3 Samfunnsvitenskapelig del
3.4 Forvaltning og politikk
3.4.2 Å utvide mandatet
Agora São Paulo
Presidente e cabo eleitoral
O presidente Lula tem todo o direito de apoiar a candidata Dilma Rousseff, por ele escolhida para ser sua sucessora.
Seria estranho se o líder petista não tivesse preferências eleitorais ou se preferisse escondê-las. Vivemos numa democracia, e é uma informação importante para o eleitor saber que nome é o preferido pelo presidente.
O problema é que Lula tem usado e abusado do apoio a Dilma Rousseff. Já recebeu multas por isso, mas faz pouco da Justiça eleitoral em seus discursos.
O apoio de Lula precisa seguir as leis. Por exemplo: o presidente não pode usar a máquina pública para fazer campanha. Nem pode se manifestar a favor da sua candidata em atos do governo.
Além disso, Lula deveria, por conta própria, entender que ele é o presidente de todos os brasileiros e não apenas de quem vota no PT.
Em meio ao escândalo da violação de sigilos de aliados e familiares de José Serra, Lula foi ao programa de TV de Dilma, anteontem, acusar os adversários – a quem chamou de “turma do contra” – de apelar para a baixaria e de cometer calúnias contra sua candidata.
Não deu, porém, nenhuma explicação de como o seu governo deixou a Receita Federal se transformar num ambiente onde dados dos cidadãos que deveriam ser secretos são violados sem a menor cerimônia.
Em vez de se fazer de vítima, denunciando “preconceito” contra Dilma, Lula deveria se preocupar em dar satisfações à sociedade. Afinal, o que tem ele a dizer sobre funcionários da Receita que ficam bisbilhotando a vida dos outros em busca de vantagens eleitorais?
Folha de S. Paulo
A culpa é da oposição
Em vez de tomar medidas contra o descalabro da Receita, presidente vai ao programa de sua candidata para atacar as vítimas
Ganhou fama na internet o vídeo em que o presidente Lula responde com maus modos a um rapaz pobre do Rio de Janeiro, que dizia gostar de jogar tênis. Tratava-se de “esporte da burguesia”, declarou o presidente, entre alguns impropérios.
Talvez a seus olhos também pareçam simplesmente coisa “da burguesia” as reações ao episódio gravíssimo da quebra do sigilo fiscal de contribuintes, entre os quais pessoas ligadas ao candidato José Serra.
Não pertencia “à burguesia”, entretanto, o caseiro Francenildo dos Santos Costa, que depois de dar declarações contrárias aos interesses do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, teve sua conta bancária devassada pelos chefões do poder petista.
Do garoto da favela a personagens do PSDB não há nada em comum exceto o fato de representarem algum potencial de atrito aos poderosos do momento. E estes põem em prática seu longo aprendizado de arrogância e de abuso, tão logo se julgam ao abrigo dos olhos do público.
Fazendo-se entretanto de vítima, como é seu costume, aliás, o presidente da República ocupou parte do horário eleitoral de sua candidata para atribuir ao “preconceito” as críticas que o escândalo da Receita merecidamente recebeu da oposição.
Embalada por uma música sentimental, a aparição de Lula no programa de terça-feira foi uma demonstração deprimente do modo com que o mandatário encara a democracia, o debate político e seu próprio papel institucional.
Conclamou os adversários a manifestarem “mais amor pelo Brasil”, como se fosse dos petistas e de seus aliados o monopólio desse sentimento. Criticou “os que só querem destruir”, como se tivesse esquecido os tempos em que exerceu oposição sistemática. Condenou a “baixaria”, como se fosse elevado o propósito de investigar a declaração de renda da filha de um candidato à Presidência.
Lula nem sequer citou o caso, escapando de explicações acerca do descalabro das violações, sejam as de evidente caráter político, sejam aquelas cujas motivações ainda são menos claras.
Fosse para agir como presidente da República, Lula deveria desde já afastar os responsáveis pela desmoralização da Receita Federal. Preferiu agir segundo os padrões da “república de companheiros” que se estabelece no país, pedindo novamente votos para sua candidata.
Não havendo provas do envolvimento direto de Dilma Rousseff na armação engendrada na Receita Federal, foi por certo temerária e excessiva a atitude tucana de pedir a impugnação da candidatura petista na Justiça Eleitoral. Eleições não se ganham por meio desse expediente.
