Seis variantes da EA estão comentadas no livro lançado pelo MMA por quem formulou ou difunde a proposta, informa Layrargues: alfabetização ecológica, ecopedagogia, EA crítica, transformadora, emancipatória, educação no processo de gestão ambiental. Não é um assunto óbvio à primeira vista, emenda Isabel Moura Carvalho, num dos primeiros capítulos do livro, sobre a EA crítica. “O mapa das educações ambientais não é auto-evidente, tampouco transparente para quem envereda pela multiplicidade das trilhas conceituais, práticas e metodológicas que aí se ramificam”.
“Não raras vezes” – confessa a especialista – “é difícil posicionar-se pelas sendas dos nomes que buscam categorizar, qualificar, adjetivar a educação ambiental e aí encontrar um lugar para habitar”. Ao mesmo tempo, ela comenta ter ficado impossível “traduzir ou reduzir as múltiplas orientações numa única educação ambiental: uma espécie de esperanto ou pensamento único ambiental”.
156 Primeiro livro da Série Desafios da Educação Ambiental (146 p.), publicado em novembro de 2004 pelo OG-PNEA, também disponível em: http://www.mma.gov.br/estruturas/educamb/_arquivos/livro_ieab.pdf.
157 “Educação no processo da gestão ambiental: criando vontades políticas, promovendo a mudança”, que Philippe Layrargues apre- sentou no I Simpósio Sul Brasileiro de EA, em Erechim (SC), em 2002, exibe a evolução de posturas no meio ambientalista, para
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as interdependências das sociedades humanas, da economia e do meio ambiente; a simultaneidade dos impactos nos âmbitos local e global; uma revisão dos valores, ética, atitudes e responsabilidades individuais e coletivas”.
O segundo olhar da estudiosa canadense mirou perspectivas que norteiam práticas pedagógicas, que podem dar mais peso à educação ou/e ao meio ambiente. Em geral, se entrecruzam. Partindo do pressuposto de que a EA se situa na relação entre ser humano e seu ambiente, Sauvé desenhou três vertentes:
• Perspectiva ambiental. Guiada pela questão: “que planeta deixaremos às nossas crianças?” e centrada no ambiente biofísico. Ao entender que a degradação ambiental ameaçaria a qualidade de vida humana, preconiza o engajamento para prevenir e resolver os problemas ambientais.
• Perspectiva educativa. Orientada pela indagação: “que crianças deixaremos ao nosso planeta?” e centrada no indivíduo ou grupo social. Parte da constatação de que o ser humano desenvolveu uma relação de alienação a respeito do entorno de onde vive, recomendando, como antídoto, a educação integral do indivíduo, para que desenvolva autonomia, senso crítico e valores éticos.
• Perspectiva pedagógica. Induzida pela pergunta: “que educação deixaremos para nossas crianças nesse planeta?” e centrada no processo educativo. Caracterizando métodos pedagógicos tradicionais como dogmáticos e impositivos, propõe uma pedagogia específica para a EA, marcada pela perspectiva global e sistêmica da realidade, pela abertura da escola ao seu entorno e pela metodologia da resolução de problemas ambientais concretos.
“Mas foi a compreensão da educação ambiental a partir de sua função social sustentável (Neal, 1995), a educação no
processo de gestão ambiental (Quintas & Gualda, 1995), a ecopedagogia (Gadotti, 1997).
Num mundo dinâmico, se as práticas se diversificam, também logo surgem estudos para classificar as tendências. Ainda em 1995, informa o relatório da CGEA/ MEC, identificou-se quatro vertentes da EA praticada no país: a conservacionista, a educação ao ar livre, a gestão ambiental e a economia ecológica.
Dois anos mais tarde, em 1997, Lucie Sauvé, da Universidade de Quebec, no Canadá – que mais tarde se aprofundaria no tema e criaria novas chaves de classificação – propôs dois olhares sobre a EA. Num deles, escolheu, como critério, a já mencionada relação entre o substantivo (educação) e o adjetivo (ambiental), para chegar a três opções. A elas, o relatório da CGEA/MEC introduziu uma quarta possibilidade, discutida pelo Órgão Gestor da PNEA:
• Educação sobre o meio ambiente. Embasada na “transmissão de fatos, conteúdos e conceitos, onde o meio ambiente se torna um objeto de aprendizado”.
• Educação no meio ambiente. Também chamada de educação ao ar livre, usa o contato com a natureza – ou com o contexto biofísico e sociocultural do entorno da escola ou da comunidade – como meio de aprendizado.
• Educação para o meio ambiente. Utiliza o meio ambiente como meta do aprendizado, buscando engajar a/o educanda/o, para que aprenda a resolver e prevenir os problemas ambientais.
• Educação a partir do meio ambiente. Proposição do Órgão Gestor, incorpora fatores como “saberes tradicionais e originários que partem do meio ambiente,
CGEA/MEC.
Logo no início, os autores confessam a pretensão de “desmascarar a interpretação errônea que muitos fazem de que o campo da EA é homogêneo e consensual e trazer para o debate a grande diversidade de nomenclaturas que brotam e ganham espaço cada vez mais dentro do campo educacional”. Mas fazem questão de frisar, em seguida, que, mesmo que timidamente, querem contribuir para “criar um espaço para o amadurecimento teórico e das fontes epistemológicas destas adjetivações”, referindo-se assim ao ramo da filosofia que estuda a origem, métodos e a validade do conhecimento, pela prospecção de seus mecanismos, limites e contradições.
De modo didático, escolhem apenas quatro nomenclaturas já detalhadas no livro Identidades da educação ambiental brasileira, lançado no ano anterior: EA crítica, transformadora, emancipatória e ecopedagogia. E, antes de entrarem no resumo e avaliação de cada uma – usando como principal fonte o mencionado livro do MMA – informam que todas elas nasceram com pontos em comum.
São movimentos de oposição à EA conservadora, aquela “que está de acordo com a realidade socioambiental vigente e, por isto, é incapaz de transformá-la”; marcada pela “despolitização e a não contextualização social, econômica e cultural”, e cujo enfoque “prioriza uma posição de produção e transmissão de conhecimentos e valores ecologicamente corretos, reforça o dualismo sociedade-natureza existente, sem colocar o homem como sujeito responsável pela crise ambiental e sua solução”. E mais: as quatro EAs em análise têm raízes comuns, que propiciou o surgimento de tipologias
dualísticas, com categorias intrinsecamente binárias”, informa em seguida o relatório do MEC, ainda focando os anos 1990. Nessas categorizações entrariam a contraposição entre uma EA alternativa e a EA oficial, apresentada por Isabel Carvalho em 1991, ou entre a EA popular e uma EA comportamental, que ela discutiria dez anos mais tarde.
O texto também cita três outras contraposições, discutidas entre 1999 e 2002. De um lado da balança, a educação no processo de gestão ambiental, a EA crítica e a EA emancipatória. No outro lado, apenas a EA convencional, que outros especialistas apelidam de EA conservadora. Seriam tentativas para demarcar “uma EA que se articula com as forças progressistas, contra uma outra que se articula com as forças conservadoras da sociedade, visando respectivamente a transformação ou a manutenção das relações sociais”, indica a publicação do MEC.