Thessalonica e outros paizes.
Mas, realisando-se a predicção de Christo na parabola da sisania, (Vide Evangelho de S. Matheus cap. 13 vs. 24 a 36 e vs. 37 a 43) enquanto os apostolos semeavam a boa semente, o diabo ia tambem semeando a sisania. Devido a isso os apostolos mesmos já tiveram necessidade de fazer alguns protestos a bem da pureza do christianismo.
O primeiro foi feito por S. Pedro, contra alguns phariseus, que se tinham convertido, mas entendiam ser mister circumcidar aos conversos dentre os gentios, e mandar-lhes que guardassem a lei de Moysés. (Vide o protesto de S. Pedro nos Actos dos Apostolos cap. 15 vs. 7-11).
É notavel que S. Paulo, tambem já houvesse tido necessidade de fazer o mesmo protesto que os christãos zelosos têm feito no decorrer dos seculos, e que os protestantes actualmente ainda fazem contra o culto aos anjos.[...]
Temos assim demonstrado que os dois primeiros representantes da nossa religião; (que é o Christianismo Puro, e consiste em observar exclusivamente os ensinamentos de Christo e seus apostolos, protestando sempre contra os erros, superstições, fanatismo, etc., com que os homens tentem desvirtual-o) – os dois primeiros protestantes foram S. Pedro e S. Paulo.
[...] No 4º seculo era protestante Santo Agostinho, illustrado bispo de Hippona, que muito se esforçou para conduzir os espiritos transviados á doutrina santificante da graça, combateu com energia as impiedades do clero e o culto idolatra das imagens.
Tambem S. Chrysostomo foi um denodado protestante. Escutae-o: sobre a sufficiencia das Escripturas Sagradas para nossa instrucção religiosa: - “Tudo é intelligivel nas Santas Escripturas, todas as coisas essenciaes ahi estão claras”.
Ouvio-o contra a confissão auricular: - “Deus não nos obriga a dizer o que temos feito de mal, ante os homens; Elle nos ordena de o fazer saber só a Elle, e de nos confessar a Elle.
Chrysostomo observa como os homens para alcançarem o favor de um poderoso precisavam recorrer a seus amigos fazendo delles seus mediadores, e mostra que não se dá o mesmo com relação a Deus, que está sempre prompto a ouvir nossas supplicas. E, exemplificando este ensino com o caso da mulher cananéa, elle faz ver que ella não se dirige a S. Thiago, nem a São João, nem a S. Pedro, mas passando pelo meio delles, “como que dizendo, não tenho necessidade de mediadores”, vae directamente a Jesus e supplica-lhe: “Senhor, tem piedade de mim!”. Pelo exposto é evidente que S. Agostinho e S. Chrysostomo se vivessem em nossos dias seriam infallivelmente, considerados protestantes, e excommungados pelo papa172 (JB, 30 set. 1903).
OS PROTESTANTES MAIS NOTAVEIS DESDE O 1 SECULO ATÉ LUTHERO
172 H.C. Os Protestantes mais notáveis desde o 1 Seculo ao 16 Seculo. O Jornal Batista, Rio de Janeiro, 30
5º Período. A estrella d’alva da Reforma. Proeminentes protestantes depois do estabelecimento da Inquisição. Luthero e Calvino. No 14º século, após a medonha noite alumiada pelo brilho sinistro das fogueiras da inquisição, surge na Inglaterra o eminentíssimo protestante João Wicklif, a quem os historiadores chamam-a estrela d’alva da Reforma. Membro do clero, pregador em Lutterworth, professor na Universidade de Oxford, Wicklif traduziu o Novo Testamento para o inglez e começou a discursar contra os costumes pervertidos da cleresia, os abusos introduzidos na egreja romana, a supremacia do papa, o culto dos santos, os votos monasticos, o celibato clerical, a transubstanciação e a confissão auricular.
[...] Afinal, depois de uma lucta titânica e heróica de longos annos, tendo concluído a tradução da Bíblia em inglez e organizado um corpo de pregadores, que sahiram pelas ruas e praças de todas as cidades e villas da Inglaterra, a pregar com ardor o Evangelho, depois de ter desempenhado a sua providencial missão, morreu elle em paz e em edade avançada, no anno de 1384.
