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mai 2009 av arbeids- og inkluderingsminister Dag Terje Andersen

Outra problemática que temos de analisar é a da etnia de Lucas. Ele era judeu (semita) ou grego? O já citado texto de Marcião descreve Lucas como um «sírio de Antioquia» (Ἀντιοχεύς Σύρος). A informação de que Lucas tinha ligações à cidade de Antioquia também é confirmada por Eusébio de Cesareia, na obra História Eclesiástica: «Lucas, oriundo de Antioquia por sua linhagem»91. Tomando como válida a premissa

de que Lucas era pagão, urge perguntar quando é que ele se terá convertido. Será que foi no contexto da fundação da igreja antioquena (Act. 11, 19-25)? Será que Lucas fazia parte daquele grupo de homens que chegou a Antioquia ou será que foi através do contacto com esta comitiva evangelizadora que Lucas se converteu ao cristianismo? Tratam-se de duas hipóteses que merecem um estudo mais aprimorado.

Mesmo sendo um «não-judeu», Lucas conhece muito bem a religião judaica e a História de Israel, como teremos oportunidade de comprovar. Podemos alegar que ele terá obtido esses conhecimentos ao longo da sua formação escolar e do facto de Lucas ser um homem culto/instruído, mas a forma como ele trata os assuntos que dizem respeito ao judaísmo (nomeadamente os cerimoniais, os ritos) leva-nos a equacionar a hipótese de Lucas ser um judeu92. E estando ele em Antioquia, podia ser perfeitamente um judeu da diáspora. O que coloca em cima da mesa a tese de Lucas ser membro da

90 Cláudio governou entre 41 e 54 d.C. (cf. J. AJ 19.4.1-6; 20.8.1.). Nero toma o poder em 54 d.C. (AJ 20.

8.1). Segundo Flávio Josefo, houve uma grande fome em Jerusalém, em 45 d.C., durante a administração de Cláudio. Cf. J. AJ 20.2.5. Suetónio também alude a este acontecimento. Cf. SUET. Claud. 18. Resta saber se existe alguma relação entre os dois acontecimentos, ou seja, entre aquilo que é reportado por Lucas nos Actos (presságio de Agabo) e a informação de Josefo nas Antiguidades Judaicas. Será que este Agabo é o mesmo que surge em Act. 21, 10-11, quando Paulo e a restante comitiva dos apóstolos chega a Cesareia? Em Act. 21, Agabo antevê a prisão do apóstolo Paulo em Jerusalém. Sobre os profetas, Lucas lembra que, na comunidade antioquena, havia «profetas e doutores» (Act. 13, 1) [προφῆται καὶ διδάσκαλοι].

91 Cf. GUTWENGER, Engelbert, ob.cit., p. 394 e EUS. HE III, 4.6. Sobre esta problemática, cf. KUHN,

Karl Allen, Luke: The Elite Evangelist, Minnesota, Liturgical Press, 2010, pp. 9-12.

92 Cf., e.g., Lc. 1, 8-10: «Ora, estando Zacarias no exercício das funções sacerdotais diante de Deus, na

ordem da sua classe, coube-lhe, segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso. Todo o povo estava da parte de fora da oração, à hora do incenso».

59 comunidade judaica é a alusão ao seu nome na lista de companheiros de Paulo na Carta aos Colossenses (Col. 4, 10-14). Paulo elenca uma série de nomes, separando-os em duas categorias: aqueles que são circuncisos e o que não o eram. Os judeus circuncisos seriam zelosos cumpridores da Lei (e por isso eram mais rígidos na observância das práticas judaicas). Os outros judeus eram mais brandos. Mas isto faz levantar outra questão: é o Lucas referido por Paulo o mesmo que escreveu o terceiro Evangelho e o livro dos Actos? Serão duas personagens distintas? E a autenticidade da epístola enviada à comunidade dos Colossenses? Foi Paulo quem a escreveu? Para Frederico Lourenço, estas são algumas das questões que não devem ser descartadas e devem orientar o nosso raciocínio93. Do nosso ponto de vista, aquilo que se afigura como hipótese mais plausível é que Lucas tanto poderá ter sido um «judeu» como um «não-judeu». Para tornarmos a nossa argumentação mais clara, propomos o seguinte esquema:

- «Lucas judeu»:

① - a Carta aos Colossenses dá margem para múltiplas interpretações quando Paulo alude à questão dos «judeus circuncisos» (Col. 4, 1). Se Paulo pretendia agrupar os judeus em duas classes distintas (os circuncisos e os que não o eram), não o sabemos. Essa é a leitura possível: este Lucas, médico, é o mesmo dos Actos e do terceiro Evangelho?

