2. Før sending
2.9. Frafallet
Foi nesse cenário de construção dos alicerces do dispositivo democrático da cidade de Cadmo que se ajustaram as reformas no aparelho militar tebano, assistindo-se à (re)criação de uma das instituições bélicas – profissionais – mais prestigiadas e que ficaria nos anais da história – o Batalhão Sagrado (hieros lokhos), o braço armado da
polis tebana:
Sobre o Batalhão Sagrado (hieros lokhos) diz-se que foi criado por Górgidas e era formado por trezentos homens seleccionados, aos quais a polis lhes fornecia treino e manutenção, e que aquartelavam na Cadmeia; por esta razão eram designados de batalhão da polis (poleós lokhos), pois, segundo consta, naqueles tempos as acrópoles (akropoleis) eram também chamadas de poleis. Mas alguns dizem que este pelotão era composto por amantes (erastes) e amados (eromenos) (Plut. Pel. 18.1)
O testemunho (re)fundador desta elite guerreira, em 379/378, encerra, todavia, problemáticas prementes, no qual se destacam duas: a sua organização, ou reorganização, por Górgidas e o carácter selectivo da sua composição, ou seja, de ser adornado por cento cinquenta pares de amantes e amados. A historicidade do organismo militar tebano não está em causa mas, além do relato do biógrafo na Vida de Pelópidas e na Vida de Alexandre (cf. 9.2), poucas são as fontes que se desdobram sobre o Batalhão Sagrado: Xenofonte é tácito quanto à sua actividade; Diodoro refere-se ao
hieros lokhos apenas em um passo da sua obra (15.81.2). À semelhança do historiador
sículo, Dinarco salienta o papel desempenhado pela elite cadmeia em Leuctros (cf. 1.73) e Ateneu alega que foi Epaminondas, e não Górgidas, quem (re)inventou o pelotão28. O painel que se apresenta é, efectivamente, espartilhado e as informações são escassas para corroborarem o passo de Plutarco. No entanto, há elementos que não devem ser descurados na ordenação do puzzle em torno do Batalhão Sagrado tebano.
Na verdade, há vestígios que sugerem que o hieros lokhos, instituído por Górgidas, se tratou de um projecto de continuidade, cujas raízes recuam, pelo menos, ao terceiro quartel do século V. O primeiro indício de actividade é descrito por Tucídides no ataque nocturno a Plateias, em 431, perpetuado por um corpo selecto de 300 tebanos
27 Este sector da dissertação baseia-se no artigo publicado pelo autor na revista Cadmo (nº23); sobre o
assunto vide Alves (2013) 67-80. Apesar de resumir essa publicação, o presente sector apresenta novos elementos.
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(«Thebaio andres oligó pleios triakósion»), liderado por Pitângelo e Diêmporo, dois
beotarchas da cidade de Cadmo (cf. 2.2.1). Diodoro corrobora o carácter especial desta
força no mesmo episódio (cf. 12.41.4). A segunda manifestação de “uma” elite tebana remonta à batalha de Délio, em 424, que opôs os exércitos ateniense e beócio. Segundo o historiador sículo (12.70.1), na primeira fila de combate das forças comandadas pelo
beotarchas tebano Pagondas, estava alinhado um corpus bellicus intitulado de «“aurigas
e guerreiros”» (heniokoi kai parabatai), «“um grupo circunscrito de trezentos”». Ray e Pascual alegam que este pelotão que participou em Délio correspondia ao modelo primitivo do Batalhão Sagrado, que seria fundado no século seguinte, e cuja designação atribuída reporta às antigas tradições homérica e aristocrática assentes na actividade equestre29. Além destes exemplos, outras evidências parecem coadunar-se à pré- existência do pelotão tebano, nomeadamente, o corpo expedicionário tebano de 300 soldados que participou na batalha do Plemírio e das Epípolas, em Siracusa (vide supra 1.3), e a milícia armada tebana – kreittos, também composta por 300 elementos, que acantonava todas as noites junto à Cadmeia, durante a dynasteia tebana30. Pelos exemplos citados, afigura-se evidente que a emergência do Batalhão Sagrado, nos princípios da década de 70, resultou do processo de requalificação da instituição militar de Tebas, preservando a tradição de se constituir uma elite de cidadãos que defendesse os interesses da Cadmeia.
Plutarco descreve, contudo, uma característica peculiar na concepção estrutural do hieros lokhos e que se poderá afastar dos padrões anteriormente instaurados. De acordo com o biógrafo, este «“batalhão da polis”» era formado, exclusivamente, por amantes (erastes) e amados (eromenos), paradigma, aliás, cultivado nos princípios da pederastia e respondendo a conceitos sociais arcaicos profundamente enraizados na cultura helénica, em particular, na casta aristocrática31. A cidade de Cadmo do período clássico era, efectivamente, um conhecido pólo de costumes pederásticos em que amantes e amados juravam votos de amor sobre o túmulo de Iolau32. O cerimonial, que consistia na troca de armaduras entre os dois guerreiros, denota uma clara convergência entre os laços homofílicos e a ética militar, instituída na polis tebana33. Mas mais que uma entidade impulsionadora à satisfação dos apetites sexuais, o eros masculino
29 Vide Ray (2009) 183; Pascual (1996) 163.
30 Cf. Plut. Mor. 598e; vide Hack (1975) 117 (nota n.55); Pascual (1996) 163. 31 Vide Sergent (1984) 70; Rodrigues (2009) 109; Dover (1994) 205.