Roma papal não tendo podido queimal-o, fez desenterrar os seus ossos 40 anos depois de sua morte, queimou-os publicamente e lançou as suas cinzas em um regato. Um escriptor diz que o regato levou suas cinzas ao Avon, o Avon ao Saverne, o Saverne aos Golphos, e este ao Oceano, e assim as cinzas de Wicklif são os emblemas de sua doutrina espalhada pelo mundo inteiro.
S. H. Ford, retro-citado affirma que Wicklif e os wicklifistas, e os lollardos eram baptistas.
A boa semente chegou até á Bohemia, onde em 1409 João Huss, pregador, reitor da Universidade de Praga, constituiu-se defensor da doutrina de Wicklif, trovejou contra o clero e o papado, pelo que foi excommungado por Gregório 12º.
A Bohemia era refugio dos valdences e albigences, perseguidos na França e na Itália, pelo que as ideias de Wicklif, propagadas por J.Huss, encontraram nella bom terreno e alastraram.
O papismo sobresaltado faz citar a J.Huss para comparecer ante o concilio de Constança, que lhe apresentou 39 artigos para abjurar. Elle declarou que a maior parte d’aquelles artigos continham doutrinas que jamais professára e que lhe eram falsamente imputadas, mas que muitos outros artigos, tinha-os por verdadeiros, e se não podessem convencel-o com argumentos da sua falsidade, - preferia morrer a por-se em contradicção com a sua consciência. Não abjurando, foi queimado vivo em 1415.
Seu discípulo e companheiro de propaganda Jeronymo de Praga soffreu pouco depois a mesma condenação do Concilio de Constança.
Quando estava sendo queimado viu um camponez que com muito zelo chegava lenha á fogueira e exclamou: - “Santa simplicidade! Pecca mil vezes mais quem abusa della!”
O fogo que devorou Huss e Jeronymo, diz Cantu, accendeu na Bohemia um temeroso incêndio. Os discípulos de João Huss, em numero considerável, com as denominações de taborismo, calixtinos, atraquistas e hussistas, sustentaram durante annos uma lucta heróica contra Roma. [...] Em outros paizes também se levantaram nestes séculos, protestantes eminentes, dos quais apenas citaremos: João Gerson, chanceler da Universidade de Paris, que combateu os erros do romanismo e os abusos do clero; João Wesselas, de Gromingue, propagandistas das mesmas
doutrinas, que os reformadores proclamaram no século seguinte. Walter Reynard, hollandez, que depois de percorrer diversos paizes do continente europeu passo á Inglaterra, e que é considerado o pai do lollardos; e finalmente Jeronymo Savanarola, na Itália, o qual tambem foi queimado vivo.
Mas todas estas vozes eram como os albores da aurora que precediam ao sol da Reforma, prestes a levantar-se, espancando ás trevas do erro, da superstição, do fanatismo, e deixando o mundo ver a egreja romana tal qual ella é – “uma mistura político-ecclesiastica de judaísmo, paganismo, e christianismo.”
[...] Temos afinal chegado ao seculo 15º que viu nascer Luthero a 10 de Novembro de 1443.
Calvino só nasceu no seculo seguinte a 10 de Julho de 1509. Não é nossa intenção escrever sobre a Reforma.
Quizemos tão somente responder aos que nos perguntam: - “Onde estava a vossa religião antes de Luthero e Calvino?” – Abrindo a historia, mostrando os santos martyres da nossa religião e fazendo-lhes ver que ella é – O christianismo puro, o qual tem estado não nos thronos mas á semelhança do seu fundador, sem casa como as raposas e sem ninho como as aves do céu; não coroada de uma tiara; mas de uma coroa de espinhos; não perseguindo mais perseguida173 (JB, 10 out. 1903).
173 H.C. Os Protestantes Mais Notaveis desde o 1 Seculo até Luthero. O Jornal Batista. Rio de Janeiro, 10