• No results found

Innspillene

In document I lys av solkorset (sider 44-48)

2. Før sending

2.5. Innspillene

O triunfo peloponésico na campanha olíntia e a consequente submissão da região calcídica45, em 379, patenteia o expoente máximo da política lacedemónica na Hélade, cujos laços se estendiam desde oriente – império persa – até ocidente – Siracusa (Xen.

Hell. 5.3.27; D.S. 15.25.3-4; Isoc. 4.126). O desencadeamento da revolução tebana

seria, no entanto, o princípio do fim da primazia de Esparta na conjuntura helénica e a principal responsável pelo derrube gradual da arche lacónica (Plut. Pel. 13.4). O arranque do processo revolucionário foi coroado pelo êxito da conspiração de Dezembro de 379, e que pôs termo à governação ilícita do grupo de Leoncíades na polis tebana e ao domínio lacedemónico na Cadmeia. Este capítulo da história de Tebas não é, porém, isento de dificuldades, sobretudo, pelos aspectos divergentes e à heterogeneidade que os testemunhos das várias autoridades assumem. Acerca da exposição dos acontecimentos, Diodoro é demasiado sucinto e o relato de Xenofonte é trivial e simplista para se compreender a magnitude da intriga, podendo estar igualmente comprometido pelo seu viés pró-lacedemónico e anti-tebano46. Em compensação, Plutarco oferece ampla descrição das ocorrências, tanto na Vida de

Pelópidas como nos Moralia, e será decerto o autor preferível para colmatar eventuais

défices de informação, juntamente com outras fontes «menores», embora a sua análise exija alguns cuidados47.

A execução do golpe conspirativo tebano tratou-se, com efeito, de uma operação complexa e mobilizadora de múltiplas forças, enredadas num objectivo comum. As fontes estão de acordo em atribuir a Fílidas o papel de agente motor e determinante para o aviamento da intriga. A sua posição social e política era, aliás, privilegiada. Sendo

45 Xen. Hell. 5.4.26; Também Fliunte, no Peloponeso, foi alvo de intervenção por parte dos

Lacedemónicos; cf. Xen. Hell. 5.4.27; D.S. 15.19.3.

46 Buck (1994) 74.

95

secretário (egrammateue) de Árquias, Fílidas tinha acesso circunjacente ao círculo do poder e o encargo de organizar toda uma agenda política (Plut. Mor. 577b; Pel. 7.3; Xen. Hell. 5.4.2). Xenofonte conta-nos o encontro furtuito e oportuno do secretário com Mélon, exilado tebano e seu antigo conhecido, em Atenas. Apesar de ocupar funções de alto-funcionário na estrutura política tebana, Fílidas confidenciou que «“odiava a situação pátria”», argumento a priori para o expatriado o implicar nos anéis da conjura48.

Em virtude dos ajustes com Fílidas, Mélon reuniu um grupo de exilados que se infiltraria na cidade de Cadmo. Contudo, surgem neste ponto as primeiras discrepâncias entre autores, nomeadamente, quanto ao número de exilados que compunham o bando. Plutarco menciona doze e aponta Pelópidas como líder da empresa tebana (Pel. 8.2;

Mor. 576c; D.S. 15.81.1; Nep. Pel. 2.3), ao passo que Xenofonte refere apenas a sete e

confere maior destaque a Mélon, ocultando o nome de Pelópidas (Hell. 5.4.1; 5.4.3). A explicação para a disparidade entre ambas as fontes pode residir na ocultação propositada do autor das Helénicas de alguns elementos que compunham a pequena unidade e que se iriam destacar na cena política tebana nas décadas seguintes49. No que toca ao conjunto de elementos, a versão do biógrafo evidencia-se mais completa, embora a liderança do empreendimento seja discutível. Por a Vida de Pelópidas se tratar de uma biografia com chancela elegíaca e fruto de uma tradição literária pró-beócia que se desenvolveu a posteriori, é provável que essa memória não faça justiça em reconhecer o papel de Mélon na conspiração50. Em todo o caso, a proeminência de Mélon está atestada também por Plutarco ao ser eleito, a par com Pelópidas, para compor o primeiro elenco governativo tebano legalmente nomeado pelas instituições pátrias (vide infra 5.1). É provável, portanto, que Mélon tenha assumido a liderança da resistência tebana que surtiu a partir da cidade de Palas, face ao desaparecimento de Androclides51, e tomado a chefia do grupo conspirativo em 379.

