Possuímos três tipos de textos364 referentes à Aliança que Deus faz conosco em seu Filho Jesus e que proclamamos na celebração da Eucaristia: a) As narrativas365 da instituição366 da Eucaristia: Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,15-20;
361 Pois nossa Páscoa, Cristo, foi imolada (1Cor 5,7). Cristo, enquanto cordeiro imolado, cumpriu
todas as Escrituras (cf. 24, 44-46). No Ap 15,3 temos a visão pascal de Cristo-cordeiro, situando-a diretamente no fundo dos acontecimentos da libertação do Êxodo (Ex 15,1-21), no qual se canta o cântico de Moisés e o cântico do Cordeiro. Cf. MARSILI, S. A Eucaristia... In Anámneses. III. Op. cit. p. 150.
362 MARSILI, S. A Eucaristia... In Anámneses. III. Op. cit. p. 150.
363“Todo o cenário entende-se no marco de uma relação interpessoal entre Cristo e os discípulos, e
em seu gesto de doação e participação: Jesus antecipa e oferece-lhes a comunhão em sua nova aliança da cruz através da Eucaristia, pensando também no futuro. A morte não vai romper os laços de comunhão: ao contrário, tornará possível uma comunhão mais profunda e universal pela nova presença de Cristo e a atualidade perene do acontecimento da cruz para a comunidade escatológica, à qual Cristo promete a doação de si mesmo por meio dos gestos eucarísticos. Cada Eucaristia nos tornará partícipes dos bens escatológicos do Reino”. ALDAZÁBAL, J. A Eucaristia. Op. cit. p. 83.
364 Não é nossa preocupação, embora seja importante, entrar em análise exegética comparativa dos
relatos da instituição da Eucaristia. Basta constatarmos, aqui, a sua importância, no contexto litúrgico.
365
“É dado universalmente conhecido e aceito que a nossa Eucaristia tenha o seu início e que encontre as suas linhas essenciais no gesto que Jesus fez na última ceia com os seus discípulos e a respeito do qual nos chegaram quatro narrações diferentes, que se situam em duas linhas paralelas: Marcos-Mateus e Paulo-Lucas”. VISENTIN, P. Eucaristia. In Dicionário de Liturgia. Op. cit. p.395. Importante para a compreensão teológica da Eucaristia é o capítulo sétimo: A eucaristia, memorial da
morte de Cristo, de MARSILI, S. A Eucaristia... In Anámneses. III. Op. cit. p. 159-202.
366
“Tendo declarado que desejara ardentemente comer a páscoa, como sua, pois é indigno que Deus desejasse algo alheio, tendo tomado o pão e distribuindo-o aos seus discípulos, fê-lo seu Corpo
1Cor 11,23-25; b) A promessa da Eucaristia presente no Evangelho de João, sobretudo em Jo 6; c) As refeições celebrativas (fração do pão) no cristianismo primitivo: Mt 14,9; 15,36; Mc 6,41, 8,6; Lc 9,16; 24,30-35; Atos 2,42-46; 20,7-11; 27,35; 1Cor 10,17).
Assumindo como plausível que estes relatos não tiveram como preocupação primeira o ponto de vista histórico, mas a “celebração litúrgica” da Morte e Ressurreição de Jesus pela comunidade, como nova Aliança, então, a intenção litúrgica se aflora, à primeira vista, nestes relatos367. Por isso podemos pensar que estes relatos foram escritos sob a influência da deificação: Aliança de Deus com a humanidade; pois, primeiro, os discípulos celebraram e depois escreveram; ou seja, a experiência e vivência da fé, a comunhão com o Senhor, são anteriores aos registros dos fatos.
Os relatos sobre a instituição foram transmitidos como norma para a celebração da Eucaristia nas comunidades cristãs (roteiro litúrgico). Sua formulação não é independente do culto da comunidade. Do ponto de vista histórico apresenta lacunas. A principal preocupação da liturgia não é o relato histórico sobre o que aconteceu na última ceia de Jesus, mas a celebração da Eucaristia na base do que Jesus fez. [...]368.
