3 Metode
3.1 Heuristisk evaluering
3.1.4 Oppsummering av heuristikkene
A cidade de Manaus passou por dois períodos de desenvolvimento econômico e de alto luxo migratório populacional: o Ciclo da Borracha, entre o inal do século 19 e início do século 20, e o período do desenvolvimento industrial, por meio da Zona Franca, em 1967. (ALMEIDA et.al., 2012). A ocupação, antes do Ciclo da Borracha, foi estabelecida de acordo com a morfologia natural do território e a orientação espacial dada pelo Rio Negro, que direcionou o crescimento da cidade para o senido Leste-Oeste. A população se organizou ao longo dos igarapés que atuavam como limitadores dos bairros. Para Mesquita (2005), a presença dos cursos d’água orientou a primeira expansão urbana, determinando um desenho mais orgânico à urbe.
Manaus, quando recebeu o ítulo de cidade em 24 de outubro de 1848, era um lugar impercepível. A cidade apresentava um território entrecortado pelos igarapés de São Vicente, da Ribeira, do Espirito Santo e do Aterro, possuía uma praça, 16 ruas, quase 250 casas, um povoado com cerca de 3 mil habitantes e era provida de muita vegetação. A região não possuía recursos inanceiros suicientes para promover melhorias à pequena urbe. (MESQUITA, 2005).
A políica do Estado era de explorar e obter lucros, conforme caracterísicas da colonização portuguesa no Brasil, que não pensava na permanência ou na criação de uma cultura. (HOLANDA, 1995).
Não convinha que aqui se izessem grandes obras, ao menos quando não se produzissem imediatos beneícios. Nada que acarretasse maiores despesas ou resultasse em prejuízo para a metrópole (HOLANDA, 1995, p. 107).
A interligação entre os bairros era realizada através de pontes de madeira. Os serviços básicos de saneamento, de iluminação e de distribuição de energia eram precários. A maioria das ediicações era construída pelo sistema de pau-a-pique com cobertura em palha e inha usualmente apenas um pavimento. (ALMEIDA et.al., 2012).
Em 1849 teve início a ocupação do bairro São Raimundo a parir de terras doadas pelo governo para a instalação do Seminário São José. Posteriormente, as terras foram loteadas pela igreja e possibilitaram
Figura 125 - Mapa de Manaus - Período Colonial, 1852 e Orla do Rio Negro. Fonte: Mapa digital e Foto do Acervo técnico do Departamento Histórico de Manaus, disponibilizado à autora.
a implantação das primeiras moradias à margem direita do igarapé. (JORNAL DO COMMÉRCIO, 2009). Em 05 de setembro de 1850 o Amazonas foi elevado à categoria de Província, separando-se deiniivamente do Grão do Pará, onde João Baista de Figueiredo Tenreiro Aranha passou a administrar. (JUNIOR; NOGUEIRA, 2010).
Desde essa época os igarapés eram vistos como obstáculos para o crescimento da cidade e os administradores ainda não possuíam recursos suicientes para estabelecer melhorias, principalmente relacionadas à higiene da cidade. Todavia, com o ápice do ciclo da borracha e o maior desenvolvimento econômico vivido pela Amazônia, Manaus enriqueceu. Com isso, a cidade foi transformada. O período icou conhecido como a época da Belle Époque ou da Políica do Embelezamento. (MESQUITA, 2005).
(...) a Belle Époque de Manaus foi uma aberração. O que ivemos aqui foi a Belle Époque de inluência inglesa apagando, inibindo e soterrando a tradição local e os seus valores (...) para dar lugar ao conhecimento imposto por meio da colonização ou do dinheiro. Na verdade, a Belle Époque veio apenas para explorar o período da borracha, tanto que sumiu com ela (LOUREIRO, 2014, p. 11).
Nesse período muitas pessoas do interior e de outras cidades do Brasil, principalmente do nordeste, e do exterior, como bolivianos e peruanos, foram a Manaus em busca de sonhos, de novas oportunidades e do ouro branco. Muitos destes imigrantes ocuparam a margem esquerda do Igarapé São Raimundo, próximo ao Centro da cidade, dando início ao bairro Aparecida. (JORNAL DO COMMÉRCIO, 2009). Durante o governo de Eduardo Ribeiro, entre 1892 e 1896, foi estabelecido um desenho urbano com inspiração européia, vias largas e traçado reilíneo, como um tabuleiro de xadrez que avançava pela mata existente. Além disso, ocorreu a canalização dos cursos d’água que entrecortavam a aniga Manaus, o aplanamento de colinas e a construção de grandes e importantes ediicações (ALMEIDA et.al., 2012), como a inalização do Teatro Amazonas.
