A imolação do cordeiro é figura-símbolo da Páscoa: “figura de Cristo”379. O sangue do cordeiro imolado preserva o povo e inaugura o seu êxodo. “Comendo todos os anos o cordeiro pascal, os hebreus participavam de certo modo dos frutos da primeira libertação”380. Junto à imolação, toma-se também o pão ázimo símbolo de que chegara o tempo de Deus “passar” e as pressas se deve sair e colocar-se a caminho para chegar à plena liberdade.
Jesus é o novo Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1,29); Jesus é o pão vivo que desceu do céu (Jo 6,51) para alimentar e conduzir a humanidade ao Pai; Ele é o vinho novo que inaugura a alegria do Reino de Deus (Lc 22,18). Desse modo, quando, no momento de comer o cordeiro pascal, Jesus toma o pão e o vinho, os abençoa e proclama “isto é o meu corpo, que é dado por vós” e “este cálice é a nova aliança em meu sangue, que é derramado em vosso favor”, ele mostra com evidência precisa que a sua morte na cruz constitui a imolação do verdadeiro cordeiro, que salva a humanidade da condição de pecado e a introduz na condição da liberdade dos filhos de Deus381.
Tendo-se o Unigênito oferecido a Si mesmo uma vez por todas em sacrifício, e sendo isso suficiente para a salvação, já não é necessário o sacrifício do cordeiro; mas o Salvador, ao chegar à sua Paixão, deu o pão e o cálice como imitação do mais glorioso sacrifício, e com uma
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“O sangue se apresenta, pois, como sinal de purificação e de comunhão, antecipando assim a compreensão do ‘sinal’ do novo sacrifício através do qual o Pai cumprirá plenamente a realidade da aliança no sinal do sangue do seu próprio Filho (cf. 1Cor 11,25-26). E será mediante a participação neste sinal que continuará a constituir-se e a construir-se, também no tempo da Igreja [...] o ‘povo novo estabelecido em comunhão total com o Pai na aliança nova no sangue do Filho e no Espírito’”. SODI, M. Celebração. In Dicionário de Liturgia. Op. cit. p. 188.
379 JUSTINO. Diálogo com Trifão. In Antologia Litúrgica... Op. cit. p. 143. Assim escreve Orígenes
referindo-se ao sacrifício de Isaac: “O Senhor havia de providenciar o cordeiro na pessoa de Cristo”. ORÍGENES. Homilias sobre o Gênesis. In Antologia Litúrgica... Op. cit. p. 251.
380 ROCCHETTA, C. Os Sacramentos da Fé... Op. cit. p. 293. 381 Cf. ROCCHETTA, C. Os Sacramentos da Fé... Op. cit. p. 293.
oração inefável fez do pão o seu Corpo e do vinho o seu Sangue, e mandou que a Páscoa fosse feita com esses símbolos382.
Assim a Igreja inicia a celebra da Paixão do Senhor, a imolação do Cordeiro, o Filho de Deus, como instituição do mistério da Páscoa que nos deifica no amor com estas orações: “Ó Deus, foi por nós que o Cristo, vosso Filho, derramando o seu sangue, instituiu o mistério da Páscoa. Lembrai-vos sempre de vossas misericórdias, e santificai-nos pela vossa constante proteção” (Celebração da Paixão do Senhor. In MR. p. 254). Na morte de Cristo restituímos a nossa dignidade perdida pelo pecado: “Ó Deus, pela paixão de nosso Senhor Jesus [...] concedei que nos tornemos semelhantes ao vosso Filho e, assim como trouxemos pela natureza a imagem do homem terreno, possamos trazer pela graça a imagem do homem novo” (Celebração da Paixão do Senhor. In MR. p. 254). O mistério de amor concretizado pelo Pai na morte e ressurreição do Filho nos deifica e nos consagra ao comungarmos a Eucaristia neste dia da paixão do Senhor: “Ó Deus, que nos renovastes pela santa morte e ressurreição do vosso Cristo, conservai em nós a obra de vossa misericórdia, para que, pela participação deste mistério, vos consagremos sempre a nossa vida” (Odc. Celebração da Paixão do Senhor. In MR. p. 268).
