Analisar o Evangelho atribuído a Lucas implica tratar uma série de questões que se prendem mormente com a autoria, a datação, a estrutura e o público-alvo. Começamos pela primeira questão: a autoria. Foi através da tradição cristã, nomeadamente a Patrística, que se disseminou a ideia de que Lucas era o autor do terceiro Evangelho. Como vimos na análise da biografia de Lucas, tirando a Carta aos Colossenses, a Segunda Carta a Timóteo, a Carta a Filémon e as secções em que é utilizado o plural «nós», não existe nenhum outro dado bíblico que possa ligar a identidade do «Lucas evangelista» ao «Lucas médico»147. Só as fontes extra-bíblicas
apontam Lucas como autor do evangelho. Ireneu de Lião, na obra Contra as Heresias,
147 Cfr. Cl. 4, 14; 2 Tm. 4, 11; Flm. 24; Act. 16, 10-17; 20, 5-15; 21, 1-18; 27, 1-28; 28, 1-16. Por discutir,
86 defende que Lucas escreveu os Actos e o terceiro evangelho. Ireneu justifica a sua tese com base na utilização do pronome «nós», mas também pelas afinidades temáticas entre as duas obras, nomeadamente a dedicatória a Teófilo148. Ireneu não tem dúvidas de que o Lucas aludido pelo Paulo epistológrafo foi o mesmo que escreveu os Actos e o Evangelho149. Na mesma linha de raciocínio está Marcião de Sinope, no Prólogo Anti- Marcionita do Evangelho de Lucas150 e Eusébio de Cesareia, na obra História Eclesiástica151. Ambos defendem que Lucas é o autor do conjunto Evangelho-Actos. Também de acordo com o Cânone de Muratori (Codex Muratorianus), descoberto pelo já referido Ludovico Antonio Muratori, Lucas foi o autor do terceiro Evangelho canónico (tertio evangelii librum secundo Lucan)152. Apesar de Lucas aparecer como autor do terceiro Evangelho, a ordem cronológica dos livros não parece reunir consenso. Há muitas questões que se levantam na análise do Cânone de Muratori.
Como refere Geoffrey Hahneman, o texto do Codex Muratorianus apresenta várias lacunas: páginas que terminam de forma abrupta; partes do texto sem qualquer nexo lógico; omissões (o início do fragmento não é conhecido), interpolações, entre outras debilidades. A juntar a tudo isto, o Cânone de Muratori teve de se confrontar com outras propostas em termos de ordem cronológica dos Evangelhos. Para a tradição Eastern, a ordem correcta é «Mateus, Marcos, Lucas e João». De acordo com a ordem Western, a ordenação dos Evangelhos devia ser a seguinte: «Mateus, João, Lucas e Marcos»; «João, Mateus, Lucas e Marcos» ou «João, Mateus, Marcos e Lucas» (mais o livro dos Actos). Actualmente, a disposição dos Evangelhos que encontramos na maior parte das traduções da Bíblia segue a corrente Eastern153.
148 Cf. IREN. Adv. Haer. 3.14.2-3.
149 Cf. IREN. Adv. Haer. 3.1.1. É neste capítulo 3 dedicado à veracidade das Escrituras e à forma como a
Igreja Primitiva recebeu os Evangelhos, que Ireneu de Lião atribui a autoria do terceiro Evangelho a Lucas, companheiro de Paulo.
150 Cf. GUTWENGER, Engelbert, ob.cit., p. 393.
151 Cf. EUS. HE 3.4.6. Eusébio de Cesareia refere que a diferença entre as duas obras reside no facto de o
Evangelho ter sido redigido a partir de fontes e testemunhos que o autor recolheu (i.e., a vivência dos apóstolos que foram testemunhas oculares dos acontecimentos que envolveram Jesus); por seu turno, o livro dos Actos dos Apóstolos foi escrito a partir de acontecimentos que o autor presenciou in loco. Mas Eusébio de Cesareia esqueceu-se de dizer que ambas as obras contêm bastantes dados históricos e geográficos. Ou seja, além da vivência in loco, está subjacente às duas obras um trabalho de pesquisa documental e não apenas de ditos ou relatos de certos acontecimentos. É a faceta de Lucas historiador que se começa a revelar e sobre a qual falaremos num capítulo próprio.