Tais intervenções, além do caráter de embelezamento, progresso e higiene, inham a intenção de saisfazer a elite da cidade. As pessoas menos favorecidas que viviam às margens dos igarapés foram removidas e reassentadas na periferia da urbe. (JUNIOR; NOGUEIRA, 2010).
Figura 126 - Mapa de Manaus, período 1889 – 1913 e Implantação da Avenida Eduardo Ribeiro (anigo igarapé do Espirito Santo). Fonte: Mapa digital e Foto do Acervo técnico do Departamento Histórico de Manaus, disponibilizado à autora.
Figura 127 - Mapa de Manaus, período 1914 – 1917 e Avenida 7 de Setembro. Fonte: Mapa digital e Foto do Acervo técnico do Departamento Histórico de Manaus, disponibilizado à autora.
Em 1907 foram instalados os serviços de água e esgoto pela empresa inglesa Manaus Improvement
Limited. “A cidade, jusiça seja feita, era bem servida de água encanada, cuja rede se estendia aos bairros humildes”. (MELLO, 2004, p. 93). De fato, conforme explana Mello (2004), assim como a água, a iluminação de Manaus também era de qualidade: “(...) luz de carvão e arco voltaico, transporte urbano servido por bondes de primeira categoria. Boas casas de ensino, muitos bons professores (...)” (MELLO, 2004, p. 43).
A extração do látex trouxe muita riqueza à Amazônia, mas foi pouco duradoura. No início do ciclo, em 1873, ocorreu o contrabando de aproximadamente 70 mil sementes de seringueiras, que foram levadas à Inglaterra para a realização de um experimento de culivo em estufa. Desse total, cerca de 7 mil mudas progrediram e foram transportadas às colônias inglesas e holandesas na Ásia, onde passaram a produzir uma seringueira de melhor qualidade e com um menor custo. Com isso, o preço da borracha despencou, tornando inviável a coninuidade do processo na região amazônica. (ALMEIDA et.al., 2012).
No início do século 20, a localização estratégica do Igarapé São Raimundo, próximo ao Rio Negro, trouxe o estabelecimento das primeiras indústrias na região. Em 1912, a inserção de um matadouro
municipal, também às margens do igarapé, contribuiu com a origem do bairro da Glória. O território ainda não inha sido habitado, de forma que tanto os operários das indústrias quanto os funcionários do matadouro ocuparam esse trecho e passaram a viver próximos ao emprego. (JORNAL DO COMMÉRCIO, 2009).
O ciclo da borracha perdurou até 1912. Com o seu im, a economia amazonense voltou a declinar, ocasionando na década de 1920 a grande crise amazonense. As sementes clandesinas levadas pelo inglês Henry Wickman alcançaram a produção de 360 mil toneladas de borracha, enquanto no Amazonas a produção era de aproximadamente 8 mil. (MELLO, 2004).
Do dia para a noite, se foram acabando o luxo, as ostentações, os esbanjamentos e as opulências sustentadas pelo trabalho praicamente escravo do caboclo seringueiro lá nas brenhas da selva. Cessou bruscamente a construção dos grandes sobrados portugueses, dos palacetes afrancesados, dos ediícios públicos suntuosos. Não se mandou mais buscar mármores e azulejos na Europa, ninguém acendia mais charutos com cédulas estrangeiras (...). A cidade ingressou então no seu largo período de declínio e estagnação. (MELLO, 2004, p. 41).
O período de estagnação fez com Manaus voltasse ao seu esilo de vida tradicional, amparado pelos seus valores culturais. Para Mello (2004), a depressão econômica serviu como o reencontro da cidade com a sua própria autenicidade. Nesse período foi possível notar o início do processo de ocupação às margens do Igarapé São Raimundo, bem como o surgimento dos bairros localizados ao longo de seu percurso. (JORNAL DO COMMÉRCIO, 2009).
