A possibilidade de Lucas ter sido médico afigura-se assim também como plausível. Como referimos, a Medicina era uma das artes (τἐχνη) mais importantes para os Gregos108. Isso implicava que o hoje denominado «profissional de saúde» dominasse, de forma exímia, conceitos e técnicas de trabalho. Havia regras, uma súmula doutrinária para os aprendizes poderem adquirir mais conhecimento sobre as matérias ligadas à Medicina. Foi na Grécia que a Medicina se desenvolveu e que homens como Hipócrates (460-370 a.C.), no período clássico, e Galeno (129-217 d.C.), no período imperial, considerados os grandes médicos da Antiguidade Clássica, começaram a desenvolver e
107 Movidos pelos valores da cultura grega, os exegetas cristãos do século III, quando foi fundada a
Escola de Antioquia da Síria, encontrarão alguns aspectos da paideia nos textos bíblicos. As vivências entre cristãos, gregos, romanos e judeus, a forma de pensar e de conceber a educação faziam parte do «espírito do tempo». Além de ministrarem as suas aulas, os mestres podiam punir os estudantes quando estes se comportassem de forma inadequada. Havia a ideia de punição. Em ambiente cristão, não é o mestre que castiga, mas sim Deus, como bem demonstra a um passo da Carta aos Hebreus. Cf. Heb. 12, 5-11. Trata-se de um modelo educativo que conjuga duas vertentes: a aprendizagem de regras de convivência que darão os seus frutos; o estudo, o conhecimento. Marrou desenvolve um pouco o assunto na obra supracitada. Cf. idem, ibidem, pp. 240-242. Também Paulo de Tarso, numa das cartas endereçadas a Timóteo, deixa algumas recomendações sobre a interpretação das «Sagradas Escrituras» e a forma como Deus pretende educar o seu povo. O conceito basilar é a «justiça» (δικαιοσύνῃ). Cf. 2 Tim. 3, 16.
67 a aperfeiçoar esta valiosa profissão. A Hipócrates devemos um vastíssimo conjunto de tratados (cerca de 66) e documentos sobre Medicina que ficaram coligidos no Corpus Hippocraticum. Galeno dedicou-se aos trabalhos cirúrgicos e foi ele o responsável por algumas das mais meticulosas operações ao corpo humano.
Segundo Marrou, havia escolas que ensinavam Medicina um pouco por todo o mundo grego. Este autor fala do surgimento das denominadas «escolas médicas helenísticas» (uma espécie de escola superior de saúde dos nossos dias) em cidades como Pérgamo, Éfeso ou Laodiceia. Henri-Irénée Marrou refere também que na maior parte dos casos, os estudantes aprendiam Medicina com médicos mais velhos/mais experientes em ambiente doméstico. Os médicos tinham um papel particularmente activo na sociedade grega. Apesar de haver médicos privados, alguns profissionais exerciam funções públicas em regime de dedicação exclusiva (criando condições, na perspetiva de Marrou, para podermos falar da existência de um serviço de saúde oficial). Estes médicos estavam sob tutela de um «médico-chefe» (archiatroi), que coordenava o trabalho das equipas de médicos assistentes (hypourgoi). Nas escolas, aliava-se a teoria à prática, ou seja, além da aprendizagem de conceitos operatórios, os estudantes tinham possibilidade de aplicar os conhecimentos em contexto de acção real (o que fazer em caso de perigo iminente, como aplicar determinado fármaco, a posologia dos medicamentos, como agir em determinada situação). Não bastava saber as matérias de cor. Para ser um bom médico, o profissional tinha de respeitar o código deontológico, conhecido como «Juramento de Hipócrates». O médico seguiria escrupulosamente os deveres inerentes ao seu ofício e nunca faria nada que pudesse comprometer a sua profissão. Porém, a forma como os conteúdos eram leccionados era ainda arcaica. Os discípulos acompanhavam os mestres até à habitação dos enfermos, diagnosticavam a doença e acompanhavam a sua evolução até à eventual cura109. Não sabemos em que circunstâncias Lucas terá desenvolvido a sua aprendizagem da medicina. Terá sido num círculo mais restrito ou nas tais «escolas de medicina helenísticas» de que nos fala Henri-Irénée Marrou?
