Seguindo o mesmo esquema que aplicámos à análise do Evangelho de Lucas, debruçamo-nos agora sobre o livro dos Actos dos Apóstolos. Algumas das questões que em diante trataremos foram analisadas no capítulo do Estado da Arte. Urge, porém, retomar essa análise com outros dados e com outros percursos interpretativos.
Em relação à autoria do livro dos Actos, as informações de que dispomos mostram que estamos perante o mesmo autor que escreveu o terceiro evangelho. Falamos de Lucas, naturalmente. No entanto, não é de excluir a hipótese de que podemos estar a falar de outro autor que conhecia bem o Evangelho de Lucas, mas esta tese carece de confirmação. O Evangelho de Lucas e os Actos dos Apóstolos têm um elo de ligação. Lc. 24, 44-53 dá continuidade a Act. 1, 4-11223. Os versículos mais determinantes para se entender a continuidade das duas obras são Lc. 24, 49 e Act. 1, 4. Jesus promete que fará descer sobre os discípulos «o Prometido». O «Prometido» referido por Lucas é claramente uma alusão ao Espírito Santo. A par desta estratégia narrativa que ocorre internamente na obra de Lucas, e que nos permite chegar à conclusão de que hipoteticamente podemos estar perante o mesmo autor, também seria importante saber o que dizem as fontes extra-bíblicas.
Eusébio de Cesareia afirma que, além do Evangelho, Lucas escreveu o livro dos Actos dos Apóstolos. O emprego da primeira pessoa do plural é o principal argumento de Eusébio para justificar a tese de que Lucas terá sido testemunha ocular dos acontecimentos narrados na obra224. Ireneu de Lião afirma que Lucas é o autor do livro
222 Cf. LÉON-DUFOUR, Xabier, ob.cit., pp. 246-247, THOMPSON, Richard, ob.cit., pp. 322-326. 223 Cf. NEVES, Joaquim Carreira das, Evangelhos […], pp. 116-117 e PIKAZA, Xabier, ob.cit., pp. 576-
577 e CONZELMANN, Hans e LINDEMANN, Andreas, ob.cit., pp. 309-310.
113 dos Actos225, assim como Marcião de Sinope, no Prólogo Anti-Marcionita do Evangelho de Lucas226. No Cânone de Muratori, o livro dos Actos também consta na
lista dos livros que compõem o Novo Testamento227.
Que dados bíblicos que permitem avançar com a premissa de que o Lucas Evangelista foi o mesmo autor que escreveu os Actos dos Apóstolos? Em nosso entender, e para tornar o assunto mais claro, podemos admitir que Lucas é o presumível autor da obra, a partir das seguintes pistas de investigação:
a) Dedicatória: tanto o Evangelho de Lucas como o livro dos Actos contêm um prólogo semelhante. As duas obras são dedicadas a uma pessoa em concreto: Teófilo. Há um fio condutor entre as duas produções literárias. Lucas refere em Act. 1, 1 que, no primeiro livro [Evangelho], pretendeu narrar os acontecimentos mais importantes da vida de Jesus. Porém, e como veremos na estrutura dos Actos, há uma diferença notória nos prólogos das duas obras: nos Actos, Lucas não sentiu necessidade de fazer uma apresentação sumária do conteúdo do livro, ao contrário do que sucede no Evangelho. Resta saber por que motivo Lucas não o fez nos Actos dos Apóstolos.
