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4.3 Motivasjon og målsetting

4.3.1 Indre og ytre motivasjon

Diante da impossibilidade de retorno às condições anteriores de vida, o idoso em hemodiálise passa por um decurso de tolerância ao tratamento, não como escolha pessoal, mas porque não há como fugir, se quer continuar vivo. Ao seu modo, cada qual procura gerenciar seus problemas de maneira a contribuir para que a vida se prolongue um pouco mais. O prolongamento de suas vidas, contudo, está intrinsecamente ligado aos recursos da Biotecnologia, mas

[...] É claro que este processo promove uma ruptura importante, pois como a da Biotecnologia a transformação e extensão da vida humana passam por implicações de alcance incalculável. Suas conseqüências e seu impacto alteram a estrutura organizacional da sociedade assim como esta altera a cultura e a identidade do indivíduo (CÔRTE, 2005, p.245).

Para melhor compreensão de como acontece essa passagem de ruptura para adaptação apoiamo-nos em Antoniazzi, Dell’ Aglio e Bandeira (1998), as quais exprimem que estudiosos da Psicologia Social, Clínica e da Personalidade têm pesquisado esse fenômeno. O fenômeno a que nos referimos, os autores da área de Psicologia chamam de coping, que é concebido como estratégias que as pessoas utilizam para se adaptarem às situações estressantes ou adversas.

Bury (1997) utiliza o termo coping, também, nesse sentido, enfatizando que os indivíduos com doenças crônicas fazem uso de mecanismos de adaptação de variados tipos. A resposta à doença crônica varia de acordo com a personalidade do indivíduo, com seu estilo de vida e com as circunstâncias que envolvem o corpo e a saúde em uma cultura consumista.

Por meio de leituras realizadas verificamos que a concepção de coping evoluiu, principalmente, desde a década de 1960, com pesquisas que ora estabelecem os traços de personalidade como seu principal foco, outras vezes apontam para um processo transacional entre a pessoa e o ambiente. A verdade é que, embora exista vasta literatura sobre essa temática, os mecanismos de como acontece esse processo ainda não estão claramente definidos e não me parece que haja acerca deste uma total compreensão.

No idoso, os padrões de coping estão relacionados a recursos internos, como reflexão e reavaliação positiva, o que não parece acontecer no caso dos entrevistados. São doentes crônicos, cuja enfermidade não apresenta perspectivas favoráveis, e o sistema de saúde representado pelos profissionais não se preocupa com os eventos subjetivos, dificultando a elaboração de estratégias de enfrentamento eficazes. Goldstein (1995) assinala que as estratégias são diferentes em indivíduos sadios e doentes. Neste caso, a ajuda externa pode ser de fundamental importância.

Atualmente, após anos de aproximação diária com a problemática do idoso em hemodiálise, com os encaminhamentos que fluíram das palavras e atitudes dos que nos confidenciaram um pouco de sua história de vida, de seus medos disfarçados, de seu sofrimento físico e psíquico assumidos, de suas estratégias de

sobrevivência, chegamos a pensar que pouco importam as diversas concepções sobre coping, suas estratégias ou estilos. O que realmente conta é o fato de que as clínicas de hemodiálise abrigam pessoas que sonham com o dia em que as pesquisas cheguem a um denominador comum, que possam substituir as ameaças pressentidas pela esperança de viver mais e com qualidade. Tudo o que querem é que esse dia chegue antes do fim da sua vida.

Os idosos em hemodiálise passam diariamente por experiências conflitantes, dificuldades de ordens diversas, esperança/desesperança, mas o instinto de sobrevivência é muito forte, o que os impele à busca de uma adaptação à doença e ao tratamento, o que nem sempre conseguem.

O que é pois adaptação? Para Berger (1995, p.165), é [...] “continuar a viver, recorrendo a estratégias para conservar a auto-estima”, mas, para tanto, é necessário transcender os limites físicos, desenvolver novos objetivos pessoais.

Alguns idosos deste estudo afirmaram que se consideram adaptados, porém, a autora retrocitada acentua que adaptação é o contrário de resignação, somos partidárias desta convicção e verificamos que as perdas de papéis, as constantes situações de estresse, a fadiga ocasionada pela doença/tratamento, dentre outros fatores, não lhes permitem enfrentar os desafios e as incertezas de seu viver, bloqueando novos objetivos, levando-os à resignação e à certeza de que “o que não se pode remediar remediado está”.

Fazemos nossas as palavras de Arcuri (2005, p.41): “é preciso dar a esses sobreviventes motivos para viver”, mas por outro ângulo, “[...] Basta observar o desenrolar de nossa vida para perceber como nos deparamos com a morte em várias instâncias: a infância morre e nasce a adolescência. A adolescência passa e nos tornamos adultos [...]”. (p.45).

No nosso entendimento, a IRC, com o decorrer do tempo, leva o indivíduo a perceber que está percorrendo um caminho sem retorno, e que o impacto do tratamento de hemodiálise, somado a esta constatação, produz realmente uma ruptura biográfica de reconstrução difícil e, sejam quais forem as estratégias adotadas a cada dia, apenas caracterizam uma tolerância, e não um verdadeiro processo adaptativo, porque, como falou um dos entrevistados, a gente se adapta quando a gente tem esperança, mas uma doença que a gente não tem esperança de cura e o próprio médico chega dizer a você, o mundo não tem mais graça.

Aí, julgamos residir a idéia central: a gente se adapta quando a gente tem esperança, mas, sem esperança, não pode haver adaptação, porque o mundo não tem mais graça, e a graça do mundo é a vida em toda a sua plenitude e disponibilidade.

8 ÚLTIMA CENA

De tudo ficaram três coisas: a certeza de que estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar.

Fazer da interrupção um caminho novo, fazer da queda, um passo de dança, do medo uma escada, do sonho uma ponte, da procura um encontro (FERNANDO PESSOA).

Ao chegarmos ao arremate desta pesquisa, experimentamos a certeza de que ela é apenas o começo, uma abertura para novas oportunidades de encontro e vivências com doentes renais crônicos que precisam buscar significados para sua doença, a dor e sua existência.

E foi graças ao nosso trabalho como auditora que nos descobrimos pesquisadora, ao tentarmos compreender o desconforto das pessoas que sobrevivem por meio da hemodiálise no intuito de, ainda que discretamente, intervir em suas realidades, não de forma mecânica, mas de maneira que os resultados deste estudo transcendam os objetos materiais/físicos e alcancem uma utilidade operacional no campo de interseção da auditoria do conhecimento e do cuidado.

Nestas considerações finais volvemos nossa atenção para os pressupostos desta pesquisa e, seguramente, podemos reafirmá-los, porque a escolha do Método Clínico-Qualitativo nos permitiu maior compreensão individual/pessoal/existencial dos sujeitos do estudo, a quem oferecemos uma acolhida aos seus sofrimentos físicos, emocionais e existenciais e, em conseqüência, uma forma de ajuda terapêutica não convencional, porém, baseada na interação afetiva e na interpretação dos significados oriundos de seus relatos:

- os idosos cuja sobrevivência depende de todo o aparato da Biotecnologia de hemodiálise, na sua maioria, apresentam não só a IRC, mas também importantes co-morbidades, que a ela se associam, o que os tornam mais frágeis do que pacientes de outras faixas etárias que também realizam essa modalidade de tratamento;

- a Política Nacional de Atenção ao Portador da Doença Renal configura- se como de enorme significância na defesa da qualidade da assistência prestada, sendo, em nossa opinião, a melhor estruturada e de melhor seguimento/avaliação no campo do SUS. Torna-se necessário, no