Entre 1940 e 1945, devido à Segunda Guerra Mundial, ocorreu uma campanha de recrutamento pelo governo federal para que as pessoas fossem extrair látex, de modo a contribuir com a produção de borracha da máquina de guerra dos Estados Unidos. Como recompensa, essas pessoas teriam terras doadas para a construção de suas casas. O período icou conhecido como a Batalha da Borracha, em que inúmeros indivíduos, basicamente nordesinos, foram levados ao campo de treinamento e depois para a extração do látex. O trabalho era irregular e o pagamento era realizado através de alimentos e de utensílios para a aividade. Com o inal da guerra e o novo declínio do ciclo da borracha, a promessa do governo não foi cumprida, o que contribuiu para o aumento populacional de Manaus. (LIMA, 2014).
Outra intensiicação de ocupação ocorreu em 1953, devido à grande cheia que aingiu a cota 29.69 metros. Os padres que viviam no bairro São Raimundo e Aparecida deram assistência aos desabrigados. Com isso, moradores do interior e de outras partes da cidade encontraram abrigo ao longo das margens do Igarapé São Raimundo.
Além da cheia no inal da década de 1960, os moradores da cidade lutuante, que viviam nas águas do Rio Negro no Centro, foram removidos de suas habitações. Devido à proximidade com o Igarapé São Raimundo, muitos se instalaram em suas margens. (JORNAL DO COMMÉRCIO, 2009).
A cidade lutuante correspondia a um conjunto de casas de madeira com cobertura de palha, construídas sobre troncos de árvores sob as águas do Rio Negro, e surgiu em 1920 com o im do ciclo da borracha. Em 1965, no Governo de Arthur Cezar Ferreira Reis, iniciou-se o processo de remoção das ediicações que se estendeu até 1967. Com a ordem para se reirarem do lugar, muitas familias buscaram abrigo nos igarapés da proximidade – o Igarapé São Raimundo e o Igarapé do Quarenta. Para o reassentamento de algumas dessas famílias foi construído pelo Banco Nacional de Habitação o Conjunto Costa e Silva, originando o Bairro Raiz. (JORNAL DO COMMÉRCIO, 2009).
Após o auge da borracha, Manaus passou por uma estagnação na economia, releindo em seu crescimento populacional, até a implantação da Zona Franca 28 de Manaus, em 1967, que trouxe uma nova energia e um alento ao comércio da cidade, ocasionando, novamente, o aumento do luxo migratório.
28 A Zona Franca de Manaus (ZFM) é um modelo de
desenvolvimento econômico implantado pelo governo brasileiro com vistas a viabilizar a base econômica da Amazônia. Compreende três pólos econômicos: comercial, industrial e agropecuário Sendo que o industrial é considerado a base de sustentação da economia, possui cerca de 600 indústrias de alta tecnologia e gera mais de meio milhão de empregos (SUFRAMA, 2015).
Figura 130 - Vista aérea da Cidade Flutuante. Fonte: Vista da Cidade Flutuante. Fonte: Foto do Acervo técnico do Departamento Histórico de Manaus, disponibilizada à autora.
Assim como em muitas cidades brasileiras, o rápido processo de urbanização, aliado ao déicit habitacional e à necessidade de morar próximo da estrutura da urbe, fez com que os diversos espaços vazios de Manaus fossem ocupados por palaitas e ediicações precárias de alvenaria, originando, com o aumento populacional, problemas sociais e ambientais à cidade.
Manaus tem uma condicionante complicada, por ser um lugar eminentemente aquáico, com uma quanidade enorme de igarapés, e por possuir uma morfologia espalhada, repleta de ilhas. Além disso, a cidade nega a água, a cultura e a sua origem. (VALLE, 2015)30.
Em 1997 iniciou-se o Programa Nova Veneza, elaborado pelo Governo Federal e o Banco Interamericano 30 Informações fornecidas pelo arquiteto e urbanista
Geraldo Valle por meio de entrevista realizada em 30 de setembro de 2015.
Figura 129 - Vista da Cidade Flutuante. Fonte: Foto do Acervo técnico do Departamento Histórico de Manaus, disponibilizada à autora.
Figura 128 - Cheia de 1953 em Manaus. Fonte: Foto do Acervo Técnico do Arquiteto e Urbanista do Amazonas Claudemir Andrade.
