Chapter 4: Research methods
4.3. Part two: Action research in Kenya
Já afirmámos, no capítulo anterior, que os regimes representativos dependem do funcionamento de duas arenas principais, as organizações partidárias e a esfera eleitoral, sendo que entre estas podem existir outras intermediárias como determinados movimentos e grupos sociais que surgem para representar interesses específicos.
Nos seus inícios, a divisão entre Esquerda e Direita correspondia, respectivamente, a uma conotação negativa e outra positiva, sendo a direita a posição privilegiada, por ser o lugar onde deviam estar os bons: “o filho pródigo senta-se sempre à direita do seu pai”. No entanto, as conotações que agora apresentam ambos os termos estão ligadas às ideologias e aos movimentos que representam, sendo que a direita corresponde aos mais conservadores e a esquerda aos mais revolucionários.
Por outro lado, a direita não cortou radicalmente a sua relação com a Igreja, ao passo que a esquerda proclamou o ateísmo. Isso é visível no perfil dos apoiantes de partidos de esquerda e de direita em que, no caso de Portugal, no Norte as pessoas são consideradas mais conservadoras e são também mais religiosas, nomeadamente praticantes do catolicismo. No caso português, nem todos os partidos de esquerda cortaram por completo a ligação com a Igreja, proclamando o anti-clericalismo. O mais radical é o Bloco de Esquerda (BE) que, com os seus princípios pós-materialistas de participação e liberdade de determinadas escolhas individuais, quis, de facto, apresentar-se como totalmente independente da religião, tentando desse modo angariar a simpatia dos mais jovens28.
Assim, alguns critérios para distinguir a esquerda e a direita remetem para a tradição e para a ruptura com esta, ou seja, para a emancipação. A direita chegou a proclamar, segundo Noberto Bobbio, “Nada fora da tradição e contra a tradição, tudo dentro da tradição e pela tradição” (Bobbio, 1994, p.64). Não obstante, a emancipação e a tradição não podem ser interpretadas como fins últimos ou essenciais de ambas as partes. Bobbio chama a atenção para o facto de os mesmos princípios poderem ser adoptados tanto pela esquerda como pela direita, de forma alternada, podendo até concordar em determinados aspectos. Por exemplo, em relação ao facto de o papel do Estado perante a economia ser mais ou menos interventivo, consoante as circunstâncias. É por essa razão que, muitas vezes, já não se distinguem partidos de direita ou de esquerda, falando-se em partidos centristas. Isto é o que acontece, precisamente, com os dois principais partidos do espectro político português, o PS e o PSD: são partidos que apresentam ideologias posicionadas mais ao centro, de tal modo
28 Cf. Estatutos VIII Convenção Nacional do BE, art.º1, disponível em: http://www.bloco.org/media/estatutosviiiconv.pdf [Consultado em 12 de Março de 2013.]
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que a escolha eleitoral vai depender mais da conjuntura política actual do país, do que propriamente das ideologias partidárias ou de outras clivagens, como a social ou regional, ou até mesmo a religiosa.
A direita adoptou, em determinadas circunstâncias, um comportamento que seguia as linhas do tradicionalismo, do fascismo e do conservadorismo, ao passo que a esquerda proclamou o anarco-libertismo e o socialismo científico.
A “igualdade” foi um dos valores mais discutidos nas vertentes socialistas, o combate contra a desigualdade social e natural faz parte da ideologia dos partidos que evoluíram a partir do pensamento marxista. Desta forma, a esquerda defendeu mais o igualitarismo do que a direita. Como afirmou sabiamente Orwell: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros” (Orwell, 2005, p.119), o que traduz bem o pensamento de desigualdade de direita. Os homens, apesar de o direito sustentar a igualdade dos homens, são diferentes e têm de ser tratados segundo determinadas diferenças, pois também existe um fundo legal que sustenta a desigualdade social, que deriva dos bens possuídos. Os defensores da igualdade preocupam-se com este tipo de questões e tentam eliminá-las. A direita está mais disposta a aceitar o que acha ser natural, ou seja, que existam pessoas que possuem mais bens que outras, por mérito e não por injustiça na distribuição dos bens. E isto acontece devido a uma força que vem da tradição, do passado, manifestando-se por isso o seu lado conservador.