Sobre a alegada ligação de Lucas aos cuidados médicos, como referimos, só obtemos essa informação a partir do Prólogo do Evangelho de Lucas, de Marcião de Sinope, e da História Eclesiástica, de Eusébio de Cesareia. Em termos de informações
109 Cf. MARROU, Henri-Irénée, ob.cit., pp. 288-291, nomeadamente p. 288, em que autor fala do
«sistema oficial de saúde para o território grego». Sobre a medicina na Antiguidade, veja-se ainda a excelente síntese de KEENER, Craig S., Acts […], pp. 416-422.
68 provenientes do Corpus Biblicum que nos confirmem que Lucas era médico, apenas é possível corroborar essa tese através da leitura de alguns passos do Evangelho, cuja autoria lhe é atribuída, e do livro dos Actos dos Apóstolos. A aplicação de conceitos, termos e a descrição das curas são algumas das pistas de investigação com que temos de trabalhar. Lucas emprega vocabulário e terminologia como se de um médico se tratasse, mas também destaca a faixa etária do público visado das curas milagrosas e o tempo de recuperação110. Além das questões físicas, Lucas também é um dos quatro evangelistas que se deixa envolver pela angústia e pelo sofrimento dos outros. É o que acontece quando Jesus aguarda pela chegada da comitiva que o iria deter. Lucas refere que Jesus estava triste e que o suor se transformou em gotas de sangue (Lc. 22, 43-45). Era um homem que vivia os problemas físicos e «psicológicos» das personagens. Vejamos, então, alguns exemplos mais concretos sobre a faceta do «Lucas médico».
Quando Jesus se dirige à casa da sogra de Simão, Lucas refere que a enferma estava com «muita febre» (Lc. 4, 38)111. Lucas também descreve, pormenorizadamente, o tratamento da ferida do homem que foi alvo de uma emboscada de salteadores, quando «descia de Jerusalém para Jericó» (Lc. 10, 30). O autor do Evangelho refere que o bom samaritano compadeceu-se da fragilidade do homem e aplicou uma receita medicinal caseira, uma espécie de mezinha para fazer o curativo. Neste episódio, Lucas coloca o sacerdote e o levita a desprezarem a situação do enfermo e realça a atitude benemérita do samaritano. Jesus critica o comportamento do sacerdote e do levita, que não prestaram a devida assistência ao homem112. O texto refere que o samaritano «aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando azeite e vinho, e depois de o erguer para
110 Cf. Act. 4, 22: «É que tinha mais de quarenta anos o homem no qual se havia operado essa cura
milagrosa»; Act. 14, 8 (episódio semelhante a Act. 3, 1): «Jazia em Listra, inválido dos pés, um homem que era coxo desde o ventre materno e que nunca tinha andado»; Act. 9, 33: «Encontrou lá, prostrado num catre, havia oito anos, um homem chamado Eneias, que era paralítico»; Lc. 8, 43: «Uma mulher que tinha fluxo de sangue havia doze anos»; Lc. 13, 11: «Uma mulher com um espírito que a tornava enferma havia dezoito anos», passim.
111 A cura da sogra de Simão também é narrada por Mateus (Mt. 8, 14-17) e Marcos (Mc. 1, 29-34). Já
demos conta das diferenças entre os relatos dos três autores sinópticos. Cf. Estado da Questão - autoria e estrutura, nota 8 e as considerações que aí tecemos.
