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Economic geography

A escola na qual a pesquisa foi desenvolvida integra a rede pública estadual de ensino e localiza-se na zona norte da cidade de São Paulo, mais especificamente na Vila Brasilândia17. Na época da pesquisa, atendia, em média, 900 alunos do ensino fundamental I (1º a 5º ano), no período matutino e vespertino. O quadro de funcionários era composto por duas inspetoras de alunos, duas secretárias, uma diretora, uma vice-diretora, uma coordenadora pedagógica, 28 professores – majoritariamente mulheres –, além de seis especialistas – três em Educação Física e três em Artes.

A equipe gestora atuava nessa instituição desde 2005. Elisa, a diretora, acumulava grande experiência na área da educação: além de professora e supervisora pedagógica, desde 1989 ocupava esse cargo. Aposentou-se em 2003; em 2005, foi aprovada em um concurso público para direção e, na época da pesquisa, fazia parte da equipe gestora. Elisa sempre se mostrou muito acolhedora, afetuosa e disposta a trabalhar nessa escola. No decorrer das observações, foi possível perceber que ela sentia prazer no que fazia, mostrando-se disposta a ouvir o que os professores, pais e alunos tinham a lhe dizer: negociava com eles, amparava-os e discutia os problemas do cotidiano escolar com os interessados.

Larissa, a vice-diretora, também contava com grande experiência na área da educação. Formada no Curso Normal e em Geografia, fez complementação em Administração Escolar. Atuou como professora da escola investigada entre os anos de 1987 e 1989. De 1990 a 2002, foi professora do ensino médio em uma escola da região. Nos anos de 2003 a 2004, foi

17 A população é predominantemente de classe média baixa, as casas apresentam construção simples, algumas partes não estão completamente urbanizadas e podem ser consideradas “favelas”. Logo, as crianças atendidas por essa escola advêm de famílias que dispõem, em geral, de poucos recursos financeiros e vivem em condições materiais precárias. Ademais, a região é conhecida por seus altos índices de criminalidade.

designada para assumir a direção da escola, assumindo, no ano seguinte, o cargo de vice- diretora. Larissa aparentava gostar muito do que fazia e trabalhava bem com Elisa, auxiliando-a no que fosse preciso. A relação entre o trio gestor – diretora, vice-diretora e coordenadora – parecia ser bastante cooperativa.

Vivian, a coordenadora pedagógica, atuava havia 14 anos em educação. Formada em Pedagogia e Letras, foi professora do ensino fundamental II; em 2004, assumiu o cargo de vice-diretora em outra escola da região, começando, em 2005, seu trabalho como coordenadora pedagógica na escola pesquisada. No decorrer do trabalho de campo, mostrou- se constantemente disposta a auxiliar a pesquisadora quando solicitada. Muito esperta e falante, seu sorriso era contagiante! Buscava aproximar-se dos professores, dos pais e dos alunos. Apesar de ter se assustado com as demandas do cargo ao dar início a seu trabalho como coordenadora, sentia-se, no momento da coleta de dados, já bem confortável em sua função, aparentando gostar muito do que fazia. Nessa mesma época, estava participando do Programa Ler e Escrever, que lhe exigia oito horas semanais dentro da sua carga horária de trabalho. Sua tarefa consistia em formar os professores que atuavam em sua unidade escolar, de modo que pudessem trabalhar com as propostas daquele programa. Em função do grande número de docentes pelos quais era responsável, relatou sentir-se cansada em alguns momentos, embora salientasse que essa era sua escolha profissional. Segundo seu depoimento, a coordenação pedagógica trouxe-lhe inúmeros aprendizados desafiadores e gratificantes.

A instituição escolar estudada situava-se entre duas favelas, com a maioria das casas ainda sem reboco. A região dispunha de posto de saúde, ônibus, bancos, ruas asfaltadas, mas as opções de lazer e entretenimento eram mínimas – poucas praças e parques. Na região havia outras instituições públicas de ensino e as poucas possibilidades de acesso a bens culturais (teatro, shows e cinema) eram oferecidas em uma das unidades escolares da prefeitura – o Centro Educacional Unificado (CEU).

Com 35 anos de funcionamento, a escola foi instalada em uma rua com acentuado declive e, para melhor aproveitamento do terreno, os quatro prédios foram construídos separadamente. A quadra de esportes fica no alto – com cobertura para a proteção do sol e da chuva –, rodeada por arquibancadas de cimento com quatro grandes degraus, sem nenhum tipo de grade de proteção. Ao redor da quadra, há uma pequena área gramada. Foi possível observar, no decorrer da coleta de dados, que as crianças não tinham livre acesso ao espaço porque o terreno é bastante acidentado: poderiam se machucar caso caíssem de uma das

arquibancadas. O acesso à quadra de esportes tinha de ser sempre monitorado pelos professores de Educação Física ou pelas inspetoras. Ainda nesse espaço, há um grande portão de entrada e saída dos alunos, que permanecia fechado no horário de aula.

