TABELA 18 - Freqüência e porcentagem das respostas sobre a relação entre epilepsia e dificuldades de aprendizagem O aluno epiléptico normalmente apresenta dificuldades de aprendizagem? f (Grupo A) % (Grupo A) f (Grupo B) % (Grupo B) Sim 3 15,79 2 8,0 Não 10 52,63 19 76,0 Sem resposta 6 31,58 4 16,0 O aluno não estuda muito
f (Grupo A) % (Grupo A) f (Grupo B) % (Grupo B) Sim 0 0,0 1 4,0 Não 4 21,1 4 16,0 O aluno deixa para
estudar na última hora (Grupo A) f (Grupo A) % (Grupo B) f (Grupo B) % Sim 0 0,0 1 4,0 Não 4 21,1 4 16,0 O aluno decora tudo e na
hora da prova "dá branco" f (Grupo A) % (Grupo A) f (Grupo B) % (Grupo B) Sim 0 0,0 1 4,0 Não 4 21,1 4 16,0 A epilepsia dificulta ou
impede o aprendizado (Grupo A) f (Grupo A) % (Grupo B) f (Grupo B) % Sim 1 5,3 1 4,0 Não 3 15,8 4 16,0
O aluno epiléptico tem dificuldade de memória f (Grupo A) % (Grupo A) f (Grupo B) % (Grupo B) Sim 2 10,5 0 0,0 Não 2 10,5 5 20,0
O aluno epiléptico sente
muito sono (Grupo A) f (Grupo A) % (Grupo B) f (Grupo B) % Sim 3 15,8 0 0 Não 1 5,3 5 20,0 O aluno epiléptico tem
baixa auto-estima f (Grupo A) % (Grupo A) f (Grupo B) % (Grupo B) Sim 2 10,5 3 12,0 Não 2 10,5 2 8,0 O aluno epiléptico toma
muito medicamento (Grupo A) f (Grupo A) % (Grupo B) f (Grupo B) % Sim 1 5,3 2 8,0 Não 3 15,8 3 12,0 O aluno epiléptico tem
dificuldades de relacionamento com o professor e colegas f (Grupo A) % (Grupo A) f (Grupo B) % (Grupo B) Sim 1 5,3 0 0,0 Não 3 15,8 5 20,0
Outra resposta (Grupo A) f (Grupo A) % (Grupo B) f (Grupo B) % Sim 4 21,1 4 16,0 Não 2 10,5 1 4,0 Sem resposta 10 52,6 20 80,0 Total 19 100,0 25 100,0
Grupo A (Professores que nunca tiveram alunos com epilepsia e nunca conviveram com familiar ou amigo com epilepsia)
Grupo B (Professores que têm ou já tiveram alunos com epilepsia e têm e/ou já conviveram com familiar ou amigo com epilepsia)
Sobre a relação entre dificuldades de aprendizagem e aluno epiléptico, as respostas dos dois grupos foram semelhantes. Tanto o grupo A (52,63%) quanto o grupo B (76,0%) consideram que o aluno epilético, via de regra, não tem dificuldades de aprendizagem. A maioria dos professores, sobretudo os do grupo B, acreditam portanto, que a epilepsia não é um fator que leva a dificuldades de aprendizagem (Tabela 18). Esta concepção é confirmada pela posição da Liga Brasileira de Epilepsia LBE (2002), para a qual normalmente as crianças com epilepsia não apresentam dificuldades de aprendizagem. Porém, alerta que deve-se considerar alguns aspectos que são fundamentais para o bom desenvolvimento escolar: - os pais não devem esconder que seu filho tem epilepsia e devem tratar este assunto de forma natural com os professores. A LBE sugere, ainda, que seja feito um tratamento medicamentoso adequado, pois doses excessivas ou incorretas podem comprometer a
atividade escolar. Entre os professores que responderam positivamente à questão, as causas atribuídas, sobretudo para o grupo A, foram: “o aluno epiléptico tem dificuldade de memória” (10,5%); “sente muito sono” (15,8%); “o aluno tem baixa auto-estima” (10,5% e 8,0% para o grupo B). Todos os outros fatores citados não foram significativos.
Rosa (1997) afirma que a criança afetada pelo quadro epiléptico aumenta a necessidade de sono e de apoio nos processos de aprendizagem. Podemos afirmar que existe uma necessidade maior de sono que poderá ser perfeitamente ajustado dentro do ambiente familiar. Portanto, não é impedimento para o aprendizado.
Guimarães (2009, p. 11) afirma que podem existir casos nos quais
comprometimento cognitivo pode ocorrer, mas é importante que se saiba qual é o tipo de epilepsia que a criança apresenta, pois existem diferentes quadros e muitos não podem ser comparados. É necessário considerar a presença de vários fatores que podem interferir nas funções cognitivas. São eles: etiologia (ou causa) da epilepsia, gravidade do distúrbio epiléptico (idade de início, freqüência, duração e tipo de crises epilépticas, tipo de alteração eletrencefalográfica), efeitos colaterais de medicação, local da lesão ou disfunção, deficiências associadas, além dos fatores psicossociais. É importante considerar o contexto em que as crises ocorrem.
Segundo Guimarães (2009, p. 11) a inteligência da criança é normal, porém ela pode apresentar problemas específicos.