Importante é notar o sentido litúrgico que adquire a celebração da paixão do Senhor. Nesta celebração não se leva o pão é o vinho, pois a proclamação do evangelho da Paixão de Jesus e as orações deste dia já constituem a sacramentalidade do Sacrifício. Ou seja, não se leva os símbolos para as oferendas, pois a própria morte de Jesus é oferenda desta celebração; embora haja a comunhão do pão consagrada na celebração da última Ceia da noite anterior.
A entrega de Cristo, na morte de cruz, então nos deifica no amor e na graça, restituindo-nos a imagem do homem novo, o Cordeiro imolado, ao qual participamos na Eucaristia. Por ser este o evento-deificador da humanidade Jesus nos convida a fazê-lo em sua memória: “fazei isto em memória de mim”. A Igreja encontra neste convite e mandato de Cristo a sua razão de ser e de existir em comunhão com ele. O sacramento da Eucaristia, portanto, em virtude deste memorial celebrado, atualiza a Páscoa de Cristo na espera da sua plenitude. E enquanto se espera, alimenta-se do pão eucarístico que nos mantém deificados em Cristo.
O tema do sacrifício, estritamente ligado com a Páscoa e a Aliança, refere-se ao drama da morte sacrifical de Jesus na cruz. A Igreja sempre interpretou o sacramento da Eucaristia em sua referência com evento da cruz. E assim rezamos em todas as orações eucarísticas após a narrativa da instituição da Eucaristia: “Eis o mistério da fé”: “Todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor 11,26). “A eucaristia é a presença do sacrifício único de Cristo em cada época e em cada lugar, mediante a ‘memória’ sacramental que dele é feita na Igreja e pela Igreja”383. A Ceia aponta para a morte de Cristo como morte salvadora: sacrifical, expiatória, vicária; Jesus é o Servo do Senhor (cf. Is 53)384. A Eucaristia se define como o memorial dessa morte salvadora de Cristo. A categoria memorial385 não só recorda, mas atualiza, em forma de refeição sacramental, o acontecimento morte386, que na Ceia de Jesus apresenta uma linguagem simbólica sacrifical: corpo entregue, sangue derramado, por vós. 3.1 O Sacrifício Memorial
Todo sacrifício é um memorial. Ele tem a função de chamar a “atenção” de Deus àquilo e a quem se oferece: é um modo de “lembrar” a Deus de sua aliança387. Neste sentido a Eucaristia é o memorial de um sacrifício único, atualizado pela Igreja: o sacrifício da cruz oferecido por Cristo. É a Páscoa definitiva, que se dá na morte de Cristo, oferecida em sacrifício uma vez por todas (Hb 9,26.28; 10,10.14; 1Pd 3,18), que trouxe aos homens a “redenção eterna”, a nossa “deificação”.
À base da Páscoa de Cristo podemos compreender a Eucaristia enquanto perpetua na Igreja o sacrifício pascal de Cristo. Ele, cumprindo plenamente a Palavra de Deus e o acontecimento histórico da salvação, inaugurou o novo rito pascal. “É esta a razão pela qual Cristo ‘desejou tanto comer aquela Páscoa com
383 ROCCHETTA, C. Os Sacramentos da Fé... Op. cit. p. 297-298.
384 Cf. STÖGER, A. Eucaristia. In Dicionário Bíblico-Teológico. Op. cit. p. 142.
385“A Eucaristia aparece como a ceia memorial na qual, de um modo misterioso, se atualiza e torna
presente esse acontecimento da cruz, a entrega total de Cristo, fazendo os seus partícipes de todas as bênçãos messiânicas que se realizaram historicamente na cruz”. ALDAZÁBAL, J. A Eucaristia. Op. cit. p. 82.
386
“O acontecimento central – a nova páscoa, êxodo – é a morte de Cristo na cruz. É aí que o NT concentra toda a reconciliação, o sacrifício, a nova aliança. Deus assume, ele mesmo, com a entrega solidária de seu Filho, o pecado da humanidade, e salva a defasagem entre seu amor e o afastamento da humanidade. A pró-existência, a atitude de total entrega de Jesus pelos outros, que havia caracterizado toda a sua vida, tem na cruz sua expressão mais séria e trágica”. ALDAZÁBAL, J.
