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4. KANNIBALISERING

4.2 K ATZ (1984): P RODUKT - OG MERKEVAREDIFFERENSIERING

4.2.3 Merkevaredifferensiering

acadêmica e/ou pessoal, o papel individual desempenhado no grupo, a experiência do trabalho multidisciplinar e coletivo do GERe.

O processo de pesquisa-ação.

A problemática dos resíduos, que objetivou avaliar de que forma e quais foram os conhecimentos apropriados no processo da pesquisa-ação.

Embora os três alunos tenham participado do grupo em períodos diferentes (ou durante o ano todo, ou no início, ou durante a realização da pesquisa), todos passaram pelo processo educativo. A avaliação feita por eles mostrou que as concepções sobre participação, sobre o processo da pesquisa-ação do GERe e sobre os conhecimentos apropriados a propósito dos resíduos, foram influenciadas pelo momento que cada um se envolveu no grupo e pelas formações acadêmicas pelas quais estão passando.

A questão da participação

A avaliação que fizeram sobre o significadodo GERe diverge devido a singularidade de cada aluno e, também, à vivência em momentos diferentes no grupo. O aspecto comum entre todos eles é a preocupação com a formação. Segundo Bordenave (1983), a participação é impulsionada pelas contribuições que ela proporciona ao grupo diante de uma realidade. Neste sentido, participar significa para os seres humanos “exprimir sua tendência inata de realizar, fazer coisas, afinar-se a si mesmo e dominar a natureza e mundo” (ibidem, p.16). Então, a participação, para os alunos, significou a ampliação de conhecimento e experiência da vivência de um trabalho coletivo para a transformação de uma realidade.

Para Matheus, participar do GERe, a princípio, significava fazer parte de um grupo onde seus colegas de turma também freqüentavam. Ele explicitou isso quando disse que houve um desinteresse ao enxergar que o grupo não era tão grande e coeso como esperava. Outro significado foi a possibilidade de receber um certificado pelo envolvimento no trabalho de implantação e divulgação da coleta seletiva. Mas após as discussões coletivas do GERe das quais participou e o fato dele ter se comprometido e comparecido na avaliação, demonstrou interesse com o grupo e com a temática. Para César, que antes de ingressar no GERe se interessava pela gestão ambiental, foi uma “importante atividade extracurricular”, um espaço onde ele pôde aliar a ampliação do seu conhecimento ambiental e a possibilidade de colocar em prática seus ideais. Já para Rafael, a princípio, a participação significou contribuir com a minha pesquisa, pois sou sua tia, mas a temática já despertava interesse dentro da disciplina de biologia durante o Ensino

Médio, principalmente devido ao fato de ser um assunto que envolve diretamente a ação humana. Após a primeira reunião que ele foi para conhecer o grupo, percebeu que seria uma possibilidade de entrar em contato com projetos na universidade. Na avaliação, ele disse que com as discussões realizadas pelo GERe, obteve mais conhecimentos sobre os resíduos que o fez sair do senso comum.

Sobre a importância do envolvimento no GERe para a formação acadêmica, as respostas revelam uma relação com o curso que estão freqüentando e com o significado que cada um deu para a participação.

Matheus relata que seu envolvimento mostrou que o trabalho coletivo na busca de melhorias ambientais é fundamental e essencial,

“(...) ninguém sozinho vai salvar o mundo e fazer uma grande diferença (...)”.

Deu ênfase na própria formação, de como é necessário uma mudança de visão de mundo das pessoas que querem ensinar ou informar sobre o problema dos resíduos, como podemos verificar

“(...) a gente precisa tá se mobilizando... primeiro, conseguir mudar a nossa consciência, nossa concepção sobre algumas coisas pra depois poder levar isso pros outros de uma maneira que isso vá fazer a diferença, modificar alguma coisa pra eles”

Matheus explicitou que, embora não tenha se envolvido no grupo durante todo o processo de pesquisa, a participação no GERe contribuiu para a sua formação profissional e cidadã.

“eu procurei levar isso para a minha vida lá fora (...) não só como biólogo aqui na faculdade (...) que faz de mim não só um profissional melhor, mas uma pessoa mais consciente.”

Mesmo que não tenha dito a palavra professor, ele considera que a sua formação é importante para a mediação da formação de outros sujeitos. Essa visão mostrou a importância que ele dá sobre o papel do ensino efetivo e da aprendizagem significativa para as transformações que a educação ambiental (ou, de maneira mais ampla, a educação) almeja.

Rafael, por ser um aluno do Jornalismo, disse que seu envolvimento no GERe contribuiu para sua atuação de jornalista,

“(...) abre um novo leque pra mim, da atuação, de entendimento (...) para poder estudar, ir atrás(...) poder fazer reportagens e artigos com conhecimento de causa do que acontece, não ser somente um leigo (...)”.