b) As cinco secções que contemplam a utilização da primeira pessoa do plural (Act. 16, 10-17; 20, 5-15; 21, 1-18; 27, 1-29; 28, 1-16) também são um bom indício para se poder avançar com a hipótese de Lucas ser um dos protagonistas da história. Todavia, perguntar-se-á por que razão só encontramos o recurso ao pronome em momentos basilares da narrativa: em Act. 16, 10, em que se verifica a transição para o discurso directo (emprego da primeira pessoa do plural), Paulo e «Lucas» (não sabemos se haveria outros elementos da comitiva apostólica) partem para Filipos, devido a uma visão. «Lucas» volta a entrar em cena no capítulo 20, em que, alegadamente, testemunha a ressurreição de Êutico. A narrativa continua (vv. 13-15) com a descrição das cidades por onde Paulo e Lucas passaram. A secção dos capítulos 21 e 28 não é mais do que um diário de bordo da viagem de Paulo e Lucas. Lucas refere com quem estiveram, o que fizeram e por quanto tempo ficaram alojados. Nos capítulos 27 e 28, o recurso à primeira pessoa do plural reaparece, no contexto da viagem de Paulo prisioneiro para Roma. Será que é Lucas ou estamos perante outra personagem?
225 Cf. IREN. Adv. Haer. 3, 1, 1; 3, 14, 1-4. Ireneu de Lião é um dos autores da tradição cristã que critica,
veementemente, as ideias que se disseminaram nas comunidades da Igreja Primitiva, nomeadamente o facto de Lucas não ter sido uma testemunha ocular do ministério de Jesus. Mas, como sabemos, nos Actos
dos Apóstolos, Lucas integra o enredo da narrativa.
226 Cf. GUTWENGER, Engelbert, ob.cit., p. 394: «Scripsit idem Lucas Actus Apostolorum». 227 Cf. METZGER, Bruce M., ob.cit., p. 306.
114 c) Tomando como válida a hipótese de estarmos a estudar a mesma figura, não deixa de ser curiosa a quantidade de terminologia e vocabulário médico que o autor dos Actos vai aplicando, tal como o fizera no Evangelho. Refira-se, a título de exemplo, a «febre e a disenteria» de que o pai de Públio padecia (Act. 28, 8) ou a referência às «enxergas» e aos «catres» em Act. 5, 15. O vocabulário médico que encontramos nos Actos é bem mais representativo do que no Evangelho228. As diferenças entre as duas obras também se acentuam pelo facto de nos Actos ficarmos a saber, por exemplo, quantos anos havia que o doente sofria de determinado problema de saúde, a idade que tinha, que tipo cuidados médicos estavam a ser prestados, entre outros aspectos229.
d) A linguagem, a estrutura das frases e o vocabulário utilizado por Lucas nas duas obras é muito semelhante. Lucas enfatiza o papel do Espírito Santo (cfr. Act. 1, 2 e Lc. 4, 1; Act. 10, 38 e Lc. 4, 18), da oração (cfr. Act. 1, 24-26 e Lc. 6, 12-13) e da cidade de Jerusalém, como lugar de discernimento (Act. 15) para discutir as grandes questões dogmáticas, e igualmente como palco de grandes episódios, nomeadamente a reunião dos apóstolos e a descida do Espírito Santo (Act. 1, 12-26; 2, 1-13). Não é de somenos a forma como Lucas realça gestos conotados com a figura de Jesus que se repercutem na atitude dos apóstolos, como é o caso da imposição das mãos (cfr. Act. 6, 6 e Lc. 4, 40) ou o sacudir do pó (cfr. Act. 13, 51 e Lc. 9, 5).
Tanto nos Actos como no Evangelho, a audiência que testemunha os prodígios operados pelos apóstolos fica atemorizada e louva a Deus (cfr. Act. 19, 17 e Lc. 5, 26). Expressões como «Isto soube-se» - Γνωστὸν δὲ ἐγένετο (Act. 9, 42), «Isto chegou ao conhecimento de» - Τοῦτο δὲ ἐγένετο γνωστὸν πᾶσιν (Act. 19, 17) ou «Isto vos servirá» - τοῦτο ὑμῖν (Lc. 2, 12) são tipicamente lucanas. A universalidade da salvação é uma imagem de marca das duas obras (Act. 1, 8; 17, 31 e Lc. 2, 31; 9, 6). Há vocabulário comum a ambas as obras, como é o caso da palavra «visão» - οπτασια (Lc. 1, 22; 24, 23; Act. 10, 3; 26, 19), «graça» - χάρις (Act. 14, 26 e Lc. 2, 40) ou «povo» - λαὸς (Act. 3, 23 e Lc. 23, 27). Mas também existem palavras e expressões inéditas em cada uma das obras. Só nos Actos é que surge a palavra «toalha» - οθονιον (Act. 10, 11; 11, 5). Lucas também utiliza exclusivamente a palavra «gotas» - θρόμβοι (Lc. 22, 44). De uma forma
