4. KANNIBALISERING
4.2 K ATZ (1984): P RODUKT - OG MERKEVAREDIFFERENSIERING
4.2.1 Generell problemformulering
A formação desse grupo, a inserção do GERe no processo de pesquisa e os encontros semanais foram momentos propícios para a discussão sobre a problemática dos resíduos. Tendo a coleta seletiva como ponto central da pesquisa e da ação e sendo essa apenas parte da questão relativa aos resíduos, não representando sua totalidade, outros temas foram levados ao grupo para que houvesse um entendimento da complexidade dos resíduos. A intenção era aumentar o repertório de temas para serem discutidos, no mesmo sentido pelo qual inseri temas que não foram propostos pelo grupo para o desenvolvimento da pesquisa. Temas como consumo, meios de produção, história da formação do grupo etc, foram tratados nas pautas de alguns encontros com a intenção de mostrar aos alunos a problemática dos resíduos e o movimento de resolução desse problema sob o olhar da complexidade.
Loureiro (2003) discute que a educação ambiental que almeja a transformação social e a emancipação dos indivíduos enquanto cidadãos que conheçam o ambiente em que vivem e estabelecem relações de respeito para com todas as formas de vida e as diferenças das sociedades, deve ter como princípios a promoção do diálogo entre os diferentes atores sociais, que se relacionam de diversas maneiras com o ambiente, a articulação entre teoria e prática cotidiana, a preparação dos sujeitos para a ação, e destacando (grifo meu) o entendimento histórico-crítico das relações sociais e o entendimento de que as questões ambientais são definidas por fatores naturais – abióticos e bióticos – econômicos, políticos e culturais que ocorrem em determinados tempo e espaço. A formação do grupo, antes de ser um objeto de pesquisa, era essencialmente um meio educativo, uma forma de ensinar questões importantes relacionadas, principalmente, aos resíduos, mas que podiam ser generalizadas para qualquer problemática ambiental.
Partindo então desses pressupostos, procurei propiciar nos encontros momentos em que o grupo pudesse discutir o tema, baseado em textos ou outro instrumento didático. Para tanto, utilizei textos, vídeo e uma figura representando a rota dos resíduos.
O primeiro texto, de minha autoria (anexo 7), descreve o contexto de implantação do Programa de Coleta Seletiva, dando destaque à importância do conhecimento histórico dos fatos que acontecem no nosso cotidiano e à importância da elaboração de questionamentos para conhecermos a realidade. A intenção era estimular o grupo a fazer perguntas sobre a realidade que estávamos vivendo coletivamente, para que o grupo entendesse que, partindo desse contexto que é a coleta seletiva, outros questionamentos deveriam ser propostos para que pudéssemos desenvolver a pesquisa e elaborar ações mais consistentes. O segundo texto indicado para que o grupo lesse foi um artigo que teve a minha participação, onde é apresentada uma intervenção educativa ambiental envolvendo a temática dos resíduos. Essa leitura foi sugerida durante o período de greve, como um meio de incentivar o grupo a não desistir do trabalho de pesquisa. A terceira sugestão de leitura foi o capítulo de um relatório de uma pesquisa coletiva sobre a questão dos resíduos, no Pontal do Paranapanema, realizada pela UNESP – Presidente Prudente e por colaboradores de outras instituições (ONG e Universidades). O capítulo selecionado discute uma série de conceitos relacionados à temática dos resíduos e sugestões de ações educativas para diferentes públicos – governo, estudantes e catadores de resíduos –. O primeiro e o terceiro textos sugeridos foram discutidos em grupo, porém, pela fala solitária que tive nas duas discussões, acredito que os alunos não os leram , ou não se sentiram à vontade para participar da discussão.
O segundo instrumento, o vídeo, foi apresentado ao grupo juntamente com o esquema da rota dos resíduos (anexo 8). O filme em questão é de curta metragem, 13 minutos, intitulado “Ilha das Flores”.
