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mai 2009 av arbeids- og inkluderingsminister Dag Terje Andersen

Um leitor leigo que proceda à leitura do livro dos Actos depara-se com uma problemática pouco clara: as personagens que dão vida ao enredo. A actuação dos Doze apóstolos fica reduzida a duas personagens: numa primeira fase é Pedro quem assume o protagonismo; Paulo assumirá as rédeas no resto da obra. Numa primeira instância, queremos perceber qual é o mote/o conteúdo dos Acta Apostolorum. A obra fala das peripécias dos apóstolos nos primórdios do Cristianismo e do seu modus operandi: a par das conversões e do relato de alguns feitos extraordinários, o livro também se debruça na análise do relacionamento dos apóstolos com os recém-convertidos - os apóstolos juntavam-se aos fiéis para celebrar a Eucaristia, o memorial da Paixão e morte de Jesus, ler algumas passagens da Escritura, cantar hinos de louvor a Deus e rezar (talvez possamos encontrar aqui indícios do cânone da Liturgia das Horas). Além destes dados, o livro também relata um conjunto de actos miraculosos, verdadeiros prodígios,

47 Cfr. MARGUERAT, Daniel, «L' Évangile selon Luc» […], p. 135, PARSONS, Mikeal C., Acts […], p.

11, HEAD, Peter, ob.cit., pp. 417-420 e STRANGE, W. A., ob.cit., p. 61. Daniel Marguerat dá o exemplo do «decreto apostólico» (Act. 15, 27-29) como um dos topos basilares para se estabelecer uma comparação entre as versões ocidental e alexandrina. Na primeira versão temos «Espírito Santo»; na segunda «Santo Espírito».

48 Cf. HEAD, Peter, ob.cit., p. 443. De acordo com a pesquisa que tivemos oportunidade de efectuar,

Friedrich Blass chegou a perfilhar a tese de alguns autores, como Theodor Zhan, que acredita que Lucas tinha a intenção de escrever, veja-se, um terceiro volume.

38 operados pelos apóstolos50. A obra tem a particularidade de começar por retratar o

encontro de Jesus com os seus «enviados» após a Sua morte e ressurreição. O objectivo era, como sublinhou Margaret Mitchell, num excelente estudo publicado na obra The Cambridge History of Christianism, retratar os acontecimentos que os apóstolos vivenciaram e fornecer um relato tão exímio quanto possível das suas aventuras. No fundo, era como se o livro dos Actos servisse de elemento de prova para atestar a veracidade de tais factos. Por isso, ao contrário do distanciamento que Ian Marshall propôs para a forma como Lucas começou a narrar a história dos apóstolos (a tal ideia de um «narrador alieno tempore»), acreditamos que Lucas foi um autor ex tempore, ou seja, procurou redigir no imediato51.

Um dos elementos-chaves do livro é que não há nenhuma ruptura com o judaísmo. Verifica-se um aprofundamento das relações entre o judaísmo e o cristianismo. No fundo, o Cristianismo procura um judaísmo mais humanista e espiritual. O que estava em causa era a continuidade do essencial do judaísmo. É esta a fronteira que se está a definir. Em termos de teologia, os Actos dos Apóstolos dão o ponto de partida para a mudança de paradigma: o judaísmo dá lugar ao cristianismo. É uma narrativa de sabor histórico-teológico. Mas o cristianismo também vai em busca do desconhecido, do oculto. Em Act. 28, 6, na chegada de Paulo a Malta, encontramos um exemplo que ilustra este encontro entre dois mundos completamente distintos. Os habitantes da ilha aproximaram-se de Paulo para perceber quem ele era e o que queria fazer. O autor dos Actos começa por dizer que os nativos receberam muito bem a comitiva dos apóstolos. Os habitantes da ilha eram pessoas hospitaleiras - «trataram-nos com invulgar humanidade» (Act. 28, 1). Depois de Paulo se reunir a eles junto a uma fogueira, eis que surgiu uma serpente que se pendurou na sua mão. Como o animal não provocou qualquer mazela no apóstolo, os habitantes deificaram-no, «começaram a dizer que ele era um deus» (Act. 28, 6).