② - Lucas recorre diversas vezes a hebraísmos, a expressões semíticas e a citações de textos veterotestamentários no livro dos Actos, e.g., Act. 2, 22-36, em que o discurso de Pedro é notoriamente inspirado em alguns passos pelo livro dos Salmos; Act. 1, 15-20, especialmente v. 19 - «Haqueldamá». Lucas utiliza a expressão aramaica «Haqueldamá» e tradu-la como «Campo de Sangue». Mateus (Mt. 27, 8) apenas cita «Campo de Sangue» e não emprega o vocábulo em aramaico. A descrição dos últimos momentos da vida de Judas, que encontramos no livro dos Actos, é claramente inspirada no relato de Mateus94;

③ - Lucas conhecia a historiografia hebreo-israelita e as tradições judaicas. Será isso meramente fruto da sua formação escolar?;

④ - «Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram» (Lc. 1, 1, sublinhado nosso). Nesta frase, Lucas aborda uma

93 Cf. LOURENÇO, Frederico, Bíblia - Os Quatro Evangelhos, Lisboa, Quetzal, 2016, p. 218.

94 Cfr. Act. 1, 15-20 e Mt. 27, 3-10. Tanto Mateus como Lucas referem que o que aconteceu a Judas não

foi mais do que o cumprimento de uma profecia. Mateus cita os textos dos profetas Zacarias (Zac. 11, 12- 13) e Jeremias (Jer. 32, 6-15). Lucas alude aos Salmos 69 e 109.

60 realidade que lhe é familiar. O autor trata de acontecimentos precedentes à redacção do seu Evangelho. Lucas não presenciou os factos que descreve na sua obra, mas será que o uso que aqui se faz do pronome pessoal é um indício de que ele era judeu?

⑤ - Lucas refere que o seu amigo Teófilo, a quem dedica o livro, foi instruído na doutrina de Jesus (Lc. 1, 4). Em nenhum passo dos Actos e do terceiro Evangelho encontramos qualquer referência à conversão de Lucas. Estaria Lucas a dar testemunho da sua experiência religiosa a um recém-convertido (Teófilo)? E o que dizer dos preciosismos, dos pormenores de Lucas em matérias em que, aparentemente, parece estar à vontade? (e.g., Lc. 22, 1: «Entretanto, aproximava-se a festa dos Ázimos, chamada Páscoa»; Lc. 4, 31: «Depois desceu [Jesus] a Cafarnaum, cidade da Galileia»; Act. 16, 12: «Filipos, que é cidade de primeira categoria neste distrito da Macedónia e colónia»). Portanto, Lucas trata de aspectos da História de Israel e da religião judaica que, ou obteve através da sua experiência religiosa, ou foi através do trabalho de investigação que iniciou após a sua adesão ao cristianismo e na transmissão desses conhecimentos ao seu amigo Teófilo, com quem, de resto, parece ter uma boa relação (devido à utilização do título «excelentíssimo»)95.

- «Lucas não-judeu»:

① - No relato da traição de Judas e da escolha do seu sucessor, Lucas refere que Haqueldamá é uma expressão aramaica (Act. 1, 19). Lucas diz que o vocábulo foi utilizado «na língua deles» (τῇ ἰδίᾳ διαλέκτῳ), i.e., no aramaico96. Será que o autor dos Actos fala de uma realidade que não lhe é familiar? O que pretendia dizer?;

95 Segundo Craig S. Keener, Teófilo (Θεόφιλος, lit. «o amigo de Deus») era um nome grego, todavia

comum entre os Judeus. Teófilo poderá ter adquirido a cidadania romana e terá sido desta forma que Teófilo conseguiu conquistar uma posição de relevo na alta sociedade romana. Em relação à utilização do título «excelentíssimo», Keener acha que (e tomando como válida a premissa que defende que Teófilo foi uma personagem real e não fictícia) Teófilo poderia ser apenas um amigo relevante na vida de Lucas. Pode ter sido o mecenas/o patrocinador da obra de Lucas. «Excelentíssimo» é um tratamento de cortesia. Seria Teófilo judeu? E como justificar a minúcia com que Lucas explica todos os acontecimentos da História de Israel e da cultura judaica a Teófilo? Cf. KEENER, Craig S., Comentario del Contexto

