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4.1 Glede

4.1.2 Fortolkninger av glede

A saúde pode ser compreendida, sob a perspectiva da dóxa, como uma relação entre a capacidade de agir, as metas de vida e as circunstâncias a que cada uma está submetida. Assim, é possível afirmar que a doença (má-saúde) “é uma inabilidade, seja diretamente atribuível a um fenômeno somático [...] ou indiretamente atribuível à dor, náusea ou outro sofrimento”. (NORDENFELT, 2000, p.109).

Embora todos os entrevistados sejam doentes renais crônicos, isto é, o processo de instalação da doença foi lento, insidioso, progressivo, podendo ter demandado anos para o surgimento do quadro sintomático, o início da doença foi percebido de maneira diversa, obedecendo à singularidade das pessoas.

Os sinais e sintomas relatados como percebidos inicialmente foram: edemas nos membros inferiores, hipertensão, vômitos, mal-estar súbito, palidez cutânea, fadiga, cefaléia, dores lombares, dispnéia, hematúria, oligúria. Alguns desses elementos foram descritos por uns, enquanto outra parte foi detectada por outros. Vários desses sintomas iniciais foram narrados também por pacientes do estudo de Lima (2000).

A maioria desconhece a causa de sua doença, ou tem sobre esta uma representação que lhe é bastante significativa: atribuição ao cloro usado na água da rede pública de abastecimento, conseqüência do tipo de suas atividades profissionais, como excesso de calor produzido pelo forno de torrar farinha de mandioca, ‘pancadas’ recebidas na atividade de vaqueiro, comer alimentos prejudiciais à saúde, beber cachaça e fumar e ferimentos lavados com água imprópria para uso. Relataram esses idosos que a doença começou sem que percebessem e alguns chegaram a relacionar os primeiros sintomas à verminose.

Boltanski (1989) destaca o fato de que, quanto mais elevado é o nível intelectual do indivíduo, maior é a ausculta aos sinais do corpo, a procura por ajuda profissional, o que não foi o caso dos idosos participantes da pesquisa, cuja maioria tem baixa escolaridade. Neste grupo, predomina a concepção vulgar de saúde, que é a capacidade funcional do corpo. Os poucos que se aproximaram dos fatores

consagrados na literatura como presentes no quadro de insuficiência renal citaram a hipertensão, a diabetes e o consumo em excesso de determinados medicamentos.

A relevância do corpo como um objeto de estudo não apenas biológico é evidenciado em Bury (2005), quando assinala que a Saúde se aproxima da Sociologia para ampliar esse estudo, considerando o corpo e a sociedade como uma interação dinâmica e possibilitando uma visão plural do ser humano. No caso de hemodiálise, a focalização no funcionamento da máquina produz uma visão unilateral do cliente, sendo apenas uma parte do cuidado.

O desconhecimento sobre as possíveis causas da doença pode acarretar maiores dificuldades para a aceitação do tratamento e reorganização da vida após o diagnóstico. Os profissionais da equipe de saúde que cuidam desses clientes, com os quais, temos rotineiramente conversado por conta de nossas atividades profissionais, parece não esclarecer os pacientes quanto às prováveis causas do surgimento das complicações renais que levam à hemodiálise. Quanto ao tratamento, estes profissionais garantem que esclarecimentos são dados antes do início, porém, nas entrevistas muitos relataram que desconheciam o que teriam que enfrentar.

Daí vislumbramos três possibilidades:

- a primeira é de que os clientes, ao chegarem à clínica estão em um estado geral comprometido, o que os impede de compreender as explicações, ou aquele não é o momento oportuno para orientações; - a segunda é de que as explicações podem ser dadas em um nível não

acessível à compreensão do cliente e, posteriormente, não são reforçadas;

- por último, no caso específico do idoso, é que sua memória, pelas condições do processo de envelhecimento, não retenha as informações. Qualquer que seja, porém, a causa desse desconhecimento, compete aos profissionais um esforço a mais, no sentido de tentar junto ao cliente uma aprendizagem por meio de repetição, o que ainda reforçaria o vínculo profissional/cliente. Para atingir esta meta, a saída é utilizar ações de Educação em Saúde.