Mas as personagens dos Actos confrontam-se, igualmente, com o poder do Império Romano. Em jeito de síntese, é possível admitir que, em termos de conteúdo, o

50 Além de Joaquim Carreira das Neves, que publicou um pequeno estudo na Didaskalia sobre os Actos

dos Apóstolos, em 1995, podemos encontrar uma síntese destas matérias num estudo publicado pelo

Reader's Digest no mesmo ano, que teve José Augusto Ramos como consultor científico. Sobre o assunto, cf. RAMOS, José Augusto Ramos, E depois de Jesus - o triunfo do Cristianismo, Lisboa, Reader's Digest, 1995, pp. 44-49. Sobre a missão dos Doze, cf. Mt. 10, 5-15, Lc. 9, 1-6, passim.

51 Cf. MITCHELL, Margaret M., «The emergence of written record» in MITCHELL, Margaret M. e

YOUNG, Frances M., The Cambridge History of Christianism - Origins to Constantine, vol. 1, Cambridge, Cambridge University Press, 2006, pp. 188-189. Cf. nota 23.

39 livro dos Actos dos Apóstolos oferece um panorama de como era vivida a fé em Jesus Cristo e da estratégia dos seus seguidores para levar o cristianismo omnis mundi creatura. Como sublinhou Marguerat, ao apresentar-nos a expansão de um credo que tem um arco geográfico que vai de Jerusalém a Roma, os Actos mostram um Cristianismo em expansão. Foi graças a uma eficaz campanha de comunicação que a religião cristã chegou aos «quatro cantos do mundo»52. Os apóstolos, entendidos como enviados/emissários/testemunhas (μάρτυρες) de Deus, receberam a ajuda do Espírito Santo para conseguirem disseminar a doutrina um pouco por todo o mundo (Act. 1, 8), mas também dos diáconos (Act. 6, 1-7). Será este espírito, esta força que atribuem a Deus, que ajudará os apóstolos a realizar uma série de prodígios ou na resolução de diferendos53. No fundo, o livro dos Actos fornece-nos a história de uma religião que deixou de ser uma seita rural (um cristianismo judaizante em Jerusalém) para se transformar num credo urbano/citadino (em Roma). O Cristianismo rompeu as suas fronteiras convencionais e expandiu-se. Além de Jerusalém, Antioquia e Roma foram os três principais focos de expansão do Cristianismo54. O texto dos Actos faz questão de realçar, por diversas vezes, que com chegada dos ideais cristãos por intermédio dos apóstolos, o número de seguidores começou a aumentar (Act. 5, 14, Act. 6, 7).

Um dos problemas com que nos confrontamos quando analisamos o texto dos Actos dos Apóstolos é o número de personagens. O grupo dos apóstolos é definido a partir de Act. 2, 13. Depois de chegarem a Jerusalém, os apóstolos dirigiram-se ao andar de cima de uma habitação onde era comum encontrarem-se. O texto refere que estavam lá «Pedro, João, Tiago, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelota, e Judas, filho de Tiago». Porém, foi necessário arranjar alguém que substituísse Judas, que se tinha enforcado num terreno denominado de Haqueldamá

52 O cristianismo como que se globalizou/mundializou, nas palavras do autor. No entanto, Marguerat

critica o critério escolhido pelo redactor da obra para só referir alguns territórios em detrimento de outros, como por exemplo a omissão de alusões a zonas da Grécia, da Síria, da Galácia ou de Chipre. O autor dos

Actos vê Jerusalém como centro do mundo (Act. 2, 5) - «Ora residiam em Jerusalém judeus piedosos

provenientes de todas as nações que há debaixo do céu». Foi aqui que se deu o célebre milagre das línguas de fogo, como manifestação do Espírito Santo. Os versículos 9-11 apresentam uma súmula de todas as nações habitadas, que recupera, em parte, a «lista de nações» do livro do Génesis (Gn. 10, 1-31). Cf. MARGUERAT, Daniel, «Le monde des Actes des Apôtres» in BASLEZ, Maria-François (org.), Les

premiers temps de l' Église, Paris, Gallimard, 2004, pp. 226-231. Veja-se a geografia de Act. 16, 4-6.