Isso não significa que ela tenha deficiência mental. Suas dificuldades devem ser trabalhadas e os pais devem considerar que mesmo crianças sem crise epilépticas podem ter problemas em determinadas áreas, sendo esta uma característica individual de cada um.
Caso a criança apresente alguma dificuldade de aprendizagem podemos afirmar que a criança possui grande chance de reorganizar suas funções graças à plasticidade cerebral. Há crianças que têm dificuldades para realizar cálculos matemáticos, outros para ler e escrever, outros preferem música, dança, esportes. As limitações não devem ser vistas como empecilhos e oportunidades devem ser oferecidas para que a criança tente superá-las.
Devemos ter o cuidado com a influência das profecias auto-realizadoras, citadas anteriormente por Patto (1999), que determinam o futuro do aluno logo no início do ano letivo, apenas por achar que o aluno não é capaz.
Segundo pesquisa de Henriksen (1990), apesar dos efeitos negativos das drogas anti- epilépticas, é necessário que seja realizado o controle profilático das crises com uma droga apropriada para aliviar os problemas de aprendizagem. No entanto, apenas 1 sujeito do grupo A e 2 sujeitos do grupo B consideram que o medicamento influencia no aprendizado.
Fatores como “o aluno deixa para estudar na última hora”, “decora tudo e na hora da prova dá o branco”, “tem dificuldade de memória”, se aplicam tanto ao aluno epiléptico como não, e relacionam-se à prática de hábitos de estudos adequados. Para um aprendizado efetivo é
preciso hábitos diários de estudo, horários pré-determinados, local tranqüilo e adequado, entre outros. Além desses fatores, temos conhecimento de que o aprendizado não se dá apenas por meio do treino ou utilizando somente a memória.
Existe uma forma muito comum de epilepsia, chamada de epilepsia do lobo temporal, em que freqüentemente a memória é afetada. Durante a crise, a pessoa pode fazer uma atividade qualquer, trabalhar, conversar, falar de muitas coisas, discutir acaloradamente alguma questão, mas depois não se lembrará de nada. Mas pode-se afirmar que esses fatos podem acontecer apenas enquanto a pessoa está em crise.
Reafirmamos a perspectiva histórico-cultural de Vigotsky (1998), para quem o aprendizado é uma construção que está associada ao desenvolvimento, ao ambiente e às mediações realizadas com o indivíduo. Sendo assim, o aluno, epiléptico ou não, mesmo que tenha, eventualmente, dificuldade de memorizar não está impedido do aprender e ter sucesso escolar, pois as mediações pedagógicas podem perfeitamente auxiliar ou superar essa dificuldade. O aluno não deve aprender na escola de uma maneira mecânica, robotizada ou somente por meio do treino. Esta maneira de ensinar conserva o aluno em um nível de compreensão que é muito primitivo. É necessário estimular o aluno a avançar em sua compreensão, criando-lhe conflitos cognitivos, ou melhor, desafiando-o. O aluno com epilepsia, como qualquer outro aluno, precisa desenvolver a sua criatividade, a capacidade de conhecer o mundo e a si mesmo, com o auxílio e orientações pedagógicas adequadas.
Nos dados da pesquisa, alguns sujeitos do grupo A (10,5%) e do grupo B (12,0%) apontaram que o aluno epiléptico tem “baixa auto-estima”. Segundo a Liga Brasileira de Epilepsia (2002), as reações negativas dos pais frente à epilepsia podem causar super proteção, além de transtornar os filhos em crianças inseguras, repercutindo assim em baixa auto-estima. A baixa expectativa dos pais e professores também pode contribuir para aumentar a baixa estima. Tratar a criança como uma criança normal, com limites, diálogo e confiança, com certeza favorecerá o seu desenvolvimento integral. Assim, a criança cresce segura, independente e com altos níveis de auto-estima e autoconfiança. É papel da escola saber lidar com crianças que tenham epilepsia, fortalecê-las e conversar com pais e professores no sentido de modificar as atitudes perante as mesmas.
Apenas um sujeito do grupo A (5,3%) e nenhum do grupo B afirma que “o aluno epiléptico tem dificuldades de relacionamento com professor e colegas”. A epilepsia, por ser uma condição neurológica crônica, pode acarretar um profundo impacto na qualidade de vida influenciando não só o comportamento das crianças como também as suas relações sociais e escolares, pois no ambiente escolar podem aparecer problemas relacionados a
comportamentos que podem gerar dificuldades ao lidar com estas crianças no dia a dia. É tarefa da escola construir uma comunidade bem informada e capacitada para lidar e se relacionar com todas as crianças, inclusive e obviamente, com as epilépticas
Seguem algumas respostas descritivas apresentadas por alguns professores: “Não sei.” (A-1)
“Não posso responder, pois nunca trabalhei com aluno epiléptico.” (A-5) “Por tomar remédio.” (A-7)
“Pode ser que eventualmente um ou outro pode apresentar auto-estima baixa, porém não vale como regra para todos.” (A-19)
“É preciso conhecer um pouco a forma como a epilepsia se manifesta em cada indivíduo.” (B- 26)
“Na minha experiência com casos na família, percebi que houve negligência por parte da escola, relacionamento com colegas e aceitação dos mesmos.” (B-43)
“É difícil dizer sim ou não, cada caso é um caso. Vai depender do tipo de epilepsia, da dosagem da medicação e de outros fatores.” (B-47)