2. TEORI
2.2 Kjernebegreper
2.2.2 Kjernebegrep 2: Iscenesettelse og Performance
Nós, seres humanos, somos sistemas abertos e complexos. Abertos porque interagimos continuamente com o mundo e com nossos semelhantes; dependemos dessa interação para viver. Complexos porque a interação se faz em muitas dimensões, e não pode ser de outra forma (MARIOTTI,1996).
A história da administração tem como traço a busca de ordem simples ou simplificada, pelo controle e pela previsibilidade, pela organização da produção e de outros fazeres. Na fase humanista da chamada ciência da administração, as políticas de valorização dos indivíduos e avaliação das organizações também não escaparam a tais propósitos. O ideal ainda seria o de proceder de modo a se chegar de um estado inicial a outro desejado, segundo as escolhas das organizações.
Abordagens reducionistas e, especialmente as prescritivas acabam por gerar soluções simplistas, pouco eficazes e algumas vezes até prejudiciais à compreensão dos fenômenos organizacionais. Há que se levar em consideração os seguintes aspectos:
• A história influi fortemente no entendimento da “realidade”;
• As organizações são sistemas abertos sujeitos a uma grande variedade de influências internas e externas; e,
• Apesar da crescente importância dos sistemas de informação, como repositórios do conhecimento organizacional – obviamente são as pessoas que aprendem, criam, detêm e transmitem conhecimentos.
A implicação revelada pela Teoria da Complexidade (TC) é que não há caminho certo ou único para se chegar a um “estado desejável” a partir de uma “situação conhecida” – os resultados de longo prazo não são passíveis de serem determinados. Na perspectiva sistêmica os problemas identificados não são bem enunciados ou conhecidos (MATTUS, 1992).
Os processos de avaliação institucional na educação superior brasileira reconhecem tal situação ao propor o conceito de Paidéia (ROCHA, LASSANCE e ARAGÃO, 2006), mas falha na sua prática, ao assumir a possibilidade de diagnóstico único. Também não há como prever com segurança o desempenho de grupos ou organizações. Os resultados não podem ser imputados a nenhuma variável isoladamente – nem mesmo ao conhecimento.
Tudo o que se pode fazer é aprender a conviver com as incertezas e criar ambientes mais propícios às inovações ou à realização de objetivos ou sonhos coletivos de modo a tornar os grupos e organizações mais competitivas.
Por outro lado, as atividades de avaliações comparativas (“benchmarking”) apenas podem apresentar resultados limitados. Os modelos propostos apenas podem oferecer pistas para reconhecer boas práticas, mas não podem garantir o sucesso das organizações. Os resultados de casos bem sucedidos não são replicáveis em todas as situações.
Em geral, as relações entre ações e resultados são não-lineares. Há influências mútuas entre variáveis – interativas, iterativas, e circulares, de alimentação e realimentação, de modo que causas podem se transformar em efeitos, e vice-versa. Em outras palavras, não há como estabelecer conexões causais, diretas e unidirecionais. Dependendo das condições iniciais, variações aparentemente desprezíveis podem ser ampliadas para produzir resultados inesperados. Além do mais, as trajetórias históricas de grupos e organizações exercem forte influência sobre o futuro e, em muitos casos, as
suas dinâmicas se revelam sensíveis às condições iniciais, isto é podem desencadear processos caóticos.
A Teoria da Complexidade passou a ser um “tema quente” de investigação. Não obstante, suas aplicações não são triviais porque requerem novas óticas e pensamentos para dialogar com a realidade.
Para Taylor (2001 apud SILVA, 2005),
A complexidade da nossa cultura se tornou irredutível e inescapável a ponto de nos sentirmos indefesos. Há mudanças que são tanto de rompimento quanto de criatividade. Vivemos num momento de complexidade extraordinária – os sistemas e as estruturas que há muito organizaram a vida, agora mudam numa velocidade sem precedentes. Mudanças rápidas e penetrantes criam à necessidade de desenvolver novas maneiras de entender o mundo e de interpretar nossas experiências.
Ainda segundo o mesmo autor, há várias teorias que têm servido de base para os estudos de fenômenos e sistemas complexos: complexidade, catástrofe e caos. Outras podem ser acrescentadas, como por exemplo, a teoria quântica e os princípios dos pensamentos dialógico e dialético. As referidas teorias consideram aspectos compartilhados, mas também distinções e/ou complementaridades.
