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3. Statsbudsjettet medregnet folketrygden for 2005

3.2 Gjennomgang av forslaget til statsbudsjett for 2005 etter den vedtatte

3.2.5 Rammeområde 5 (Justis), under justiskomiteen

3.2.5.2 Komiteens merknader

A nível familiar, a maior parte são filhos de pais beneficiários do RSI que se dedicam a atividades complementares e sazonais como a apanha do marisco ou vendas em feiras. Todas as famílias têm as suas especificidades e algumas apresentam problemas, alguns deles que têm que ver com uma desestruturação do agregado, o que causa alguma instabilidade na vida destes jovens:

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Voltámos ainda à conversa sobre a Natália… Disse [uma técnica do centro comunitário] que os pais fugiram nem ela sabe para onde, que a avó anda a leste e não repara nos comportamentos da neta e que há uma tia que também não ajuda muito. Há ainda um tio que tem 25 anos e não faz nada da vida. (NC,

dia 30)

Pôs-me também a par da situação familiar dele [Sérgio], que ele está habituado a que lhe façam as vontades todas. Que tem tudo o que quer. Que a mãe está doente e não tem “mão nele”, desde que adoeceu ele está muito pior. Não sabe onde ele aprende a ser assim, mas calcula que é uma reprodução dos comportamentos que vê nos irmãos. … Acabou a dizer que são uma das famílias problemáticas do bairro. (NC, dia 45)

As questões étnicas, devido à forte presença das famílias ciganas no bairro Horta da Areia, são uma realidade notada por todos, independentemente de serem de família cigana ou não. Os jovens ciganos sentem isso na pele e os que não são ciganos, sentem isso pelo contacto direto com os seus amigos ciganos. Faz-se notar uma certa pressão familiar sobre os jovens ciganos do bairro, que parece ser acrescida no caso das raparigas, por vários motivos.

As raparigas ciganas que têm que manter uma boa imagem social face à sua e outras famílias ciganas, em vista a conseguirem um bom casamento. Isto provoca-lhes desconforto face a desconhecidos e gera desconfiança, sobretudo tratando-se de rapazes que não vivam no Bairro Horta da Areia.

… Pelo caminho perguntei-lhe [à Filipa] se não fala com o pessoal da Ala 10 ao que me disse que não. Perguntei-lhe se não gosta deles. Respondeu-me que não. Perguntei porquê ao que me respondeu, encolhendo os ombros: “Não sei, porque não.” Depois acrescentou: “Eu não os conheço. Não confio neles”. “Ah, mas se calhar se os conhecesses até ias gostar deles, ou não?”. “Não me parece”, respondeu-me. (NC, dia 15)

O pudor com o corpo a partir do momento da primeira menstruação é também intenso nas raparigas de etnia cigana do grupo, ao ponto de poder ser uma verdadeira complicação ir à praia em companhia de algumas pessoas, nomeadamente rapazes

90 ciganos, sobretudo se de fora do bairro. Isto acontece mais uma vez devido à imagem social face ao outro, pelo temor de que a sua exposição dê origem a boatos e comprometa a sua honra e consequentemente o seu futuro casamento.

… as mulheres a partir de uma certa idade acabou-se … vindo o período já não podem porque têm maminhas e as regras deles é que não que já está a mostrar demais e já não é de bom tom. … Podem usar topes, saias, mas ir à praia já é difícil … pode surgir um cigano e dizer: “ah eu vi a sua filha de cuecas”, depois é uma difamação ela pode ser muito falada e depois já não corre bem. (E3)

Em seguida foram as duas para trás das dunas vestir os biquínis. … Quando a Filipa e a Cristina voltaram tinham os biquínis vestidos, mas a Filipa tinha uns calções de ganga e a Cristina tinha uma saia de praia curta. Chamaram-me e virando-se de costas para toda a gente perguntaram-me se se via muito os peitos. Eu disse que não … Mas elas estavam envergonhadas e preocupadas com os rapazes da Ala 10, que “vão olhar”, diziam-me elas. (NC, dia 15)

Isto limita-as e impossibilita-as de fazerem algumas coisas que são banais para a maioria das jovens atuais, tendo que ter um especial cuidado relativamente a com quem se fazem acompanhar. Isto aplica-se também aos rapazes ciganos, que têm também eles que ter especial cuidado com as amizades e namoros com “portuguesas”.

