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Metoder, utvalg og begrensninger

Outro ponto recorrente no discurso das entrevistadas, além de não poderem sair sozinhas, elas também parecem ter uma série de impeditivos para beber a quantidade que desejam e com a frequência que gostariam, pois tal prática pode causar prejuízos à sua imagem de mulher adequada. Essa mitologia surgiu quando as participantes foram questionadas se já tinham bebido além daquilo que consideram suficiente. Poucas falas das entrevistadas admitem que já o fizeram em público, mas

refletiram bastante sobre os efeitos desse comportamento dentro do contexto estudado.

Na fase de observação, pode-se constatar que as algumas mulheres julgam as outras por beberem, qualificando o ato de “beber demais” como totalmente masculino ou permitido apenas para os homens.

Ainda existe um pouco de preconceito de olhar a mulher bebendo muito e toda hora, já tira, já rotula a gente, eu estou a muito pouco tempo solteira, ainda talvez não tenha passado por isso ou por essa experiência, mas vejo por amigas que falam, não sei, a mulher é mais que quando bebe dependendo da quantidade é mais fiasquenta, acho o homem mais discreto quando bebe, na maioria das vezes a mulher bebe para se empoderar, para ter ou criar mais coragem, para se soltar mais (ANDREA).

O relato da participante Andrea exemplifica que, para os homens, é mais comum ter esse comportamento. Já para as mulheres, existe um certo exagero em suas atitudes após o ato de beber além daquilo que o indivíduo considera como limite.

Tipo se uma mulher beber de mais é diferente de um homem que bebeu demais. Eles se comportam igual, vão falar mais alto, falar coisas sem sentido, ficar mais alegres, espontâneas, mas como é visto é diferente, a mulher que bebe demais tá fazendo algo errado, tipo algo que não é para ela, que como ela bebeu demais, ela não terá direito de reclamar das consequências e o homem que bebeu demais é mais tolerável (LAÍS).

Para a participante Laís, a mulher sofre um julgamento diferente dos homens ao realizar a mesma atividade. Sua fala reforça que, para as mulheres, parece ser errado beber em demasia. A própria informante também reconhece que, para o homem, a mesma atitude é mais aceitável. Então, a mulher pode empregar o que, para Lemert e Branaman (1997) baseados na obra de Goffman, é parte de seu desempenho, que funciona regularmente de uma forma geral e fixa, para definir a situação para aqueles que observam aquele comportamento.

Ah, então, vou te dizer assim ó, no próprio comportamento, apesar de eu estar, muitos anos em um relacionamento, eu acompanho amigas que estão na luta pra... Trinta e cinco anos não conseguiu casar, quer ter filhos e aí como é que faz? Ela é uma guria que bebe bastante, e isso se tornou um problema para vários caras que ela ficou. Exato, o comportamental né... Tipo, nessa coisa até do julgamento, a mina bebe, só serve pra estar na noite, não sei se serve pra se tornar namorada, tu entendeu o que eu quis dizer (JÉSSICA).

Já para a entrevistada Jéssica, pelo fato de beber com frequência, a mulher é penalizada pelos outros com uma visão deturpada de si, influenciando diretamente na sua autoconsciência. Tal comportamento torna-se um problema profundo para sua vida. A desqualificação de uma mulher que bebe com frequência é, para Lemert e Branaman (1997), a reafirmação dos valores morais de uma comunidade na medida em que destaca o que é permitido em uma determinada sociedade.

Já para Pettigrew (2002), quando a mulher bebe além daquilo que é tido como normal, sua imagem dissocia-se da representação de mulher adequada. Na opinião das entrevistadas, ao distanciar-se do ideal de mulher sociável, também se afastem da possibilidade de chamar a atenção do sexo oposto. Elas são consideradas como inferiores e não candidatas a um relacionamento sério, o que restringe suas perspectivas.

Porque eu ainda vejo mais homens do que grupo de mulheres. Aqui hoje olha ali ó, olha as mesas, tem só mulheres ne, porque olha o dia da semana, é quarta. Vem, sábado, as mesas não vão ter tantas mulheres. Eu acho que isso tem a ver também com a questão familiar. Eu acho que dia de semana as mulheres conseguem sair mais fácil de casa do que fim de semana. Isso fundamentado no casamento, no ciúme, na questão que quem sai final de semana são pessoas solteiras, são pessoas que não são casadas, que não tem família, filhos e compromissos residenciais (risos) entendeu. Mas sério por um milagre só tem mulher aqui, eu venho aqui com muita frequência, mas não na quarta-feira. Então eu acho que o público muda de acordo com o dia da semana. Hoje tá cheio de mulher aqui né, sábado eu vou passar aqui só pra ver se vai tá cheio de mulher (risos). E que eu ainda acho que no sábado não tem tanta mulher (JÉSSICA).

Nas visitas realizadas durante a semana, o número de mulheres no bar revelou-se maior que os homens, exceto em dias de jogos de futebol. Nas idas ao campo realizadas no final de semana, a proporção já era mais equilibrada entre os gêneros (NOTA DE CAMPO).

No trecho mostrado da participante Jéssica, surge o indício de que, por terem responsabilidades do lar, as mulheres em geral frequentam o ambiente com uma frequência menor e em dias da semana específicos (reflexo do comportamento masculino), pois só podem sair quando o homem está disponível para substituí-la.

Essa restrição imposta por estruturas sociais tradicionais reforça o que Bourdieu (2003) chama de confinamento simbólico da mulher, reproduzido nas roupas, corpo e gestos. Segundo o autor, é possível percebê-lo também na limitação das possibilidades de pensamento e ação, a partir do fato de um tipo de desqualificação, quando a mulher tem atitudes semelhantes às do homem.

Pettigrew (2002) constatou que uma mulher bebendo cerveja é mais malvista comparada à que está bebendo vinho, que gozam de mais respeito por parte dos homens. Já a mulher que consome cerveja, aparenta estar mais disponível. Essa mitologia de mercado condiciona as mulheres a beberem pouco e em ambientes extremamente específicos, sob risco de comprometer sua imagem de mulher adequada.