A teoria da catástrofe trata de fenômenos ou processos nos seus limites de evolução ou no entorno dos pontos de inflexão ou ruptura. Exemplos: um elástico estendido até ponto de rompimento; um gás cuja temperatura seja elevada ao ponto de transformar-se em plasma; ou, a cristalização de uma cerveja “estupidamente gelada”; ou ainda, de forma mais geral, singularidades, produzidas por alguma mudança incremental. Variações importantes em geral não são resultados de processos contínuos – podem ocorrer mediante deslocamentos discretos ou impulsos, e/ou interrupções de fluxos entre variáveis.
Grandes esforços podem resultar em avanços pobres e pequenas ações podem dar origem a grandes transformações (ROCHA,2003a.). Esta é a idéia de não linearidade, presente nas catástrofes e nos processos caóticos.
Por outro lado, a teoria do caos que trata dos processos e sistemas dinâmicos não-lineares – com sensibilidade às condições iniciais e que experimentam efeitos desproporcionais (não lineares) às suas origens (efeito borboleta) – trata de sistemas abertos, ou que podem trocar energia, informação e outros meios com o ambiente externo. Alguns sistemas requerem relações interativas e iterativas, e não podem ser
entendidos em termos de modelos lineares de causalidade. Em sistemas fechados a entropia (desordem) sempre cresce (Segundo Princípio da Termodinâmica) e não há possibilidade de re-organização sem dissipar energia com o meio, de acordo com Prigogine (apud GLEISER, 2002), um dos mais bem sucedidos pesquisadores da complexidade devido aos seus estudos sobre estruturas dissipativas, que lhe rendeu um prêmio Nobel. Ele mostrou a possibilidade de auto-organização em reações químicas.
As teorias da complexidade e da catástrofe compartilham seus focos nas mudanças descontínuas e também nas dinâmicas não-lineares. Os fenômenos investigados são semelhantes quanto à existência de pontos críticos nos quais os sistemas podem experimentar situações de inflexão e suscetibilidades, momentos em que mudanças qualitativas podem ocorrer. Contudo, há uma distinção importante: a teoria da complexidade explora também a atividade dos sistemas além do equilíbrio ou
nos limites do caos..
Como pode ser verificado nas referências bibliográficas há pistas de que o funcionamento dos sistemas dinâmicos não-lineares poderia ser adotado como base explicativa do desempenho das organizações. Neste sentido, algumas pesquisas são tomadas como referência e descritas neste capítulo, que visa a mostrar que estratégias organizacionais podem ser adotadas com base no entendimento da teoria da complexidade, sobretudo, das dinâmicas complexas no sentido da melhoria de desempenho de organizações e também de grupos de indivíduos.
Logo de início é importante afirmar que complexidade não é o mesmo que complicação, ou complexo não é o mesmo que complicado. Segundo Mariotti (1996) “complicação significa prolixidade, confusão, dificuldade de entendimento, deficiência de informação. Complexidade quer dizer diversidade, convivência com o aleatório, com mudanças e conflitos, e ter de lidar com tudo isso, mobilizando potenciais criadores e transformadores”.
De fato, o complexo pode resultar de interações de processos simples. Por outro lado, caminhos complicados podem não gerar processos complexos, segundo os critérios da Teoria da Complexidade. Além disso, no presente contexto, complexidade não se confunde com a idéia de sistemas complexos tratados na Tecnologia da Informação (TI) ou como tem sido usado na área de Saúde, nem tampouco com números complexos, embora estes conceitos possam estar incluídos.
Segundo Caulkin (1995), uma possível conexão entre a avaliação de desempenho e a teoria da complexidade, de acordo com o pensamento sistêmico, pode
ser feita com as atividades de grupos e organizações a partir do conceito de distopia – uma utopia às avessas, em que o indivíduo se encontra “cada vez mais anulado pelo sistema”. Trata-se do princípio da influência do todo sobre as partes. Referindo-se a Nietche, “há um vácuo existencial no âmbito individual na busca por segurança – verdades prontas e fáceis, conduzindo a fanatismos e alienação incomensuráveis, de efeitos apocalípticos”.
Para Mariotti (2000b), os princípios que estabelecem o conceito de complexidade são os seguintes:
• Emergência – propriedades que emergem do todo e não estão presentes nas partes;
• Imposição – as propriedades das partes, quando consideradas separadamente, diluem-se no sistema. O todo é inferior à soma de suas partes; e,
• Interdependência ou influência mútua entre as partes (idéia de rede).