Cultural del Nuevo Testamento, Texas, Editorial Hispano, 2005, p. 183. Ainda de acordo com este autor,

ao dedicar os dois livros a Teófilo, Lucas dá a entender que a sua presumível audiência era altamente instruída, i.e., pessoas com conhecimento. Cf. Idem, Acts: an exegetical commentary - Introduction and

1, 1-2-47, vol. 1, Michigan, Baker Academic Publishers, 2012, pp. 423-425.

96 De acordo com o comentário da tradução da Bíblia dos Capuchinhos, o aramaico passou a ser a língua

corrente entre os Hebreus após o Exílio. O tradutor do livro dos Actos deixa esta alerta devido ao facto de Lucas referir, por diversas vezes, que Paulo discursou em língua hebraica. Paulo dissertou, sim, em aramaico, no entender do tradutor. Cf. Act. 22, 1-7.

61 ② - Lucas não conheceu directamente Jesus, como refere em Lc. 1, 1: «Como no-los [acontecimentos] transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram «Servidores da Palavra». Lucas apresenta uma descrição dos principais momentos da vida de Jesus, com base nas fontes orais e nos testemunhos escritos que terá recebido após a conversão; Lucas inspirou-se nos relatos de Mateus e Marcos e nos testemunhos orais dos apóstolos. Será que Lucas manifesta aqui apenas o interesse de respeitar de forma fidedigna as fontes?

③ - Se a fundação da Igreja de Antioquia ocorreu por volta do ano 40 d.C. e se o Evangelho de Lucas e o livro dos Actos foi, supostamente, redigido entre 70/90 d.C., por que motivo Lucas não refere que foi companheiro de Paulo e que foi em Antioquia que travou contacto com apóstolo e com a doutrina cristã? Será que foi no contacto com Paulo e Barnabé que Lucas se converteu? Se Lucas conheceu Paulo em Antioquia, como justificar as discrepâncias na apresentação biográfica de Paulo na sua epistolografia e aquilo que nos é dito por Lucas nos Actos97?

④ - Lucas (Λουκᾶς, Loukâs) era um nome de origem grega. Trata-se da forma abreviada dos nomes «Luciano» (Λουκιανός, Loukianós) e «Lúcio» (Lucius)98. Do ponto de vista etimológico, Lucilius ou Luciano são nomes muito semelhantes ao nome de Lucas. Encontramos reminiscências do nome «Lucas» no latim, que conhece a palavra lux (luz), cuja raiz é luk/lyke (luz). Literalmente, o nome Lucas alude à ideia de alguém que irradia «luz» ou também pode aduzir à origem de um habitante que vinha da zona da Lucânia (região da Magna Grécia). O nome de Lucas sugere assim que estamos perante um judeu helenizado. Mas não podemos confirmar esta hipótese.

⑤ - Lucas conhece bem a comunidade antioquena (Act. 19, 11-26). A Síria, e em particular a cidade de Antioquia, fazia parte de um microclima muito específico. Antes de acolher a comunidade cristã, a cidade de Antioquia era habitada por grupos de judeus e outros de «não-judeus». Lucas coloca Paulo e Barnabé como principais protagonistas da pregação nesta cidade. Será que Teófilo, a personagem de relevo da

97 Cf. Fl. 3, 5-6, Flm. 9 e Act. 21, 39 e 22, 3. Veja-se o comentário de Joaquim C. Neves. Cf. NEVES,

Joaquim Carreira das, A Bíblia - o livro dos livros, vol. II, Braga, Ed. Franciscanas, 2010, pp. 195-201.