152 Seguimos a tradução e o texto fixado por Bruce M. Metzger. Cf. METZGER, Bruce M., The Canon of
the New Testament, Oxford, Oxford University Press, 1997, p. 305.
153 Cf. HAHNEMAN, Geoffrey Mark, The Muratorian Fragment and the Development of the Canon,
87 Aceitar a tese de que Lucas é o alegado autor do terceiro Evangelho faz levantar outro conjunto de questões, uma das quais já tratamos no capítulo dedicado à biografia desta personagem bíblica - será o Lucas Evangelista o Lucas médico mencionado por Paulo na epistolografia e o companheiro do apóstolo na digressão por algumas cidades do mundo greco-romano? Em nenhuma parte do Evangelho ou sequer do livro dos Actos encontramos referências expressas ao nome de Lucas. No entanto, a tradição encarregou-se de conotar o terceiro Evangelho com a escrita de Lucas. Mas o facto é que nada o comprova.
O mesmo acontece com os outros Evangelhos. Não sabemos, por exemplo, se Mateus, o cobrador de impostos que deixou a sua actividade profissional para seguir Jesus, é o mesmo que escreveu o primeiro Evangelho. E podemos aplicar o mesmo exercício a outros textos neotestamentários, em que as questões de autoria levantam sérios problemas para os historiadores154. Foi o texto mesmo escrito por Lucas? Como garantir a autenticidade da autoria do texto? E os acrescentos e as omissões que terá havido com as diferentes versões do texto que chegaram até nós?
Associada à questão da autoria está o problema do título. Convirá referir que os Evangelhos não tinham títulos. Os textos originais dos Evangelhos não apresentavam indicação de quem tinha sido o autor. É a partir da definição do cânone de textos que compõem a Bíblia que se arrisca a dar uma autoria aos Evangelhos. É a partícula e preposição «segundo» Τὸ κατὰ Λουκᾶν (Tó katá Loukán) e Secundum Lucan (segundo Lucas) que determina quem hipoteticamente escreveu o Evangelho155. Não haja dúvidas de que existe uma certa unidade no planeamento do Evangelho e no livro dos Actos
154 Aceitando que Mateus é o autor do primeiro Evangelho, resta saber por que motivo fala do
chamamento de Jesus na terceira pessoa. Cf. Mt. 9, 9. Mateus aplica o nome «Mateus». Lucas e Marcos utilizam outro nome para se referir a Mateus - «Levi». Cf. Lc. 5, 27 e Mc. 2, 14. Também podemos aludir o exemplo de João. Em Jo. 21, 20-24, o autor refere que, ele, o discípulo amado, escreveu o quarto Evangelho. Sobre o discípulo amado, cf. Jo. 13, 23; 19, 26; 20, 2; 21, 7.20. Em relação a Marcos, também se desconhece se ele é o autor do segundo Evangelho. Será ele o Marcos de Act. 12, 12?
155 Foi graças à denominada «crítica dos evangelhos» que se começou a questionar o género literário
destes textos, bem como as fontes e a autoria. Para uma análise destas problemáticas, cf. DUFOUR- LÉON, Xabier, «Les Évangiles synoptiques» in ROBERT, André, FEUILLET, André (dir.), Introduction
au Nouveau Testament - vol. II, Tournai, Desclée & Cie, 1976, pp. 144-162 e 313-320 e NEVES,
Joaquim C. das, Evangelhos [...], p. 161. Tertuliano, Clemente de Alexandria, Orígenes, Eusébio de Cesareia, Ireneu de Lião e Marcião de Sinope são alguns dos testemunhos da tradição cristã que defendem Lucas como autor do terceiro Evangelho. Mesmo que não haja certezas relativamente à autoria do Evangelho, Léon-Dufour admite que as múltiplas interpretações não põem em causa a solidez da tradição. Contudo, e como vimos na análise da biografia de Lucas, apesar de haver uma certa unanimidade nos argumentos, alguns dos textos da tradição cristã podem, simplesmente, ter sido alvo de acrescentos ou omissões (veja-se, por exemplo, os problemas inerentes à datação do Cânone de
88 (estilo, topoi e redacção semelhantes), mas o texto não está assinado, não sabemos quem o escreveu. Resta confiar nos elementos da tradição156.