53 Veja-se, e.g., o caso de Pedro perante o Sinédrio: «Então Pedro, cheio do Espírito Santo, disse-lhes

[…]» [Πέτρος πλησθεὶς Πνεύματος Ἁγίου εἶπεν πρὸς αὐτούς] (Act. 4, 8), passim. Sobre o papel do Espírito Santo na obra dos Actos, cf. NEVES, Joaquim Carreira das, "História" […], pp. 203-207.

54 Cf. RAMOS, José Augusto Ramos, "A Bíblia no seu mundo", Revista da Faculdade de Letras, Lisboa,

40 (Campo de Sangue). A sorte recaiu em Matias, eleito sucessor de Judas (Act. 2, 15-23). Uma das questões que urge fazer é a seguinte: Quem são estas figuras? O que sabemos delas? No já mencionado estudo, cuja versão portuguesa deu à estampa em 1995 e do qual José Augusto Ramos foi consultor científico, refere-se que a lista de nomes apresentada em Act. 2, 13, não é mais do que um sucinto índice onomástico. Ao longo dos Actos são poucas as referências às personagens supramencionadas - «Vários destes apóstolos são pouco mais que nomes. Contudo, através do Novo Testamento chegaram até nós recordações notáveis do grupo, bastantes para que nos seja dado olhar alguns vislumbres das memórias que lhes atravessam o espírito ao reflectirem na mudança que as suas vidas tinham sofrido»55. Mudança aqui no sentido de metanóia, palavra de origem grega que significa «mudança radical». Para tornar mais elucidativa a nossa explicação, decidimos elaborar um gráfico que reproduzimos abaixo com os nomes de algumas das personagens que foram aludidas nos Actos dos Apóstolos:

Gráfico 2 - Número de referências sobre algumas das personagens dos Actos

A partir da observação do Gráfico 2, podemos concluir que Barnabé é uma das personagens, diríamos, secundárias (e entenda-se aqui o sentido da palavra pela primazia que é dada aos restantes protagonistas), do livro dos Actos. De qualquer forma, Barnabé, companheiro de pregação de Paulo, aparece cerca de 23 vezes. Segue-se o apóstolo Filipe, do qual registámos 14 ocorrências ao longo de toda a obra, que é sucedido por Silas, outro parceiro de Paulo nas lides missionárias (13 vezes). João (9 vezes), Tiago e João Marcos (5 vezes) também acabaram por surgir num ou noutro contexto da obra. De todo o grupo de apóstolo que Act. 2, 13 descreve, só encontramos a referência inicial e em nenhum passo da obra surge qualquer referência, por exemplo, a Tomé ou a Bartolomeu. Os Acta Apostolorum são grandemente marcados pela actuação de duas personagens: Paulo e Pedro. Pedro ocupa a primeira parte da obra (Act. 1-12) e Paulo ganha relevância em Act. 9, mas a partir de Act. 13-28 é que se nota

55 Cf. RAMOS, José Augusto, E depois […], p. 14.

9 5 14 23 5 13 0 5 10 15 20 25

41 a supremacia deste apóstolo. Só para que se tenha uma ideia da dimensão que estes protagonistas ocuparão em todo o enredo, optámos pela elaboração de outro gráfico:

Gráfico 3 - Número de referências sobre Pedro e Paulo

O Gráfico 3 não deixa margem para grandes dúvidas. Paulo, que entra de forma rompante no livro dos Actos, acaba por ser a personagem principal. A partir do levantamento de dados que tivemos oportunidade de efectuar, conseguimos apurar cerca de 142 referências ao apóstolo, incluindo o pormenor do passo que regista a passagem do nome hebraico (Saul/Saulo) para a denominação latina (Paulo).

