Chapter 7: The Kenyan case (II): The development of a “socio-technical design”
7.3. Interaction between the implementing team and potential users of electricity
Para um melhor entendimento sobre a relação entre a política e a comunicação, julga-se pertinente trazer a esta discussão a acepção sobre comunicação política, que é, invariavelmente, analisada por diferentes áreas entre as quais a psicologia, ciência política ou a sociologia.
Em termos gerais, a comunicação política está ligada a conceitos como: espaço público, poder político, agenda pública, participação política, meios de comunicação social, sondagens de opinião, cidadania, opinião pública, etc. Ora, a pluralidade de conjugação destes elementos dificulta a tarefa de identificar uma definição precisa sobre a comunicação política, até porque, no fundo, são comuns. Mesquita (1995) entende a comunicação política como um objecto vasto e multiforme que “abrange, não só as formas de expressão emanadas directamente das instituições políticas, mas também aquelas que são mediadas pelo jornalismo, pela programação televisiva e radiofónica, pela publicidade ou pelas relações públicas”(Ibid: p. 385).
A questão da mediatização do espaço público e político, subentendida na definição de Mesquita, é aprofundada na definição de Espírito Santo (2010) segundo a qual a “comunicação política assenta na implementação de estratégias de aproximação entre os diversos intervenientes do processo político, tendo como enfoque central a relação entre os partidos e os seus líderes, relação esta mediada pelos meios de comunicação social” (Espírito Santo & Figueiras, 2010: p. 81).
Já Xifra (2010) acrescenta um dado à definição da comunicação política ao afirmar que é a classe política que domina a relação (comunicação versus política), sendo ela a protagonista da agenda mediática. Para este autor espanhol do campo da comunicação estratégica, o jornalismo pode mesmo ser visto como “uma profissão institucionalmente delegada pelos políticos” (Ibid: p. 171
).
Na óptica de Brian McNair (2003: pp. 16-17), a comunicação política é, na verdade, uma acepção difícil de definir com precisão uma vez que remete para dois termos, nomeadamente, “comunicação” e “política”, ambos conceitos abertos a uma variedade de definições mais ou menos vastas. No entanto, existe, na óptica da autora portuguesa Silveirinha (s/d)7, algo em comum entre ambos que tem a ver com a preocupação relativa a
temas da vida em comum, da comunidade humana, do poder, do conflito e da mudança. Ou seja, a comunicação política assenta numa base interdisciplinar (jornalismo, história, retórica, sociologia, ciência política), cujo objectivo primordial é influenciar a opinião pública, em geral, ou um eleitorado, em particular.
Nessa perspectiva, a autonomia dos dois conceitos pode suscitar a secundarização de um relativamente ao outro. Ou seja, comunicação como instrumento da actividade política no seu pressuposto de persuadir o eleitorado. Todavia, nem a política, nem a comunicação podem ser entendidas fora do que as une, nomeadamente, no que concerne à “implementação de estratégias de aproximação entre os diversos intervenientes do processo político, tendo como enfoque central a relação entre os partidos e os seus líderes e os públicos que constituem o eleitorado, relação esta mediada pelos meios de comunicação social” (Espírito Santo & Figueiras, 2010: p. 81), tendo como palco de acção o sistema democrático.
A esse propósito, Dornells (2002: s/p) lembra que nos sistemas democráticos, a comunicação política não deve ser “património dos governantes”, mas antes pelo contrário, deve ser alargada, envolvendo cidadãos, políticos e grupos de interesse. Nesse contexto de convivência de “igual para igual” entre políticos, jornalistas e cidadãos abre-se espaço para uma situação em que cada um dos elementos procura especializar-se com vista a ter maior grau de influência no fluxo comunicativo.
Tal como qualquer campo de estudo, actualmente, a comunicação política profissionalizou- se, centrando as suas análises no cruzamento das actividades jornalísticas e políticas, onde McNair (1995) identifica diferentes abordagens, com destaque para a gestão dos media, gestão da imagem, marketing político e gestão da informação.
Ora, contrariamente à abordagem ampla e abrangente a vários domínios da comunicação política, a comunicação governamental, por sua vez, é entendida como específica da gestão e monitorização da comunicação por parte de quem exerce o poder político. Portanto, como descreve Sanders e Canel (2010), a comunicação governamental refere-se apenas à gestão de comunicação dos gabinetes dos presidentes, primeiros-ministros e governos locais ou regionais:
7 Consultado na internet a 15 de Junho de 2016 [url]
Comunicação de Governo refere-se à comunicação dos altos cargos e suas instituições superiores (Comunicação da Casa Branca; Porta-voz da 10 Downing
Street ou Comunicação da Moncloa [Espanha]); Em termos operacionais, (…)
entendemos por comunicação do governo a comunicação que implica o desenvolvimento e actuação de uma instituição política com função executiva. Isso vai desde a comunicação de um presidente, um primeiro-ministro ou um ministério à comunicação de um presidente de câmara, de um conselho municipal ou de um governo regional (Sanders & Canel, 2010: p. 12).