112 O sacerdote e o levita não socorreram o homem porque quem o assistiu foi um samaritano. Vale a pena
recordar a atitude hostil que os Samaritanos têm quando uma comitiva de mensageiros de Jesus entra numa povoação da Samaria (Lc. 9, 51-56). Neste episódio, os samaritanos recusam hospedagem a Jesus (é bom lembrar que a hospitalidade era um valor muito importante para os povos do Mundo Antigo). Na parábola do bom samaritano, o samaritano levou o homem para uma estalagem (Lc. 10, 29-37). Que ilações retirar? Em Lc. 9, Jesus não é acolhido pela comunidade samaritana. Em Lc. 10, é um samaritano que presta auxílio a homem. Sobre Samaria e a relação de Jesus com o samaritanos, cf. CURTIS, Adrian,
69 cima da própria montada, levou-o para uma estalagem e prestou-lhe assistência. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro e disse: "Presta-lhe assistência e o que despenderes a mais, eu to pagarei quando voltar"» (Lc. 10, 34-35). O samaritano utilizou dois produtos importantes para as culturas do Mundo Antigo: azeite e vinho. O azeite é uma gordura natural que ajuda a suavizar a pele (como se fosse um bálsamo). O vinho, devido ao teor alcoólico, funcionava como um desinfectante para feridas. Trata- se, por conseguinte, de dois produtos naturais bastante apreciados pelos povos da Antiguidade devido às suas capacidades terapêuticas113. Lucas descreve aquela mezinha como se estivéssemos perante um médico.
Outro pormenor que devemos ter em linha de conta é que, dos quatro evangelistas, Lucas é o único autor que relata diversos episódios inéditos em que Jesus cura ou auxilia um enfermo, sendo também aquele que fala mais nos milagres de Jesus. Para tornar a nossa explicação mais elucidativa, recorremos à elaboração de um gráfico:
Gráfico 5 - Número de curas operadas por Jesus nos quatro evangelhos
113 Além da sua aplicação medicinal, o azeite também era utilizado em rituais e práticas religiosas, servia
igualmente para alumiar os espaços sagrados (cf., e.g., Ex. 25, 6) e na alimentação (cf. Ex. 27, 20, Nm. 5, 15, passim); . O azeite surge igualmente nas fontes gregas como produto terapêutico - Aquiles alude ao azeite que foi vertido nas crinas dos cavalos (Il. 23.281); é com azeite que a deusa Héstia se ungirá (Il. 14. 171-172). Em sentido metafórico, o autor da Ilíada também refere que as águas do rio Tiratesso correm como azeite (Il. 2.755). O óleo era outra gordura bastante utilizada pelos apóstolos, mas também pelos sacerdotes do Antigo Testamento (cf. Lv. 24, 3). É com este produto que os apóstolos ungem os doentes e cuidam das suas moléstias (Mc. 6, 13). Cf. também Sl. 23, 5, onde o salmista realça a unção da cabeça do professante. O vinho não só servia para a alimentação, nomeadamente para fruição nos momentos de convívio (cf. Jo. 2, 1-12), como para o tratamento de mazelas. Os soldados quiseram dar a Jesus vinho misturado com mirra (cf. Mt. 27, 34, Mc. 15, 23). O objectivo era atenuar a dor. Segundo Lucas (Lc. 23, 36), os soldados não ofereceram vinho com mirra, mas sim com vinagre, pormenor que também é referido por João (Jo. 19, 19). Sobre a flora e fauna da Bíblia, cf. CURTIS, Adrian, ob.cit., pp. 29-36. Sobre o azeite, o óleo e o vinho, cf. CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain, Dictionnaire de symboles -
mythes, rêves coutumes, gestes, formes, figures, couleurs et nombres, Paris, Éditions Robert
Laffont/Jupiter, 1997, pp. 510-511, 699-700 e 1016-1018. 10 10 13 5 0 2 4 6 8 10 12 14
70 Lucas é, claramente, o autor que alude a mais episódios em que Jesus cura ou um cego (e.g., Lc. 18, 35-43), ou um leproso (Lc. 5, 12-16) ou um paralítico (Lc. 5, 18- 26). De todo o tipo de curas, aquelas que mais sobressaem no relato de Lucas são as curas de leprosos (2) e de paralíticos (2). Só registamos uma ocorrência para a cura de um cego. Os restantes episódios têm que ver com ressurreições e com casos pontuais, menos comuns como a cura de um hidrópico. Apesar de haver alguns relatos de curas transversais aos quatro evangelhos, há pormenores que são exclusivos de Lucas: apenas no Evangelho de Lucas (Lc. 22, 50-51) Jesus cura a orelha direita de Malco114, um criado do sumo-sacerdote (tendo sido Pedro quem desferiu o golpe na orelha); Lucas é o único que relata a cura dos dez leprosos (Lc. 17, 11-19); este autor também é o único que descreve o milagre da ressurreição do filho de uma viúva (Lc. 7, 11-15). Portanto, temos três histórias tratadas apenas por Lucas (nos Actos, temos 6 relatos de curas).
