Studiens vitenskapsteoretiske forankring og forforståelse
2.4 Et hermeneutisk standpunkt
Os avanços arqueológicos das últimas décadas, na Amazônia, não foram acompanhados por elaborações teóricas que ajudem a explicar as dinâmicas sócio-políticas das sociedades amazônicas pré-históricas dos últimos dois milênios. Na opinião de Neves (1998), essa situação reflete a ainda forte influência das idéias de Steward na arqueologia brasileira, notadamente sua caracterização dos Povos Horticultores da Floresta Tropical Úmida, e a distinção entre várzea e terra firme7. De forma
geral, explicações deterministas, possibilistas e monocausais ainda são a tônica dominante na explicação da dinâmica social pré-contato. Para Neves (1998), até Roosevelt acabou incorrendo no
mesmo determinismo ecológico de seus colegas, ao recorrer à distinção várzea/terra firme para explicar processos sociais, ou ao enfatizar a fertilidade do solo como fator limitante à complexificação social na Amazônia. A exceção mais importante, para Neves (1998), foi Lathrap (1977 apud Neves 1998), que levantou a hipótese de uma origem comum para os sistemas nativos de produção alimentar do Novo Mundo, a partir de um antigo sistema de cultivo de mandioca, implicando num certo grau de interação entre as sociedades nativas amazônicas. A outra exceção é o trabalho de Denevan (1996), discutido acima.
Recentemente, graças aos avanços obtidos pela etnohistória8, pela ecologia biológica e pela
ecologia histórica, este cenário começa a se alterar, embora lentamente. Graças à uma nova geração de arqueólogos que vem trabalhando na Amazônia, o mito do paraíso tropical e prístino vem sendo abandonado. Estes pesquisadores vêm concentrando seus esforços nos padrões de organização social e política das sociedades pré-contato, fornecendo informações e insights que permitem comparações com a grande quantidade de informações etnográficas acumuladas nos últimos séculos. Além da integração com a etnografia, a arqueologia amazônica também deve ser beneficiada, no futuro, pela aproximação com a lingüística9 e a bioantropologia (Neves et al. 2001).
O papel decisivo da interferência humana na construção da paisagem amazônica vem sendo analisado pela ecologia histórica. Esta linha teórica parte do princípio que foram fatores históricos, e não evolutivos, os responsáveis pelas principais mudanças na relação entre as sociedades humanas e seus ambientes, relação esta que é dialética e interativa. Reconhece-se que as mudanças na relação sociedades humanas – ambiente é processual, embora assuma-se que alguns eventos históricos mais pontuais possam alterar, mudar, ou mesmo reverter as trajetórias anteriores de desenvolvimento. A conquista da América pelos europeus, por exemplo, deu início a uma série de processos que afetaram as relações interativas entre ambiente e história. Através da mútua causalidade destas variáveis, novas sociedades e novas relações com a fauna e a flora de certas regiões foram estabelecidas (Balée 1995). Para os ecólogos históricos, a divisão da Amazônia em duas zonas ambientais opostas, com base nos potenciais bióticos e produtivos, ignora as transformações históricas e pré-históricas que ocorreram nos dois ambientes. Além disso, não ajuda a elucidar as profundas diferenças existentes entre os povos cujas atividades econômicas estavam confinadas a um ou outro ambiente (Balée 1995).
7 Um terceiro grande ecossistema amazônico, o cerrado, raramente é discutido, por exemplo (Flowers 1994).
8 Na definição de Porro (1995: 16), a etno-história “é a história dos grupos indígenas escrita a partir das notícias deixadas
pelos primeiros cronistas e, para as tribos contactadas mais recentemente, também a partir das tradições orais indígenas. Mas é principalmente a história vista de uma perspectiva antropológica, que procura reconstruir o mundo indígena em toda a sua diversidade, através da arqueologia e da observação etnográfica, da história documental e da história oral, da lingüística e da mitologia.”
