Na última ceia, Jesus antecipa sacramentalmente o seu sacrifício redentor, dando o seu “corpo” e derramando o seu “sangue” como sinais da nova aliança escatológica realizada nele e com ele para toda a humanidade. O sangue de Cristo é que dá a vida ao mundo (Jo 6, 54-56), nele está a vida dos que comungam: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele [...] aquele que comer de mim viverá por mim” (Jo 6, 56-57).
O modo como João entende a Eucaristia é marcado pelo caráter peculiar da sua teologia. Na base desta peculiaridade devemos buscar a compreensão deste sacramento: a) O realismo da presença de Cristo; b) o usa dos termos “carne” e “sangue”375 com referencia ao Verbo que se fez carne (cf. Jo1,14);c) A Eucaristia é comida e bebida, para manutenção da “vida” e cumprimento do mandamento do amor aos irmãos (cf. 1Jo 2,9-11; 3,10.14s; 4,8.20; 5,2)376. Por aquilo que realiza esta
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“Cristo não apenas anuncia a salvação escatológica; ele a realiza; o Reino de Deus não é apenas proclamado por ele como prestes a chegar; é inaugurado por sua presença e seus atos... A refeição eucarística, cujo centro é Cristo, contém em si a realização de todas as expectativas do AT e o começo da esperança escatológica”. STÖGER, A. Eucaristia. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 143.
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João não usa o termo “corpo” como os relatos da instituição. O termo “carne” define também a encarnação (Jo 1,14). Contra as idéias gnósticas era preciso afirmar ao mesmo tempo a realidade da “carne” e a divindade nela escondida. Assim, o “teólogo da Encarnação por excelência”, traça as linhas que ligam a Encarnação à Eucaristia (Fl 2,7; 1Tm 3,16).. “O significado da Eucaristia como sacrifício de expiação é formulado em estilo joanino (6,51b), recordando Is 53,12. “Os muitos” são substituídos por “o mundo”; o perdão dos pecados, que salva o homem, é substituído pelo conceito joanino de vida. A dádiva que é entregue é a carne e sangue do “Filho do Homem” (Jo 6,27,53). Em Jo, o “Filho do Homem” é usado nos contextos sobre a morte e a subseqüente glorificação (Jo 3,14;12,34;12,23;13,31), sobre a providencia celeste e a volta para o céu (Jo 1,51;3,13;6,62), e sobre sua função de Juiz (Jo 5,27). A morte expiatória fica em segundo plano; a glorificação ofusca a morte. O efeito expiatório da Eucaristia, e com isso toda a noção de sacrifício, perde seu brilho diante da efusão da vida e diante da ressurreição”. STÖGER, A. Eucaristia. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 144.
participação sacramental num único sangue, numa única carne, formamos um só corpo com Cristo (1Cor 10,16-17). Desta comunhão no corpo e sangue de Cristo nasce a Igreja377, novo povo de Deus, selado na aliança do sangue de seu Filho. A Eucaristia é a atualização desta Aliança de amor.
Os cristãos constituem o Novo Povo de Deus que nasce da Aliança de amor em Jesus Cristo. A Igreja irá interpretação a Aliança nova e eterna de Jesus numa dimensão cósmica, universal, para a deificação de toda a humanidade. De muitas maneiras pedimos a Deus de entrar no seu Reino como se apresenta nas orações da coleta dos formulários das Missas. Somos um povo deificado pela sua graça de Deus. Dele recebemos o Espírito para construir o seu Reino e nele permanecermos. Assim rezamos para celebrar o dia de Pentecostes: “Ó Deus, [...] santificais a vossa Igreja inteira, em todos os povos e nações, derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo [...]” (Odd. Domingo de Pentecostes. In MR. p. 318).
