A pesquisa em tela passa, agora, a discutir a relação entre afetividade, aprendizagem e interação professor-aluno. A esse respeito, Leite e Tassoni (2002, p. 14), apresentam que
[...] a Aprendizagem é um processo dinâmico, que ocorre a partir de uma ação do sujeito sobre o objeto, porém sempre mediada por elementos culturais, no caso, escolares; ou seja a mediação é condição fundamental para o processo de construção do conhecimento pelo aluno.
Como resultado aos pré-indicadores que antecederam a configuração deste núcleo, chegou-se a fato de que os docentes do 6º Ano concebem que a afetividade leva o aluno a gostar do conteúdo, porque gosta do professor; e isso facilita a relação professor-aluno em sala. Isso, de acordo com a concepção dos docentes, é decorrência de os discentes se dedicarem mais a buscar compreender a matéria do professor com quem mais se identificam.
Esse pressuposto dialoga perfeitamente com o apresentado por Leite e Tassoni (2002): a qualidade da mediação influencia decisivamente no modo como os alunos se relacionam com os objetos de conhecimento. O discurso dos docentes apresenta bem esse aspecto:
Ah, eu acho que é fundamental! Porque, claro, que sempre vão existir alunos que mesmo não tendo uma relação afetiva com o professor, conseguem ir bem, porque eles gostam da matéria, porque eles têm uma facilidade. Mas a maioria dos alunos, eles precisam dessa relação, eles se identificam com o professor, né? Quando eles têm essa identificação, eles conseguem ir melhor com relação à matéria. Tanto é que a gente vê alunos que falam “ah, eu não gosto de matemática”, mas se você for verificar ele não gosta do professor, ele não conseguiu criar uma boa relação [...] (Professora Carla).
Eu acho que é fundamental, especialmente quando se trata de alunos menores. Né? De 6º até 7º ano. Porque eles ainda necessitam dessa identificação com o professor. Isso se dá muito por essa parte pessoa da afetividade. [...] Quando os alunos têm identificação com o professor, e isso depende muito da afetividade, por mais que eles não gostem da matéria, eles se interessam mais [...] E interfere sim, da mesma forma que o professor que é seco, que é grosso, afasta seus alunos e isso faz com que eles transfiram esse, essa imagem do professor seco para a matéria (Professora Bárbara).
Vou voltar no, no meu início como aluna, que [...] quando os professores eram mais próximos a mim, eu gostava muito mais da disciplina, eu tinha muito mais vontade de tar em sala de aula, de participar e desenvolver tudo aquilo que o professor propunha. [...] Então eu sempre procuro buscar isso nas minhas aulas! Tento fazer, me colocar no lugar do, do meu aluno, como ele encararia aquela atividade, como é que eu tô sendo, então, relaciono isso diretamente com a minha prática (Professora Andreia).
[...] e faz com que ele te enxergue, sabe? Naquele processo. [...] Mas como alguém que faz parte desse processo de aprendizagem. [...] Pode interferir de um modo muito positivo, porque esse aluno, ele precisa construir sentido pra, pra aquele conteúdo que ele está aprendendo (Professora Karen).
É a afetividade faz parte, claro, do dia-a-dia da sala de aula, disso aí, do bom aproveitamento do aluno, é como, como eu já falei anteriormente, ele vai ter a liberdade de perguntar. Se ele não tem essa afetividade, ele também, não tem essa liberdade de pergun... de inquirir quando ele tem alguma dúvida, algum problema, ele não tem... Até problemas, às vezes, não relacionados à matéria, quando o aluno tem afetividade ele vai... Uma das pessoas que ele vai procurar primeiro é o seu professor (Professora Joana).
Eu acho que sim! Quando o aluno tem afetividade pelo professor, o carinho pelo professor ele aprende muito mais, ele fica mais à vontade e o professor também! (Professora Telma).
Porque, é... Quando o aluno não tem afinidade com o professor, ele pode ser a melhor matéria [...] os alunos não vão bem! Então tem sim! Às vezes... Por exemplo, eu comecei a gostar de Química porque eu gostava do meu professor de Química [...] (Professora Laura).