228 Cf. Tabela 2.
115 geral, podemos encontrar uma certa coerência no léxico, no estilo, nos conteúdos e na construção da narrativa do Evangelho de Lucas e dos Actos230.
Por todos os motivos elencados, e juntando os dados fornecidos pela tradição, julgamos que Lucas se afigura como hipotético autor do livro dos Actos. Há um fio condutor, uma unidade literária entre os Actos dos Apóstolos e o terceiro evangelho. Temos um destinatário concreto, a quem a obra é dedicada (Teófilo), um vocabulário e uma estrutura frásica praticamente semelhantes. A questão que, no nosso entendimento, ainda continua a suscitar algum debate, é saber se o emprego da primeira pessoa do plural contempla um ou vários autores. Ou seja: será que determinadas secções da obra foram escritas com a pena de Lucas e as restantes partes são da autoria de outros companheiros de pregação? Temos um ou vários autores231?
No que respeita ao lugar e à datação de composição do livro dos Actos, a tradição cristã não refere em que zona geográfica a obra foi escrita. Como tivemos oportunidade de referir no Estado da Arte deste estudo, a questão do lugar de redacção da obra continua a constituir um verdadeiro dilema para os investigadores, mesmo após longos anos de investigação e de publicação dos resultados de pesquisas em revistas, capítulos de livros e monografias. Lucien Cerfaux defende que, pelo conteúdo da obra, é possível que Lucas tenha redigido o livro dos Actos em Roma. Repare-se que a obra converge de Jerusalém para Roma (Act. 1-28)232.
O facto de o livro dos Actos terminar de forma abrupta, sem que se saiba qual foi o destino final de Paulo e de Pedro, é uma das razões apontadas para essa hipótese. A conclusão dos Actos dos Apóstolos (Act. 28) mostra-nos alguns pormenores da estada de Paulo prisioneiro em Roma. O texto refere que o apóstolo recebeu diversas visitas e que pôde ensinar tudo o que dizia respeito à doutrina de Jesus, «com todo o desassombro e sem qualquer impedimento» (Act. 28, 31, sublinhado nosso). É justamente esta liberdade que tem sido questionada por alguns autores, como é o caso de Nobert Scholl. Segundo este autor, a narrativa termina com a aparente glorificação do apóstolo, sem
230 Para uma síntese destas matérias, cf. MATTHEWS, Christoph R., «Introduction and Notes on the Acts
of the Apostles» in COOGAN, Michael D. (ed.), The New Oxford Annotated Bible: New Revised
Standard Version with the Apocrypha. An Ecumenical Study Bible, Oxford/New York, Oxford University
Press, 2018, pp. 1955-1956.
231 Esta problemática também se aplica a Flávio Josefo e a Paulo de Tarso. Não esqueçamos que os
secretários dos escritores desempenhavam um papel bastante importante na redacção dos livros. Sobre este assunto, cf. STERLING, Gregory E., ob. cit., pp. 231-252, 311-315 e 339-346.
232 Cf. CERFAUX, Lucien., «Les Actes des Apôtres» in ROBERT, André, FEUILLET, André (dir.),
116 que se tenha conhecimento dos contornos do processo que estava em curso233. O pano
de fundo da cena é a Urbe, Roma. É estranho que Marcião de Sinope refira um presumível local de redacção para o Evangelho de Lucas, a Acaia, mas não diga se os Actos dos Apóstolos também ali vieram a lume234. Joaquim Carreira das Neves aventa a possibilidade de Lucas ter redigido os Actos quer em Roma, quer na Ásia Menor235.
