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juni 2009 av arbeids- og inkluderingsminister Dag Terje Andersen

Tivemos já oportunidade de verificar que a historiografia do Evangelho e dos Actos tem algumas semelhanças com a praxis historiográfica helenística (presença de topoi comuns na literatura da época, nomeadamente, discursos, relatos de viagens, tempestades, naufrágios; preocupação com a verdade e o rigor histórico; ordenação dos factos, entre outros aspectos). No subcapítulo 3.1, analisámos a tipologia do trabalho de Lucas. Voltamos a frisar que, do nosso ponto de vista, Lucas actua como historiador e em algumas circunstâncias como teólogo e até como hagiógrafo. Apesar de seguir as ideias dos historiadores greco-romanos, o autor dos Actos também segue, de certa forma, o esquema da historiografia judaica. Relembremos a problemática do conhecimento que Lucas tinha da História de Israel. Segundo Jacob Jervell, Lucas segue as regras da historiografia greco-romana, mas o objectivo principal é apresentar a história da Salvação providenciada pelo seu Deus e os projectos que Ele tem para a humanidade a partir de uma matriz judaica414. Só assim se entende a utilização de textos do Antigo Testamento, que procuram credibilizar a mensagem dos apóstolos. As retrospectivas proféticas e histórico-salvíficas (as promessas de Deus a Abraão, a libertação do jugo do Egipto, o exemplo de Moisés, os louvores a Deus entoados pelo salmista) e a utilização do grego dos LXX no texto dos Actos são dois bons exemplos do que Jürgen Zangenberg denomina de «representação veterotestamentária da História»415. Neste sentido, parece-nos que Lucas sabe conjugar duas maneiras de

escrever a História, utilizando por um lado as regras da historiografia greco-romana e, por outro, as disposições da historiografia judaica416.

413 Cf. SPENCER, F. Scott, «The Narrative of Luke-Acts» […], p. 129. 414 Cf. JERVELL, Jacob, «The future of the past» […], p. 112. 415 ZANGENBERG, Jürgen, ob.cit., p. 65.

416 Para Marguerat, Lucas utiliza as regras da historiografia greco-romana para escrever os Actos, mas

mantém a sua filiação relativamente à historiografia judaica. A historiografia dos Actos tem uma orientação teológica. Sobre este assunto, cf. MARGUERAT, Daniel, Le historien […], pp. 55-59. No entanto, a historiografia judaica vai beber nos valores da praxis historiográfica helenística. Refira-se a apropriação de alguns aspectos, como é o caso da utilização do proémio/prólogo, o recurso a figuras de estilo e a introdução de secções de discursos ou de descrição de relatos de viagens. Sobre este assunto, cf. STERLING, Gregory, «The Jewish appropriation of Hellenistic historiography» in MARINCOLA, John (ed.), ob.cit., pp. 231-243. Segundo Jervell, em determinados contextos, Lucas parece conhecer as regras

176 Neste subcapítulo do nosso trabalho, analisamos passo-a-passo, e com recurso a um esquema proposto por Daniel Marguerat e por Charles Kingsley Barrett, as principais regras da historiografia grega. Estes dois autores referem que a maior parte da metodologia aplicada por Lucas na redacção dos Actos dos Apóstolos pode ser encontrada na obra de Luciano de Samósata intitulada Como se deve escrever a História. Para Marguerat, as ideias que Luciano expõe no seu tratado historiográfico não são mais do que uma replicação dos aspectos metodológicos que os historiadores gregos conheciam417. Vejamos então quais as regras que faziam parte do cânone da historiografia helenística e que, no fundo, se reflectem na composição do livro dos Actos. Seguidamente procuraremos desenvolver cada um dos tópicos e tentar desmontar o plano de redacção do livro.