Esta Aliança se realiza de duas maneiras: tanto com a pessoa batizada quanto com o Povo: a Igreja. As orações do rito da missa, então, expressam esta realidade, às vezes, referindo à pessoa individual ou ao Povo enquanto Igreja, mas sempre em referência ao Reino de Deus como realidade presente no mundo e realidade escatológica que aguardamos: “Ó Deus todo-poderoso, concedei a vossos fiéis o ardente desejo de possuir o reino celeste [...]” (Odd. 1º DTA. In MR. p. 129); O povo espera a salvação: “Ó Deus de bondade, que vedes o vosso povo [...], dai chegarmos às alegrias da Salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene liturgia” (Odd. 3º DTA. In MR. p. 131); Aguardamos todos os povos estabelecerem a aliança com Cristo: “Deus eterno e todo-poderoso, esplendor dos vossos fiéis, irradiai por todo o mundo a vossa glória, e manifestai-vos a todos os povos no fulgor da vossa luz” (Odd. 2º DTN. In MR. p. 161); Os deificados na aliança com Cristo o conhecem pela fé e aguardam o encontro face a face, assim rezamos na solenidade da Epifania: “Ó Deus, que hoje revelastes o vosso Filho às nações, guiando-as pela estrela, concedei aos vossos servos e servas que já vos conhecem pela fé, contemplar-vos um dia face a face no céu” (Odd. Epifania do Senhor. In MR.
377 Referindo-se a celebração do Natal o papa Leão Magno escreve: “A festa de hoje renova para nós
o sagrado início da vida de Jesus, nascido da Virgem Maria. E enquanto adoramos o nascimento do nosso Salvador, celebramos realmente também o nosso nascimento. Efetivamente, a geração de Cristo é a origem do povo cristão; o natal da Cabeça é também o natal do Corpo”. PAPA LEÃO MAGNO. Sermões para o Natal. 6. In Antologia Litúrgica. Op. cit. 4285. p. 1022.
p. 164); A aliança nos constitui filhos adotivos no Filho e isto rezamos ao Pai: “Cristo batizado no Jordão, e pairando sobre ele o Espírito Santo, o declarastes solenemente vosso Filho, concedei aos vossos filhos adotivos, renascidos da água e do Espírito Santo perseverar constantemente em vosso amor” (Odd. Festa do Batismo do Senhor. In MR. p. 165).
A nossa filiação adotiva é renovada a cada ano pela celebração da Páscoa e do Tempo Pascal. Assim descobrimos a necessidade da celebração litúrgica para nos mantermos deificados enquanto Povo: “Ó Deus [...] que reacendeis a fé do vosso povo na renovação da festa da pascal, aumentai a graça que nos destes [...] o batismo que nos lavou [...] e o sangue que nos redimiu” (Odd. 2º DTP. In MR. p. 303); o povo expressa a alegria desta renovação: “Ó Deus, que o vosso povo sempre exulte pela sua renovação espiritual, para que, tendo recuperado agora com alegria a condição de filhos de Deus, espere com plena confiança o dia da ressurreição” (Odd. 3º DTP. In MR. p. 305); os filhos deificados aguardam a herança eterna, o Reino de Deus: “Ó Deus, Pai de bondade, que nos redimistes e adotastes como filhos e filhas concedei aos que crêem no Cristo a liberdade verdadeira e a herança eterna” (Odd. 5º DTP. In MR. p. 308); como Igreja, somos membros de Cristo e assim rezamos na Ascensão do Senhor: “Ó Deus todo-poderoso [...]. Fazei- nos exultar de alegria e fervorosa ação de graças, pois, membros de seu corpo, somos chamados na esperança a participar da sua glória.