Às vezes não me deixam fazer tudo o que eu quero. … Não posso trazer amigos para casa, não posso ‘tar na casa de amigas, pensam que nós coiso, não posso ‘tar com amigas nem amigos, essas cenas assim. … É com não ciganos. É com bué da coisas. E contam para eu não me meter com portuguesas. Só que eu não faço caso. (E6)

… vejo que a Clara também anda mais com ciganas e isso. (E5)

Sair do bairro significa que deixam de estar fora do controlo da família, o que pode levar mais uma vez que sejam alvo de críticas por parte das restantes famílias ciganas do bairro, o que mais uma vez limita as vontades individuais e a participação em algumas atividades.

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Entretanto falou-se do desfile de carnaval, no sábado de manhã … A Cristina disse que gostava de ir ver mas que a mãe não deixava. … Acrescentou ainda que a mãe não a deixa ir com ciganos. Só se fosse com a Sónia [Não cigana,

técnica do Centro Comunitário]. (NC, dia 29)

Ainda no caso das raparigas ciganas, o namoro e o casamento, porque lhes dão um “estatuto” (E3) diferente, passam a ser uma preocupação evidente a partir de certa idade. A sua importância é tão grande que se traduz tanto num interesse claro por rapazes ciganos fora do bairro, que faz lembrar a procura por um bom partido, como em esquemas muito elaborados ou para casar, ou para se livrarem de determinado casamento que não lhes interessa.

E- …eu lembro-me da Cristina, ela parecia que ‘tava sempre um bocado focada no casamento…

E5- Ya. Nunca deixava o telemóvel até.

E- Ya. E achas que isso é por causa das influências da família dela?

E5- É. Claro que é. Elas também casam muito novas, a partir dos 12, 11 anos elas casam até. Isso é um bocadinho mau até porque são jovens. (E5)

Enquanto o Márcio brincava, as três maiorzinhas … procuraram um sítio estratégico para se sentarem. E eu digo estratégico porque desde o momento em que saímos do edifício que os olhos delas estavam naquele grupo de rapazes que socializava junto ao bloco ao lado de onde estávamos. Era o mesmo grupo que observavam da sala onde fizemos o ensaio”. (NC, dia 12)

Como a Sara já tem dezoito anos e ainda não está casada, pelo contrário já foi largada uma vez, faz-se sentir sobre ela a pressão da família. Sabendo disso a Cristina, que já não queria casar com o rapaz com quem andava a falar e pelos vistos era suposto casar, convenceu a Sara a fugir com ele dizendo que a família dele é rica. … só que a Sara, quando iam algures no Alentejo caiu em si, apercebeu-se do que estava a fazer e entrou em pânico tendo telefonado ao pai para a ir buscar. … armou-se a guerra entre as duas famílias no bairro. O pai da Cristina rapidamente decidiu casá-la com um rapaz de Lisboa e agora e

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Cristina está a viver em Lisboa e a sua família ao que parece foi expulsa do bairro. (NC, dia 47)

Para as famílias ciganas do bairro Horta da Areia, o casamento assume uma importância clara, o que em parte justifica muitos dos comportamentos, preocupações e cuidados verificados nas jovens ciganas do grupo. A importância do casamento para estas famílias, acaba por justificar também muita da pressão familiar que os jovens vivem e sentem.

… aqui os nossos ciganos são muito conservadores. … veem o casamento e só o casamento … é próprio dos ciganos, pelo menos dos daqui, cá há muita crítica, há muita pressão e já não é só das famílias… também da família com quem se vai casar que espera determinados comportamentos. (E1)