Por sua vez, Pedro acaba por ficar mais distante no que diz respeito às ocorrências (57). Detenhamo-nos na figura de Paulo. Ao contrário de Pedro, o apóstolo de Tarso era um homem dotado de conhecimentos sobre a Sagrada Escritura56. A sua eloquência nas sinagogas, como demonstra a tríade Act. 17-18-19, impressionava a audiência judaica. O autor dos Actos começa por nutrir alguma preferência pelo apóstolo Paulo. Lucas eleva Paulo à categoria de herói da narrativa, ao passo que Pedro tomou o papel de protagonista do enredo somente na primeira parte da obra. Mas Pedro e Paulo são bastante distintos em termos de personalidade. Até na forma como tratam o seu Deus as diferenças são notórias.

Foi graças a um amplo estudo publicado pelo investigador Christian Dionne, em 2004, que ficámos a perceber quais as idiossincrasias de cada uma das personagens. De acordo com a autor, os discursos de Pedro têm como denominador comum a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Pedro realça o seu papel de testemunha ocular de todos os acontecimentos (Act. 2, 14-36; 3, 12-26; 4, 1-22 e 10, 34-43)57. A problemática voltou a ser analisada numa obra da autoria de Chantal Guillermain e Louis Baslet, que foi dada à estampa em 201158. Mas o que sabemos, efectivamente sobre Pedro, a partir dos

56 O autor de Actos diz que Pedro (e João) eram homens analfabetos (ἀγράμματοί) e comuns (ἰδιῶται)

(Act. 4, 13). Em Act. 22, 3, realça-se a educação de Paulo, instruído por Gamaliel. Em Act. 13, 16-22 e ss. Paulo faz uma síntese da História de Israel.

57 DIONNE, Christian, La bonne nouvelle de Dieu: un analyse de la figure dans les discours pétriniens

d'évangélisation des Actes des Apôtres, Paris, Cerf, 2004, pp. 332-347.

58 Cf. BASLET, Louis e GUILLERMAIN, Chantal, Le beau Christ en Actes, Paris, Cerf, 2011.

57 142 0 50 100 150 Pedro Paulo

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Actos? Na já mencionada tese de doutoramento de Nuno Simões Rodrigues, encontramos algumas informações que nos permitem traçar o perfil do apóstolo. Além de ser chamado na maior parte das vezes Pedro (Πέτρος), o apóstolo também respondia por outro nome - Simão (Act. 10, 5, passim) - «Simão, conhecido por Pedro» (Σίμωνά τιναὃςἐπικαλεῖται Πέτρος).

Na opinião do investigador, «Pedro assume desde o início um papel preponderante, evidente tanto nos discursos que profere, ou na orientação do julgamento de Ananias e Safira, como nos milagres que começa a fazer, como ainda no facto de se tornar um dos primeiros a ser preso pela pregação do evangelho cristão, confirmando assim a ideia de liderança lançada pelos Evangelhos». Pedro personifica os novos ideais do Judaísmo. É ele que dá o ponto de partida para o estreitamento de relações entre judeus e não-judeus, conforme demonstra o episódio da presença de Pedro em casa do centurião romano Cornélio (Act. 10, 28). Mas apesar da notabilidade do apóstolo numa parte considerável da obra, Nuno Simões Rodrigues não tem dúvidas de que Pedro deixa de ser uma personagem de monta a partir do capítulo 15 dos Actos, em que é descrita a cena do «Concílio de Jerusalém». A hipótese aventada por este investigador parece-nos perfeitamente válida se tivermos em consideração a estrutura dos Actos e a distribuição dos dados do Gráfico 3. De agora em diante, é Paulo que assume o protagonismo, isto porque a figura de Pedro «está teologicamente definida»59. Esta tese

foi perfilhada por Jacob Jervell, na obra The theology of the Acts of Apostles60. A grande

desvantagem de Pedro em relação a Paulo é a ausência de dados que nos permitam elaborar um curriculum uitae do apóstolo.