Mas uma democracia se vê ainda mais atingida quando o Estado se torna aparelho nas mãos de uma camarilha arrogante e impenitente, que o põe a serviço de seus interesses eleitorais, de seu desrespeito com os direitos dos cidadãos, de sua permanente vocação para a chantagem moral e para a intimidação política.
O editorial do Agora é marcado enunciativamente pelo nós inclusivo, em que o narrador, dizendo-se eu traz o leitor para dentro do discurso. Com a presença desse eu (no plural) instalado no texto (Vivemos numa democracia), tem-se um texto enunciativo, em que o eu instaurado no discurso fala para um tu, evocando um diálogo face a face, produzindo um texto com efeito de sentido de oralidade. Além disso, a ancoragem de tempo, pelo uso do adjunto adverbial “anteontem”, situa o leitor no tempo, produzindo o efeito de presentificação da enunciação. A pergunta retórica no final do editorial (Afinal, o que tem ele a dizer sobre funcionários da Receita que ficam bisbilhotando a vida dos outros em busca de vantagens eleitorais?) é mais uma forma de trazer o leitor para dentro do texto, de simular a interação face a face, e configurar a enunciatividade do texto. Já no editorial da Folha, reitera-se o uso da 3ª pessoa (Ganhou fama.../Não pertencia.../Conclamou...), configurando um texto enuncivo, em que é produzido para o leitor o efeito de sentido de distanciamento, formalidade e objetividade, próprio da escrituralidade.
Embora os dois editoriais discutam o mesmo assunto, percebemos diferenças na complexidade da abordagem dos textos. O editorial do jornal Agora aborda a posição de presidente e de cabo eleitoral de Lula, comentando essa situação e citando rapidamente, sem muitos detalhes e desdobramentos, a questão da quebra de sigilo da Receita Federal. Apresenta, assim, um enunciado de forma abrangente, genérica, superficial, sem remissões históricas. Já o editorial da Folha, tentando parecer imparcial, aprofunda o tema. Além de comentar o apoio do presidente à sua candidata, faz críticas severas a outros acontecimentos que receberam destaque na mídia, explora mais o assunto e amplia as críticas e reflexões sobre o contexto abordado no editorial, mostrando-se mais agressivo em suas críticas. Dessa forma, percebemos o quanto a abordagem temática é diferente nos editoriais dos dois jornais.
O editorial do Agora está estruturado em 8 parágrafos (com 265 palavras/1.288 caracteres), em linguagem simples, sem muitos desdobramentos temáticos, apresentando exatamente o que foi proposto no título. É iniciado com a frase: O presidente Lula tem todo o direito de apoiar a candidatura de Dilma Rousseff... – mostrando que o objetivo do jornal não é apenas criticar a postura do presidente (uma vez que, em função da classe socioeconômica de grande parte dos leitores do jornal, o enunciatário desse veículo deve, provavelmente, apoiar o presidente), mas apresentar e justificar o que será apresentado no decorrer do texto. Depois, o Agora critica o papel de “cabo eleitoral” de Lula. Nos três últimos parágrafos,
comenta, resumidamente, o escândalo do sigilo fiscal, mas sem fazer sobre ele juízo prévio (como o fez a Folha).
Em relação à sintaxe, o jornal Agora apresenta, em seu editorial, parágrafos curtos, constituídos em sua maioria de um ou dois períodos. Predominam no texto períodos simples e compostos por coordenação (Já recebeu multas por isso, mas faz pouco da Justiça eleitoral em seus discursos – 3º parágrafo/Não deu, porém, nenhuma explicação – 7° parágrafo). Quando os períodos são compostos por subordinação, as orações subordinadas recorrentes são as substantivas objetivas (Lula deveria, por conta própria entender que ele é o presidente de todos os brasileiros – 5º parágrafo/Lula deveria se preocupar em dar satisfações – 8º parágrafo) e as adjetivas (que deveriam ser secretos – 7º parágrafo/que ficam bisbilhotando – 8º parágrafo).