Entre os pesquisadores que adotaram esta abordagem para estudar as sociedades amazônicas podemos citar William Balée (Balée 1995 e 1998) e Antonio Porro (Porro 1994 e 1995). A ecologia histórica explica o modo de vida adotado pelas sociedades indígenas amazônicas contemporâneas através da reação diferencial das populações pré-contato às doenças trazidas pelos europeus, que resultaram em perdas populacionais igualmente distintas. As sociedades que conseguiram sobreviver, de alguma forma, apesar das grandes perdas populacionais, passaram por um processo convergente de regressão agrícola. Algumas destas sociedades mudaram, posteriormente, da horticultura sedentária para o forrageio, perdendo o conhecimento sobre a domesticação de plantas. Algumas delas, todavia, nunca se desligaram totalmente da agricultura, e continuaram a fazer uso dos recursos existentes em campos de cultivo abandonados, tomados por vegetação secundária (Balée 1995). Politis (2001), estudando os Maku, mostrou que suas atividades de subsistência podem modificar a paisagem natural. Estas modificações, causadas pela combinação de mobilidade espacial com a coleta de frutos, podem levar a uma progressiva concentração de recursos alimentares, aumentando a produtividade natural da floresta.
Outros autores (Arvelo-Jiménez e Biord 1994, Whitehead 1994, Hill 1996a) acreditam que os grandes cacicados não estiveram restritos às várzeas, mas também se desenvolveram nos interflúvios, e que o poder político-econômico, mais do que a produtividade, garantia sua manutenção. Através de verdadeiras redes de troca e produção, grupos do noroeste da Amazonas e do Caribe exerceram seu poder além das fronteiras das aldeias, mostrando uma verdadeira interdependência regional. Tal sistema pressupunha a existência de numerosas populações espalhadas através de um grande território nos interflúvios (Moran 1993b). Porro (1994) relativizou a confiabilidade dos relatos históricos para a caracterização dos cacicados da várzea do Amazonas. Além do problema do viés cultural, a geografia das viagens exploratórias dos Portugueses e Espanhóis resultaram em descrições razoavelmente detalhadas da várzea, mas deixaram um vazio de informação com relação aos grupos do interflúvio. Com isso, afirmações acerca da inexistência de formações sociais mais complexas na terra firme ainda não passam de especulação.
Talvez o vestígio mais conhecido e conspícuo da ocupação pré-histórica da Amazônia seja a terra preta. A terra preta, ou terra preta de índio, são solos antrópicos (solos modificados), que identificam os locais de antigas ocupações humanas e que, hoje em dia, fornecem solos extremamente férteis para o cultivo. As manchas de terra preta são amplamente distribuídas pela Amazônia, com exceção de algumas regiões como a baixo/médio Uaupés e parte da bacia do Orinoco. Acredita-se que a terra preta tenha se formado a partir do acúmulo intensivo e, algumas vezes, de longo prazo, de matéria orgânica derivada da atividade humana (Petersen, Neves et al. 2001).
Petersen, Neves et al. (2001) sugerem que a origem da terra preta está relacionada ao início dos assentamentos sedentários. O sedentarismo, por sua vez, está correlacionado com a intensificação da subsistência, provavelmente através da combinação da agricultura da mandioca associada ao uso intensivo de recursos aquáticos. É possível, ainda, que a agricultura tenha incluído algum tipo de cultura de sementes, como o milho, dependendo do local. Ou seja, a atividade agrícola seria resultante do crescimento populacional, e não o contrário. Todavia, este não teria sido o único caminho adaptativo seguido pelos ameríndios pré-históricos, que poderiam ter preferido um manejo mais intensivo dos recursos aquáticos e/ou o estabelecimento de uma rede de trocas de recursos alimentares. Petersen, Neves et al. (2001) acreditam que um modelo de pressão demográfica como iniciador da intensificação, na Amazônia, é uma hipótese válida, a ser testada com os dados arqueológicos.
