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Quando falamos em oralidade, percebemos certa imprecisão em sua definição. Há quem pensa nela apenas na manifestação linguística por meio da fala. Mas não é só no plano da fala que ela se apresenta.

Para Neves (2009, p. 21), “a língua oral de certo modo se confunde com a forma mais natural de uso linguístico, a conversação, já que ela „é o veículo de comunicação usado em situações naturais de interação social do tipo de comunicação face a face‟ (Tarallo, 1986: 19)”.

Tradicionalmente, a noção de fala se define em oposição à de escrita, estabelecendo-se a dicotomia fala x escrita. Trata-se de uma distinção somente no plano medial, isto é, considera-se somente o meio usado para a manifestação linguística. Isso equivale a dizer que a fala se realiza na manifestação fônica, e a escrita, na manifestação gráfica.

Em relação a essa concepção dicotômica da manifestação linguística, Marcuschi (2007, p. 25) assim se expressa:

fala seria uma forma de produção textual-discursiva para fins comunicativos na

modalidade oral (situa-se no plano da oralidade, portanto), sem a necessidade de uma tecnologia além do aparato disponível pelo próprio ser humano. Caracteriza-se pelo uso da língua na sua forma de sons sistematicamente articulados e significativos, bem como os aspectos prosódicos, envolvendo, ainda, uma série de recursos expressivos de outra ordem, tal como a gestualidade, os movimentos do corpo e a mímica.

Já a escrita, para o mesmo autor (2007, p. 26), seria

um modo de produção textual-discursiva para fins comunicativos com certas especificidades materiais e se caracterizaria por sua constituição gráfica, embora

envolva também recursos de ordem pictórica e outros (situa-se no plano dos letramentos). Pode manifestar-se, do ponto de vista de sua tecnologia, por unidades alfabéticas (escrita alfabética), ideogramas (escrita ideográfica) ou unidades iconográficas, sendo que no geral não temos uma dessas escritas puras. Trata-se de uma modalidade de uso da língua complementar à fala.

Assim, sabendo que a linguagem é produto social da interação entre os sujeitos, fala e escrita seriam modalidades básicas do uso da língua, sendo a fala a manifestação da prática oral, ou seja, o aspecto fônico, e a escrita, a manifestação da prática escrita, ou seja, o aspecto gráfico.

O autor, contudo, contesta vários aspectos dessa visão dicotômica. Em primeiro lugar, não considera a escrita uma forma de representação da fala (p. 46):

O certo é que escrita não representa a fala, seja sob que ângulo for o que observamos. Justamente pelo fato de fala e escrita não se recobrirem podemos relacioná-las, compará-las, mas não em termos de superioridade ou inferioridade. Fala e escrita são diferentes, mas as diferenças não são polares e sim graduais e contínuas. São duas alternativas de atualização da língua nas atividades sócio- interativas diárias.

Em segundo lugar, fala e escrita denominam modos de ser dos textos para além dos meros critérios de manifestação destes. Tomemos uma conversa informal entre amigos num bar. Ela ocorre sem preparação prévia, isto é, começa no momento em que os amigos se encontram. O tema abordado, geralmente tratando de assuntos do cotidiano, é “escolhido” na hora, e seu desenvolvimento, realizado pela alternância de turnos. Esse texto assim construído, com essas características, realizado fonicamente, seria um texto falado prototípico. Na medida em que os textos então mantiverem em maior ou menor grau esses traços, serão textos falados com diferentes graus de oralidade. Mesmo quando o texto não é mais realizado fonicamente, ele pode ainda assim apresentar traços de oralidade, ou seja, traços que lembram as marcas da fala propriamente dita. E na medida em que um texto não apresenta mais essas marcas, mesmo que seja em manifestação falada (fônica), ele perde a sua

caracterização oral, isto é, o seu modo de ser próprio, passando a ser um texto conceptualmente escrito.

Por outro lado, um texto escrito sem marcas que lembrem a fala é um texto escrito prototípico. Na medida, porém, em que for assumindo traços de fala ele se tornará um texto conceptualmente falado.

Com base nessas considerações e na visão de Marcuschi (2007, p. 26), “os termos fala e escrita passam a ser usados para designar formas e atividades comunicativas, não se restringindo ao plano do código. Trata-se muito mais de processos e eventos do que de produtos”.

Em outras palavras, oralidade e escrita são práticas sociais, ou seja, processos discursivos da linguagem, não opostos, sendo apresentados pelos gêneros orais ou escritos, segundo Marcuschi, fundindo-se em um continuum e não em uma dicotomia polarizada, pois são “realizações de uma gramática única”.