Se estes relatos têm como finalidade primeira a celebração litúrgica, sem diminuir em nada as informações históricas, estamos diante de uma chave de leitura das Escrituras e do NT de fundamental importância para a originalidade da liturgia eucarística, que chega até nossos dias, fazendo memória do Senhor Jesus. E poderíamos pensar ainda se não seria esta exigência litúrgica a dar origem a toda Escritura do NT? Não seria talvez essa a razão pela qual no Evangelho de João, não se relata a instituição (Jo, 6), mas retoma uma nova chave de interpretação a partir da catequese eucarística, expondo o sentido da entrega de Jesus pelo gesto do lava-pés (Jo, 13) até culminar com a oração sacerdotal (Jo, 17)? Nesta seqüência João expõe todos os elementos necessários à compreensão de que tudo será coroado com a Eucaristia.
dizendo: Este é o meu Corpo, quer dizer, ‘figura do meu Corpo’. Mas não seria figura, se não fosse Corpo verdadeiro [...]”. TERTULIANO. Contra Marcião. In Antologia Litúrgica. Op. cit. p.217.
367 Não sejamos ingênuos de não considerar outras preocupações do NT, como cristológica,
eclesiológica, missionária, o que tentamos afirmar é que foi o evento marcante da Morte e Ressurreição de Jesus, celebrado sempre a partir de sua origem e instituição que está na base das Escrituras do NT.
Dos relatos documentados por Lucas nos Atos dos Apóstolos sobre as refeições das comunidades primitivas se depreende que a liturgia cristã nasce do gesto de “partir o pão”, uma das expressões da Aliança, ritualizando a refeição judaica (cf. Atos 2,42.46; 20,7.11). Destes escritos se depreende também o caráter duplamente sagrado do rito litúrgico, tomar o pão e reparti-lo (rito da refeição), sendo atribuído a esse gesto simbólico o valor agregado de sacramento, símbolo da entrega de Jesus acompanhado de suas razões e mistérios.
Numa linguagem sacramental de matéria e forma, temos como matéria o gesto e a entrega de Jesus; e a forma, o rito litúrgico que se desencadeou deste gesto, acompanhado do imperativo: Fazei isto em minha memória, mantido pela Tradição da Igreja. Pois este imperativo adquire força no ato da celebração e não independente dela. É na celebração eucarística que renovamos a Aliança de Deus conosco, em Cristo. Por isso o que Jesus nos deixou é mais um convite a celebrar, e não tanto o fato de discorrer sobre ele de maneira independente. Ou seja, a frase imperativa é fundamento de celebração não de especulação. Por isso, as narrações referentes à instituição da Eucaristia não deveriam ser tomadas como “relatos históricos dos fatos”, mas como influência do uso litúrgico, diferenciadas conforme as exigências das comunidades cristãs primitivas369.
Há, portanto, sempre a primazia do evento celebrado, ao registrado do fato. Somente a celebração litúrgica garante uma “verdade memorial”, posteriormente escrita. Ou seja, quando se escreve já está sedimentada a prática litúrgica. O mesmo se pode dizer em relação à formulação trinitária370; quando ela surge escrita, há muito já está em uso nas celebrações. Assim, podemos afirmar que a comunidade cristã primitiva entendeu bem o convite e a ordem de Jesus, deixando este legado litúrgico-celebrativo que dispomos das “tradições litúrgicas que conservaram da última Ceia de Jesus apenas aquilo que se passava na Eucaristia celebrada pela comunidade primitiva”371.
369 Cf. VISENTIN, P. Eucaristia. In Dicionário de Liturgia. Op. cit. p.395. “A formulação litúrgica
assumida pela narração em todas as fontes – tragam ou não a ordem celebrativo-memorial de Cristo – mostra que a última Ceia de Cristo encontrou logo na ‘Ceia do Senhor’, celebrada desde o princípio pela comunidade, uma ‘imitação’, e que esta só podia ser feita ‘em memória’ de Cristo”. MARSILI, S.
A Eucaristia. In Anámneses. III. Op. cit. p. 161.
370 Houve uma evolução desta fórmula até chegar a sua definição nos Concílios do século IV (Nicéia
325 e Constantinopla 381). Antes porem os Padres já fazia uso na celebração litúrgica, ela já estava consolidada na mentalidade e na compreensão.