Outro questão que continua a constituir um verdadeiro dilema para os investigadores é a datação e o lugar de composição do Evangelho de Lucas. No que diz respeito à datação, em termos de fontes, o Prólogo Anti-Marcionita do Evangelho de Lucas refere que a obra foi composta na Acaia (in achaiae partibus hoc descripsit evangelium)157. Acaia era uma região grega e, na época, importante província do Império Romano onde os apóstolos fizeram pregação, como testemunha o relato de Act. 18, 27: «Como ele [Paulo] queria partir para a Acaia, os irmãos encorajaram-no e escreveram aos discípulos, para que o recebessem amigavelmente».
É também graças ao capítulo 18 dos Actos que ficamos a saber que Galião foi procônsul da Acaia (Act. 18, 12). A alusão ao proconsulado de Galião tem que ver com o processo de Paulo, que foi levado a tribunal por estar a induzir «as pessoas a prestar culto a Deus de uma forma contrária à Lei» (Act. 18, 13). Galião ocupou esse cargo sensivelmente durante dois anos. A cronologia é diversa: ou entre 51-52 ou 52-53 d.C.158 Também há quem defenda que foi na sua alegada terra natal - Antioquia da Síria - que Lucas escreveu o terceiro Evangelho159.
Para Conzelmann e Lindemann, Lucas não deverá ter escrito o Evangelho em solo palestiniano. No entender desses autores, Lucas não conhece a geografia da Palestina e comete alguns erros na descrição dos territórios dessa região. A mesma opinião tem Richard Thompson160. Contudo, não concordamos com as propostas destes
156 Cf. Idem, Ibidem, pp. 253-254. Porém, Raymond Brown, olha com alguma sobranceria para a hipótese
de Lucas ser o autor do terceiro Evangelho e do livro dos Actos. E o mesmo esquema de análise pode-se aplicar para os homólogos de Lucas. Os nomes dos quatro evangelistas foram adicionados ao texto pela tradição cristã. Tratam-se de informações póstumas, que não constam nos textos originais. Cf. BROWN, Raymond, An Introduction to the New Testament, Yale, Yale University Press, 2016, pp. 15-17 e 33-38. Veja-se também REZE, Martin, «Das Lukas-Evangelium: Ein Forschungbericht» in TEMPORINI, Hildegard e HASSE, Wolfgang (eds.), Aufstieg un Niedergang der Römischen Welt, II-25.3, Berlin/New York, Walter de Gruyter, 1985, pp. 2258-2265.
157 Cf. GUTWENGUER, Engelbert, ob.cit., p. 393.
158 De acordo com Frederico Lourenço, que recorre ao testemunho de uma inscrição grega (Sylloge
Inscriptionum Graecarum, § 801), Galião foi procônsul da Acaia entre 51-52 d.C. Cf. LOURENÇO,
Frederico, Bíblia - Apóstolos, Epístolas e Apocalipse, Lisboa, Quetzal, 2017, nota 18.12. A tradução da Difusora Bíblica coordenada por José Augusto Ramos e Herculano Alves defende que devem ser postas em cima da mesa as duas propostas cronológicas - 51-52 ou 52-53. Sobre a importância de Acaia no contexto da pregação dos apóstolos, cf. CURTIS, Adrian, ob.cit., p. 170.