Dez regras do código do historiador greco-romano, segundo Luciano:

① - A escolha de um bom tema;

② - A utilidade dos assuntos tratados para os destinatários; ③ - Independência do espírito e ausência de parcialidade;

④ - Redacção de uma escrita cativante e construção de um bom relato; ⑤ - Recolha de material pertinente;

⑥ - Selecção e variedade no tratamento das informações disponíveis; ⑦ - Disposição correcta e ordenada do relato;

⑧ - Vivacidade da redacção;

⑨ - Moderação nos detalhes topográficos;

⑩ - Composição de discursos adequados ao orador e ao contexto retórico da história418.

Analisando cada uma das regras elencadas, é já possível ter uma percepção do tipo de trabalho que Lucas procurou levar a cabo. Mas é importante perceber se Lucas seguiu stricto sensu as regras propostas por Daniel Marguerat e Charles Barrett.

① - A escolha de um bom tema: no que diz respeito à primeira regra, o autor dos Actos não indica no prólogo do livro que matérias vai abordar. A ausência de um

da historiografia do seu tempo, mas existem outros momentos em que o autor dos Actos está preocupado com a praxis historiográfica judaica. Cf. JERVELL, Jacob, «The future of the past» […], p. 112.

417 Cf. MARGUERAT, Daniel, La première […], p. 27.

418 Cf. Idem, ibidem, pp. 27-28. Daniel Marguerat também recupera o cânone da historiografia helenística

na obra L'historien de Dieu. Luc et les Actes des Apôtres, Genève, Labor et Fides, 2018, p. 37. Veja-se igualmente a síntese deste esquema em BARRETT, C. K., «How history should be written» in WHITERINGTON, Ben III (ed.), History, Literature and Society in the Book of the Acts, Cambridge, Cambridge University Press, 1996, pp. 33-35.

177 sumário, de um resumo dos Actos é um pouco estranha, visto que este aspecto diverge do cuidado que o autor demonstra no prólogo do seu evangelho419. O leitor moderno

tem de folhear o livro do início ao fim para perceber quais os conteúdos abordados e as principais ideias que Lucas pretende transmitir420. Resta saber por que motivo Lucas não esclarece previamente os seus destinatários. Ter-se-á a ausência de um sumário devido a algum contratempo do autor? Será que foi uma estratégia historiográfica?

Os Actos dos Apóstolos narram os feitos, as venturas e desventuras dos enviados de Jesus de Nazaré (os apóstolos) e o anúncio da Boa-Nova após a Sua morte. A ideia de Lucas é expor os principais acontecimentos vivenciados não só pelos apóstolos, mas também pelas comunidades cristãs primitivas. Além disso, ao longo da narrativa surgem outras personagens que dão vida ao enredo. A grande questão é a que a narrativa não fala de todos os apóstolos, mas somente de alguns. Acresce ainda o facto de todo o enredo se centrar demasiado nas proezas de Pedro e Paulo, relegando para segundo plano a acção dos outros apóstolos. Os Actos dos Apóstolos dão continuidade ao trabalho que Lucas desenvolveu na sua primeira obra, o Evangelho, tendo em conta o estilo, a linguagem e as técnicas de redacção. Aliás, o livro dos Actos dos Apóstolos não pode ser equiparado com outra obra neo-testamentária. Neste sentido, Lucas é um case study do Novo Testamento, visto que é o único autor a apresentar um trabalho em dose dupla (Evangelho-Actos)421. A ausência de um sumário com os conteúdos principais do

livro dificulta a questão de se saber o que tratam, efectivamente, os Actos dos Apóstolos para o seu autor. O «Reino de Deus» e o testemunho da Ressurreição de Jesus e da mensagem do Evangelho um pouco por todo o mundo parecem ser dois dos temas centrais do livro dos Actos (Act. 1, 3.7; 8, 12; 14, 22, passim). Talvez possamos admitir que o grande tema dos Actos dos Apóstolos é a disseminação da Palavra de Deus (λόγος τοῦ Θεοῦ) até aos confins da Terra. Como lembra Paulo na sua defesa perante Agripa, «não foi a um canto que tudo se passou!» (οὐ γάρ ἐστιν ἐν γωνίᾳ πεπραγμένον τοῦτο, Act. 26, 26). A narrativa dos Actos enceta em Jerusalém, mas espalha-se gradualmente por todo o mundo. Para Daniel Marguerat, não é possível definir qual é o tema do livro

419 Para Luciano de Samósata, sempre que achasse desnecessário, o historiador podia prescindir do

exordium, ou seja, de uma explicação preliminar do assunto que vai tratar na obra. Cf. LUC. Quomodo

§23 e 52-54. Luciano indica algumas regras para elaborar um bom exordium.

