A cultura grega foi fundamental para Lucas. Como observámos no capítulo 1, o autor dos Actos e do terceiro evangelho escreveu num mundo em que a vivência política era romana, mas o grande horizonte cultural pertencia ao mundo grego. A forma como Lucas escreve e como utiliza artifícios retóricos e linguísticos leva a afirmar que estamos perante um autor que bebe nos valores da cultura grega.
Mas este não é caso único para o século I d.C. Tal como Lucas, Fílon de Alexandria e Flávio Josefo encontraram na cultura da Hélade um excelente veículo de transmissão do conhecimento. Foi na língua grega e recorrendo a esquemas de pensamento grego que estes autores sistematizaram, teorizaram e apresentaram as suas ideias. Tal permeabilidade pode ser detectada em Fílon de Alexandria. Como sublinhou Werner Jaeger, Fílon de Alexandria personifica a síntese da cultura grega. Fílon é um homem intelectualmente formado no judaísmo, mas que encontra na cultura grega um mecanismo de expressão essencial dos seus valores filosófico-religiosos. Para Jaeger, «Fílon é, evidentemente, o protótipo do filósofo judeu que absorveu toda a tradição grega e se serve do seu rico vocabulário conceptual e dos seus meios literários para provar o seu ponto de vista, não aos Gregos, mas aos seus compatriotas judeus»267.
No caso de Flávio Josefo, a formação helenística está bem patente nas Antiguidades Judaicas, na Guerra dos Judeus ou na obra Contra Ápion. Flávio Josefo recorre a argumentos helenísticos e a citações de autores gregos para convencer a sua audiência. Utilizando topoi de escritores da Hélade, Flávio Josefo reescreveria a História de Israel, já não com uma mentalidade semita, mas sim com uma estrutura mental de acordo com os valores gregos. No fundo, Flávio Josefo soube tirar o que de mais proveitoso tinha a cultura da Hélade para escrever as suas obras268.
O grego torna-se a língua franca do mundo da Bíblia e é graças a ela que o cristianismo se universaliza e deixa de ser uma simples seita local para se transformar numa religião fundamentalmente urbana do mundo helenístico. O cristianismo rompe as suas fronteiras convencionais muito por força do Helenismo. Tomando como válida a premissa segundo a qual Lucas terá nascido em Antioquia, é também provável que tenha sido educado nas escolas gregas e que aí tenha absorvido grande parte do
267 Cf. JAEGER, Werner, Cristianismo […], pp. 47-48.
268 Sobre este assunto, cf. RODRIGUES, Nuno Simões, "A recepção da cultura grega em Flávio Josefo:
131 conhecimento da língua e cultura da Hélade. A forma como Lucas escreve o livro dos Actos e o evangelho revela a faceta de um homem instruído e de um grande cultor da cultura grega. Na redacção da duas obras nota-se o recurso a formas de pensamento grego. A questão que urge fazer é então a seguinte: onde podemos encontrar indícios da formação helenística de Lucas?
A influência da cultura grega na obra de Lucas pode ser detectada, e.g., no recurso à retórica. É através da retórica que o autor dos Actos formula grande parte dos discursos que escreve, como oportunamente confirmaremos no capítulo dedicado à historiografia. Mas o impacte da cultura da Hélade também se faz sentir na citação de autores gregos, em certos passos da obra. A exposição dos acontecimentos, as semelhanças entre os relatos de viagem dos Actos e outra literatura grega e o recurso a artifícios retórico-literários e estilísticos são alguns dos exemplos mais significativos269.
O fascínio pela cultura da Hélade não é exclusivo do cristianismo. Já o judaísmo se tinha deixado influenciar pelos padrões da cultura helenística, ao ponto de abandonar os preceitos religiosos em detrimento das novidades que o helenismo trouxe270. Os Judeus não só toleraram, como chegaram a perfilhar muitos aspectos da cultura grega. O exemplo mais elucidativo está num excerto de 2Macabeus, em que o autor lamenta a falta de interesse da comunidade judaica pela sua fé e o desleixo dos sacerdotes nos afazeres diários no templo271. Tal preocupação pela decadência da fé foi mais tarde
manifestada por Paulo na Carta aos Gálatas. Nesta carta, Paulo lamenta a falta de interesse dos Gálatas pela mensagem cristã272. Também na Primeira Carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo vai ao encontro desta questão, ao advertir os cristãos e os recém-convertidos para os perigos da idolatria, dando-lhes o exemplo a actuação dos Hebreus durante a deambulação no deserto até Moab273. Levando em conta estes
269 Cf. GABEL, John, WHEELER, Charles, YORK, Anthony D., The Bible as Litterature, Oxford,
Oxford University Press, 2000, pp. 179-180.
270 Cf. RODRIGUES, Nuno Simões, «Poética grega e cultura judaica» in EIRE, António López,
FIALHO, Maria do Céu e PORTOCARRERO, Maria Luísa (eds.), Poética(s): diálogos com Aristóteles, Coimbra, Ariadne, 2007, pp. 101-103.
271 Cf. 2 Mac. 4, 13-16: «Por causa da inaudita perversidade do ímpio Jasão, que nem era Sumo
Sacerdote, o helenismo obteve tal sucesso e os costumes pagãos tão grande actualidade, que os sacerdotes descuidavam o serviço de altar, menosprezavam o templo, negligenciavam os sacrifícios, corriam fascinados pelo lançamento do disco, a tomar parte na ginástica e nos jogos proibidos. Não faziam caso das honras pátrias, apreciavam mais as glórias helénicas».
272 Cf. Gl. 1, 1-6.
132 aspectos propedêuticos, vejamos de que forma é Lucas influenciado pela cultura grega, quer em termos linguísticos quer literários.