A Eucaristia. Op. cit. p.81-82.
seus discípulos’ (Lc 22,15). Ele não ‘comeria mais a páscoa antiga’ porque estava ‘para cumprir-se o Reino de Deus’ (Lc 22,16)”388. E na Páscoa de Cristo, a humanidade torna-se um povo sacerdotal e reino de Deus. A páscoa antiga, portanto, era símbolo da Páscoa do Reino de Deus. Um fato novo, celebrado com um rito novo. Novo, contudo, não quer dizer sem conexão com o antigo e, sim, o máximo desenvolvimento teológico-litúrgico, cumprimento das promessas.
3.2 A deificação no Sacrifício de Cristo
A Igreja celebra o Sacrifício de Jesus enquanto Povo de Deus que se oferece no mesmo Sacrifício no qual nos deifica. Vemos a realidade desta proclamação na maioria das orações sobre as oferendas. Na solenidade da Epifania rezamos assim: “Ó Deus, olhai com bondade as oferendas da vossa Igreja, que não mais vos apresenta ouro, incenso e mirra, mas o próprio Jesus Cristo, imolado e recebido em comunhão nos dons que o simbolizam” (Oso. Epifania do Senhor. In MR. p. 164); mas oferecemos o Sacrifício do Cordeiro: “Recebei, ó Pai, as oferendas que vos apresentamos no dia em que revelastes vosso Filho, para que se tornem o sacrifício do Cordeiro que lavou em sua misericórdia os pecados do mundo” (Oso. Batismo do Senhor. In MR. p. 165); O Sacrifício de Jesus está na linha da tradição da Escrituras, porém levado à plenitude: “Ó Deus, que no sacrifício da cruz, único e perfeito, levastes à plenitude os sacrifícios da Antiga Aliança, santificai, como o de Abel, o nosso sacrifício [...]” (Oso. 16º DTC. In MR. p. 360).
Três dimensões se expressam no Sacrifício Cristo oferecido na Eucaristia: a nossa salvação, a nossa santidade e a nossa deificação.
Primeira dimensão: a Igreja tem consciência de ser salva e conquistada no Sacrifício de Cristo: “Ó Deus, que pelo sacrifício da cruz, oferecido uma só vez, conquistastes para vós um povo [...]” (Oso. 21º DTC. In MR. p. 365); somos refeitos pela Eucaristia: “Nós vos pedimos, ó Deus, que a força deste sacrifício destrua em nós o homem velho, renove nossa vida e nos traga a salvação” (Oso. Missa do Crisma. In MR. p. 244); a nossa redenção se renova a cada Eucaristia: “Concedei- nos, ó Deus, a graça de participar constantemente da Eucaristia, pois todas as
388 MARSILI, S. A Eucaristia...In Anámmesis III. Op. cit. p. 151.
“A páscoa que Jesus desejou ardentemente comer era a que anunciava a sua paixão: a páscoa hebraica estava encerrada, porque cedia lugar à páscoa nova do Reino de Deus, e esta nova páscoa é o cumprimento da antiga”. MARSILI, S. A Eucaristia. In Anámmesis III. Op. cit. p. 151.
vezes que celebramos este sacrifício, torna-se presente a nossa redenção” (Oso. 2º DTC. In MR. p. 346); A salvação pode expressar também a nossa purificação: “Subam até vós, ó Deus [...] o sacrifício, a fim de que, purificados por vossa bondade, correspondamos cada vez melhor aos sacramentos do vosso amor” (Oso. 6º DTP. In MR. p. 309); a salvação se expressa também na celebração litúrgica: “Ó Deus, o sacrifício que vamos oferecer nos traga sempre a graça da salvação, e vosso poder leve à plenitude o que realizamos nesta liturgia” (Oso. 22º DTC. In MR. p. 366).