Esse, apesar de alguns alunos já o terem assistido e ser amplamente utilizado em atividades educativas, possibilita uma série de discussões acerca da influência do sistema capitalista nos meios de produção, na exclusão social e na geração de resíduos. O filme, em conjunto com a imagem utilizada, foi um meio de discutir as diferentes dimensões da questão dos resíduos. Assim como nos encontros onde sugeri a leitura dos textos, não houve discussão coletiva. Apesar de ter esclarecido que a apresentação do vídeo e da figura foi planejada com a intenção de proporcionar um momento de reflexão sobre a problemática dos resíduos, os alunos não se pronunciaram, não expuseram as suas opiniões, apenas ouviram. Provavelmente, a não participação deveu-se ao fato dos integrantes, durante as discussões, não quererem expor a suas opiniões sobre o material apresentado diante de um grupo de pessoas que, embora estivessem reunidas para um objetivo comum, eram de outras turmas e de outros cursos. Ou, também, devido a minha condução didática, temendo que aqueles encontros fossem vistos como uma aula de uma disciplina. Eu nunca exigi que eles lessem os textos ou participassem das discussões, já que não gostaria que naquele grupo fossem estabelecidas relações hierárquicas, porém é evidente que existiam para a maioria deles. Acredito, então, que esta situação se estabeleceu em função da minha condução nas reuniões, que esperava que eles se pronunciassem espontaneamente e eles esperavam que eu os chamassem à discussão.
Esses espaços para discussão coletiva se configuraram como momentos importantes para a formação profissional e cidadã dos alunos, pois proporcionaram-lhes a participação em uma ação que articulou o ensino e a pesquisa. A aprendizagem de novos conhecimentos sobre os resíduos, desde técnicos até os sociais, personificados na realidade dos trabalhadores da associação, a produção científica a partir da elaboração, execução e análise de uma pesquisa em educação ambiental, o desenvolvimento de ações educativas em espaços informais e formais, o trabalho coletivo e multidisciplinar e a organização coletiva na busca por resoluções para uma problemática foram mais do que etapas do processo da pesquisa-ação, tendo se configurado como importantes auxiliadores na formação acadêmica, profissional e, sobretudo, cidadã. Pude observar que, apesar de calados, os integrantes pareceram bastante interessados. Isso veio se confirmar a partir da avaliação coletiva e quando alguns integrantes solicitaram o material que lhes apresentei para realizar outras atividades não vinculadas diretamente com as ações do GERe, mas com a mesma proposta de levar a públicos diferentes o conhecimento sobre a problemática dos resíduos. O estudo dos resíduos e as discussões realizadas no GERe auxiliaram dois grupos de alunos na elaboração de trabalhos em disciplinas dos cursos de Ciências Biológicas e do Jornalismo.
Durante o processo da pesquisa, além das ações realizadas para o GERe, Thais e Talísia, alunas do curso de Ciências Biológicas, desenvolveram trabalhos abordando a problemática dos resíduos em uma
disciplina. Reinaldo, um dos alunos do curso de Jornalismo, proporcionou o encontro entre um grupo de alunos desse curso e o GERe, firmado uma parceria que resultou no desenvolvimento de dois trabalhos para uma disciplina, tendo os resíduos como temática.
As alunas de Ciências Biológicas, nas disciplinas de Prática de Ensino I e II (ciências e biologia respectivamente), elaboraram um plano de atividades a serem aplicadas para alunos dos ensinos fundamental e médio. Elas desenvolveram os temas durante a disciplina, aplicando-os aos próprios colegas e à professora afim de que as aulas planejadas fossem objetos de análise pelos próprios alunos da disciplina. Segundo o relatório elaborado por Thais e Talísia, os temas escolhidos foram planejados contextualizando os conceitos biológicos ao cotidiano dos alunos, para facilitar a aprendizagem e, conseqüentemente, para que fossem referenciados e utilizados nas ações diárias dos hipotéticos estudantes.
Os planos de aula elaborados foram constituídos de duas partes: um texto com o conteúdo do tema, onde foram abordados os principais conceitos sobre o assunto; e a proposta de aula, na qual foi estruturado como o conteúdo deve ser apresentado aos alunos, bem como as atividades práticas a serem realizadas após a explicação. Foram escolhidos nove assuntos de ciências e biologia e um relacionado ao tema transversal “Meio Ambiente”, o qual foi chamado “Lixo”.
