Mas o que sabemos em concreto sobre Lucas? À semelhança de Paulo, Lucas também foi biografado, mas a grande diferença entre os dois é que Lucas não o fez num registo autobiográfico. O sucinto curriculum uitae pode ser encontrado no Prólogo Anti-Marcionita do Evangelho de Lucas, da autoria de Marcião de Sinope. O texto diz o seguinte: «Lucas é um sírio de Antioquia, médico [físico] de profissão, discípulo dos apóstolos. Mais tarde acompanhou Paulo até ao seu martírio, servindo o Senhor sem crime/sem culpa/sem entraves. Nunca teve mulher/esposa e nunca teve filhos. Cheio do Espírito Santo, morreu com oitenta e quatro anos, na Beócia»84. O prólogo de Marcião oferece um conjunto de informações inéditas sobre a vida de Lucas. Porém, estamos perante um documento cuja autenticidade tem levantado sérias dúvidas aos investigadores. Segundo Koester, pode ter havido omissões, acrescentos, porque a questão da datação das duas partes do prólogo do Evangelho de Lucas não é linear. A
84 Est quidem lucas antiochensis syrus, arte medicus, discipulus apostolorum: postea uero paulum
secutus est usque ad confessionem eius, seruiens domino sine crimine. Uxorem numquam habuit, filios numquam procreauit, octoginta quattuor annorum obiit in boeotia, plenus spiritu sancto. Seguimos a
tradução e o texto fixado por Engelbert Gutwenger, publicado na Theological Studies. Cf. GUTWENGER, Engelbert, "The Anti-Marcionite Prologues", Theological Studies, n.º 7, 1946, p. 394.
56 parte mais recente, que deve ter sido composta no século II d.C., é aquela em que se encontra o início do prólogo supracitado. O resto do prólogo é do século IV d.C. E eis que urge formular algumas perguntas: foi a segunda parte do prólogo escrita por outra pessoa no lugar de Marcião (e.g., um monge copista ou um letrado da Igreja Primitiva)? E a primeira parte, terá ela sido escrita pela pena de Marcião no século II d.C.? Se a primeira parte do prólogo de Lucas foi escrita muito antes dos prólogos de Marcos e João (excluímos Mateus, porque não existe nenhum manuscrito) é uma questão que continua por explicar85.
O que a tradição bíblica diz, e que também é confirmado pelo texto de Marcião, é que Lucas nasceu em Antioquia da Síria e foi aqui desenvolveu a sua actividade profissional como médico. A sua ligação a essa cidade e a preferência pela redacção de acontecimentos que diziam respeito ao quotidiano da comunidade antioquena pode ser atestada pelas várias referências no livro dos Actos. A cidade é mencionada 14 vezes nos Actos dos Apóstolos (Act. 11, 19.20.22.26-27; 13, 1; 14, 19.21.26; 15, 22.23.30.35; 18, 22) e Lucas faz questão de realçar as qualidades daquela cidade e a dinâmica da comunidade cristã de Antioquia (Αντιόχεια). Encontramos uma estrutura religiosa bem organizada, como bem atesta Act. 13, 1-3 (nestes versículos, Lucas nomeia as personagens de maior relevo da igreja antioquena), numa cidade que foi um importante centro de transmissão dos ideais cristãos e em que Paulo e Barnabé desenvolveram uma parte das suas lides missionárias86.
Outro texto que mostra como Lucas conhecia bem o tecido populacional de Antioquia é Act. 11, 19-20. Lucas refere que, numa primeira fase, «anunciaram a palavra senão aos judeus (Ἰουδαίοις)» (Act. 11, 19). Porém, houve uns «homens de Chipre e Cirene que, chegando a Antioquia, falaram também aos gregos (Ἑλληνιστάς), anunciando-lhes a Boa-Nova» (Act. 11, 20). Estes homens referidos por Lucas funcionam como porta-vozes/intermediários dos apóstolos em Antioquia - «A mão do Senhor estava com eles e foi grande o número dos que abraçaram a fé e se converteram
85 Cf. KOESTER, Helmut, Ancient Christian Gospels, Oregon, Trinity Press, 1990, pp. 36 e 243-244. 86 Cf. Act. 13, 1-3: «Havia na igreja, estabelecida em Antioquia, profetas e doutores: Barnabé, Simeão,
chamado 'Níger', Lúcio de Cirene, Manaen, companheiro de infância do tetrarca Herodes, e Saulo. Estando eles a celebrar o culto em honra do Senhor e a jejuar, disse-lhes o Espírito Santo: "Separai Barnabé e Saulo para o trabalho a que eu os chamei"; Act. 11, 19-25, especialmente versículo 25: «Foi em Antioquia que, pela primeira vez, os discípulos começaram a ser tratados pelo nome de "cristãos"; Act. 14, 27: «Assim que chegaram [Antioquia], reuniram a Igreja e contaram tudo o que Deus fizera com eles, e como abrira aos pagãos a porta da fé»; Act. 15, 35: «Paulo e Barnabé ficaram em Antioquia, ensinando e anunciando, com muitos outros, a palavra do Senhor». Cf. BRUCE, Frederick, The Acts of the Apostles
57 ao Senhor» (Act. 11, 21). Antioquia era uma cidade de grande importância no Império Romano. De vivência política romana e tendo como pano de fundo o mundo cultural grego, Antioquia era também a capital da província romana da Síria e, como comprova o capítulo 11 dos Actos, uma cidade cosmopolita, marcada pelo convívio entre Gregos e Judeus e por outros povos. Nesta cidade constituiu-se uma importante comunidade cristã. Localizada nas margens do rio Orontes, Antioquia colocava-se no patamar das três cidades mais importantes do Império Romano. O primeiro lugar era ocupado pela Urbe (Roma). Seguia-se a cidade de Alexandria. Na terceira posição estava Antioquia87.