A oralidade, nesse sentido, vai além da fala, podendo ser apresentada tanto no seu aspecto formal quanto informal. Segundo Marcuschi (2007, p. 25), “seria uma prática social interativa para fins comunicativos, que se apresenta sob variadas formas ou gêneros textuais fundados na realidade sonora nos mais variados contextos de uso”.

Assim, oralidade não é compreendida apenas como um texto falado, mas também um texto escrito que detém traços da fala. No dizer de Hilgert (2007, p. 69):

Oralidade e escrituralidade são modos de ser dos textos que independem do fato de estes serem falados ou escritos, no sentido medial de fônicos ou gráficos. Ambas, a oralidade e a escrituralidade, podem, então, caracterizar tanto textos medialmente falados quanto medialmente escritos.

Dessa forma, devemos compreender a oralidade de forma medial e de forma conceptual. Entendemos por medial o meio de produção em que a linguagem é expressa, podendo ser apresentada de forma escrita (gráfica) ou falada (fônica). E por conceptual entende-se o modo de ser dos textos, a concepção discursiva, podendo apresentar traços de oralidade, quando há marcas da linguagem falada, ou traços de escrituralidade, quando mantém características próprias da linguagem escrita, ou melhor, quando não apresenta marcas de oralidade.

O contínuo dos gêneros textuais distingue e correlaciona os textos de cada modalidade (fala e escrita) quanto às estratégias de formulação que determinam o contínuo das características que produzem as variações das estruturas textuais-discursivas, seleções lexicais, estilo, grau de formalidade etc., que se dão num contínuo de variações, surgido daí semelhanças e diferenças ao lado de contínuos sobrepostos.

(MARCUSCHI, 2007, p. 42)

Assim, um bilhete informal que um amigo manda para outro é medialmente escrito, porém conceptualmente falado, isto é, um texto escrito com marcas próprias da linguagem falada, ou seja, de oralidade. E uma apresentação acadêmica, que se dá num meio falado, é texto conceptualmente escrito, uma vez que, embora seja utilizada na forma oral, retém em seu discurso características próprias da língua escrita, isto é, um texto marcado pela escrituralidade.

Hilgert (2007, p. 73) enfatiza que:

oralidade e escrituralidade, em sua acepção conceptual, independem do meio em que se manifestam, o que não descarta um vínculo preferencial entre a oralidade prototípica e a manifestação medialmente falada e entre a escrituralidade prototípica e a realização medialmente escrita.

Podem existir textos “puros”, isto é, textos de concepção discursiva oral, sendo produzidos no meio sonoro (por exemplo: conversas telefônicas) – ou ainda textos de concepção discursiva escrita, produzidos no meio gráfico (por exemplo: artigos científicos), o

que denominamos como textos prototípicos da modalidade (seja oral ou escrita). Além disso, temos textos “mistos”, em que a concepção discursiva é escrita, produzidos no meio sonoro (como uma notícia de TV), ou textos de concepção discursiva oral, produzidos no meio gráfico (como um bilhete pessoal).

Para Marcuschi (2007, p. 17), “oralidade e escrita são práticas e usos da língua com características próprias, mas não suficientemente opostas para caracterizar dois sistemas linguísticos nem uma dicotomia”, além de serem inerentes ao ser humano.

O que caracteriza um texto marcado pela oralidade ou pela escrituralidade são as condições de produção dos mesmos. Enquanto a oralidade simula, no texto escrito, características próprias da língua falada, como se estivesse ocorrendo uma comunicação face a face, apresentando, então, uma aproximação entre enunciador e enunciatário, o texto marcado pela escrituralidade mostra distanciamento entre enunciador e enunciatário, simulando a impessoalidade e a objetividade própria do texto escrito.

Textos fortemente marcados pela oralidade, sejam eles medialmente falados ou escritos, produzem uma impressão de aproximação entre o enunciador (autor) e o enunciatário (leitor), isto é, caracterizam-se pela proximidade. Já a marcante ausência de traços de oralidade, em ambas as formas de manifestação, produz o efeito contrário. Assim, os textos marcados pela escrituralidade produzem o efeito de sentido de distanciamento entre enunciador e enunciatário.

No dizer de Barros (2006, p. 60), “o texto escrito, com os efeitos de oralidade, „torna- se‟, para seu destinatário, mais subjetivo, mais franco, mais sincero, mais atual e inovador, mais „verdadeiro‟”. E é exatamente isso que perceberemos no objeto de nosso estudo – o jornal Agora – que vai se apresentar para o seu leitor com essas marcas próprias da oralidade.