159 Assim defende a mais recente tradução dos Evangelhos e dos Salmos. Cf. Bíblia - Os Quatro
Evangelhos e os Salmos, Lisboa, Conferência Episcopal Portuguesa, 2019, p. 175.
160 Cf. CONZELMANN, Hans e LINDEMANN, Andreas, Arbeitsbuch zum Neuen Testament, Tübingen,
89 autores. Lucas conhecia relativamente bem a região da Palestina. Repare-se que, em Lc. 1, 26, logo na abertura do Evangelho, o autor refere que Nazaré ficava na Galileia. Que necessidade teria o autor de apresentar este dado complementar sobre Nazaré se não conhecesse bem a sua localização? Como poderia comprovar sem ter conhecimento do que estava a falar? Segundo Xabier Léon-Dufour, e à semelhança da tese de outros autores, não é possível determinar com exactidão o local onde Lucas compôs o seu Evangelho. A geografia é muito variada e a tradição também não é coerente nas hipóteses que apresenta. Alexandria, Roma, Cesareia, Beócia, Antioquia da Síria são algumas das cidades apontadas, mas não há nenhuma informação que confirme qualquer delas161.
Segundo Carreira das Neves, desconhece-se o lugar onde Lucas escreveu o terceiro Evangelho. De acordo com o exegeta bíblico, pode ter sido escrito em Roma ou na Ásia Menor162. Aquilo que, do nosso ponto de vista, parece plausível é que Lucas tenha escrito ou em Antioquia da Síria (pela forma como descreve a igreja antioquena163 e devido ao facto de esta cidade poder ser o hipotético local de nascimento do autor), na Acaia (segundo a proposta Marcião de Sinope164) ou em Roma (visto que Lucas esteve com Paulo em Roma e a cronologia das duas obras - Evangelho e Actos - é relativamente próxima165). Dada a escassez de informações sobre este tópico, resta
apenas avançar com conjecturas ou hipóteses que se aproximem do suposto local de composição da obra.
No que diz respeito à datação, a tradição coloca o Evangelho de Lucas em terceiro lugar ao nível de redacção cronológica. É isso que defende Ireneu de Lião166, para quem o Evangelho de Lucas foi escrito após a morte de Paulo, em Roma, cerca do ano 64 d.C., e o que também é comprovado pelo Cânone de Muratori (tertium euangelii librum secundum Lucam)167. À semelhança do que se passa com o livro dos Actos dos Apóstolos, a datação do Evangelho também não é exacta e obriga os investigadores a proporem datas que, em grande parte dos casos, não são coincidentes. Tudo leva a crer
the Apostles» in AUNE, David E., The Blackwell Companion to the New Testament, Oxford, Wiley- Blackwell, 2010, p. 331.
161 Cf. LÉON-DUFOUR, Xabier, ob.cit., p. 257.
162 NEVES, Joaquim Carreira das, O que é a Bíblia […], p. 318 e Evangelhos […], p. 315. 163 Cf. a nota 86 do subcapítulo sobre a biografia de Lucas e a bibliografia aí citada. 164 Cf. GUTWENGUER, Engelbert, ob.cit., p. 393.
165 Isso é o que defende Richard Thompson. Cf. THOMPSON, Richard, ob.cit., pp. 330-331. 166 IREN., Adv. Haer., 3.14.1; 3.1.1.
90 que o livro tenha sido escrito antes de 90 d.C. A datação do Evangelho de Lucas não reúne consenso na comunidade científica. Os investigadores têm fundamentado as suas propostas cronológicas a partir de duas questões: a destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C., e a relação de Lucas com os Evangelhos dos seus homólogos (Mateus e Marcos). Analisemos então estas duas questões168.
