Studiens design og forskningsmetode
3.3 Metode for datainnsamling
O “caboclo tradicional”, na definição de Wagley (1985), vivia em moradias familiares relativamente isoladas nas margens dos rios, igarapés ou igapós, e não possuía a propriedade da terra. O plantio na várzea incluía milho, arroz, feijão, bananas e outras culturas de rápido crescimento, em pequenas roças. Na terra firme predominava a mandioca. Suas outras atividades de subsistência eram a caça e a pesca. A parte da produção voltada para o mercado era, caracteristicamente, de bens de exportação Um dos aspectos deste viés, é que as várzeas, justamente as áreas mais produtivas, permaneceram relativamente sub- exploradas desde a eliminação das sociedades indígenas ribeirinhas.
como a borracha, a castanha do Pará, animais silvestres ou madeira. Além disso, havia algum excedente agrícola destinado para a venda nos mercados locais (Wagley 1985)
Entretanto, as categorias antropológicas convencionais23 como grupo étnico, classe, região ou
ocupação, são insuficientes para definir o termo Caboclo24. As pessoas que residem na Amazônia
concordam que índios e colonizadores não são caboclos, mas quando a questão é definir quem pertence ou não a esta categoria, as coisas não são tão simples. O termo é aplicado pelas elites urbanas para referir-se ao agricultor e extrativista analfabeto ou semi-alfabeto das zonas rurais, não indígena e não colonizador recente, por exemplo (Chibnik 1991, Wagley 1985). Mas o mesmo termo é utilizado para identificar pessoas de classe média e alta da zona rural e, ainda, alguns moradores urbanos (Chibnik 1991). A existência de inúmeros significados deve-se ao fato da palavra ser utilizada, normalmente, como um mecanismo distanciador. Seu caráter historicamente pejorativo faz com que o termo seja utilizado para designar o outro socialmente inferior, jamais a si mesmo (Wagley 1985).
Uma análise histórica mostra que o termo Caboclo já teve diversos significados ao longo dos séculos (Chibnik 1991). Primeiramente, o termo foi utilizado para denominar os índios domesticados e, depois, os mamelucos. O Caboclo era o produto do processo de destribalização das sociedades indígenas e da mistura genética do colonizador português com as mulheres índigenas, tendo posteriormente incorporado os negros africanos e os nordestinos (Parker 1985). Posteriormente, passou a ser usado para referir-se ao habitante das áreas ribeirinhas, implicando uma idéia de atraso, preguiça, ignorância, timidez, falta de confiança, e de modo de vida simples. Nesse sentido, o termo possuía a mesma conotação utilizada para outras sociedades mestiças no Brasil (caiçaras, caipiras), e refletia a ideologia racial brasileira (Chibnik 1991, Motta Maués 1989, Nugent 1993) O significado da palavra foi mudando com o tempo, e hoje é normalmente empregado como um sinônimo de índios aculturados, pessoas mestiças, ou habitantes das áreas rurais da Amazônia (Harris 1999, Nugent 1993).
E sses limites quase-étnicos entre os amazônidas não-indígenas e outros grupos constitui-se num dos aspectos mais importantes da paisagem social da Amazônia. A identidade Cabocla auto-atribuída baseia-se numa complexa mistura de descendência biológica, características culturais, distinções de
23 Pessoas que pertencem a um mesmo grupo étnico geralmente se identificam como tal, e são identificadas pelos outros
como membros de uma categoria distinta. Apesar dos critérios utilizados na antropologia para definir grupo étnico serem variáveis, normalmente envolvem traços culturais, língua, religião, origem histórica e aparência física. A identidade étnica pode ser situacional, com a mesma pessoa sendo classificada pelos outros de acordo com critérios distintos, dependendo da situação. Além disso, os próprios indivíduos podem se utilizar de diferentes identidades étnicas em circunstâncias diferentes. Ou seja, grupos étnicos não são imutáveis, e podem inclusive mudar com o tempo (Chibnik 1991).
24 O mesmo ocorre com outros grupos campesinos latino-americanos, como cholos, ribereños, e cambas, conforme
classe, categorias ocupacionais e regionalidade (Chibnik 1991), e será discutida mais adiante, após a análise de sua formação histórica.