420 Sobre este assunto, cf. ALEXANDER, Loveday, «The preface to Acts and the historians» in

WHITERINGTON, Ben III (ed.), ob.cit., pp. 73-76 e 82-84. Segundo Loveday Alexander, Lucas não sumarizou os tópicos principais do livro, porque o próprio conteúdo dos Actos dos Apóstolos já dá resposta ao leitor.

178 dos Actos, visto que não há uma uniformidade nos conteúdos apresentados422. Além

desta questão, Lucas utiliza termos vagos no prólogo dos Actos que não ajudam a especificar o mote do livro. «Ensinamentos» (Act. 1, 1), «instruções» (Act. 1, 2), «obras» (Act. 1, 1) e «provas» são algumas das expressões a destacar.

② - A utilidade dos assuntos tratados para os destinatários423: a utilidade do

livro dos Actos dos Apóstolos está bem patente no prólogo. Em Act. 1, 1-1 pode ler-se o seguinte: «No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei as obras e os ensinamentos de Jesus». O objectivo de Lucas é instruir o destinatário da obra, Teófilo424. Lucas quer que

os Actos se apresentem, não apenas como um livro em que se narra as vivências das comunidades cristãs e o seu modus operandi, mas também como um repositório de valores e preceitos da religião de Cristo. Os Actos dos Apóstolos surgem, desta forma, como uma obra de catequese. A partir da leitura dos Actos, Teófilo, e os futuros destinatários do livro, tinha um melhor entendimento sobre o cristianismo. Lucas tinha em mente a instrução e a catequização dos seus leitores425. O livro dos Actos tem uma vertente pedagógica - além das características doutrinárias, Lucas também utiliza informações de carácter histórico e geográfico. E já que os Actos têm uma matriz histórica subjacente à sua redacção, é possível admitir que o autor tivesse em mente a máxima de Cícero, segunda a qual a História era mestra da vida (Historia magistra uitae), ou seja, o conhecimento histórico ajuda a extrair lições para o futuro426.

③ - Independência de espírito e ausência de parcialidade: em relação a este aspecto, pensamos que Lucas é um autor preocupado com o apuramento da verdade. Neste sentido, é possível admitir que Lucas tinha em mente um projecto de trabalho pautado pelo rigor histórico e pelo esclarecimento. Contudo, parece-nos impossível que Lucas possa redigir o seu trabalho com independência de espírito e ausência de parcialidade. Toda a redacção do livro dos Actos está dependente de uma agenda

422 Cf. MARGUERAT, Daniel, Le historien […], pp. 39-40.

423 Sobre a utilidade da História, cf. LUC. Quomodo §9 - «De facto, uma e só uma é a tarefa e a finalidade

da História - a utilidade, a qual deriva unicamente a verdade».

424 A dedicatória figurava em grande parte das obras historiográficas. Cf. ALEXANDER, Loveday, «The

preface of the Acts» […], pp. 85-89.

425 Lucas utiliza quatro vezes o verbo «instruir» (κατηχέω), de onde vem a palavra «catequese». Cf. Lc. 1,

4; Act. 18, 25; 21, 21.24. Sobre a instrução, ver também LUC. Quomodo §53. Veja-se também JERVELL, Jacob, «The future of the past», p. 115 e MARGUERAT, Daniel, Le historien […], pp. 38-39.