Sem querer analisar todos os relatos, se fizermos uma comparação entre histórias similares que são contadas pelos quatro evangelistas, Lucas é aquele que dá mais ênfase aos aspectos geográficos. Se fizermos um paralelismo na narração da história da cura do paralítico entre Mateus (Mt. 9, 1-8), Marcos (Mc. 2, 1-12) e Lucas (Lc. 5, 17-26), o autor do terceiro Evangelho é o único a referir que os doutores da Lei e os fariseus tinham vindo da Galileia, da Judeia e de Jerusalém (excluímos João, visto que ele não narra este prodígio operado por Jesus).
Outro dado a assinalar é a primazia que Lucas dá à sinagoga. O caso mais paradigmático está na cura da sogra de Simão. Em Mateus (Mt. 8, 14-15), Jesus afasta- se da multidão para se dirigir à habitação onde estava a sogra de Simão e em Marcos (Mc. 1, 29-31) e Lucas (Lc. 4, 38-39), Jesus sai da sinagoga em direcção à casa da sogra de Simão. A virtude, a oração, a pobreza, a compaixão pelos mais desfavorecidos são alguns dos topoi em que Lucas mais incide ao longo da sua narrativa. Desenvolveremos este e outros pormenores num capítulo próprio do nosso estudo, quando tratarmos a estrutura e as características doutrinárias do terceiro Evangelho e do livro dos Actos.
O emprego de vocabulário médico e as curas também ecoam no livro dos Actos. Lucas não só descreve curas, cujas reminiscências se encontram nos Evangelhos115, como coloca os apóstolos a tomar atitudes semelhantes a Jesus, como por exemplo a
114 Só ficamos a saber que o criado do Sumo-Sacerdote se chamava Malco (Μάλχος) através do relato do
Evangelho de João (cf. Jo. 18, 10).
115 Veja-se, e.g., a ressurreição de Tabitá (Act. 9, 36-43) e a ressurreição da filha de Jairo (Mc. 5, 35-43,
Mt. 9, 18-23 e Lc. 8, 49-56). O relato de Marcos é o que apresenta mais semelhança com a história
71 imposição das mãos116. Mais do que um gesto bastante comum em cerimónias
religiosas, a imposição das mãos era uma das formas de, alegadamente, Jesus curar os doentes e que foi mantida pelos apóstolos. É isso que Jesus determina numa das duas aparições aos apóstolos. Jesus elenca uma série de milagres que os apóstolos poderão operar em seu nome, de que se destaca a imposição das mãos: «Hão-de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados» (Mc. 16, 18). Ao longo da sua vida, podemos testemunhar algumas curas que Jesus realizou com recurso às mãos: Jesus impõe as mãos para curar a filha de Jairo (Mc. 5, 23); Jesus também cura um pequeno número de doentes em Nazaré com recurso à imposição das mãos (Mc. 6, 5); Jesus curou um cego da cidade de Betsaida através da saliva e da imposição das mãos (Mc. 8, 23-26). Somente Marcos dá conta destes pormenores. De qualquer forma, Lucas também fala da imposição das mãos (pormenor que não é tão caro a Mateus e a João) numa história inédita - a cura de uma mulher corcunda num sábado (Lc. 13, 10-17). Lucas e Marcos partilham o relato do episódio em que Jesus cura vários enfermos em grande escala através da imposição das mãos (Lc. 4, 40-41 e Mc. 1, 29-31). Mateus refere que os doentes foram curados com recurso ao poder da palavra de Jesus (Mt. 8, 14-15).