Segunda dimensão: O Sacrifício de Cristo realiza a nossa santidade: “Possa agradar-vos, ó Deus, a oferenda do vosso povo; que ela nos obtenha a santificação [...]” (Oso. 1º DTC. In MR. p. 345); uma vez salvos pelo Batismo o Sacrifício de Cristo completa a nossa santificação: “Acolhei, ó Deus, nós vos pedimos, o sacrifício que instituístes e, pelos mistérios que celebramos em vossa honra, completai a santificação dos que salvastes” (Oso. 27º DTC. In MR. p. 371); a nossa santidade cresce com a celebração do Sacrifício de Cristo: “Acolhei, ó Deus, as oferendas da vossa Igreja em oração e fazei crescer em santidade os fiéis que participam deste sacrifício” (Oso. 15º DTC. In MR. p. 359);
Terceira dimensão: O sacrifício de Cristo é a realização do mistério da nossa deificação no Amor do Pai. Assim rezamos na solenidade da Ascensão do Senhor: “Ó Deus, [...]. Concedei, por esta comunhão de dons entre o céu e a terra, que nos elevemos com ele até a pátria celeste. (Oso. Ascensão do Senhor. In MR. p. 313); a deificação humana se dá pelo diálogo entre o divino e o humano realizado no Sacrifício de Cristo: “Ó Deus, que, pelo sublime diálogo deste sacrifício, nos fazeis participar de vossa única e suprema divindade, que [...] lhe sejamos fiéis por toda a vida” (Oso. 5º DTP. In MR. p. 308); a idéia da nossa deificação está presente em inúmeras orações que expressam o nosso desejo de nos oferecer com Cristo ao Pai para que cresçamos em caridade e amor: “Senhor nosso Deus, vede nossa disposição em vos servir e acolhei nossa oferenda, para que este sacrifício vos seja agradável e nos faça crescer na caridade” (Oso. 10º DTC. In MR. p. 354); para que seja efetivo este crescimento nós nos oferecemos nele co Cristo: “Dignai-vos, ó Deus, santificar estas oferendas e, aceitando este sacrifício espiritual, fazei de nós uma oferenda eterna para vós” (Oso. 18º DTC. In MR. p. 362); somo deificados pela comunhão que Cristo estabeleceu conosco no seu Sacrifício: “Acolhei, ó Deus, estas nossas oferendas, pelas quais entramos em comunhão convosco, oferecendo-vos o
que nos destes, e recebendo-vos em nós” (Oso. 20º DTC. In MR. p. 364); a oferenda do Sacrifício e o nosso alimento eterno: “Senhor nosso Deus, que criastes o pão e o vinho para alimento da nossa fraqueza, concedei que se tornem para nós sacramento da vida eterna” (Oso. 5º DTC. In MR. p. 349); e na celebração da Santíssima Trindade assim rezamos sobre as oferendas com as quais vai a nossa entrega: “Senhor nosso Deus, pela invocação do vosso nome, santificais as oferendas de vossos servos e servas, fazendo de nós uma oferenda eterna” (Oso. Santíssima Trindade. In MR. p. 379).
A Igreja oferece o Sacrifício de Cristo, nele também se oferece como realidade deificada sacramentalmente. Encontramos nas orações eucarísticas as razões de celebrarmos a nossa entrega a Deus por meio de um Sacrifício que lhe seja agradável: pois é o Sacrifício perfeito do Filho, mas ao mesmo tempo também o nosso, que pela deificação o Pai espera que seja também agradável389. Neste sentido a nossa disposição ou não em nada altera o sacrifício de Cristo, mas afeta a nossa oferta e entrega que somente será perfeita na plena comunhão com Cristo (cf. OE. I. In MR. p. 470). Por Cristo e pelo Espírito Santo somos reunidos para oferecer em todo tempo e lugar um Sacrifício perfeito (cf. OE. III. In MR. p. 482). A oferta da Igreja é “o sacrifício pascal de Cristo” (OE. VI-A. In MR. p. 845). A este Sacrifício o Pai nos atrai pelo seu amor: “fazendo-os participar no único sacrifício do Cristo” (OE. VI-A. In MR. p. 845). Este sacrifício, contudo, se completa na comunhão sacramental “do mesmo pão e do mesmo cálice” (OE. IV. In MR. p. 492). Neste sentido a nossa participação na Eucaristia só será plena comungando do Sacrifício de Cristo. Somente aí podemos esperar frutos da deificação sacramental.