Contudo, numa outra abordagem Sanders e Canel (2010) reconhecem existir uma clara tendência para que os estudos da comunicação do governo se referirem, unicamente, ao executivo de nível superior, em termos de gestão da informação mediática e da retórica dos seus discursos, quando deveria ser mais abrangente a todo o circuito governamental, incluindo os ministérios e outras instituições de sua tutela. No mesmo diapasão, as duas autoras identificam alguns aspectos específicos do estudo da comunicação governamental, nomeadamente: (i) os contextos políticos (presidencialistas ou parlamentares); (ii) os prazos dos mandatos (enquanto uma empresa pode projectar sua identidade corporativa por um longo prazo, um governo dura quatro ou cinco anos, e, portanto, o seu plano de comunicação não pode ir além desse prazo); (iii) o facto de a comunicação governamental ocorrer sob alto escrutínio público (ao contrário da comunicação organizacional que tem uma audiência muito segmentada) e, finalmente (iv) o facto de chefes de comunicação nos ministérios governamentais poderem ser nomeados com base na cor partidária, em vez de se seguir o critério profissional (Ibid: pp. 13-14).
Independentemente da área de actuação do executivo, seja a nível ministerial, parlamentar ou presidencial, é ponto assente que a comunicação é, para qualquer governo, um factor decisivo de intermediação com os públicos. Porém, secundando Habermas (1996) e Guttman e Thompson (2004), a abertura e troca de argumentos dos cidadãos com o objectivo de alcançar o bem comum é somente possível em sociedades democráticas, onde “o debate público é essencial para esclarecer reciprocamente os interlocutores e a discussão encoraja os indivíduos e os grupos a articularem bons argumentos de modo que possam ser aceites pelos demais participantes da sociedade” (Correia, Ferreira & Espírito Santo, 2010: p. 59). Caso contrário, o campo político torna-se “deficitário em legitimidade e pode se anular” porque não sobrevive se desconectado do poder comunicativamente gerado na esfera pública (Gomes, 2008: p. 105).
Sendo assim, os meios de comunicação social devem fazer a mediação entre os políticos e os jornalistas mas de uma forma organizada, num ambiente em que as acções são planeadas, a implementação é monitorizada, os resultados são analisados e a acção governativa é ajustada, e assim sucessivamente.
Mas, mais do que nunca e no actual contexto de massificação das tecnologias e da internet, em que é também crescente o processamento de informação e comunicação dirigida, governar exige, invariavelmente e com maior intensidade, o intercâmbio de informações sobre as políticas, ideias e decisões entre governantes e governados. Daí não ser por acaso o forte investimento, na “profissionalização da comunicação do governo”, bem como o interesse em estudos sobre a comunicação do governo e conceitos afins, tais como relações públicas políticas, relações públicas governamentais e marketing político (veja-se, a título de exemplo, as publicações de Lee, 2008; Strömbäck, Mitrook & Kiousis, 2010; Strömbäck & Kiousis, 2011; Liu, Horsley & Levenshus, 2010; Horsley, Liu & Levenshus, 2010; Jackson, 2010; Seltzer & Zhang, 2011; Canel & Sanders, 2013)
Numa outra abordagem, Canel e Sanders (2013: p. 3) defendem que a comunicação do governo deve ser entendida em termos de relações públicas do governo cujo objectivo é, estrategicamente, estabelecer, construir e manter relações oficiais benéficas, entre governantes e cidadãos, e a sua reputação nas diferentes camadas sociais. Esta perspectiva baseia-se claramente na definição avançada por Strömbäck e Kiousis (2011: p. 8) segundo a qual as relações públicas políticas é o processo de gestão pelo qual uma organização ou actor singular, por razões políticas, através de uma comunicação e acção intencional, tenta influenciar e estabelecer, construir e manter relações e reputações benéficas com os seus principais públicos de modo a ajudar a apoiar a sua missão e atingir os seus objectivos. Nesta linha de raciocínio, a comunicação do governo ou, se quiser, as relações públicas políticas não devem ser vistas como uma mera estratégia de gestão da opinião pública para ganho eleitoral. Pelo contrário, deverá ser percebida como ferramenta que procura instigar os cidadãos, envolvendo-os nas questões de interesse comum de forma mais proactiva e estratégica (Grunig & Hunt, 2003; Kiousis & Strömbäck, 2011).
Por outras palavras, a perspectiva teórica de relações públicas introduz no estudo da comunicação governamental a noção de "construção de relacionamentos" (Ledingham, 2011: p. 235), implicando, primeiro, a exploração de outros campos de interacção pública que conferem reputação e, segundo, a concepção de uma estratégia que delineie toda a acção comunicativa orientada para o sucesso de qualquer estratégia governamental.