De toda produção científica que consultámos, um dos aspectos que se realça é a ausência de dados concretos sobre o lugar de composição do livro. Roma parece ser um dos locais a ter em consideração. É possível que Lucas termine a redacção dos Actos na Urbe. No entanto, a cidade de Antioquia da Síria também não é uma hipótese a ser eliminada, visto que Lucas tem um relativo conhecimento da dinâmica da igreja antioquena. E, como vimos, Antioquia é apontada como o hipotético local de nascimento de Lucas. No plano geral dos Actos, outro dado a levar em conta é a forma como a narrativa se desenrola. Lucas deverá ter escrito os Actos à medida que visitava às cidades e conhecia as personagens. No prólogo do Evangelho, Lucas lembra que investigou tudo cuidadosamente. Nos Actos, o autor acha desnecessário dar essa indicação a Teófilo, que já devia estar familiarizado com a metodologia de trabalho de Lucas. Por que motivo adopta ele esse critério? Não sabemos. Roma, Antioquia ou outra qualquer cidade da Ásia Menor são algumas das propostas que os autores apresentam como os lugares de escrita dos Actos dos Apóstolos236.
No que diz respeito à datação do livro, tanto os autores da Patrística como os investigadores contemporâneos não reúnem consenso nas propostas cronológicas apresentadas. Eis alguns dados bíblicos e extra-bíblicos que podem ajudar a deslindar esta questão. Em primeiro lugar, convém referir que os Actos dos Apóstolos terminam com a estada de Paulo como prisioneiro em Roma. O apóstolo ficou na Urbe durante dois anos (61-63 d.C.) a aguardar pelo julgamento (Act. 28, 16-30), mas o autor dos Actos não diz se a sentença foi favorável ou condenatória. É bom lembrar que, mesmo que Lucas tivesse a intenção de terminar a obra em Roma, todo o enredo começa a convergir para a Urbe porque Paulo tinha apelado para César (Act. 25, 11-13) e fez-se
233 Cf. SCHOLL, Norbert, Lukas und seine Apostelgeschichte: die Verbreitung des Glaubens, Darmstädt,
WBG, 2007, pp. 125-128.
234 Cf. GUTWENGER, Engelbert, ob.cit., p. 394. Marcião escreve que In achaie partibus hoc descripsit
evangelium.
235 Cf. NEVES, Joaquim Carreira das, O que […], p. 318.
236 Cf. BRUCE, Frederick, The Acts […], pp. 17-18, BROWN, Raymond, ob.cit., p. 76, KEENER, Craig
S., Acts […], pp. 401-409 e PERVO, Richard, The mystery of Acts: unraveling its story, Santa Rosa/California, Polebridge Press, 2008, pp. 8-9.
117 valer dos seus direitos como cidadão romano. O pano de fundo do encerramento da obra é Roma. É nesta atmosfera que tudo se desenrola e é na capital do império que se começa a disseminar o cristianismo. Queremos com isto dizer que além de todos os motivos inerentes à própria redacção do livro, Lucas pretende que Roma seja cenário final da obra e que termine com um dos grandes protagonistas do enredo: Paulo. Todos os acontecimentos a posteriori não interessam ao autor dos Actos, fugindo ao programa narrativo pré-delineado.