A Folha traz o seu editorial estruturado em 11 parágrafos (com 474 palavras/2.509 caracteres). É um texto mais elaborado e mais complexo, se comparado com o do Agora. O título A culpa é da oposição insinua uma possível fala de Lula. A crítica ao presidente que esse título encerra só um leitor que está ciente dos acontecimentos políticos pode notar. Além disso, não se limita a falar apenas do apoio de Lula à sua candidata, mas tece outras críticas ao presidente, que vão desde o episódio do caseiro Francenildo, passando por um comentário do presidente acerca do gosto esportivo de um garoto pobre até chegar ao assunto muito comentado à época da publicação do editorial. Em tom severo, o enunciador faz críticas ríspidas à postura de Lula, embora, em função das escolhas enunciativas, tente produzir um efeito de sentido de distanciamento e de imparcialidade.
Quanto à sintaxe, no editorial da Folha há algumas orações na ordem indireta (Ganhou fama na internet o vídeo em que o presidente Lula responde... – 1º parágrafo/Talvez a seus olhos também pareçam simplesmente coisa “da burguesia” as reações ao episódio gravíssimo da quebra do sigilo fiscal de contribuinte – 2º parágrafo/Não pertencia “à burguesia”, entretanto, o caseiro Francenildo dos Santos Costa – 3º parágrafo). A ordem indireta não é muito comum no jornal Agora, que opta, na maioria das vezes, por utilizar frases na ordem direta, o que facilita a compreensão de seu público-leitor. Nos períodos do editorial da Folha, quase não há orações absolutas, os parágrafos contêm orações coordenadas
(Fazendo-se entretanto de vítima... – 5º parágrafo/Mas uma democracia se vê ainda mais atingida – 13º parágrafo) e orações subordinadas adjetivas (que se estabelece no país – 9º parágrafo/que o põe a serviço de seus interesses eleitorais – 11º parágrafo) e adverbiais (Fosse para agir como presidente da república – 9º parágrafo/Preferiu agir segundo os padrões... – 9º parágrafo/quando o estado se torna aparelho... – 11º parágrafo). Pelo que observamos, com exceção da inversão da ordem sintática, as demais características da estruturação dos períodos dos textos dos dois editoriais são muito parecidas.
As escolhas lexicais do jornal Agora acabam por destacar certa informalidade, apesar de se tratar de um editorial. Ao fazer uso de certas escolhas lexicais, como: “usado e abusado” (parecendo ser um provérbio popular), “faz pouco da justiça”, “apelar para a baixaria” – a Folha traz a palavra “baixaria” entre aspas para demonstrar o distanciamento desse termo em relação ao padrão estilístico do jornal – “bisbilhotando” (termo bem coloquial), o jornal traz em seu texto marcas da oralidade. Em contrapartida, o jornal Folha faz uso de um vocabulário mais elaborado, que pode ser verificado pelas escolhas lexicais como: “descalabro”, “impropérios”, “devassada”, “camarilha”, “impenitente” – vocabulário este marcado pela escrituralidade, para atingir um público com outras características quanto ao domínio da linguagem.
A utilização do recurso metaenunciativo das aspas está presente nos dois editoriais, porém em maior grau na Folha. O jornal Agora fez uso do recurso apenas duas vezes (“turma do contra” e “preconceito”) com o propósito de se distanciar, deixando claro para seu leitor que está reproduzindo termos utilizados pelo presidente Lula. Nem mesmo, ao utilizar a palavra “baixaria” (usada entre aspas pela Folha), que é própria da linguagem coloquial, o jornal fez uso desse recurso. Já a Folha utilizou várias expressões entre aspas (“esporte da burguesia”, “da burguesia”, “à burguesia”, “mais amor pelo Brasil”, “preconceito”, “os que só querem destruir”, “baixaria”, “república de companheiros”). Alguns desses termos foram utilizados entre aspas para apontar o distanciamento do enunciador, já que a fala apresentada é do presidente Lula ou não é a palavra mais adequada a ser utilizada pelo jornal. No caso da expressão “república de companheiros”, as aspas atribuem um sentido pejorativo à expressão aspeada para ironizar e criticar o envolvimento comprometedor dos políticos do partido do presidente no cenário político brasileiro.
Lembramos que, neste último uso de aspas, exige-se do leitor a competência de identificar e interpretar o seu sentido. O enunciador aposta no enunciatário de que ele tenha essa competência de identificar nas aspas um sentido irônico. Por isso, pode-se admitir que a maior recorrência de aspas no texto da Folha tenha a ver com a possível competência de leitura e de compreensão textual do leitor. Já a ausência desse recurso metaenunciativo nos editoriais do Agora pode sinalizar para o fato de os leitores possivelmente não teriam essa competência.