Ações de Educação para a Saúde podem ser entendidas como “qualquer combinação de experiências de aprendizagem destinadas a facilitar adaptações,

comportamentais condizentes com a saúde”. (LANCASTER; ONEGA; FORNESS, 1999, p.192). Segundo, ainda, as autoras, as etapas do processo educativo são

[...] captando a atenção; informando ao educando os objetivos da instrução; estimulando a recordação de aprendizagem anterior; apresentando o estímulo; proporcionando orientação de aprendizagem; estimulando o desempenho; proporcionando o feedback; avaliando desempenho e transferindo conhecimentos. (LANCASTER; ONEGA; FORNESS, 1999, p. 273).

Os depoimentos insinuam que as informações foram prestadas rapidamente, de forma superficial, em momento inoportuno – na admissão e sem reforço posterior: botaram um cateter na minha virilha, depois botaram no pescoço. Ninguém me explicou nada, assim falou um idoso. É provável que tenham sido prestadas informações julgadas necessárias, mas o momento de sofrimento era tão grande que as informações se dispersaram.

O trabalho que desenvolvem os profissionais envolvidos no processo de hemodiálise é sustentado pela alta tecnologia, por acelerada absorção de novos conhecimentos e pela ânsia de prolongar qualitativamente a vida de seus clientes. É, portanto, imaginável que, cientes da eficácia da máquina de hemodiálise quanto à melhora da sintomatologia do paciente, os profissionais acreditem que o paciente tem esta mesma compreensão, considerando, assim, como questões menores os aspectos que afloram da subjetividade das pessoas que necessitam ser cuidadas.

A tecnologia deveria possibilitar uma aproximação maior do profissional com o cliente, uma vez que o livra de muitas atividades que demandariam tempo e esforços. Sobraria, então, tempo para esta proximidade. O que de fato acontece nos dias atuais é que o homem passou a ser apêndice da máquina, sendo este o foco da relação com o profissional nos diversos campos em que se emprega tecnologia de última geração.

Morrison (2001), ao discutir a compreensão dos doentes por parte dos profissionais que deles cuidam, fala do poder na relação profissionalizada de ajuda. Ele destaca que as conseqüências dos cuidados institucionalizados, para o doente, conferem a sensação de extrema vulnerabilidade. Assinala que os enfermeiros também exercem este poder, e o “[...] desejo de que a ‘ajuda’ se torne mais ‘técnica’ só pode aumentar este poder” (p. 139).

Uma das questões para a qual nós, que trabalhamos em saúde, devemos estar sempre atentos é sobre os direitos dos clientes, os quais vão além da possibilidade de receber o melhor que a tecnologia pode oferecer. A garantia legal desses direitos está contida na Carta dos Direitos dos Usuários de Saúde. Esse Documento baseia-se em seis princípios básicos de cidadania (BRASIL, 2006, p.3), quais sejam:

I - todo cidadão tem direito ao acesso ordenado e organizado aos sistemas de saúde; II - todo cidadão tem direito a tratamento adequado e efetivo para seu problema;III - todo cidadão tem direito ao atendimento humanizado, acolhedor e livre de qualquer discriminação;IV - todo cidadão tem direito a atendimento que respeite a sua pessoa, seus valores e seus direitos; V- todo cidadão também tem responsabilidades para que seu tratamento aconteça da forma adequada; VI - todo cidadão tem direito ao comprometimento dos gestores da saúde para que os princípios anteriores sejam cumpridos.

É propício que destaquemos o II princípio, que, ao se referir ao “tratamento adequado”, assegura dentre outras coisas, o direito às:

II - informações sobre o seu estado de saúde, extensivas aos seus familiares e/ou acompanhantes, de maneira clara, objetiva, respeitosa, compreensível e adaptada à condição cultural, respeitados os limites éticos por parte da equipe de saúde [...]. (BRASIL, 2006, p.5).

A concretização desse princípio torna a equipe de saúde responsável por socializar as informações sobre o diagnóstico, tratamento e prognóstico do cliente, respeitando, evidentemente, os princípios éticos, mas quebrando o paradigma de que o poder do conhecimento confere ao profissional o direito à exclusividade dos detalhes e ao silêncio.

O impacto da notícia de que deveria fazer hemodiálise foi diversificado e está intimamente relacionado com o estilo de vida de que o entrevistado desfrutava antes da instalação da doença. Ficou claro que, quanto mais ativa e participativa era a pessoa, maior o desgaste ocasionado pela notícia recebida. As pessoas que tinham sentimentos de religiosidade demonstraram maior aceitação, enquanto outras externaram a aceitação que veio por conta do desconhecimento da verdadeira natureza e extensão do tratamento.