Ao contrário do que Xenofonte leva a crer, o desenvolvimento da maquinação não se desenrolou somente em torno do grupo restrito dos exilados, ligeiramente armados, e Fílidas. Nas Helénicas a extensão da oposição a actuar no interior da cidade

48 O episódio é exclusivo de Xenofonte (cf. Hell. 5.4.2.). Buck salienta que Meneclides, que participou na

conspiração de 379, tornando-se mais tarde um dos opositores a Epaminondas e Pelópidas, pode ter sido a fonte de informação de Xenofonte, vide Buck (1994) 76.

49 Vide Buck (1994) 73. Dos doze elementos que integraram o grupo, temos conhecimento de apenas oito

nomes: Mélon, Pelópidas, Dâmocles, Teopompo (Plut. Pel. 8.2), Eumólpidas, Samiadas (Plut. Mor. 577a), Meneclides, Cefisodoro (Mor. 596d).

50 Vide Buck (1994) 74; vide Hack (1978) 52 (e nota n.75). 51 Vide Pascual (1991a) 132.

96

de Cadmo é reduzida a «um tal Cáron, homem nobre e distinto», que prestou refúgio domiciliário ao bando de Mélon (cf. 5.4.3), mas esta célula residual, representada um tanto ou quanto alienada do quadro conspirativo, exibe uma fracção minimalista da sua verdadeira proporção. Nos Moralia o invólucro dissidente atinge, efectivamente, dimensões mais amplas, com papel activo e dinâmico na conspiração, congregando várias personalidades da aristocracia tebana, cuja maioria, somos levados a crer, se tratava de elementos ligados à facção de Leoncíades que, tal como Fídias, estavam insatisfeitos com a situação política de Tebas52. Seria, com efeito, esta relação de proximidade e coordenação entre o conluio tricéfalo – Fídias, Mélon e o núcleo de resistência a operar em Tebas, os factores decisivos na arquitectura da trama.

A operação conspirativa ficou estipulada para o início das Afrodísias, festividades em que era celebrado o culto da deusa Afrodite. Fílidas, em função das suas responsabilidades, seria o fiador na organização de um banquete que juntaria Árquias e Filipos, os dois polemarcos, e outras entidades tebanas associadas aos círculos do poder. Tal como em 382, as circunstâncias em torno de eventos religiosos iriam facilitar a concretização da primeira fase do golpe. Curioso foi o facto de a data deter outro dístico simbólico, uma vez que coincidiu com o solstício de Inverno, marcando o fim do ano civil do calendário tebano e a transferência de poderes das magistraturas para o novo ciclo governativo53.

Quanto à execução da trama, esta desenrolou em dois palcos distintos, todavia articulados. Num primeiro plano, a teia começou a ser tecida com a infiltração dos doze exilados em Tebas e com Cáron a recebe-los em sua casa, local que foi, aliás, convertido no «quartel» dos conjurados. Plutarco soma um total de 48 rebeldes presentes na residência, incluindo os doze exilados, para, a partir daí, iniciarem as hostilidades. A segunda plataforma foi afiançada por Ferénico, que aguardou no plano Trásio a liderar uma coluna composta por cerca de 300 exilados tebanos, estabelecendo a ponte de comunicação entre a cidade de Cadmo e a cidade de Palas.