Nesta dissertação o conceito de imposição foi ampliado para o conceito de
influência do todo sobre as partes, podendo potenciar, reduzir ou anular propriedades
isoladamente presentes nas partes.
Como se pode depreender, a Teoria da Complexidade inclui a perspectiva sistêmica. Neste aspecto todos os pontos de vista utilizados coincidem, permitindo a desejada integração. Entre as distinções que emergiram da idéia de complexidade, são destacadas as seguintes:
• Variedade dos elementos ou das partes de um sistema (diversidade);
• Graus de interação (comunicação); e,
• Dinâmicas dos processos.
Complexidade e caos, embora quase sempre associados, também não têm o
mesmo significado. Nem todos os processos estudados segundo o pensamento complexo são de natureza caótica. Por exemplo, o movimento de um pêndulo real é complexo, mas não é estritamente caótico (LORENZ, 1996). Complexidade também envolve o aleatório e a incerteza, enquanto os fenômenos caóticos são determinados.
Em outras palavras, sistemas caóticos são complexos, mas nem todas as dinâmicas complexas são caóticas.
Todavia, o sentido comum da palavra caos se tem mantido associado à desorganização/bagunça, interpretado pejorativamente pela maioria das pessoas. É o oposto de ordem ou avesso ao controle, devendo ser evitado tanto na esfera individual quanto em escala social.
A Teoria do Caos teve seu início na década de 60 com o meteorologista Edward Lorenz que quando trabalhava num modelo computacional de previsão meteorológica por meio de um sistema de três equações diferenciais não lineares acreditava ter descoberto ordem na previsibilidade meteorológica, mas o que descobriu foi um sistema sensível às condições iniciais (não linear) que denominou de caótico (ao contrário da idéia do senso comum de desordem total).
Para Câmara (2006), caos se refere ao comportamento de um sistema dinâmico, que é sensível às variações mínimas nas condições iniciais ou de partida. É propriedade da dinâmica não-linear. A Teoria do Caos se expressa analiticamente por meio de sistemas de equações matemáticas não-lineares.
As principais características dos sistemas caóticos são:
• Existência de bacias de atração, que “puxam” tendências de evolução (potenciais); as bacias de atração são mais ou menos potentes em função dos estoques de energia, matéria, informação e outros recursos, que variam no tempo;
• Atratores que estabelecem os contornos dos processos e distinguem o sistema objeto do ambiente externo; Reservatórios, nos quais energia, informação, matéria e outros recursos podem ser acumulados ou armazenados; estoques; e,
• Redes ou meios de comunicação, que permitem trocas de informação, energia, matéria e outros recursos entre reservatórios.
Do ponto de vista das organizações, as bacias de atração, potenciais geradores de tendências estabelecem movimentos na direção de evolução dos processos, mas também os seus limites (atratores). A Teoria do Caos mostra que a relação causa/efeito linear é mais exceção que a regra, mero acaso num espaço onde os processos são regidos por atratores caóticos.
De acordo com Gleiser (2002) alguns autores tratam dos fenômenos caóticos e complexos como idênticos,
São fenômenos conexos, porém distintos. Existe um debate em relação ao significado e campo de influência dos dois fenômenos. Alguns argumentam que Caos é uma teoria geral que engloba o estudo de sistemas complexos. Outros argumentam exatamente o oposto, ou seja, que a Teoria do Caos é uma aplicação específica de uma teoria maior que estuda os sistemas dinâmicos, a ciência da Complexidade. Outros não vêem nenhuma diferença entre os dois. A definição mais aceita é a de que os dois fenômenos são complementares.
A natureza, como a vida, é complexa (BATESON, 1979) e compreende uma multiplicidade de processos iterativos e interativos.
Cerca de um século após a morte de Newton, no período de Napoleão, o físico francês Laplace imaginou que um dia os cientistas deduziriam uma equação matemática tão poderosa que explicaria tudo.
O pensamento complexo se constituiu a partir de estudos advindos da biologia, do desenvolvimento sustentado, da sociologia e da antropologia social.
Alguns aspectos que indicam diferenças entre a abordagem da complexidade realizada por Morin e a dos pesquisadores de Santa Fé aparecem no seguinte depoimento:
O que queremos é mudar o atual modo reducionista de pensar, modificar a fragmentação o conhecimento. Há vários caminhos para isso. Nos Estados Unidos, por exemplo, existe o Instituto Santa Fé1,
que também se dedica a esses estudos. Ele busca, sobretudo, uma concepção formal, matemática, da complexidade; procura estabelecer leis para ela, o que é uma contradição. Além disso, volta-se apenas para os assuntos ligados à física e à biologia; não lhe interessam os temas humanos, as ciências humanas. Portanto, é preciso acrescentar a essa abordagem norte-americana as visões existencial e ética: solidariedade e responsabilidade (MORIN, 1997).