98 Era muito comum entre os antigos utilizar formas abreviadas dos nomes próprios. A título

exemplificativo, podemos referir os casos de Priscila [Πρίσκιλλα] (Act. 18, 2.18), que consiste no diminutivo do nome Prisca [Πρίσκα] (Rom. 16, 3) ou Silas [Σίλας] (nome abreviado, Act. 15, 22), que corresponde ao nome Siluanus [Σιλουανός]. Será que o Lúcio de Cirene referido em Act. 13, 1 e o Lúcio da Carta aos Romanos é o mesmo autor do livro dos Actos? Haverá alguma relação entre Lucas e estas duas alusões ao nome Lúcio? Sobre estes nomes, cf. CORNWALL, Judson e SMITH, Stelman, The

Complete Dictionary of Bible Names: A Comprehensive Listing of Every Name in the Bible with its Various Shades of Greek or Hebrew Meaning, Florida, Bridge Logos, 1998, pp. 122, 153 e 176.

62 obra dos Actos e do Evangelho, a quem Lucas dedica o seu trabalho, era «não-judeu»? E o que tinha Lucas de especial para poder estreitar contactos com uma personagem que, alegadamente, ocupava um lugar de topo na sociedade romana? Como justificar a boa relação entre Lucas e Teófilo? - «Para que reconheças com segurança a doutrina em que foste instruído» (Lc. 1, 4). Este versículo do Evangelho de Lucas enfatiza a ideia de que Teófilo era «não-judeu» e que terá sido convertido ao cristianismo. E a utilização do título «excelentíssimo» (Lc. 1, 3), poderá provar que era proveniente de um meio «não- judaico».99

⑥ - Lucas poderá ter sido, como sugere Keener, um seguidor/um simpatizante do judaísmo (um theosebes ou «temente-a-Deus»), mas sem se converter. Ou seja, Lucas seria um prosélito. Bem se pode admitir que Lucas tenha sido um seguidor/um observador das prescrições da Lei judaica, mas que nunca manifestou interesse em aderir ao judaísmo. Encontramos algumas referências no texto dos Actos às pessoas que viviam a fé judaica, os seus ritos, os seus preceitos, que tanto eram denominados de «piedosos» (εὐσεβὴς) como «tementes a Deus» (φοβούμενος τὸν Θεὸν)100. Outra questão nuclear que distinguia os prosélitos dos judeus era a marca da circuncisão.

É verdade que deverá haver alguma atenção ao extrair ilações como aquelas que acima elencámos, mas não deixam de ser hipóteses plausíveis e que merecem alguma consideração. Em síntese, não é possível admitir que Lucas não era judeu, a partir da leitura literal do passo da Carta aos Colossenses. Mas também não se pode descartar a hipótese de ele ser judeu. Não há nenhuma informação que confirme, com exactidão, a etnia de Lucas. Só as informações extra-bíblicas avançam com a hipótese tradicional de que ela era «não-judeu». Podemos estar perante um judeu que se converteu ao

99 A expressão «excelentíssimo» (κράτιστε) dá a entender que Teófilo desempenhava algum cargo

relevante na estrutura política romana. Altos funcionários romanos, como governadores ou senadores é que recebiam este tipo de tratamento. O título «excelentíssimo» ocorre 3 vezes no livro dos Actos. Cf.

Act. 23, 26 («Cláudio Lísias ao Excelentíssimo Governador Félix»); Act. 24, 3 («Excelentíssimo Félix») e Act. 26, 25 («Excelentíssimo Festo»). Em Act. 24, 3 é Tertulo quem aplica a expressão «excelentíssimo»

para se dirigir ao governador Félix. Em Act. 26, 25, Paulo recorre a esta expressão formal para tentar amenizar a situação no decurso do interrogatório. Cf. também Lc. 1, 2. Segundo Lourenço, que parafraseia B. H. Streeter, este Teófilo «seria o nome pelo qual era conhecido nos meios cristãos de Roma, um primo do imperador Domiciano (que o imperador mandou matar em 95 d.C. por alegado «ateísmo», termo por trás do qual se poderia esconder uma simpatia clandestina pelo cristianismo)». Cf. LOURENÇO, Frederico, Bíblia - Actos […], nota 1.1. Será que Teófilo foi um mecenas de Lucas e foi ele que patrocinou a obra dos Actos e do Evangelho («financiou» a sua publicação)?

63 Cristianismo ou a tratar a figura de alguém que era gentio/não-judeu e que terá aderido à religião cristã. Ambas as hipóteses, como referiu Craig S. Keener, são válidas101.