Nos Actos, os apóstolos seguem a mesma praxis. É isso que Paulo faz quando visita o pai de Públio, o administrador de umas terras da ilha de Malta (Act. 28, 7): «Nas proximidades daquele sítio, havia umas terras pertencentes ao Primeiro da ilha, que se chamava Públio, o qual nos recebeu e, durante três dias, nos hospedou da forma mais cordial». Neste versículo destaca-se a hospitalidade de Públio, topos que de resto marca a obra dos Actos dos Apóstolos. Lembremos o caso de Lídia (Act. 16, 11-15), a título de exemplo. O autor dos Actos refere que o pai de Públio «estava retido no leito com febre e disenteria (πυρετοῖς καὶ δυσεντερίῳ)117. Paulo foi vê-lo e, depois de orar, curou-o»
116 A imposição das mãos podia ser utilizada em cerimónias religiosas (e ainda hoje se mantém, por
exemplo, no sacramento da Confirmação, vulgo Crisma, do Baptismo ou da Ordenação), na cura de enfermos ou apenas como sinal de respeito, ternura, carinho para com outra pessoa. Sobre a utilização das mãos em rituais religiosos, cf., e.g., Dt. 34, 9 (Moisés impôs as mãos a Josué, como sinal de transmissão de funções, porque, de agora em diante, era ele quem iria assumir a autoridade do povo de Israel) e Nm. 8, 10. Segundo o comentário de Geraldo Coelho Dias para a Bíblia Sagrada, ao passo de Nm. 8, 10, toda a comunidade de Israel impunha as mãos aos Levitas em «sinal de solidariedade e cumprimento de funções». No caso do Novo Testamento, e em particular no livro dos Actos, a imposição da mãos também se mantém em práticas religiosas. Cf. Act. 9, 17 (Ananias impõe as mãos sobre Saulo); Act. 6, 6 (na instituição dos sete diáconos, os apóstolos impõem-lhes as mãos).
117 A disenteria (δυσεντερίῳ) é uma doença/uma patologia que afecta o sistema gastrointestinal. Um dos
principais sintomas é a febre e a alteração no trânsito intestinal. Lucas devia conhecer bem os sintomas desta doença, porque refere que o pai de Públio estava com febre (no texto grego figura a palavra «febres», πυρετοῖς). A disenteria está associada à falta de cuidados de higiene, sobretudo na confecção
72 (Act. 28, 8, sublinhado nosso). Dois aspectos a reter: em primeiro lugar, Paulo só cura o enfermo depois de orar, o que volta mais uma vez a realçar a importância da recitação das prédicas (a imposição das mãos está sempre associada a um momento de oração prévio)118; outro pormenor que vale a pena realçar é a descrição do quadro patológico: o pai de Públio padecia de febre e disenteria.
Também é graças à imposição das mãos do discípulo Ananias que Paulo consegue recuperar a visão. Ananias recebe ordens de Jesus para ir a casa de um homem chamado Judas. Ananias impõe-lhe as mãos e «nesse instante, caíram-lhe dos olhos uma espécie de escamas e recuperou a vista» (Act. 9, 18)119. As questões alimentares associadas à cegueira de Paulo (Act. 9, 19) também podem ser aproveitadas para analisar a viagem do cativeiro deste apóstolo. Esse é um problema que, aparentemente, preocupa Lucas. Em Act. 27, 21, refere-se que «há já muito tempo que ninguém comia». Desconhecemos os motivos desta ausência de alimentação. Terá que ver com as prescrições judaicas de que fala o versículo 9 - «o tempo ia passando e a navegação tornou-se perigosa, por já ter mesmo passado o jejum»? Ou será que se deve ao enjoo da viagem? Esta é uma questão em aberto.
