O presente trabalho teve por objetivo analisar as relações entre o ensino médio e a educação profissional de um curso técnico de contabilidade do Senac DF, nas formas de articulação concomitante, em instituições distintas, e subsequente. De acordo com os resultados da pesquisa, os alunos do curso técnico de contabilidade do Senac DF eram de nível sócio-econômico médio-baixo, frequentavam ou frequentaram escolas públicas, trabalhavam pela manhã ou durante a semana na área de contabilidade, moravam no Distrito Federal e no entorno da Capital. Os pais desses alunos possuíam nível de escolaridade até o ensino médio e muitos dos alunos contribuíam para o orçamento doméstico.
Sobre as articulações entre os currículos do ensino médio e do curso técnico de contabilidade, o número de 30 alunos por turma foi considerado adequado ao curso, em função dos ambientes pedagógicos. Os professores do curso recebiam capacitação continuada nos encontros e jornadas pedagógicos. As aulas buscavam associar a teoria e a prática, porém existia a dificuldade dos alunos que ainda cursavam o ensino médio nas disciplinas de português e matemática e nas que se relacionavam a elas. Para suprir esta lacuna os professores revisavam as disciplinas. Observou-se que o ensino médio prepara o aluno para o curso superior, ou seja, mantém um ensino acadêmico e ainda está distante da preparação geral para o trabalho.
Os dirigentes e professores conheciam os documentos que normatizam a educação profissional e o ensino médio, a LDB e o Decreto nº 5.154/2004. Sugeriram como adequadas as formas de articulação subsequente e integrada. Observou-se ainda que, embora existam os documentos que orientam a educação profissional e o ensino médio, o Decreto nº 5.154/2004 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, parece não serem aplicados nas escolas de ensino médio. O que se percebeu foi um distanciamento entre lei e normas e a realidade das escolas.
Para os alunos concluintes do ensino médio, o módulo I era repetitivo, principalmente nas disciplinas de português e matemática. Essa questão do módulo I ser repetitivo foi apontada na pesquisa apenas pelos alunos e não se
obteve a opinião dos professores sobre o quesito. Sugere-se que haja um pré- teste nas disciplinas de português e matemática aplicado a todos os alunos que se matricularem no curso técnico de contabilidade, com a finalidade de verificar em que setores o aluno tenha necessidade de cursar o módulo I. A partir do diagnóstico do pré-teste, é possível dispensar o aluno de uma parte ou até de todo o módulo I, por meio do aproveitamento de estudos. A retificação da aprendizagem de português e matemática poderia ser realizada por meio de programas de estudo individuais e/ou em pequenos grupos, organizados segundo as necessidades detectadas.
Comportamentos inadequados, trazidos do ensino médio pela maioria dos alunos participantes do curso técnico de contabilidade, foram a dependência do professor, falta de interesse em pesquisar, falta de definição de objetivos de trabalho e carência de modos de agir e falar e de posturas condizentes com as exigências do mercado de trabalho. Uma alternativa para estimular os alunos à pesquisa seria a utilização do ensino a distância e a formação de grupos de acordo com as dificuldades dos alunos. Sugere-se que se investigue os porquês do desinteresse dos alunos do ensino médio em pesquisar, tendo em vista a provável ênfase na “aquisição” de conteúdos programáticos, orientada pelos processos seletivos de acesso à educação superior. Assim, aparentemente o ensino médio continuaria a ser propedêutico e não formativo, ao mesmo tempo em que, como última etapa da educação básica, não teria cumprido a finalidade de aprender a
aprender. Seria desejável que a formação inicial e continuada dos professores se
concentrasse em metodologias ativas e em atividades desafiadoras, como a resolução de problemas.