Nessa, nessa relação de afetividade que nós temos o quê? Nós temos uma troca, na verdade de conhecimentos [...] Sinceramente, eu acredito sim! Porque, a meu ver, quando a gente tem um professor que trata o conteúdo de forma mais afetuosa, mais cativante, com... mais recursos! Com mais querer de, de ter assim, o retorno do aluno, a gente tá facilitando. [...] Quando o professor é muito fechado, muito sério, não é muito receptivo, eu acho que isso... Com certeza dificulta (Professora Isabela).
[...] ali o aluno vê você como uma pessoa próxima. Então é muito mais fácil dele prestar atenção no que você tá falando e conseguir absorver aquilo. [...] O aluno fica mais à vontade, ele consegue trazer coisas da vida dele, ele consegue é... acho que o professor consegue uma abertura maior pro aluno perguntar algumas coisas (Professor Vinícius).
Então, todo conteúdo até mesmo dentro da sala de aula, as... A relação, a manifestação, tudo... Favorece, né?! [...] Matemática, né, por ser uma matéria muito difícil, acho que quando o professor consegue trazer o aluno pra perto dele, e ele ser mais carismático com o aluno, acho que os alunos ficam mais assim... Disponíveis, né? Assim, pra receber o conteúdo, pra tirar dúvidas com a gente (Professora Beatriz).
Principalmente quando o aluno não gosta do professor, ou o aluno, ou o professor não gosta do aluno. Então, essa relação de não gostar, ela não deve interferir no processo de ensino-aprendizagem do aluno. Mas interfere. A gente não quer, mas ela acaba interferindo (Professora Ianca).
Não tem nada pior do que você entrar numa sala de aula e você perceber que você não é bem quista pelos seus alunos. Né? [...] Afetividade... Ela, ela tá relacionada a quê? [...] Ela relaciona completamente o seu conteúdo ao gostar de você [...] se você gostar do professor, a aula fica mais prazerosa no mínimo (Professora Amanda).
É perceptível que os docentes associam a aprendizagem do aluno à qualidade da interação que se estabelece entre esse professor e o aluno no processo. Esse é um dado positivo, pois indica que os docentes já se mostram mais abertos à noção de que as condições
para uma boa mediação na aprendizagem é de natureza afetiva, o que traz inúmeras implicações para as práticas pedagógicas (LEITE; TASSONI, 2002).
No entanto, em função da superficialidade que demonstram, por suas falas, terem sido apresentados à questão da afetividade em sua formação, e pelas concepções que possuem a respeito do tema, os professores, com exceção do verificado nas falas das docentes Karen e Ianca, desconhecem (ou desconsideram) a importância de o professor interpor o conhecimento entre sua figura e a figura do aluno. A esse respeito, é esclarecedor o que Almeida (1993, p. 40) apresenta:
Não se pode pretender abolir a diferença professor-aluno em nome de uma soi-
distante relação afetiva favorável. O professor que se identifica com a criança se apaga, anula sua identidade de professor e de adulto, estabelecendo uma relação imaginária especular e concebendo a aprendizagem como uma experiência auto- engendrada (grifo da autora).
É fundamental que o docente reconheça que seu papel é ser um “canal”, uma “ponte” entre o aluno e o conhecimento. O aluno deve buscar a aprendizagem em função do conhecimento, reconhecendo no docente um mediador de qualidade, que o auxilia nesse processo, alguém em quem ele pode confiar, mas que há algo mais importante por trás desta figura com quem ele interage: o saber.
Almeida (2004, p. 126) sintetiza bem essa questão:
O professor desempenha, para o aluno, o papel de mediador entre ele e o conhecimento, e essa mediação é tanto afetiva como cognitiva. Portanto, ao professor compete canalizar a afetividade para produzir conhecimento; na relação professor-aluno, aluno-aluno, aluno-grupo [...].
Faz-se necessário, portanto, abrir espaço, na escola, para que o docente reconheça e reflita a respeito desse papel que ele tem como mediador do conhecimento. E que ele possa perceber que a qualidade dessa mediação será tanto melhor quando calcada na relação afetiva entre aluno, professor, conhecimento e aprendizagem, uma vez que ele, professor, se relaciona com uma criança que é concreta, uma unidade dialética entre organismo e meio (ALMEIDA, 1995).