Plutarco não faz referência à intervenção ateniense na conspiração tebana, optando por uma construção literária patriótica e exclusivista. Contudo, existem fortes evidências para acreditar na historicidade do envolvimento dos Atenienses na conjura, de resto, mencionada em várias fontes. Os primeiros sintomas surgiram da recusa destes à solicitação lacedemónica para expulsarem os exilados tebanos de Atenas, decisão que

52 Vide Pascual (1991a) 128-129.

97

insinua o apoio e patronagem das autoridades áticas a esta facção, ligada a Isménias e Androclides. Mas a implicação das autoridades atenienses na conspiração tebana não adveio simplesmente dos laços de philia ou da «paga» no auxílio prestado pelos Tebanos aos exilados atenienses, em 404. Se é verdade que podiam advogar a favor do cumprimento da cláusula de autonomia da Paz de Antálcidas, o êxito da conspiração e o consequente repatriamento dos exilados iriam contribuir para a expansão de novas directrizes da Machtpolitik ática. Diodoro descreve o envolvimento das autoridades atenienses em consequência do pedido da embaixada tebana, aquando o cerco à Cadmeia pelas forças insurrectas, mas parece evidente que essa implicação estaria delineada ainda antes do início das operações conspirativas, no voto favorável do decreto da boule ateniense para socorrer os exilados tebanos a recuperarem Tebas54.

Pelos elementos que temos vindo a apresentar é perceptível que a conspiração de 379 se demarcou pela sua transversalidade e diversidade. Pascual, no seu estudo sobre a conspiração de 379, conclui que o grupo insurrecto caracterizou-se pela heterogeneidade político-ideológica dos elementos que o compunham55. Não obstante, seria a conjugação dos interesses comuns dos vários grupos que foram protagonistas e a delineação de um plano previamente elaborado, ainda que com ligeiras alterações56, a chave para o êxito do golpe. A eliminação da elite governativa e a libertação dos presos (“políticos”) pelo bando d’ “os 48” consumaram a primeira fase do motim e impeliu à sua massificação57. A escuridão da noite encobria ainda os factos e dava azo à desconfiança dos cidadãos tebanos alheios ao golpe, mas a vinda da alvorada iria aclarar os factos e abrir um novo capítulo na história de Tebas.

54 Cf. D.S. 15.25.4-26.3; Isoc. 14.24. Dinarco (cf. 1.38-39), orador ateniense do século IV, sugere que a

iniciativa partiu dos próprios Atenienses, com o avanço de um decreto por Céfalon. Já Xenofonte deixa claro que não se tratava de apoio oficial por parte de Atenas (Hell. 5.4.19). Vide Buck (1994) 77; Hack (1978) 51 e 58 (nota n.88.)

55 «“En definitiva, la imagen que percebimos de los conspiradores de 379 es fundamentalmente la de su

heterogeneidade. Lo formabon al menos tres facciones diferentes. Los exilados en Atenas, el núcleo principal y más numeroso, antiguos miembros de la facción oligárquica antilaconica de Ismenias que habían evolucionado hacia la democracia y cuyos líderes principales eran Melón y, en menor medida Pelópidas e Ferénico. Los conjuradores del interior de la ciudad sons su líder Cáron y, trás el, Filídas que serían antinguos oligarcas filolaconios descontentos tanto com el gobierno de los de Leontíades cuanto con la ocupación espartana. Y, en tercer lugar, el grupo en torno de Górgidas formado por personas sin pasado político, por aquellos que antes del 382 no pertenecieron ni a la facción de Ismenias ni a la de Leontíades”», vide Pascual (1991a) 133-134.

56 Derivado às ausências de Leoncíades e Hípates no banquete organizado por Fílidas (Plut. Pel. 11.1; Mor. 596d).

57 Para um relato mais pormenorizado dos eventos, cf. Xen. Hell. 5.4.5-8; Plut. Pel. 11.2-3; Mor. 597a-

98

In document I lys av solkorset (sider 44-48)