32 Cf. Plut. Pel. 18.4; vide Leitao (2003) 145; Pascual (1996) 164. 33 Cf. Plut. Pel. 19.2; vide Rodrigues (2009) 108.
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adquiria amplos contornos associados ao conceito atlético – do “belo” – e pedagógico, em que o amante assumia o papel de educador e acompanhava o amado no seu percurso formativo até à idade adulta, no papel de educador, acompanhava o amado, seu aprendiz.
As obras homónimas de Platão e Xenofonte (Symposium) são claros exemplos da consagração da homossexualidade encadeada na dinâmica bélica, em que ambos os autores aludem a eros na qualidade de agente fomentador da coesão cívica e militar, através dos laços de philia. A singularidade em volta de um pelotão composto por amantes e amados estava, de facto, na sua homogeneidade e é com base nesse cânone que assenta o discurso de Fedro ao aclamar que uma unidade militar desta natureza seria capaz de vencer «o mundo inteiro» por actos de bravura, entreajuda e pelo amor mútuo inspirado por Eros34. Em Esparta o amor homofílico entre camaradas de armas era amplamente difundido e, inclusive, institucionalizado35. Não obstante, David Leitao, que se manifesta céptico em relação à linha plutarquiana, argumenta que a imagem do Batalhão Sagrado tebano transmitida pelo biógrafo redunda de concepções filosóficas e fantasias de uma pederastia apologética convencional, catalogando-as de fontes moralistas36. O mesmo historiador assume que os opúsculos filosóficos aludidos em outras obras clássicas apenas retratam utopias confinadas à reminiscência intelectuais e a princípios morais para encontrar um corpo ideal que defendesse a polis. Também Buck adopta algumas reservas quanto ao passo de Plutarco, apontando para a dualidade dos «“erastes kai eromenos”», que caracterizou o hieros lokhos, como um eco dos «“heniokoi kai parabatia”» que combateram em Délio37. Existem, com efeito, obstáculos que não permitem apurar a (possível) natureza homofílica do Batalhão Sagrado, sobretudo, porque as únicas fontes que alegam esses vínculos correspondem a autores clássicos tardios associados à romanidade.
Porém, a resposta a estas incertezas pode estar em torno do vulto que reorganizou o hieros lokhos tebano – Górgidas. São poucos os dados que se conservaram relativos ao estadista, mas estes sugerem que Górgidas foi o principal catalisador na restruturação do dispositivo político e militar da Cadmeia e um dos
34 Cf. Plat. Symp. 179a-b; a mesma ideia é defendida por Pausânias na obra de Xenofonte (cf. Symp. 8-32-
33.
35 Cf. Xen. Symp. 8.35; Vide Rodrigues (2009) 109; Lendon (2005) 109. 36 Vide Leitao (2003) 145.
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principais líderes de Tebas para este período38. A sua nomeação para exercer a
polemarchia ou a hiparchia, logo após o golpe conspirativo de 379 (vide supra 5.1),
corroboram a proeminência do estadista, que está, aliás, atestada por Diodoro, associando-o aos grandes comandantes tebanos, a par de Pelópidas e Epaminondas39, tendo também desempenhado funções de hiparco antes de 37940. Das exposições apresentadas é possível deduzir algumas ilações. Se Górgidas desempenhou a hiparchia decerto que o estadista se enquadrava no estrato censitário tebano dos hippeis, sendo, seguramente, um aristocrata com elevado poder económico e social. Ora, por ocasião do golpe de 379, Górgidas, juntamente com Epaminondas, executou uma parte crucial da intriga com a mobilização de um núcleo amplo composto por «jovens e homens mais velhos de maior reputação» (Plut. Pel. 12.1). Seria este grupo a manifestação de apoio popular à revolta ou seriam estes jovens e varões a futura base que iria compor o pelotão cadmeu? A descrição de Plutarco é singular. Contudo, a tradição homofílica e constitucional da polis tebana e os vínculos do estadista à aristocracia são elementos que podem corroborar a natureza do Batalhão Sagrado conforme é descrita pelo biógrafo.
Além da refundação do hieros lokhos, Górgidas terá sido também autor de grande parte da obra reformadora da máquina militar tebana. Em termos quantitativos, pouco se sabe da amplitude dessas reformas para 378/377, mas é sugestivo que as entidades governantes se tenham apoiado na vertente qualitativa, que aliava a natureza belicosa dos Tebanos à institucionalização de treino militar específico, de modo a tonificar a disciplina e a aperfeiçoar as competências guerreiras desde os juramentos da efebia. É com base neste princípio e no conjunto de uma série de valências, nomeadamente, na fundação de uma plataforma política centralizadora e na experiência adquirida por campanhas bélicas sucessivas, decorrentes ao longo da década de 370, que podemos observar a crescente ascendência de Tebas na disputa pela hegemonia helénica que culmina em 371, com a batalha de Leuctros (cf. Plut. Pel. 15; Ages. 26.3).
38 Vide Pascual (1996) 143.
39 Embora não refira qualquer acção particular de Górgidas, o historiador sículo refere-se ao estadista em
dois passos da sua obra, na clara exaltação dos grandes líderes de Tebas, cf. D.S. 15.39.2; 15.50.6.
40 O biógrafo alega em De Genio Socratis que Górgidas foi eleito legalmente para desempenhar a hiparchia (Mor. 578b-c). Segundo Pascual, a nomeação legal do estadista antes de 379 só se ajusta num
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