A última Ceia, portanto, é o marco da nova e eterna Aliança do Pai no Filho e do Filho no Pai para a deificação sacramental da humanidade: origem do Novo Povo de Deus no Sangue de Cristo. O cordeiro pascal imolado, “vitima imaculada no Espírito Santo” (Hb 9,14), se dá uma vez por todas (Hb 9, 26.28; 10,10.14). Por isso, o sacrifício pascal de Cristo na cruz funda a nova Aliança (Hb 8,6-13; 9,4-10), selada no seu sangue. E Cristo, mesmo, torna o “novo” mediador (Hb 8,6;9,15;12,24)372, desta “Aliança” que é melhor (Hb 7,22), porque tem promessas melhores (Hb 8,6) e foi selada com o sangue de um cordeiro verdadeiramente imaculado (Hb 8,7; 1Pd 1,19).
O ritual que se cumpre na celebração da Aliança é geralmente o rito com sangue. Assim encontramos Abraão imolando animais e dividindo-os em duas partes para que o Senhor possa consumi-las por meio do símbolo do fogo (Gn 15,9- 18); Moisés, depois de ter oferecidos holocaustos, aspergindo com sangue o altar e o povo, proclamando: “Este é o sangue da aliança que o Senhor fez conosco, mediante todas essas cláusulas” (Ex 24,5-8). O rito assume uma força vital pela simbologia que carrega, pois o sangue é a vida, a aliança de sangue assume a aliança de vida entre as partes. Por isso a deificação se dará pela aliança que Deus se oferece a nós no sangue de seu Filho Jesus.
Na última ceia, Jesus se refere explicitamente à aliança do Sinai: “este é o sangue da aliança que o Senhor faz convosco” (Ex 24,8), para proclamar que a nova aliança prometida pelos profetas se realiza no seu sangue, no sangue de sua morte na cruz: “Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos” (Mc 14,24; cf. Mt 26,27); “Este cálice é a nova aliança em meu sangue, que é derramado por vós” (Lc 22,20; cf. 1Cor 11,15). O sangue da cruz é a nova e eterna aliança realizada pelo Pai em Cristo Jesus (cf. 1Pd 1,18s; Hb 8,6-13). Eis por que Jesus é mediador da nova aliança, uma nova promessa, a herança eterna (cf. Hb 9,15-28; 10,11-18; 12, 18-24)373.
O Servo do Senhor é mediador da Aliança (Is 42,6). Encontramos em Mt e Mc a palavra Aliança sobre o cálice. E em Lc e Paulo a designação de Nova Aliança que
372 Cf. MARSILI, S. A Eucaristia... In Anámneses. III. Op. cit. p. 156.
373 As possíveis referências à Eucaristia que encontramos na Carta aos Hebreus, pela terminologia
ou conteúdo nos ajudam a compreender a relação entre Cristo e o seu sacrifício como nova Aliança: Em Hb 2,14, a carne e o sangue; Hb 6,4-5, os que foram iluminados (batismo) e saborearam o dom
celeste (Eucaristia); Hb 9,2, alusão aos pães da preposição do AT; Hb 9,9-11, oposição entre as
comidas e sacrifícios do AT e os do NT; Hb 10,29, o sangue da aliança; e em Hb 13,9-16, opõe-se aos costumes judaicos a nova maneira cristã: somos fortificados pela “graça” e não pelos “alimentos” dos judeus que não trazem proveito nenhum.
tem como base Jr 31,31-34; Is 54,10; 55,3; 61,8; Ez 16,60-63; 34,25; 37,21-28. Já Mt e Mc formulam a palavra sobre o cálice na base de Ex 24,8 Aliança no Sinai; a plenitude e cumprimento da Aliança do Sinai se dão na pessoa de Jesus Cristo: a sua entrega é o ponto de coroamento. Ao celebrarmos a Eucaristia celebramos a entrega de Jesus, a realização do Reino, a esperança da humanidade em banquetear com o próprio Deus: na Eucaristia se realiza em antecipação a nossa deificação, razão pela qual Deus selou a Aliança conosco em Jesus374.