Em síntese, a cultura cabocla e as culturas indígenas remanescentes do processo de ocupação da Amazônia foram obrigadas a se ajustarem não só ao ambiente físico, mas também às poderosas forças político-econômicas externas que atuam na região. O grau de adaptação que cada uma conseguiu, em dado momento, varia em função das forças históricas, sociais, políticas e econômicas atuantes. As estratégias de manejo de uma determinada sociedade podem estar melhor adaptadas não ao meio ambiente físico, mas às forças de mercado da sociedade envolvente. Por outro lado, outro grupo étnico pode possuir sofisticadas formas de manejo oriundas de uma longa experiência com relação ao meio natural, que resistem às mudanças impostas pelas forças externas. As estratégias adaptativas das sociedades amazônicas constituem uma riqueza que a sociedade brasileira deve valorizar, já que elas podem oferecer exemplos de como balancear uso e conservação na Amazônia (Moran 1993b).
Apesar de adaptação e mudança não serem, necessariamente, sinônimos, ambos os conceitos estão normalmente conectados, porque tanto os sistemas ecológicos, quanto os culturais, são dinâmicos e interagem entre si. Mudanças não são um evento novo na Amazônia. Esta região não escapou às oscilações climáticas e ecológicas durante o Holoceno, que devem ter implicado, por sua vez, em mudanças culturais nas populações humanas. A multiplicidade de línguas e etnias existente no nordeste amazônico significa séculos, senão milênios, de contato e mudança entre as diferentes culturas, como bem demonstram as extensas redes de trocas já documentadas pela arqueologia, etnohistória e etnografia (Sponsel 1986, Whitehead 1993b, Hill 1996b). Todavia, as mudanças introduzidas pelo contato com o europeu não tiveram paralelo no passado com relação à rapidez, magnitude e profundidade com que ocorreram. O contato não só foi como continua a ser devastador, tendo implicado em mortalidade em massa, alto grau de morbidade e rupturas culturais. O processo continua até hoje, tendo o colonialismo sido substituído pelo desenvolvimento econômico e pelas doutrinas de integração e segurança nacionais (Sponsel 1986).
Cada sociedade desenvolve seus próprios critérios através dos quais tomou as decisões sobre o uso de recursos. Sociedades relativamente autônomas, como os indígenas da Amazônia, tendem a ter uma íntima relação com o habitat, que vem de sua dependência para suprir a maior parte de suas necessidades. Por outro lado, sociedades com alto grau de especialização e interdependência econômica dependerão, mais ou menos, de ajustes às instituições que fazem a mediação com a vida política, econômica e ambiental. Ao examinar as sociedades Amazônicas, ou quaisquer outras, devemos prestar atenção tanto à interação direta entre pessoas e ambiente, quanto ao papel das instituições e organizações através das quais as pessoas agem. A Amazônia não está isolada dos processos político-econômicos regionais, nacionais e globais, tampouco seus habitantes. Estratégias adaptativas humanas são o produto de negociações complexas que refletem experiências passadas, condições presentes e expectativas futuras, dentro de um mosaico de habitats (Moran 1993b).
A Amazônia possui uma diversidade social e biológica tão grande, que qualquer análise sobre apenas um dos componentes deste sistema será, necessariamente, parcial. Conforme discutido longamente antes, a classificação dicotômica da Amazônia em várzea e terra firme como unidades homogêneas é insuficiente para caracterizar estas regiões quanto às, por exemplo, diferenças no grau de fragilidade e resiliência, ou quanto às produtividades primária e secundária (Moran 1995, Petersen, Neves et al. 2001). Além disso, a ecologia histórica já deixou claro que o estudo de qualquer tipo de ecossistema deve incluir um levantamento da história local, que permita compreender as transformações ecológicas e sociais que ocorreram ao longo do tempo. A dimensão demográfica também é fundamental para entender como as populações reagem a mudanças epidemiológicas. Estudos de adaptabilidade humana realmente abrangentes na Amazônia devem integrar as diferentes variáveis monocausais, incorporando, além delas, o sistema de acesso à terra, as conseqüências da monetarização (Moran 1995), a interação local e regional entre diferentes grupos e sistemas sociais, e destes com um contexto histórico, político e econômico mais amplo (Murrieta 1994), por exemplo.