Na década de 1960, com a ideia dos militares de que a região precisa ser ocupada, Belém e Manaus, voltam a serem cidades importantes, ocorre um processo migratório muito forte do interior para a capital, de outros estados para o Amazonas, e começam as intervenções do Banco Nacional de Habitação (VALLE, 2015)29.
Segundo os dados do Insituto Brasileiro de Geograia Estaísica (2010c), a população manauara passou de 139.620 para 1.802.014 habitantes entre os anos de 1950 e 2010.
Gráico 4 - Crescimento Populacional de Manaus (1950-2010). Fonte: IBGE, 2010c, gráico elaborado pela autora.
29 Informações fornecidas pelo arquiteto e urbanista
Geraldo Valle por meio de entrevista realizada em 30 de setembro de 2015.
de Desenvolvimento (BID), que inha o intuito de canalizar e aterrar os igarapés Manaus, Bitencourt e Mestre Chico para a construção de unidades habitacionais na região, assim como a execução de redes de infraestrutura. No entanto, o número alto de famílias que necessitariam ser reassentadas e o pouco espaço no Centro inviabilizaram, na época, a coninuidade do Programa.
Com o aumento dos problemas de saneamento e o acumulo de resíduos e poluição às margens do Rio Negro, em 2003, no Governo de Eduardo Braga, iniciou-se o desenho e a abordagem do PROSAMIM. O projeto do programa foi submeido ao BID com vistas ao inanciamento. Em 19 janeiro de 2006 foi aprovado e irmado o contrato para as duas primeiras fases.
A primeira fase, denominada PROSAMIM I, foi uma área de amostragem, que englobava a intervenção dos igarapés Manaus, Bitencourt e Mestre Chico, localizados no Centro e na Zona Sul da cidade, que fazem parte da Bacia Hidrográica do Educandos. A segunda fase, denominada PROSAMIM II, foi a coninuidade da primeira, englobando o Igarapé do Quarenta e os seus aluentes.
A terceira fase, estudo de caso do presente trabalho, compreende a reabilitação urbana e ambiental do Igarapé São Raimundo, também localizado na Zona Sul que desemboca suas águas no Rio Negro.
4.2 ESTUDO DO PROJETO
O projeto de urbanização do Igarapé do São Raimundo teve início em 2009, com o desenvolvimento de estudos, planos, projetos básico e execuivo desenvolvidos pela Empresa Concremat Engenharia por meio de licitação. A elaboração do projeto urbanísico foi realizada pela equipe de desenvolvimento urbano e coordenado pela Arquiteta Lara Freitas.
O programa apresenta três grandes eixos estruturais: saneamento, sustentabilidade social e insitucional e reabilitação urbana e ambiental. Sua principal diretriz é a remoção das moradias em áreas de situação de risco de inundação. (AMAZONAS, 2015).
Cabe ressaltar que o Programa é social e ambiental, considerando, além da infraestrutura e dos quesitos ambientais, o componente social.
(...) foram desenvolvidos desenhos especíicos de planos e monitoramentos que acompanham todas as deinições de engenharia, desde os estudos iniciais com o acompanhamento da população até os cuidados implantados durante o desenvolvimento das obras e o pós-ocupacional. Acredito que em Manaus, foi possível observar um Programa com um alto nível de integração e com soluções a altura da complexidade social envolvida. (FREITAS, 2015).
O primeiro passo para o entendimento dessas áreas ambientalmente sensíveis que são impactadas com os remansos do Rio Negro deve parir de estudos hidrológicos que, através de dados históricos e do mapa de declividades, deinem a cota de inundação. A parir dessa deinição é possível averiguar os territórios alagadiços e analisar as bordas que se encontram em áreas segura, fora do limite de inundação, ideniicando, assim, as ediicações que estão imersas em situação de risco. (ibidem, 2015).
De acordo com a urbanista, além da cota de inundação, deve-se considerar uma faixa de inluência direta de aproximadamente 50 metros de projeção da cota de inundação, que irá deinir as principais intervenções necessárias à consolidação da área. Atendendo sempre à bacia como um todo, desde o igarapé principal até os seus aluentes, o desenho deve acompanhar o curso natural da água. No desenvolvimento do trabalho, a envoltória norteia os limites dos estudos e cadastros, como demonstra o mapa a seguir:
Figura 131 - Mapa de Inluência Direta. Fonte: Acervo Técnico Concremat Engenharia, 2009.