Os alunos do ensino médio não apresentavam conhecimento sobre os diversos cursos técnicos, as respectivas profissões e os conteúdos desses cursos, o que denota o não cumprimento pleno de uma das suas finalidades legais, o preparo básico para o trabalho. Esta dificuldade, no entendimento da pesquisadora, pode estar relacionada à insuficiente abordagem do mundo do trabalho pelo ensino médio, além da escolha ocupacional prematura, em muitos casos com os discentes premidos pela sua situação sócio-econômica. Desse modo, apesar da legislação e normas, pode-se depreender que, ao menos no caso dos alunos participantes desta pesquisa, o trabalho era um ponto provavelmente obscurecido pela ênfase nos conteúdos programáticos. Por falta dessas informações, muitos iniciavam o
curso técnico de contabilidade e desistiam após frequentarem o módulo I. O currículo do curso técnico de contabilidade atendia às necessidades do mercado de trabalho, uma vez que as competências requeridas para o profissional técnico em contabilidade estavam contempladas no plano curricular. Os professores do Senac trabalhavam de modo a favorecer o desenvolvimento dessas competências por meio de atividades que permitiam aos alunos a vivência da função de técnico em contabilidade. Em virtude da rapidez com que os softwares se modernizavam, existia espaço para serem atualizados, porém, isso não comprometia o desenvolvimento das competências nos alunos e um indício era que, antes do término do curso, muitos alunos eram inseridos no mercado de trabalho.
Diante dos resultados apresentados por esta pesquisa sugere-se que os alunos do ensino médio sejam orientados sobre os diversos cursos técnicos, as profissões e o mundo do trabalho. Que haja uma política de educação capaz de favorecer o desenvolvimento dos alunos de todas as classes sociais nas disciplinas que servirão tanto para a interação com o meio social quanto para a sua preparação para o trabalho. Assim sendo, o aluno poderá cursar o ensino médio e a educação profissional de acordo com a sua disponibilidade de tempo, tanto nas formas de articulação concomitante, integrada ou subsequente sem que apresente dificuldades nas disciplinas aprendidas no ensino médio.
Verifica-se a necessidade de especiais cuidados na articulação entre os currículos do ensino médio e da educação profissional. Sabe-se que o ensino médio unitário não é fácil para planejar e executar, pois não basta aglutinar disciplinas, somar cargas horárias e, apesar disso, não atender às necessidades dos alunos. Sabe-se também que uma minoria frequenta no Brasil o ensino médio unitário. A maioria dos alunos se encontra no ensino médio e na educação profissional nas formas concomitante e subsequente.
Constatou-se a falta de visão do trabalho pelos estudantes, das carreiras profissionais, do comportamento e até de como se apresentar, cabendo ao Senac essa orientação, já que os discentes chegaram ao curso técnico sem estas condições. Sugere-se que o Senac intensifique a preparação dos alunos para assumirem a postura profissional esperada, de forma que recebam ensinamentos dos conhecimentos e habilidades do curso técnico, do vocabulário, da apresentação pessoal, da forma apropriada de se vestirem e de aspectos
formativos para o trabalho, tendo em vista a identidade adolescente da maior parte desses alunos e a carência dessas orientações.
Os problemas detectados em grande parte se devem à fragilidade da articulação e da integração entre o ensino médio e a educação profissional. Isso precisa ser efetivado por meio da compatibilização dos projetos pedagógicos envolvidos. Todavia, nas formas subsequente e concomitante em instituições diversas, como no caso em tela, os alunos frequentam ou são egressos de múltiplos estabelecimentos, em diferentes períodos. Desse modo, a articulação precisa ser feita a posteriori, com base nas necessidades específicas dos grupos discentes.
Note-se que a articulação entre o ensino médio e a educação profissional vai muito além das grades curriculares. Currículos, no sentido pleno do termo, integram o projeto pedagógico e não se baseiam na soma de meros conteúdos programáticos. Estes são como a casca de frutos, pois se fundamentam em valores (portanto, em uma filosofia), atitudes e comportamentos, ainda que estes não sejam explícitos ou claramente visíveis à consciência dos educadores. Disciplinas e conteúdos programáticos são meios para atingir as finalidades e objetivos educacionais. Nisso reside parte do perigo: não há conteúdos sem valores, nem valores sem conteúdos. Conquanto estas relações possam ser nebulosas para muitos educadores, os valores se corporificam nas experiências dos estudantes. Se eles pouco conheceram e discutiram sobre o mundo do trabalho e tiveram a primazia de conteúdos acadêmicos, ainda que essenciais; se chegam sem disposição para pesquisar, é porque dificilmente com eles se praticou a pedagogia dialogada. Em outras palavras, as soluções precisam ser muito mais profundas, por envolverem mudanças paradigmáticas.
Espera-se que a presente pesquisa possa contribuir para futuros estudos, mais aprofundados, e que seja fonte de futuras investigações sobre as relações que se estabelecem entre a educação profissional e o ensino médio, pois há um longo caminho até o ensino médio se articular efetivamente com o mundo do trabalho e com a educação profissional.
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