426 Ou seja, o conhecimento histórico tem uma função paradigmática. Cf. CIC. De orat. 2, 9, 36: Historia

uero testis temporum, lux veritatis, uitae memoriae, magistra uitae, nuntia uetustatis. Sobre a relação da

máxima de Cícero com a historiografia cristã, cf. KOSELLECK, Reinhart, Futuro passado: contribuição

179 política e cultural e, em último caso, ideológica427. Em termos políticos, Lucas vê Roma

como uma referência. Tal como no Evangelho, nos Actos, Lucas procura vincular o tempo histórico à actividade missionária dos apóstolos, num mundo marcado pela vivência política romana e pelo influxo cultural do helenismo.

Também não se deve perder de vista o facto de o autor estar a escrever uma história que, do nosso ponto de vista, é apologética: a ideia é defender o primado do cristianismo face às crenças e práticas religiosas dos outros povos428. O apologismo dos Actos está igualmente patente na acção de Deus e do Espírito Santo, que são os grandes motores da narrativa, e na defesa dos ideais do cristianismo diante das comunidades judaicas429. Mas sem dúvida que a atitude apologética de maior relevo está na defesa do apóstolo Paulo diante do poder romano (Act. 16, 37-40; 19, 35-40; 22, 25-30 e 25, 10- 12)430. Convirá não esquecer que Lucas eleva Pedro (Act. 1-13) e Paulo (Act. 13-28) à condição de heróis do enredo431. O facto de se focar demasiado nas acções dos dois apóstolos é já sintoma da ausência de imparcialidade. Outro dado a ter em consideração é a dedicatória a Teófilo. A ideia de Lucas é converter Teófilo à fé cristã432. Como sublinhou Joaquim Carreira das Neves, «tanto o Evangelho como os Actos foram escritos para legitimar o movimento cristão ou a fé cristã em que Lucas se situa. Lucas escreveu como apologeta e toda a obra apologética tem os seus modelos, os seus estereótipos literários e ideológicos»433.

④ - Redacção de uma escrita cativante e construção de um bom relato: podemos juntar a esta regra uma outra norma que está prevista no cânone. Trata-se da regra n.º 8 intitulada «vivacidade da redacção». A história dos Actos dos Apóstolos foi

427 Cf. KEENER, Craig S., Acts […], pp. 149-153.

428 Cf. as histórias de Paulo e Barnabé em Listra (Act. 14, 8-18), Paulo no areópago de Atenas (Act. 17,

22-34) e o tumulto contra Paulo, em Éfeso (Act. 19, 23-40).

429 Cf. Act. 2, 14-36; 3, 11-26; 4, 1-12; 5, 34-42; 13, 16-42; 17, 1-15; 23, 1-22. Sobre a relação entre

Judeus e Cristãos nos Actos, cf. DAUBE, D., «Neglected Nuances of Exposition in Luke-Acts» in TEMPORINI, Hildegard e HASSE, Wolfgang (eds.), ob.cit., pp. 2340-2347.

430 Sobre a apologia dos Actos dos Apóstolos, cf. MARGUERAT, Daniel, La première […], pp. 47-48,

STERLING, Gregory, Historiography […], pp. 369-373, HENGEL, Martin, ob.cit., pp. 59-68 e FIORENZA, Elisabeth Schüssler, «Miracles, Mission, and Apologetics» in FIORENZA, Elisabeth Schüssler (ed.), Aspects of religious propaganda in Judaism and Early Christianity, Notre Dame, University of Notre Dame Press, 1976, pp. 1-25. Luciano de Samósata também adverte o historiador para a importância da imparcialidade e para que não tome partido por qualquer uma das partes envolvidas na narrativa. Cf. LUC. Quomodo §37.

431 Sobre a apologia de Paulo nos Actos, cf. KEENER, Craig S., "Paul and Sedition - Pauline Apologetic

in Acts", Bulletin for Biblical Research, vol. 22, n.º 2, 2012, pp. 201-207.

