amores” em 1874 para servir como área de lazer. De acordo com a reportagem do jornal, a ilha causava no visitante “uma admiração extraordinária”, como pouco ou nunca vista em outros locais da Cidade. Semelhante em bom gosto e requinte, coube aos proprietários do Stadt Bern, tomarem conta do chalé da ilha
Os alemães proprietários do Stadt Bern e do Grande Hotel, juntos, tiveram a ver com a construção do Viaduto do Chá, pois não foi outra se não a mesma empresa de construção a qual eram associados à contratada para o feito85. Outros feitos também lhes cabem pela expansão urbana, como abertura de arruamentos e a inauguração do Bairro dos Campos Elíseos86. O que se percebe é que, em tudo o que se envolviam, era destinado as elites.
As significativas transformações urbanas que ocorreram na Cidade justificou- se pela economia cafeeira e dos investimentos das elites que, inclusive, auferiu a São Paulo o título de “capital do café”87
. O estímulo, pela comercialização do produto, foi dado pelos estudantes da Academia que levaram as doceiras a vender café. A mais famosa delas, Nhá Umbelina, instalou-se no Largo de São Francisco. O estabelecimento era praticamente uma dependência do curso jurídico se assim permitido tal comparação, embasada no comparativo de um espaço de sociabilidade e lazer, onde os acadêmicos se reuniam.
Cabe lembrar-se de outros antigos pontos de venda de café, que se faziam presentes, como na Praça da Sé e no próprio Largo de São Bento, com o Café Terraço Paulista. Nestes locais a comercialização se fazia nos quiosques, servido por caixeiras amáveis, as quais também foram responsáveis pela popularização da bebida. Posteriormente, estas cafeterias popularizam-se e ganham espaços
83
Cf. FOLHA DE S. PAULO, 28 Nov.2003. 84 Cf. SIMÕES JUNIOR, 2005, p.65. 85 Cf. MOURA, 1980, p.288. 86 Idem, Idem. 87 Cf. MARTINS, 2007.
CAMINHOS E CELEBRAÇÕES 58 modernos e mais elegantes como o Café Girondino88, voltados para a confraternização social e para a celebração dos momentos de lazer da metrópole do café89, nos Quatro Cantos é aberto o Café do Chá.
Por fim, a Rua de São Bento marcou um dos últimos momentos cruciais na história, no que envolve “a passagem da Monarquia para a República (1889)”. Na Rua de São Bento ficava o Clube Republicano, onde se articulavam as estratégias contra o Império, que contou na Capital com o apoio dos jornais. Em São Paulo, no dia 16 já havia sido destituído o representante do Imperador e, no Clube da Rua de São Bento, já se proclamava o triunvirato de novas autoridades máximas na província90.