A fala de Rafael mostrou como a sua participação contribuiu para a sua formação como jornalista, em cujo campo de trabalho há muitas possibilidades de atuação – área ambiental, esportiva, econômica, política etc – e que deve se preocupar com a veracidade da informação. Rafael mostra a importância de sua formação para a própria profissão e não percebe como isso pode vir a ser um diferencial na sua atuação para a sociedade, como Matheus destaca. Considerando que a profissão que ele está buscando tem uma função social de extrema importância, ou seja, informar a sociedade sobre os acontecimentos do cotidiano, por exemplo, em sua fala, não fica claro que tem uma preocupação em passar a veracidade dos fatos às pessoas de forma que elas entendam a realidade e a transformem. Isso ficou explícito quando os questionei sobre como foi para eles a experiência de trabalhar em um grupo multidisciplinar. Rafael então comenta

“Foi legal por essa questão da diversidade. Deu pra ter uma idéia de como as pessoas são, de áreas diferentes, como elas reagem a certas coisas, da atuação em relação às pessoas em volta (...) que eu tinha a idéia das pessoas da comunicação (...) aí eu vi que de vocês (os biólogos do grupo) é diferente. Apesar de ser uma forma de comunicação, ás vezes eu acho que vocês são mais didáticos, por vocês terem mais conhecimento de causa, por falarem mais assuntos dos que os relacionados aos resíduos, fica mais fácil pra vocês se comunicarem, divulgarem (...) coisas que eu não vejo entre os meus colegas.”

Para ele, se envolver no GERe foi um momento de reflexão sobre o papel da comunicação e do jornalista para a sociedade. Ele disse que ainda não tem a capacidade de se fazer entendido, ou seja, de que suas matérias e seus artigos sejam compreendidos pelas pessoas que as lêem, já que não tem, por enquanto, em sua formação a preocupação com a educação.

Assim como Rafael, César enfatizou que a participação, além de contribuir para a apropriação de conhecimentos referentes aos resíduos e para a conscientização ambiental, foi um momento de aprendizagem do trabalho coletivo, onde há diferentes formações e pensamentos.

“Trabalhar em grupo é sempre uma atividade interessante. Aprender a trabalhar em grupo, respeitando as diferenças e compartilhando idéias foi algo que melhorei participando do GERe.”

Fizemos a avaliação sobre o papel desempenhadopor cada um no grupo. Para Matheus foi um momento muito mais de aprendizado do que de contribuição. Ele foi um executor de tarefas, principalmente das relacionadas à implantação da coleta seletiva, que compreendeu a colagem dos adesivos informativos e distribuição dos cestos. Ele ainda diferencia o papel dele em relação ao meu, relatando qual a importância que cada um de nós (eu e ele) demos ao trabalho do GERe

“Pra você que estava encabeçando, mais na liderança, a coleta seletiva foi só um pedaço. Já pra mim, que não estive em todos os momentos, a coleta seletiva significou grande parte do trabalho que a gente desenvolveu.”

Na fala de Matheus, merece destaque o fato dos alunos me verem como coordenadora do grupo e com objetivos mais amplos do que somente o desenvolvimento de ações para a coleta seletiva e desta ter sido considerada como principal causa do envolvimento deles. Sua fala veio a confirmar o pressuposto existente, de que o grupo enxerga os participantes de formas diferentes, principalmente no que se refere ao papel do coordenador. Porém, César, que participou durante o ano todo, mostrou uma visão diferentes de Matheus e contradisse o meu pressuposto inicial. Para ele “o grupo era homogêneo”, não existiam diferenças entre as funções, houve uma divisão igualitária de trabalho. Essa idéia me surpreendeu, pois o fato de eu ser vista como coordenadora durante o processo me preocupava, já que o desejo inicial era proporcionar um espaço de discussão igualitária, onde a opinião de todos teria a mesma validade. Pelo fato dos outros integrantes não terem realizado a avaliação, fica difícil saber se essa idéia de funções igualitárias foi compartilhada por mais pessoas. Dessa forma, acredito que essa idéia não é coletiva e sim individual. Para cada um eu tive um papel, ou seja, uns me viram como coordenadora outros como parceira de grupo.

A participação é uma conquista que leva a autopromoção do indivíduo (DEMO, 1999). Porém, existem condicionantes que contribuem ou impedem a participação efetiva. Estes vão desde as características pessoais dos participantes, provenientes da construção da personalidade individual que foi mediada por diversas relações sociais; o significado da natureza do problema que o grupo se mobilizou para transformar; o espaço e estímulo à participação que a instituição abre para os sujeitos; até a estrutura social como facilitadora ou não do processo de participação (BORDENAVE, 1983). Estes condicionantes influenciaram a participação em maior ou menor grau de forma singular para cada membro. Se for possível dizer qual delas teve uma influência igual para todos os integrantes, essa foi a instituição. O fato da universidade não ter apoiado de forma substancial a coleta seletiva, significou para nós o não reconhecimento do trabalho coletivo que estávamos desenvolvendo. Na fala dos três alunos durante a avaliação e nos descontentamentos apresentados ao longo do processo de pesquisa, ficou explícito o desanimo em participar perante não reconhecimento. “Dizer que não participamos porque nos impedem, não seria propriamente o problema, mas o ponto de partida” (DEMO, 1999, p. 19), o não reconhecimento institucional, somadas à individualidade de cada sujeito e o tempo no qual ocorreu a pesquisa-ação, contribuíram para a desarticulação do processo participativo impedindo o aumento do grau de envolvimento. Quando houve a escolha do grupo de pesquisa almejávamos a autogestão, onde os próprios alunos coordenassem o GERe. Bordenave (1983) diz que a participação proporciona a transformação do

indivíduo em um sujeito que tem consciência crítica da realidade, o fortalecimento para reivindicar direitos e exercer deveres como cidadão. No plano coletivo, o indivíduo organizado é capaz de resolver problemas que pareciam de difícil solução. Os efeitos da participação dos alunos no GERe ficaram no plano individual, contribuindo muito mais para formação das pessoas envolvidas do que para o problema em si. Mas considerando que esta organização visava a emancipação do sujeitos para a ação, nosso objetivo foi cumprido, mesmo que essa ação seja em outro tempo e em outro espaço.