432 Cf. BRUCE, Frederick, Acts […], p. 28.

180 construída de forma bastante perspicaz. É importante levar em conta a forma como o texto foi escrito. Lucas é fruto das ideias do seu tempo. Como assinalámos no capítulo dedicado à importância da cultura grega, o autor dos Actos escreve a partir de uma matriz helenística, em que se nota a influência de ideias de outros textos. Lucas escolheu bons «ingredientes» e os elementos necessários para oferecer ao leitor histórias repletas de acção, suspense e drama. O texto dos Actos, sobejamente marcado por êxitos e fracassos das missões apostólicas, procura suscitar o interesse e a consequente reacção da audiência. Lucas está empenhado em realçar os aspectos mais relevantes das personagens, a sua força e determinação nos momentos de maior provação. Analisando o plano geral da obra, a primeira parte dos Actos tem menos fulgor que a segunda. É na segunda parte da narrativa (Act. 13-28) que notamos a presença de tópicos da historiografia helenística, como é o caso do naufrágio de Paulo e da comitiva que o terá acompanhado até Roma (Act. 27, 27-44)434, a fuga das personagens graças a um tremor de terra (Act. 16, 25-33)435 e a libertação miraculosa de Pedro (Act. 12, 1-10) e de Paulo (Act. 9, 25-26)436. O dinamismo que Lucas confere à narrativa vai ao encontro das expectativas da audiência. Mas não são apenas os tópicos que engrandecem a narrativa e a tornam estimulante437. A adjectivação também é um aspecto a ser realçado,

nomeadamente na intervenção dos apóstolos (Act. 13, 43-52). Expressões como «a muito custo» - (μόλις, Act. 14, 18; 27, 7.8.16), «cheios de assombro/temor» - (ἔκθαμβοι, Act. 3, 11) ou «com toda a liberdade e sem impedimento» - (μετὰ πάσης παρρησίας

ἀκωλύτως, Act. 28, 31) podem ser encontradas ao longo da narrativa.

⑤ - Recolha de material pertinente; ⑥ - selecção e variedade no

tratamento das informações disponíveis; ⑨ - moderação nos pormenores

topográficos: para redigir o livro dos Actos dos Apóstolos, Lucas teve de reunir

algumas fontes; este assunto, contudo, não é consensual entre os investigadores. Carreira das Neves entende que os Actos não apresentam nenhuma fonte literária e que a categorização das fontes utilizadas por Lucas, quer sejam orais ou escritas, é fruto de interpretações da hermenêutica moderna. A questão também está na forma como Lucas utiliza as suas fontes. Como vimos no subcapítulo dedicado à relação de Lucas com a

434 Cf. Od. 14.250-320. Ver também a presença deste topos em TAC. Ann. 14.5. Cf. RODRIGUES, Nuno

Simões, Iudaei […], p. 684.

435 Cf. EUR. Bacch. 443-450. 436 Cf. OV. Met. 3.696-700.

181 historiografia judaica, em alguns casos, o autor dos Actos cita de maneira livre e com ligeiras adaptações os textos do Antigo Testamento. No entender daquele exegeta bíblico, «se Lucas, no evangelho, trata as suas fontes de maneira livre, muito mais acontece nos Actos»438. Ou seja, Lucas omite ou acrescenta dados. A tipologia das fontes é diversa, visto que temos informações que alegadamente foram veiculadas por testemunhas oculares dos acontecimentos, como demonstram as secções em que se utiliza a primeira pessoa do plural, e também dispomos de outros dados de carácter histórico e geográfico.

As secções do plural remetem-nos para o campo dos relatos de viagens que se encontram noutras obras da literatura grega, como é o caso da Ilíada439, da Odisseia440, ou da Periegese de Hecateu de Mileto441. Existem algumas semelhanças entre estas obras e os Actos dos Apóstolos. Lucas descreve minuciosamente os roteiros e os locais por onde os apóstolos passavam e apresenta dados que são relevantes e enriquecem o conteúdo da obra: em Act. 16, 12, Lucas refere que a comitiva apostólica se dirige para Filipos, «que é cidade de primeira categoria deste distrito da Macedónia e colónia» (Φιλίππους ἐστὶν πρώτη τῆς μερίδος Μακεδονίας πόλις κολωνία). Outro exemplo que merece ser mencionado ocorre em Act. 21, 39, quando Paulo comparece diante do tribuno. Na troca de palavras com o tribuno acerca da sua naturalidade, o apóstolo refere que é originário de Tarso, uma cidade não desprestigiada (οὐκ ἀσήμου πόλεως).