O plano de aula “LIXO” foi desenvolvido para alunos de 7ª série do ensino fundamental. Na primeira parte, correspondente à apresentação do conteúdo, foi definido o conceito de resíduo como sendo as sobras provenientes de todas as atividades dos seres vivos, destacando as atividades humanas que, devido as suas diversas formas de apropriação da natureza, se diferenciam dos demais seres. O texto segue descrevendo como ocorre a ciclagem de resíduos dos seres vivos, incluindo os dos seres humanos, fazendo uma discussão sobre o desperdício. Destacam que os resíduos são resultantes da produção de bens, que existe uma complexidade de atividades humanas que os geram. Discutem que os resíduos das atividades humanas têm valor e que, se houver um manejo correto, esse não é perdido, podendo ter seu valor recuperado se voltar para a cadeia produtiva. Seguem descrevendo as diversas definições de lixo (urbano, industrial, de saúde etc), as diferentes formas de acondicionamentos e tratamentos (aterro sanitário, reciclagem etc), destacando o princípio dos 3R´s. Apresentam os resíduos que podem ser descartados seletivamente para serem destinados à reciclagem e o tempo de decomposição desses quando são descartados e acondicionados no ambiente. Finalizam o suporte teórico com questões sensibilizadoras, tais como: “Você sabia?... com a reciclagem de uma tonelada de papel, deixamos de derrubar 20 árvores”.
A proposta de aula para abordar o conteúdo acima descrito, consiste em apresentar aos alunos dois ambientes, um próximo a um aterro e outro em um local urbanizado e arborizado. A intenção é propor
questionamentos acerca das concepções de lixo e introduzir a discussão dos problemas causados à saúde humana e à poluição do ambiente como um todo, pelos diferentes tipos de resíduo – os quais são provenientes de diferentes atividades – bem como seus respectivos tratamentos. Propõe que seja aberta uma discussão sobre a redução de resíduos e também a abertura de um espaço de troca de resíduos entre os alunos para estimular a reutilização, visto que o sentido que permeou esse plano de aula era o de “o que não serve” para uma pessoa pode ser “útil” à outra, ou seja, estimulando a percepção do valor que se deve dar aos resíduos e da solidariedade.
O planejamento de aula sobre o tema lixo elaborado por essas duas alunas participantes do GERe apresenta elementos que estiveram presentes nas discussões feitas durante o ano da pesquisa. Ficou evidente nesse conteúdo e no plano de aula o uso de pontos abordados nos encontros do GERe, tais como a relação entre os meios de produção e resíduos, o desperdício, o princípio dos 3R´s, o destaque à importância do conhecimento das diversas atividades humanas como geradoras de quantidade e variedade de resíduos.
O outro trabalho desenvolvido foi realizado por um grupo de alunos do curso de jornalismo durante a disciplina de Jornalismo Televisado I e II. Segundo Camila, uma das alunas que cursa essa disciplina e que faz parte do grupo de alunos do Jornalismo, nesta os alunos aprendem técnicas específicas para esse veículo, tais como a informação deve ser trabalhada aliada à imagem e ao som, de forma que a articulação desses três elementos garanta que a mensagem seja perfeitamente compreensível e atrativa ao público. A proposta de trabalho final dessa disciplina é a produção de dois vídeos jornalísticos, uma reportagem e um documentário jornalístico.
O primeiro trabalho desenvolvido foi uma reportagem sobre a coleta seletiva da UNESP. Reinaldo, que participou de algumas reuniões do GERe, levou uma colega de disciplina, Mariana, para participar de um dos nossos encontros e firmamos uma parceria de trabalho. Nós contribuiríamos com o conhecimento sobre os resíduos, em particular com relação à coleta seletiva do campus e eles, com o planejamento da reportagem, na qual seriam apresentados os conteúdos por nós sugeridos, só que em um formato jornalístico. Dessa forma, o roteiro da reportagem foi definido pelo GERe. Diante dos problemas estruturais do programa levantados pelo grupo, tais como a deficiência da coleta interna e o fato dos adesivos informativos dos cestos estarem apagados, foi decidido coletivamente que a reportagem deveria ser um meio de mostrar a existência desses problemas como um fator importante, que compromete o funcionamento da coleta seletiva. De posse dessas informações, foram captadas imagens dos cestos, do local onde os resíduos são acondicionados no campus, da coleta realizada pela prefeitura e alguns exemplos dos produtos consumidos e dos resíduos gerados nas cantinas. Para a reportagem, Reinaldo entrevistou pessoas para que elas pudessem opinar sobre o programa e sua importância ambiental. Essa
reportagem não foi finalizada, porém, segundo o Reinaldo, essas imagens foram utilizadas no outro documentário, que será relatado posteriormente.