Em Lc. 21, 5-28, Jesus anuncia a destruição do Templo de Jerusalém e o que advirá deste acontecimento: guerras, revoltas, fomes, epidemias, fenómenos nunca antes vistos e, segundo o autor, um conjunto de sinais no céu que pressagiam o fim dos tempos e a vinda gloriosa de Jesus (o Filho do Homem, como designa Lucas a partir da citação de um texto do profeta Daniel169). Já em Lc. 19, 41.43-44, Jesus tinha chorado sobre Jerusalém como que antevendo aquilo que iria acontecer à cidade: «Quando se aproximou, ao ver a cidade, Jesus chorou sobre ela e disse: "Virão dias para ti, em que os teus inimigos te hão-de cercar de trincheiras, te sitiarão e te apertarão de todos os lados. Hão-de esmagar-te contra o solo, assim como aos teus filhos que estiverem dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sobre pedra"». Estes versículos não são mais do que a alusão à destruição da própria cidade e o próprio templo de Jerusalém, acontecimentos que Lucas começa a enfatizar nos capítulos 19 e 21.
A diferença entre ambos os capítulos está na forma precisa como o autor descreve a destruição do Templo. De todos os autores, Lucas é aquele que insiste mais neste topos: repare-se que ao contrário de Mateus e Marcos (João não fornece qualquer relato sobre o fim de Jerusalém), Lucas é o único que refere que Jerusalém iria estar «sitiada por exércitos [romanos]» (Lc. 21, 20). Mateus e Marcos utilizam a expressão «abominação da desolação»170. De uma forma geral, os relatos de Lucas sobre os acontecimentos pré e pós destruição do templo de Jerusalém são mais claros, mais precisos em termos de informação171. Os anúncios da destruição de Jerusalém que são
168 Além de Mateus, Marcos e Lucas, Flávio Josefo também faz uma longa descrição do cerco e da
destruição de Jerusalém, no ano 70 d.C. Cf. J. BJ 5, 10; 6, 3-4; 7, 1.
169 Cf. Dn. 7, 13-14.
170 No texto de Daniel aparece como «abominação devastadora». Cf. Dn. 8, 13. A expressão em grego é
τὸ βδέλυγμα τῆς ἐρημώσεως e em hebraico ם ֵֽ מוֹשׁ ְמ ץוּקּ ִּׁש ַה (cf. Dn. 11, 31).
171 Cfr. Lc. 13, 34-35; 19, 41-44; 21, 5-24; Mt. 23, 37-39; 24, 1-22; Mc. 13, 1-20. Segundo a nota de
Arnaldo Pinto Cardoso, tradutor da Difusora Bíblica, Lucas separa os sinais precursores sobre o fim do mundo e a destruição do templo de Jerusalém. O que o texto dá a entender é que Jesus prefere dedicar o tempo de conversa com os apóstolos a explicar a simbologia do que havia de acontecer em termos de fenómenos/catástrofes. Cf. Bíblia Sagrada […], Lc. 21, comentário aos versículos 7-8. É o que também defende Claude Tresmontant. Cf. TRESMONTANT, Claude, Le Christ hébreu - la langue et l' âge des
91 comuns a Mateus e Marcos divergem de Lucas, pelo facto de ele apresentar, em exclusivo, não dois, mas três relatos sobre a devastação da cidade (Lc. 23, 28-29): «"Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos; pois virão dias em que se dirá: 'Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram'"».
O que parece levantar algumas dúvidas quando analisamos os relatos dos três autores sinópticos é a forma como o discurso escatológico de Jesus está organizado, a par das perguntas dos discípulos e da resposta que ouviram da boca de Jesus. É interessante verificar que o diálogo entre Jesus e os discípulos surgiu a partir da contemplação da arquitectura do templo. Jesus retorquiu perante a estupefacção dos discípulos. Só por Marcos é que conhecemos os rostos e a identidade dos discípulos que interrogam Jesus: trata-se de Pedro, Tiago, João e André (Mc. 13, 3). A pergunta formulada pelos discípulos no texto de Mateus também apresenta informações que escaparam a Lucas e Marcos (Mt. 24, 3, sublinhado nosso): «Diz-nos quando acontecerá tudo isto e o qual o sinal da tua vinda e do fim do mundo?». Veja-se que numa mesma pergunta percebemos que o objectivo dos discípulos é perceber (ainda que no texto pareça estar de forma subentendida) quando ocorrerá a destruição do Templo e quando será o fim dos tempos (a Parousia). No texto de Mateus, a pergunta dos discípulos é, do nosso ponto de vista, muito dúbia. Ficamos com a sensação de que Jesus se reporta a dois acontecimentos similares, mas que na mesma pergunta parece estar a falar de eventos completamente distintos. À primeira vista, parece haver relação entre a destruição da cidade e do templo de Jerusalém e o fim dos tempos ou o fim do mundo, mas a expressão «fim do mundo» («συντελείας τοῦ αἰῶνος») apresentada por Mateus (Mt. 24, 3) dá outro sentido à pergunta.