Esse efeito de sentido faz com que o jornal se aproxime de seu leitor, persuadindo-o, travando com ele um diálogo direto, com cumplicidade e subjetividade, simulando uma

conversa informal, interpelando-o, fazendo com que o enunciatário se mantenha fiel a esse veículo de comunicação.

Em contrapartida, um texto marcado pela escrituralidade distancia-se de seu destinatário, causando o efeito de distanciamento e objetividade. Essa atitude tem por finalidade dar o efeito de realidade/verdade, estabelecendo laços racionais, de confiança e credibilidade, com o propósito de passar a imagem de seriedade.

Mas isso não quer dizer que não haja subjetividade nesse último tipo de texto, pois, segundo Fiorin (2005, p.179) “não existem textos objetivos, pois eles são sempre fruto da subjetividade e da visão de mundo de um enunciador. O que há são textos que produzem um efeito de objetividade”. O que acontece na Folha é que o jornal utiliza os recursos linguísticos para dar o efeito de distanciamento e objetividade, produzindo a impessoalidade própria desse meio de comunicação. Mas é sempre uma ilusão de objetividade.

Com base nisso, podemos perceber que as marcas de oralidade estão presentes nos textos escritos e não somente em textos medialmente falados. É importante que se chame atenção para esse fato, a fim de não se pensar que a oralidade só é mostrada por meio da fala. São muito comuns os textos que se utilizam do meio escrito, representando situações comunicativas próprias da fala. Um exemplo disso são as campanhas publicitárias, que, muitas vezes, para atingir um determinado enunciatário, produzem textos medialmente escritos com expressões marcadas pela oralidade.

Apresentamos, a seguir, dois exemplos4 que mostram as marcas de oralidade em campanhas publicitárias:

 Campanha do Banco o Brasil: “Seja também cliente do Banco do Brasil. Abra a conta da sua empresa com a gente.”

4 Os exemplos desta página não fazem parte do nosso corpus. São peças publicitárias para exemplificar o assunto

Nesse exemplo, percebemos a aproximação que o enunciador (Banco do Brasil) faz com o seu enunciatário, o cliente. Primeiramente, por meio do você instaurado no enunciado (Seja), pelo uso do imperativo (Abra), sugerindo que o enunciador está se dirigindo a um enunciatário em uma situação de proximidade. Além disso, ocorre também a utilização do termo a gente, próprio da linguagem coloquial.

 Slogan do cartão de crédito America Express: “Não saia de casa sem ele”.

No exemplo, temos novamente a aproximação entre enunciador e enunciatário por meio da do imperativo negativo (Não saia), que dá ao slogan certa informalidade e o efeito de cumplicidade entre ambos.

Ao simular essa proximidade, o enunciador, segundo Marcuschi (2007, p. 9), procura utilizar “adequadamente a língua para produzir um efeito de sentido pretendido em uma dada situação”. Com esse efeito de sentido, esse enunciador será capaz de persuadir seu enunciatário em determinada situação de comunicação.

Traços semelhantes de oralidade podemos perceber nos enunciados da capa do jornal Agora que segue:

No enunciado Veja os sintomas e as formas de contágio da gripe suína (manchete principal, no centro) – o enunciador, ao instaurar o tu (você) no enunciado, produz o efeito de proximidade, de subjetividade, dando a “ilusão de oralidade”, de uma conversa direta, face a face com o leitor. O enunciador (jornal), utilizando esse recurso de oralidade, aproxima-se de seu enunciatário, desenvolvendo uma comunicação mais afetiva e pessoal, assim como acontece também em: Saiba em que casos você deve pagar o IR. Com o efeito de informalidade, utilizando o pronome de tratamento você, o enunciador coloca-se no mesmo nível do leitor, criando um vínculo de cumplicidade.

Com base no exposto, podemos afirmar que as marcas de oralidade presentes nos textos escritos, mais precisamente no nosso objeto de estudo – o jornal Agora –, reforçam o apelo emocional do enunciador, atingem o leitor, mantendo uma aproximação com ele. Já outros meios de comunicação da imprensa dita séria, como a Folha, têm atitude contrária, buscando o efeito de distanciamento e de formalidade para atingir seu público-alvo.

3. FUNDAMENTOS DA ENUNCIAÇÃO PARA ESTUDO DA ORALIDADE NA