Conforme refere Act. 11, 26, foi nesta cidade que os discípulos receberam o epíteto de «cristãos»88 e puderam levar avante os seus projectos de missionação. A escolha de Antioquia como local preferido para a instalação de uma comunidade cristã não foi feita ao acaso. Temos de ver o contexto em que o acontecimento se processou. O início do capítulo 11 dos Actos dá a informação que Antioquia fazia parte de um roteiro de cidades que os discípulos teriam percorrido após «a perseguição desencadeada por causa de Estêvão» (Act. 11, 19). Além de Antioquia, o périplo também inclui as zonas da Fenícia e de Chipre. O episódio da fundação da Igreja antioquena é antecedido por três acontecimentos fulcrais de grande suspense (episódios marcados pelos actos heróicos dos protagonistas da narrativa): o martírio de Estêvão e o clima tenso que se gerou e obrigou à dispersão dos homens pela Judeia e por Samaria; a conversão de Saulo; e a pregação de Pedro e Filipe em Samaria89.
Antioquia também é palco de uma das cenas em que um profeta, chamado Agabo, pressagia a «chegada de uma grande fome por toda a terra [i.e., Império Romano]» (Act. 11, 28). Apelando ao seu gosto pela descrição pormenorizada dos factos, Lucas refere que a tal calamidade que Agabo antevê tinha ocorrido no principado de Cláudio. A alusão a este profeta, no contexto da comunidade antioquena, merece alguma atenção. Lucas pretende aqui, em nosso entender, elevar o prestígio de
87 Esta Antioquia nada tem que ver com Antioquia da Pisídia que também é mencionada uma vez no livro
dos Actos (Act. 13, 4) [Ἀντιόχειαν τὴν Πισιδίαν]. Antioquia da Pisídia era uma cidade que ficava localizada na Ásia Menor e fazia fronteira com a Frígia. Sobre as duas cidades, cf. CURTIS, Adrian,
ob.cit., pp. 49 e 58.
88 Trata-se da primeira de duas ocorrências da palavra «cristão» (Χριστιανός). A expressão volta a
aparecer em Act. 26, 28, mas, ao contrário de Act. 11, 26, aqui surge no singular neutro (Χριστιανὸν). Cf. o comentário de Frederico Lourenço ao livro dos Actos, nota 11.26.
89 Lucas ligou, narrativamente, o martírio de Estêvão e os acontecimentos póstumos à fundação da Igreja
de Antioquia. Cfr. Act. 8, 1.4 «E todos, à excepção dos apóstolos, se dispersaram pelas terras da Judeia e da Samaria»; «Os que se tinham dispersado, andaram pois circulando a Boa-Nova da Palavra» e Act. 11, 19-20 (alusão à dispersão de Act. 8). Sublinhado nosso. Lucas acentua a tónica na dispersão.
58 Antioquia, cidade em que residiam «profetas» que eram capazes de prever o futuro. A acção de Agabo está revestida de um grande simbolismo. Associar a previsão do profeta à cidade de Antioquia é bastante sugestiva da parte de Lucas90. Por todas as razões apontadas, e apesar de o texto dos Actos não dar qualquer informação em concreto sobre a naturalidade de Lucas, não deve ser posta de parte a hipótese de ele ter mesmo nascido na cidade de Antioquia, tal como refere Marcião, no Prólogo do Evangelho de Lucas.