1 O Instituto de Santa Fé nos Estados Unidos foi criado em 1984 e congrega destacados cientistas de
inúmeras especialidades para discutir as questões relativas à complexidade e caos. Os antecedentes teóricos dessa corrente foram:
1948-55: Cibernética (W. Ross Ashby, Norbert Wiener);
1950: Teoria Geral de Sistemas (fundada por Ludwig von Bertalanffy); 1970: Teoría de catástrofes (René Thom, E.C. Zeeman);
1980: Teoria do Caos (David Ruelle, Edward Lorenz, Mitchell Feigenbaum, Steve Smale, James A. Yorke);
1990: Sistema adaptativo complexo (CAS), muitas vezes definido como a própria ciência da complexidade (John H. Holland, Murray Gell-Mann, Harold Morowitz, W. Brian Arthur).
Nesta pesquisa foi adotado o conceito de pensamento complexo conforme expresso por Mariotti (2000a):
Não importa o quanto tentemos, não conseguimos reduzir a complexidade às explicações simplistas, regras rígidas, fórmulas simplificadoras ou esquemas fechados de idéias. A complexidade só pode ser entendida por um sistema de pensamento aberto, abrangente e flexível — o pensamento complexo. Este configura uma nova visão de mundo, que aceita e procura compreender as mudanças constantes do real e não pretende negar a multiplicidade, a aleatoriedade e a incerteza, e sim conviver com elas.
Segundo a perspectiva de Morin (1990) o paradigma do pensamento complexo envolve três princípios:
• Dialógico – permite manter a dualidade no seio da unidade; associa dois termos ao mesmo tempo complementares e antagônicos; a ordem e a desordem; colaboram e produzem organização e complexidade;
• Recursão organizacional – ruptura com a idéia de causa/efeito; e,
• Holístico – não apenas a parte está no todo como o todo está na parte.
Além do funcionamento segundo tais princípios, os sistemas complexos possuem características que se constituem em elementos organizadores de um novo paradigma:
• Sistema dinâmico – evolução no tempo;
• Sistema aberto – interage com o meio ambiente;
• Sistema adaptativo (aprendizagem – auto-organização);
• Aleatoriedade – algumas características do sistema são distribuídas ao acaso;
• Sensibilidade às condições iniciais (efeito borboleta)2 ;
• Ordem emergente – o sistema se organiza de forma espontânea, criando ordem a partir de um estado desordenado; existe caos na ordem e existe ordem no caos; e,
2 A maioria dos sistemas não pode ser determinada em decorrência da chamada dependência sensível das
condições iniciais, ou efeito borboleta. A expressão efeito borboleta é usada para denominar um fenômeno no qual uma borboleta, batendo asas na muralha da China, pode provocar uma tempestade em NY.
• Estrutura fractal – em muitos sistemas complexos, aparecem estruturas geométricas fractais, isto é, de dimensão fracionária. Em termos ideais, essa estrutura tem auto-similaridade em todas as escalas (NUSSENZVEIG, 2003).
A dialética de Hegel apresenta grande identidade com o pensamento complexo e tem base nos seguintes princípios (LEFEBVRE, 1983):
• Conexão e “mediação” recíproca de tudo o que existe;
• Síntese de contraditórios – busca superar contradições; e,
• Transformação da quantidade em qualidade – implica simultaneamente continuidades e descontinuidades.
As dinâmicas dos sistemas não lineares podem ser representadas por 4 tipos de atratores (LOSADA,1999):
• Ponto fixo: quando a trajetória tende a ficar em ponto fixo;
• Ciclo limite: quando um sistema apresenta uma dinâmica de periodicidade regular. Para Câmara (2006) evoluindo periodicamente, “em uma seqüência ordenada de pontos”;
• Toróide (superfície de pneu): quando um sistema apresenta uma dinâmica com periodicidade regular, em mais de uma dimensão; e,
• Caótico: estranho ou complexor, quando um sistema apresenta uma dinâmica cuja trajetória nunca se repete, porém possui uma estrutura geométrica finita dentro do espaço de fase.
Vale considerar que a forma pela qual vemos o mundo define o que nos é possível e o que não nos é possível realizar (MATURANA, 2002).