Geneticamente falando, as populações humanas da Amazônia brasileira foram formadas pelo cruzamento inter-étnico entre colonizadores europeus (principalmente Portugueses), os descendentes de africanos e os índios. Entretanto, a mistura populacional não foi homogênea em termos das contribuições relativas de homens e mulheres dos diferentes grupos étnicos, como era de se esperar. Santos et al. (1999) analisaram o DNAmt e o DNA-Y de um grupo de indivíduos de Belém (PA), e demonstraram a contribuição diferencial dos homens e mulheres indígenas na formação da população urbana. A porcentagem estimada da contribuição indígena masculina na formação da população de Belém foi de menos de 5%. Por outro lado, a contribuição feminina foi estimada em 59,4%, confirmando os dados históricos. Santos e Guerreiro (1995) estudaram mais de 5.000 indivíduos, de dez cidades amazônicas, e estimam que a contribuição média indígena para o
pool gênico da população seja de 41%.
Apesar de podermos definir os caboclos como camponeses (Ellis 1988, Nugent 1993, Nugent 1997) as categorias rural e urbano, na Amazônia, não são tão distintas quanto seria de se esperar nas demais regiões do Brasil25. Os limites entre a cidade e a zona rural são bastante fluídos, e o
movimento entre eles é bastante intenso. As pessoas vem e vão para vender sua produção, encontrar trabalho temporário na cidade, ou freqüentar a escola (especialmente os adolescentes, já que a escola secundária são raras nas comunidades). Para Parker (1985), as comunidades caboclas podem ser caracterizadas por um gradiente de integração à vida sócio-econômica regional. Uma pesquisa realizada por Harris (1999) em Parú (próximo a Óbidos), mostrou que 58% dos homens e mulheres haviam passado um parte de suas vidas vivendo fora da comunidade, antes de se casarem e terem filhos. O período de afastamento variou de três meses a dois anos. Os homens normalmente se envolviam com trabalhos manuais como diaristas ou por empreitada. As mulheres trabalhavam como empregadas domésticas enquanto freqüentavam a escola secundária, mostrando uma tendência a continuar com seus estudos como uma forma de adquirir mobilidade social.
Nesta tese, o termo Caboclo é utilizado segundo a definição de Nugent (1993: 23): “... caboclo refers to an historical Amazonian peasantry which has emerged amidst the abandoned colonial apparatus of empire and state”. Para Nugent (1993), existem tantas “sociedades camponesas” na Amazônia quanto definições de “Amazônia” em si, e nenhuma delas se encaixa no estereótipo do Caboclo. Isto porque, além do fato das sociedades caboclas dependerem de diferentes combinações de “atividades de subsistência”, os caboclos também trabalham periodicamente (durante parte do
ano ou de suas vidas) em outros tipos de atividade, incluindo muitas que são essencialmente urbanas. Nesse sentido, não existe um “limite étnico” claro (Chibnik 1991, Gow 1991, Nugent 1993).
Para Harris (1999), a identidade Cabocla é construída em oposição às elites urbanas e aos grandes fazendeiros. Ao combinar uma visão de curto prazo com uma oposição e uma indiferença, vivendo longe dos centros de poder, o Caboclo tenta evitar ou diminuir a dominação sobre ele, adotando um modo de vida anárquico. Apesar da inexistência de uma identidade fortemente articulada, Harris (1999) acredita que há representações culturais amazônicas que podem ser consideradas tipicamente ribeirinhas. As lendas a respeito do bôto-cor-de-rosa, por exemplo, expressam uma forma de estabelecer limites e resistir ao controle externo (Slater 1994 apud Harris 1999). A constante preocupação com o presente e o desinteresse pelo futuro ou pelo passado, emergem de relação particular que os Caboclos estabelecem entre si e com o ambiente natural mutável. De fato, o valor dado ao modo de vida caboclo, pelos próprios Caboclos, a despeito do preconceito externo, é uma maneira de afirmar seu compromisso com a várzea, dando-lhes liberdade para serem indiferentes às mudanças e à dominação formal pelas elites. Para os Caboclos de Parú, “there is a clear connection between living on the floodplain, residing with kinspeople, being one’s own boss, and owing the products of work” (Harris 1999: 201).