Merece igualmente menção o conhecimento da topografia das regiões em redor de Jerusalém. Lucas esclarece o leitor, ao referir que Filipe se encontra com o eunuco etíope, na «estrada que desce de Jerusalém para Gaza» (Act. 8, 26). O autor dos Actos também apresenta algumas informações sobre a arquitectura da cidade de Jerusalém: em Act. 3, 1.10, ficamos a saber que a porta do Templo se chamava «Formosa» (Ὡραίαν). Ainda no mesmo capítulo (Act. 3, 11), Lucas informa que o discurso de Pedro foi proferido junto ao «Pórtico de Salomão» (στοᾷ Σολομῶντος).

Os pormenores topográficos de Lucas não limitam a Jerusalém e, por isso, o autor não se consegue conter na moderação que é exigida pelo cânone que temos vindo

438 Carreira das Neves defende que o que está em causa é a dicotomia fontes orais/fontes escritas. Cf.

NEVES, Joaquim Carreira das, A Bíblia […], p. 193. Problemática também analisada por Jörg Frey. Cf. FREY, Jörg, «Fragen um Lukas» […], p. 5. Paul Veyne refere que «a narrativa histórica coloca-se para além de todos os documentos, visto que nenhum deles pode ser o acontecimento». Cf. VEYNE, Paul,

Como se escreve a História, Lisboa, Edições 70, 1987, p. 15.

439 Cf. Il. 10.283-299 (Diomedes e Ulisses dirigem-se ao acampamento dos Troianos). 440 Cf. Od. 4.350-362 (viagem de Menelau ao Egipto).

182 a seguir442. Os exemplos mais elucidativos estão em Act. 20, 13-16 (viagem da Tróade

para Mileto) e Act. 21, 1-4 (viagem para Tiro). No que diz respeito às informações de carácter administrativo, o autor dos Actos também parece estar devidamente informado sobre o funcionamento da máquina administrativa romana: Cornélio era «centurião da coorte chamada itálica» (ἑκατοντάρχης ἐκ σπείρης τῆς καλουμένης Ἰταλικῆς, Act. 10, 1); em Filipos, os companheiros de pregação são entregues aos «estrategos» (ἄρχοντας) e aos «magistrados» (στρατηγοῖ, Act. 16, 19-20); os magistrados de Tessalonica eram os politarcas - (πολιτάρχαἰ, Act. 17, 8)443.

Ao autor dos Actos não escaparam informações sobre os povos e as regiões em que foi dada a conhecer a mensagem de Cristo. Em Act. 2, 9-10, Lucas apresenta uma caracterização étnica e geográfica dos povos que foram testemunhas das maravilhas de Deus: «Partos, Medos, Elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e dos lados da Líbia vizinha de Cirene, colonos de Roma, tanto Judeus como prosélitos, Cretenses e Árabes». Estas informações que, à partida, parecem ser secundárias para a narrativa, mas não o foram para Lucas. Pormenores como o estado do tempo meteorológico em que a cena se consumou (Act. 27, 14-18) ou o meio de transporte utilizado para a deslocação da comitiva apostólica (e.g., barco, Act. 14, 26) são alguns dos exemplos notórios.

Além das informações supramencionadas, o autor dos Actos procura fundamentar a sua exposição escrita com documentos a que, supostamente, teve acesso. Um dos casos mais paradigmáticos envolve a viagem de Paulo para Cesareia (Act. 23, 23-24) e a carta que Cláudio Lísias escreveu ao governador Félix (Act. 23, 26-30). Resta