Apesar de não ser um autor ligado à Academia, Tom Bissell escreveu um livro interessante sobre a vida dos apóstolos de Jesus. A obra de Bissell resultou de uma apurada investigação científica, que foi complementada com pequenas notas de viagem. Bissell fez um périplo por algumas das cidades associadas aos apóstolos com o intuito de tentar encontrar, in loco, indícios da presença dos seguidores de Jesus. Para Bissell, só os Actos de Pedro é que podem fornecer alguns dados sobre a vida de Pedro. Como justificar o seu súbito desaparecimento a partir de Act. 15 e a emergência de uma figura proeminente como Paulo? Tom Bissell acredita que a perícope que envolve Pedro e Cornélio é uma «criação da teologia de Lucas», para citar as palavras de Raymond Brown. De acordo com o autor, só depois de Pedro ter baptizado Cornélio é que Paulo

59 Cf. RODRIGUES, Nuno Simões, Iudaei […], pp. 590-594.

43 enceta o contacto com os gentios. Este acontecimento está repleto de simbologia: Roma tornar-se-á na pedra angular para a disseminação do Cristianismo61.

E sobre Paulo? O que sabemos? Um dos primeiros autores a estudar a presença de Paulo nos Actos dos Apóstolos foi Jacob Jervell, num pequeno ensaio publicado em 1979, em que o autor defendia que, apesar de haver muitas contradições entre a imagem de Paulo, apresentada por Lucas (o presumível autor do livro), nos Actos, e na epistolografia, o Paulo dos Actos não é falso do ponto de vista histórico. Os traços característicos da personalidade do apóstolo estão bem vincados em diversos passos da obra e são esses dados que nos permitem esboçar uma cronologia da vida do apóstolo. Veja-se, por exemplo, que, dentro dos Actos, só Paulo é que faz uma espécie de retrato auto-biográfico (Act. 22, 3). Em Act. 21, 39, ele apresenta algumas peculiaridades das origens judaicas. Também só no livro dos Actos (Act. 23, 16) é que ficamos a saber que Paulo tinha uma irmã e um sobrinho. Estas pequenas menções servem para comprovar que a tese de Jervell não é despropositada, mas precisa de ter em conta a produção epistolográfica Paulina, em que não temos conhecimento de muitas das informações acima referidas62.

Paulo era um fariseu fervoroso63. Joaquim Carreira das Neves elenca algumas

das contradições entre o Paulo dos Actos e o Paulo epistológrafo: um dos casos mais elucidativos surge em Act. 16, 17, em que lemos o seguinte: «Começou a seguir Paulo e a nós». Nas missivas que enviou às comunidades de Corinto e Roma, Paulo coloca a tónica no apostolado. Na Carta aos Romanos (Rm. 1, 1) fica claro que Paulo respondeu ao chamamento para ser apóstolo. Nos Actos, Paulo só é designado como apóstolo em Act. 14, 4.14, juntamente com Barnabé. Na Primeira Carta aos Coríntios (1 Cor. 9, 2), Paulo refere que «se, para outros, eu não sou Apóstolo, sou-o certamente para vós». Nas missivas, Paulo nutre uma especial atenção para os pagãos convertidos dos ídolos. Nos

61 Cf. BISSELL, Tom, Apóstolos, Lisboa, Clube de Autor, 2017, pp. 174-179. Tom Bissell não indica

qual foi a obra de Raymond Brown que consultou e onde está a citação que colocámos no corpo do texto. De qualquer forma, parece que se trata do livro Peter in the New Testament, publicado em 1973, cujos editores foram Raymond E. Brown, Karl P. Donfried e John Reumann.