Esse mesmo aluno fez uma reportagem para o jornal EXTRA (anexo 9), desenvolvido por estudantes do quinto termo (semestre) do curso de Jornalismo, durante a disciplina Jornalismo Impresso. O artigo relatou a existência da coleta seletiva e do GERe e também foi uma forma de divulgar a importância dessas duas iniciativas como meio de conhecer e resolver a problemática dos resíduos.
A terceira atividade a ser desenvolvida pelos alunos do curso de jornalismo ocorreria durante a disciplina Jornalismo Televisado II, na qual seria desenvolvido um documentário jornalístico. Alguns alunos dessa disciplina estavam interessados em desenvolver um vídeo sobre um catador de lixo do bairro Geisel, que é bem conhecido no bairro, pois coleta os resíduos portando uma flor. Por ter sido considerado pelos alunos um “personagem interessante”, a coleta de lixo seria abordada como contexto da vida desse catador. Camila, que faz parte do grupo que se tornou parceiro do GERe, nos disse que com a chegada de Reinaldo em seu grupo, a perspectiva desses alunos do Jornalismo mudou de foco, pois “percebemos que trabalhar com a coleta de lixo no documentário foi uma forma de dar um objetivo e uma orientação a esse trabalho: a conscientização.”
Reinaldo levou aos seus colegas de turma a informação sobre a existência do GERe, sobre as ações que estávamos realizando a respeito da coleta seletiva e sobre a pesquisa relativa aos resíduos. De posse dessas informações, esses alunos do Jornalismo participaram de um encontro para conhecer o grupo e para apresentar a proposta do documentário jornalístico que queriam desenvolver, para que fosse discutida a possibilidade de firmarmos uma parceria entre os dois grupos. A nossa proposta foi que o vídeo que eles produzissem contivesse o conhecimento gerado pela pesquisa realizada pelo GERe e que esse pudesse ser utilizado como um instrumento nas atividades educativas desenvolvidas na UNESP. Durante esse encontro, apresentamos ao grupo do jornalismo os resultados das entrevistas realizadas com a comunidade unespiana e sugerimos a eles que utilizassem essas informações como subsídios para a elaboração de um roteiro do documentário. A princípio eles não mostraram interesse, já que se tratava de uma realidade peculiar da universidade, de estudantes, funcionários e professores universitários, e expressaram o desejo de desenvolver um vídeo sobre a problemática dos resíduos para ser apresentado à comunidade bauruense. Discutimos com eles a importância do desenvolvimento de ações na própria universidade a fim de contribuir com a formação de profissionais e cidadãos que atuarão na sociedade de forma diferenciada, visando em seu campo de trabalho uma postura de cuidado e respeito com o ambiente. A visão apresentada por nós convergiu com o interesse do grupo em elaborar um documentário com o objetivo de veicular informações que sensibilizassem o público para a problemática ambiental dos
resíduos. Dessa forma, firmamos uma parceria de trabalho onde participaríamos contribuindo com o conhecimento sobre os resíduos e eles com a técnica de produção de um documentário.
Após esse encontro, entreguei-lhes uma síntese contendo as produções do GERe e o esquema da “rota dos resíduos”, para que esse material pudesse orientá-los na elaboração de um roteiro e na execução do documentário. Os alunos do jornalismo também informaram que já haviam realizado uma pesquisa na Associação dos Catadores para conhecer o trabalho realizado na central de triagem. Com essas informações eles elaboraram um pré-roteiro, apresentado no quadro 4.
Quadro 4. Roteiro desenvolvido pelos alunos do curso de Jornalismo
Pré roteiro do documentário de “Coleta de Lixo” 1. Indústria (Tilibra)
- Linha de produção.
- Entrevista com os responsáveis: quanto se produz por dia; quantos funcionários empregam; quanto de matéria- prima utilizada é reciclada.
- Sonor a com alguém da ar t e: como cada linha da Tilibr a busca cor r esponder à necessidades de um público específico.
- Empacotamento dos produtos e entrega.
2. Consumidor
- A produção de lixo na rotina de alguém: embalagens, jornais, cadernos etc. - Consumidor joga tudo (orgânicos e recicláveis) no mesmo lixo.
- Tomada de dinheiro no cesto do lixo.
3. Aterro Sanitário