O “artificialismo de esquerda” rousseauniano considera que o homem é capaz de corrigir tanto as diferenças naturais, como as artificiais, criando por isso um mecanismo intervencionista, em que o Estado ajuda os menos favorecidos a alcançar os seus objectivos, porque todos têm direito, e merecem, possuir bens e ascender socialmente. A este ideal Norberto Bobbio contrapõe o ideal inigualitário de Nietzsche.
Para Rousseau, no Discurso sobre a origem da desigualdade [Discours sur l'origine et
les fondements de l'inégalité parmi les hommes, 1754], os homens nascem iguais, sofrendo
depois o efeito da sociedade civil, que se sobrepõe ao estado natural através do desenvolvimento das artes, tornando-os, assim, desiguais. Esta desigualdade é uma artificialidade que deve, por isso, ser banida da sociedade, por contrastar com a igualdade fundamental da Natureza. Já Nietzsche atribui esse ideal de igualdade aos fracos, partindo do pressuposto que todos os homens são desiguais, só os menos fortes se resignam a serem iguais a todos os outros. Ao tornar-se igualitarista, com a sua moral do rebanho, a religião e a compaixão da resignação, a sociedade deixou de evoluir. Portanto, para o filósofo alemão, é a igualdade que é artificial e que quer sobrepor-se à desigualdade benéfica com que a Natureza presenteou os homens e, sobretudo, os “Super-Homens”. Deste modo, em prol da desigualdade natural, o não-igualitarista condena a igualdade social, ao passo que o igualitarista condena a desigualdade social.
A igualdade vai interferir na liberdade dos homens, pois, apesar da extensão da esfera pública a um leque alargado de cidadãos, a liberdade de escolhas que é feita na esfera privada é restringida, dado que os que possuem mais recursos terão sempre maior liberdade
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de escolha. A liberdade torna-se mais restrita para o pobre do que para o rico, dada a sua situação económica privada, a liberdade privada dos ricos é imensamente mais ampla, sendo que o pobre apenas perde uma liberdade potencial (Bobbio, 1998, p.90).
Por conseguinte, da análise feita por Bobbio conclui-se que a esquerda é tendencialmente mais inclusiva, ao passo que a direita tende a ser mais exclusiva. Para a direita as desigualdades são não só inelimináveis, mas também vantajosas, e quaisquer tentativas que sejam feitas para as eliminar serão em vão.
As fontes de desigualdade são várias, de classe, etnia, sexo, religião, região, etc. São sobretudo a tradição e os hábitos que moldam essas desigualdades e o pensamento sobre elas. Até mesmo o facto de os homens se apresentarem mais revolucionários, ou mais conservadores, depende dessa tradição e da forma de encarar as vicissitudes da história e dos tempos vindouros.
Em Portugal, os partidos políticos que surgiram depois de 1974 apresentam características muito peculiares devido ao período pós-revolucionário e à constituição e consolidação democráticas que estavam a decorrer. Os partidos políticos desenvolveram-se a par com a democracia portuguesa, e eles próprios contribuíram sumamente para estabelecer a democracia em Portugal, tal como a conhecemos hoje. Portugal foi uma excepção na consolidação democrática em relação aos outros países europeus, pois os partidos políticos existentes não tinham raízes sociais, não eram partidos de massas, sendo que o movimento social pós-25 de Abril deveu-se mais a um trabalho institucional e do Estado do que da sociedade civil e dos movimentos sociais.
Como iremos certificar, segundo os estudiosos do desenvolvimento do sistema partidário português, não existe nele uma distinção ideológica clara entre a esquerda e a direita, sendo que estas posições são sobretudo assumidas pelos pequenos partidos, ao passo que os dois partidos do arco do governo, o PS e o PSD, ocupam uma posição mais central.