Sabendo que o livro dos Actos termina, de forma abrupta, com o cativeiro de Paulo em Roma, não se pode descartar a hipótese de Lucas ter terminado a obra ou em 61 ou em 63 d.C., no tempo de Nero, portanto. Como temos vindo a explicar, não é possível saber se Lucas escreveu o livro depois dos factos se terem consumado ou se a obra foi sendo escrita à medida que os acontecimentos iam ocorrendo. Também não se pode excluir a hipótese de os Actos terem saído à luz logo após o martírio de Paulo (c. 66/67 d.C.). Mas esta questão remeter-nos-ia para outra problemática: por que não fala Lucas da morte do apóstolo? A omissão é deliberada ou terá sido fruto de tempos conturbados como o incêndio de Roma, em 64 d.C. e a perseguição aos cristãos, como sugere Raymond Brown237? O que levou Lucas a excluir a redacção destes
acontecimentos? Pretenderia Lucas apenas expor os factos mais relevantes da vida do apóstolo Paulo? E será que o livro foi composto enquanto Lucas esteve na companhia de Paulo? O facto de o autor não falar na morte de Paulo constitui um verdadeiro enigma. O mesmo se diga para o caso do apóstolo Pedro. Mas estas matérias levantam outro conjunto de questões e levam-nos a avançar com algumas hipóteses: se a ideia era realçar as virtudes heróicas dos que morriam pela causa de Cristo, o que teria levado Lucas a excluir da narrativa os últimos anos das vidas de Pedro e Paulo? O objectivo seria não desanimar os cristãos com a exposição da morte dos dois apóstolos? Mas é importante não perder de vista o que referimos acerca da sensibilidade do Lucas evangelista, que preferiu não incluir no seu Evangelho o relato da flagelação de Jesus nem da colocação da coroa de espinhos na cabeça. Teria sido este critério da ausência de episódios que incluíssem sofrimento que esteve na mente do autor dos Actos?
Do nosso ponto de vista, há dois dados inequívocos: a obra não pode ser anterior ao primeiro cativeiro de Paulo. O outro elemento fundamental para determinar a datação do livro é o prólogo do Evangelho de Lucas (Lc. 1, 1-4). A maior parte dos autores acha
118 igualmente que os Actos são anteriores à destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C. Mas será que esta catástrofe ainda iria ocorrer, visto que Lucas é um dos evangelistas que descreve melhor o contexto em que ocorreu esse episódio238? De uma forma geral, o que se pode alegar é que, no quadro da crítica moderna, a obra deverá ter sido composta no ano 80 d.C., já muito perto da fase final da vida de Lucas. Para Charles Perrot, os Actos foram escritos entre o ano 80 e 95 d.C. Colocar a redacção do livro dos Actos num campo de produção literária recente (século II d.C.) é, no entender deste autor, um argumento sem qualquer validade. Para Perrot, a obra terá aparecido não no século II d.C., mas sim no século I d.C.239, ou seja, pertence a uma realidade antiga e não tardia. De acordo com Raymond Brown, tanto o livro dos Actos como o Evangelho terão aparecido no mesmo período, ou seja, cerca de 85 d.C.240.
Para Frederick Bruce (sendo esta, em certa medida, também a nossa opinião), o autor dos Actos não escreveu muito longe dos alegados acontecimentos que narra. Neste sentido, temos de ter em conta dois vectores: a) a redacção do texto; b) a proclamação. Repare-se que todo o livro dos Actos funciona como uma obra de catequese. Mais do que um livro repleto de acontecimentos, de dados históricos e geográficos, a intenção do autor é que o conteúdo alcance o público visado. Entre a redacção e a proclamação de um texto terão acontecido muitos factos desconhecidos. A alusão ou não a tais factos está sempre dependente do critério do autor. Temos de levar em consideração o tempo e a forma como a narrativa nos é apresentada. Mesmo na hipóteses de o livro dos Actos ser datado do ano 80 d.C., ficará sempre por se saber o que terá acontecido durante cerca de 20 anos (60 d.C., chegada de Paulo a Roma)241. É por esta razão, e por muitas outras questões que, no entender de Richard Pervo, Lucas é um dos autores que coloca mais desafios aos exegetas bíblicos, sendo o livro dos Actos disso exemplo elucidativo. Pervo é um dos investigadores que defende que os Actos terão sido escritos no século II d.C. (c. 110-120 d.C.)242.