A realidade do Reino de Deus é também uma construção dos batizados e deificados em Cristo. Por isso durante os domingos do Tempo Comum a Igreja celebra esta Aliança de Deus conosco “O Deus, atendei como pai às preces do vosso povo; dai-nos a compreensão dos nossos deveres e a força de cumpri-los” (Odd. 1º DTC. In MR. p. 345); suplica a paz para a Igreja: “Deus eterno e todo- poderoso [...] escutai com bondade as preces do vosso povo e dai ao nosso tempo a vossa paz” (Odd. 2º DTC. In MR. p. 346); suplica a paz e para o mundo: “Fazei, ó Deus, que os acontecimentos deste mundo decorram na paz que desejais, e vossa Igreja vos possa servir, alegre e tranqüila” (Odd. 8º DTC. In MR. p. 352); suplica a proteção para a Igreja enquanto uma família de batizados: “Velai, ó Deus, sobre a vossa família, com incansável amor; e, como só confiamos na vossa graça, guardai- nos sob a vossa proteção” (Odd. 5º DTC. In MR. p. 349); pois é Deus quem nos conduz com a sua graça e o seu amor: “Senhor, nosso Deus, dai-nos por toda a vida
a graça de vos amar e temer, pois nunca cessais de conduzir os que firmais no vosso amor” (Odd. 12º DTC. In MR. p. 356);
O povo aguarda a sua herança após a libertação do pecado no mistério do Filho: “Ó Deus, que pela humilhação do vosso Filho reerguestes o mundo decaído, enchei os vossos filhos e filhas de santa alegria, e dai aos que libertastes da escravidão do pecado o gozo das alegrias eternas” (Odd. 14º DTC. In MR. p. 358); chegaremos a nossa herança pela restauração da criação em Cristo e conservado por nós deificados: “Manifestai, ó Deus, vossa inesgotável bondade para com os filhos e filhas que vos imploram e se gloriam de vos ter como criador e guia, restaurando para eles a vossa criação, e conservando-a renovada” (Odd. 18º DTC. In MR. p. 362).
A nossa esperança do Reino é certa, pois Deus é Pai e nele confiamos: “Deus eterno e todo-poderoso, a quem ousamos chamar de Pai, dai-nos cada vez mais um coração de filhos, para alcançarmos um dia à herança que prometestes” (Odd. 19º DTC. In MR. p. 363); confiamos e cremos também no Cristo seu Filho: “Ó Deus, Pai de bondade, que nos redimistes e adotastes como filhos e filhas, concedei aos que crêem no Cristo a verdadeira liberdade e a herança eterna” (Odd. 23º DTC. In MR. p. 367); assim rezamos na festa da Transfiguração do Senhor como antecipação da nossa esperança: “Ó Deus, que na gloriosa Transfiguração de vosso Filho [...] manifestastes de modo admirável a nossa glória de filhos adotivos, [...] concedei-nos compartilhar da sua herança” (Odd. Transfiguração do Senhor. In MR. p. 628).
A Aliança que o Pai realiza com a humanidade se expressa na celebração da Eucaristia como realidade deificante oferecida no Filho, assim rezamos no prefácio da missa do Crisma, na manhã de quinta feira santa: “Pela unção do Espírito Santo, constituístes vosso Filho unigênito Pontífice da nova e eterna Aliança” (Pref. da Missa do Crisma. In MR. p. 245); Em Jesus o Pai instituiu o sacrifício da Aliança: “Ele, verdadeiro e eterno sacerdote, oferecendo-se a vós pela nossa salvação, instituiu o Sacrifício da nova Aliança” (Pref. da Santíssima Eucaristia I. In MR. p. 439); esta Aliança pode ser rompida por nós, jamais é rompida pelo Pai: “Jamais nos rejeitastes quando quebramos a vossa aliança” (OE. VII. In MR. p. 866); mas no mistério da cruz torna um sinal permanente: “antes, porém, de seus braços abertos traçarem entre o céu e a terra o sinal permanente da vossa Aliança, Jesus quis celebrar a páscoa com seus discípulos” (OE. VII. In MR. p. 868). Temos assim o
dado que fundamenta a Aliança no Sangue do Cordeiro378: “o Sangue da Nova e Eterna Aliança, que será derramado por vós e por todos” como se apresenta em todas as Orações Eucarísticas. Nesta realidade celebrada: “manifestando a Aliança do vosso amor” (OE. VI-A. In MR. p. 842), que a Igreja se alegra e celebra a sua razão de ser Povo da Aliança, deificados no Amor do Pai.