Outro tipo de vocabulário clínico que Lucas aplica no texto dos Actos pode ser detectado, por exemplo, no caso da morte de Ananias e Safira. Ananias «expirou» (ἐξέψυξεν), assim como Safira (Act. 5, 5.10). Além de Lucas se ter socorrido deste
dos alimentos e na ingestão de água. A ausência de lavagem das mãos também é outro dos factores que facilita a propagação das bactérias relacionadas com esta doença. Tendo em conta que Públio e o seu pai moravam num local isolado, a escassez de água potável, a falta de alimentos frescos e os deficientes cuidados de saúde são alguns dos aspectos a ter em consideração. Sobre este assunto, cf. KEENER, Craig S., "Fever and Dysentery in Acts 28:8 and Ancient Medicine", Bulletin for Biblical Research, vol. 19, n.º 3, 2009, pp. 393-402. Veja-se também o que diz este autor em Comentario […], p. 406.
118 Assim indica Act. 6, 6.
119 Sem querer explorar muito esta problemática, até porque foge um pouco à análise em curso,
gostávamos de tecer algumas considerações sobre a cegueira temporária de Paulo. A metanóia, a conversão de Saulo, surge em três momentos da obra: Act. 9, 3-7 (conversão), Act. 22, 1-31 (discurso de Paulo perante a audiência judaica) e Act. 26, 2-23 (defesa de Paulo perante o rei Agripa). No primeiro relato da conversão, o autor refere que Paulo perdeu temporariamente a visão (Act. 9, 8-9); na segunda versão, é o próprio Paulo a dizer que sem ver durante algum tempo, mas não precisa o número de dias (Act. 22, 11-13). Em Act. 26, 1-18, Paulo nem sequer fala da cegueira, como acrescenta pormenores que não são consentâneos com os outros dois relatos: Jesus falou-lhe em língua hebraica. Repare-se que o Paulo da epistolografia nunca menciona o pormenor da cegueira temporária. A cegueira de Paulo assemelha-se à cegueira de Édipo, mas não só. Sobre este assunto, cf. FIALHO, Maria do Céu, «Paulo no caminho de Damasco» in RAMOS, José Augusto et al. (coords.), Paulo de Tarso: Grego e Romano,
Judeu e Cristão, Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra,
73 verbo para aludir à morte do casal, o autor dos Actos e do terceiro Evangelho também o utilizou na descrição dos últimos momentos da vida de Jesus120.
À semelhança do que acontece no terceiro Evangelho, o Lucas dos Actos continua a estar bastante interessado na descrição de curas milagrosas em casos particulares ou em episódios de curas em largo espectro. A cura do coxo de nascença (Act. 3, 1-10), do paralítico da Lídia (Act. 9, 32-36) ou do coxo de Listra (Act. 14, 8-18), cujo milagre fará com que os habitantes da cidade queiram oferecer um sacrifício aos deuses gregos, Zeus e Hermes, são alguns dos exemplos mais notórios. Tal como Jesus, também os apóstolos farão milagres em grande escala, como por exemplo em Jerusalém (Act. 5, 12-16), ou em Éfeso e nas regiões circundantes (Act. 19, 8-12, especialmente 11-12), ou ainda em Samaria, com Filipe a curar uma grande quantidade de paralíticos e coxos (Act. 8, 4-8). Se em Jerusalém o mérito estava na acção de todos os apóstolos, em Éfeso, os milagres e os prodígios deviam-se unicamente à intervenção de Paulo. Este pormenor justifica claramente a importância do apóstolo a partir da segunda metade da obra, na qual ele assume maior protagonismo. Encontramos algumas ressonâncias de