Em síntese, podemos admitir que existem três datas (ou três propostas cronológicas) a ser destacadas:
238 Nota-se a clareza da narrativa, quando Lucas refere que Jerusalém seria cercada/sitiada pelos exércitos.
Cfr. Lc. 21, 20-24 e Mt. 24, 15-22 e Mc. 13, 14-20.
239 Ver PERROT, Charles, «Los Hechos de los Apóstoles» in GEORGE, Augustin e GRELOT, Pierre
(dir.), Introducción Crítica al Nuevo Testamento, vol. 1, Barcelona, Herder, 1992, pp. 484-487.
240 Cf. BROWN, Raymond, ob.cit., p. 76.
241 Cf. BRUCE, Frederick, The Acts […], p. 18. A posição de Bruce contraria a tese de Perrot. Segundo
Perrot, uma história escrita "a quente" não é muitas vezes a melhor. Cf. supra nota 239.
119 a) anos 60, devido à conclusão precipitada da obra e à prisão de Paulo, em Roma;
b) anos 70/80 d.C., tendo em conta o argumento da redacção e da proclamação do texto;
c) anos 90 e a suposta citação que Lucas fez de alguns trechos das Antiguidades Judaicas de Flávio Josefo, nomeadamente as semelhanças na narração do episódio de Teudas e Judas. No entanto, a cronologia das duas obras - Actos e Antiguidades Judaicas - não é a mesma. Para Keener, o anacronismo não está do lado de Lucas, mas sim de Flávio Josefo, que escreveu depois da morte do autor do Actos. Segundo Keener, é improvável que Lucas se tenha inspirado na história de Josefo. Se o autor dos Actos escreveu cerca do ano 80 d.C. e as Antiguidades Judaicas vieram a lume no ano 93 d.C., não se afigura como plausível a tese de que Lucas se baseou no texto de Josefo243.
Relativamente ao título da obra e à estrutura, também se impõe tecer algumas considerações. O título «Actos dos Apóstolos» surge nas fontes extra-bíblicas, sendo Ireneu de Lião o autor que mais vezes o cita244. O livro dos Actos também é referido na História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia e no Prólogo Anti-Marcionita do Evangelho de Lucas e no Cânone de Muratori245. «Actos dos Apóstolos» (Πράξεις των
Αποστόλων) não deverá ser um título da autoria de Lucas. O título que aparece na maioria das traduções da Bíblia deve-se à influência da tradição cristã. Não sabemos sequer se Lucas atribui algum título à obra, mas, como vimos para o caso dos evangelhos, os cabeçalhos dos textos não mencionavam qualquer autoria nem denominação. Só a partir do século III d.C. é que se estabelece um padrão para os autores dos textos246.
No texto de Marcião de Sinope, o título apresentado é «Actos dos Apóstolos» (Actus Apostolorum)247, tal como Ireneu de Lião e em Eusébio de Cesareia. O mais curioso é que no Cânone de Muratori o título é bem diferente. De acordo com o Cânone,
243 Cf. J. AJ 20.5.1 e Act. 5, 34-42. Cf. KEENER, Craig S., Acts […], p. 394. 244 IREN. Adv. Haer. 3.1.1; 3.14.1-2; 15.1.
245 Cf. EUS. HE 3.4.6; 3.25.1. Sobre o Cânone de Muratori, cf. METZGER, Bruce M., ob.cit., p. 306.
Sobre o Prólogo Anti-Marcionita do Evangelho de Lucas, cf. GUTWENGER, Engelbert, ob.cit., p. 394.
246 Cf. notas 84 e 155.
247 Assim aparece (sic) na edição de Engelbert Gutwenger que temos vindo a utilizar no nosso trabalho.
No entanto, a forma Actus Apostolorum não está correcta, visto que está no masculino singular e assim teria de se traduzir como «Acto dos Apóstolos». A forma correcta é o plural neutro Acta Apostolorum, que traduzindo para português dá origem ao título «Actos dos Apóstolos». Resta saber se ou o erro foi de