Lima e Alencar (1996) discutiram esses aspectos da identidade Cabocla através da análise da influência de um ambiente em constante mutação (a várzea) sobre a construção da memória social. A migração freqüente, provocada pela necessidade de achar locais mais adequados de moradia, resultam numa dispersão constante das famílias. Nesse processo, a construção e a desconstrução das casas é uma constante. A facilidade de poder reconstruir a casa em outro local mais adequado, graças aos materiais utilizados, é de fundamental importância na várzea. As mudanças ambientais provocadas pela força das águas “levam não somente árvores, casas e roças, mas também o passado e o futuro de muitas famílias” (p. 7). Esses fatores se refletem na memória coletiva dos Caboclos, centrada na relação do Homem com a natureza, nas constantes mudanças de um região para outra, nos rios, nas cheias, nas terras caídas e no isolamento das comunidades. “É uma narrativa que fala de recomeços a cada cheia do rio, de replantar a roça, desmanchar a casa e refazer em outro local, mais alto, perto do rio que vai aos poucos alterando seu curso a cada cheia, de lugares e pessoas que desapareceram sem deixar nenhum registro de sua existência.”(p. 15).
25 Na verdade, conforme já vem sendo discutido pelos grupos que trabalham com agricultura familiar no Brasil (FEA-
USP, Núcleo do Economia Rural-UNICAMP, NE AD-MDA), esta situação também representa a realidade atual em outras regiões.
O resultado dese processo é um passado relativamente curto, devido à perda de vínculos e referências, uma vez que a ruptura dos laços de parentesco, devido às constantes mudanças, dificulta a reconstrução da memória social através do testemunho dos mais velhos. A amnésia histórica resultante explica-se, segundo Lima e Alencar (1996), pelas freqüentes rupturas com o passado e pela descontinuidade da rede de relações sociais. A ausência de edificações também contribui para a dificuldade em localizar geograficamente os locais onde se dão as narrativas. Por estes motivos, os antepassados não ocupam lugar especial na memória dos indivíduos, que raramente conseguem lembrar os nomes e locais de origem de seus avós. Para estes autores, a memória coletiva não constitui um referencial para a construção da identidade Cabocla26:
Ou seja, a formação da identidade cabocla teve lugar no interior de processos definidos mais pelas externalidades (transformações econômicas globais) do que pelas continuidades culturais locais (Leonardi 1999, Nugent 1993). O contexto de violência e de dominação, no qual sua identidade foi forjada, fez com que o caboclo construísse uma identidade de oposição. Para agravar ainda mais a complexidade deste quadro, os sistemas sociais na Amazônia vêm sofrendo transformações marcantes nos últimos trinta anos. Um crescimento na diferenciação de classes, o estrangulamento da estrutura política das redes de patronato pela expansão do novo capital, o crescimento da parcela urbana da população cabocla, o impacto da rede de transporte e o aumento do desmatamento são alguns dos fenômenos observados nos últimos anos. Reconhecer a significância das sociedades caboclas requer considerá-las como sociedades inseridas nesse contexto de mudanças históricas, e sujeitas à mesma dinâmica que incorporou outras “periferias” no âmbito dos sistemas político- econômicos capitalistas (Brondizio & Siqueira 1997, Murrieta et. al. 1999, Nugent 1993, Pace 1998).
A própria entrada do caboclo no discurso antropológico manifesta-se de forma ambígua: por um lado, através da legitimidade crescente do discurso ambientalista/ecológico (Murrieta 2000, Nugent 1997), e sua inserção nas questões de uso e manejo de recursos no contexto de uma Amazônia altamente fetichisada (“pulmão da Terra”, “banco genético”, “estoque de biodiversidade”). Por outro, o retrato das sociedades caboclas ainda continua sendo negativo. No discurso antropológico que concerne às populações indígenas, os caboclos representam tanto os restos de sociedades indígenas degradadas, como ameaças imediatas (invasões de terras) às poucas sociedades indígenas remanescentes da catástrofe colonizadora. Nacionalmente, o caboclo representa um projeto incompleto de criação de uma cultura brasileira que rompeu com seus antecedentes europeus, africanos e indígenas (Motta-Maués 1989, Nugent 1993 e 1997).
26 E mbora Lima and Alencar (1996) façam referência aos habitantes da várzea, ressaltam que os moradores da terra
firme também não mantém vínculos com seus antepassados, uma vez que pertencem, assim como eles, a grupos marginais sem prestígio.