A outra questão fundamental para determinar a datação do livro é a sua relação com os Actos dos Apóstolos. Este livro foi escrito antes do Evangelho. Em Act. 1, 1, Lucas recorda ao caríssimo Teófilo que pretende seguir o mesmo critério da narrativa anterior (i.e., o Evangelho): falar do que Jesus fez durante a sua vida, nomeadamente a realização de milagres; o convívio com os apóstolos; a Paixão; e a ascensão ao céu. Referindo-se Lucas a um primeiro livro, impõem-se duas questões: haverá algum
l'an 70, c'est une chose. La fin du monde en est une autre. Ici, dans Luc comme dans Matthieu, les propos du Seigneur sont présentés comme si la fin du monde suivait immédiatement la prise de Jérusalem», p. 133. Sobre a destruição de Jerusalém a partir da perspectiva de Josefo e de Marcos, ver também RODRIGUES, Nuno Simões, Iudaei […], pp. 761-766 e 844-848.
92 distanciamento cronológico na composição das duas obras Lucas-Actos?; Seguiu Lucas as narrativas de Mateus (que provavelmente escreveu em 80 d.C.), Marcos (que escreveu cerca do ano 70 d.C.) e da denominada fonte Q? Terá Lucas escrito logo após a redacção dos seus homólogos e depois de ter tido conhecimento dos textos de Mateus e de Marcos? Ou teria Lucas escrito noutra ocasião, depois de ter investigado tudo criteriosamente e de acordo com as regras da historiografia da época (Lc. 1, 1-4)?
Para Joaquim Carreira das Neves, existem argumentos que nos permitem datar o Evangelho de Lucas nos meados da década de 60 ou depois dos anos 70. O autor refere que a destruição do Templo de Jerusalém tem de ser vista com alguma cautela, porque a narrativa dos Evangelistas assenta num estilo profético, herdado dos textos do Antigo Testamento, como bem atestam os textos de Jeremias, Sofonias, Isaías e Miqueias. A questão do martírio de Paulo (ausente do final da narrativa dos Actos), as semelhanças entre os Actos e as Carta de Paulo no retrato das relações entre judeus, cristãos e não cristãos, que sofreu alterações na década de 80, são algumas das pistas lançadas pelo exegeta172. Para o mesmo autor, a destruição do Templo de Jerusalém pelas tropas romanas, na visão de Lucas, é como que um castigo divino que resulta dos pecados cometidos pelo povo de Israel173. A única maneira de colmatar as faltas cometidas pelos
Israelitas é iniciar um novo ciclo, em que o povo se arrepende e se submete à vontade divina. É como se o povo se regenerasse e se purificasse de todo o mal cometido.
Outro dado importante para determinar a datação do Evangelho de Lucas é a expressão «o meu Evangelho», que é utilizada por Paulo em alguma das suas missivas. De acordo com a tradição cristã, nomeadamente da Patrística, ao recorrer à fórmula «o meu Evangelho», o apóstolo dá a entender que utilizou o Evangelho de Lucas como fonte doutrinal. O próprio Eusébio de Cesareia na História Eclesiástica promove a tese de que Paulo alude ao Evangelho de Lucas174. A expressão «o meu Evangelho» surge duas vezes na epistolografia Paulina: uma vez na Carta aos Romanos e outra na