62 Cf. JERVELL, Jacob, «Paul in Acts of the Apostles. Tradition, History, Theology» in KREMER, J.

(ed.), Les Actes des Apôtres, Traditions, rédaction, théologie, Gembloux, Éditions J. Duculot, 1979, pp. 297-306. Para o autor, o Paulo dos Actos tem muitas semelhanças com o Paulo histórico.

63 Paulo fala da sua ligação ao farisaísmo em diversos contextos. No Actos (Act. 22, 4-5 e 26, 9-11), o

apóstolo Paulo recorda os tempos em que era fariseu, perseguia os infiéis e os levava algemados. Na epistolografia, nomeadamente na Carta aos Filipenses (Fl. 3, 5-6), o apóstolo também alude a esses acontecimentos com recurso à analepse.

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Actos, a prioridade de Lucas é a conversão dos pagãos «tementes a Deus» (φοβούμενος τὸν Θεὸν).

Por último, a conversão de Paulo. O autor dos Actos apresenta-nos três relatos sobre esta metanóia na vida de Paulo. Resta saber por que motivo Lucas sentiu necessidade de fornecer três versões distintas64. Afloremos um pouco este tópico. A problemática inerente à conversão de Paulo complexifica-se, se tivermos em consideração que existem três relatos do acontecimento, com peculiaridades distintas (Act. 9, 3-7, Act. 22, 5-29; Act. 26, 12-17). No caso da primeira versão, o autor dos Actos não refere que Paulo tenha visto Jesus. Na segunda versão, Paulo recorre à analepse para recordar as peripécias na Estrada da Damasco. Esta alusão de Paulo ocorre num momento muito particular: o apóstolo discursa em Jerusalém. A última versão dos acontecimentos é narrada quando Paulo disserta, na sala de audiências, perante Agripa. A conversão de Paulo de Tarso terá ocorrido cerca de 34 d.C., ou seja, alguns anos após a morte de Jesus. A experiência de Paulo teve, segundo os Actos, algumas consequências: o apóstolo ficou temporariamente cego. Este facto nunca é aludido por Paulo em nenhuma das suas missivas.

Mantendo a mesma linha de raciocínio, há outras questões associadas à conversão de Paulo que continuam por esclarecer, nomeadamente a seguinte: o que motivou o autor dos Actos a colocar o relato da conversão de Paulo descrito em Act. 9, 3-7 (a passagem do judaísmo farisaico para o judeo-cristianismo) na terceira pessoa e as narrações de Act. 22, 5-29 e Act. 26, 12-17 na primeira pessoa (Paulo recorda a conversão em dois discursos e fá-lo em discurso directo)?

Para Jacques Cazeaux, a conversão de Paulo ainda se torna mais interessante, porque ela ocorreu após o martírio de Estêvão. No entender do autor, os dois acontecimentos podem ser interpretados como um «cruzamento de destinos». Por isso, Cazeaux considera que a redacção dos Actos foi muito bem pensada. A cadeia de acontecimentos está bem estruturada65. De fervoroso fariseu, Paulo passa para o outro lado da barricada. Esta experiência de revelação divina (uma metanóia - μετάνοια) trouxe algumas consequências. De perseguidor de cristãos, Paulo passa a perseguido, conforme relata Act. 9, 23 e como defendeu Odile Flichy, num estudo sobre a figura de

64 Cf. NEVES, Joaquim Carreira das, "História" […], p. 205.

65 Cf. CAZEAUX, Jacques, Les Actes des Apôtres: l'église entre le martyre d' Étienne et la mission de

Paul, Paris, Cerf, 2008, pp. 101-107. Tese partilhada igualmente por FUNARI, Pedro Paulo e