O primeiro prédio, localizado abaixo da quadra, tem dois andares com pé-direto alto. O primeiro, ao qual se tem acesso por meio de rampas ou escadas, conta com um refeitório ocupado por mesas e bancos de cimento, utilizado pelas crianças como pátio nos intervalos das aulas; quatro banheiros: dois femininos e dois masculinos; uma cozinha para a produção da merenda servida aos alunos e professores; um pequeno espaço ao lado do refeitório, destinado à venda de guloseimas, cujo lucro se destina à escola. O segundo andar, com acessibilidade apenas por meio de escadas, foi dividido em oito amplas salas de aula; um pequeno depósito de materiais e uma biblioteca usada como sala de aula para um primeiro ano, mobiliada com carteiras e lousa e três grandes estantes com livros diversos. Há, ainda, nesse prédio, um elevador inutilizado por falta de manutenção.

No segundo prédio, térreo, está a parte administrativa da escola. Diante dele, há um pequeno portão com uma área coberta, que permanece sempre fechado. Por meio desse portão, os pais têm acesso à escola quando precisam resolver alguma questão na secretaria ou com a equipe gestora. Há uma secretaria, uma sala para a coordenadora pedagógica, outra compartilhada pela diretora e pela vice-diretora, uma pequena cozinha, uma sala para os professores e dois banheiros – um feminino e um masculino – para uso dos funcionários.

Seis salas de aula compõem o terceiro e o quarto prédio. No quarto edifício, há, ainda, uma pequena sala de vídeo com televisão e aparelho de DVD em bom estado de uso. Para facilitar a acessibilidade aos prédios, existem escadas e rampas de cimento. Ao final do terreno, localiza-se um pequeno estacionamento utilizado apenas pela equipe gestora e por alguns professores. Contudo, nem todos os docentes conseguem estacionar seus veículos e os deixam na rua, em frente à escola.

A falta de espaço físico sempre foi motivo de queixa da equipe gestora e da professora participante deste estudo. Em razão da demanda por vagas, a biblioteca estava sendo usada como sala de aula – fato que impedia os demais professores de a utilizarem com seus alunos. Tampouco existia lugar para que as crianças pudessem brincar e correr; a única opção para a diversão dos alunos, nos momentos de intervalo das aulas, era o refeitório, pois a quadra de esportes oferecia risco de alguma criança se machucar. Nos dias de chuva, a entrada e a saída das crianças eram conturbadas: a cobertura da quadra era muito alta e a chuva invadia parte dela. Nesses dias, as crianças entravam e iam diretamente para suas respectivas salas de aula.

Na hora da saída, as professoras organizavam-se para liberar, por etapas, os alunos. O único grande lugar coberto, no período de minhas observações, era o espaço que entre o prédio da secretaria e o estacionamento. Os prédios estavam bem conservados, mas em processo de restauração, e todas as salas estavam sendo pintadas. As classes não estavam sujas, pois os professores cuidavam desse espaço e o organizavam: ao final de cada período, eles o limpavam para o próximo período.

No decorrer da pesquisa, foi possível perceber que o ambiente de trabalho era amistoso e os funcionários, bastante cooperativos. A equipe gestora sempre demonstrou bastante energia para administrar a escola e disposição para cooperar com a pesquisa. Dessa forma, o clima para o desenvolvimento deste estudo foi muito acolhedor. Nessa “imersão” no campo, por muitas vezes me senti parte da escola. As secretárias cumprimentavam-me, chamavam-me pelo nome e, logo que me viam, me abriam o portão. Os professores conversavam entre si, trocavam ideias e mantinham um bom relacionamento. Na medida em que foram se acostumando com minha presença, foram incluindo-me em seus diálogos, convidando-me a participar de suas rotinas. Trocávamos experiências e vivências – tanto sobre a vida acadêmica quanto a cotidiana.

A merenda oferecida pela escola era extremamente saborosa e a maioria dos professores fazia suas refeições na própria instituição – e eu era sempre convidada a partilhá- las. O capricho e o cuidado da merendeira sempre foi assunto na sala dos professores. Eu andava constantemente pelos corredores, ficava na sala dos professores e, no decorrer desse período, de mais de seis meses no campo, foi visível o bom relacionamento que mantinham entre si a diretora, a coordenadora pedagógica, a vice-diretora, os docentes e os alunos. A equipe gestora e a docente pareciam conhecer as histórias de quase todas as famílias: buscavam constantemente o diálogo da escola com a comunidade. A coordenadora pedagógica e a vice-diretora esforçavam-se por levar adiante as ideias e as produções da diretora. Apesar das dificuldades provocadas pela falta de espaço, pela alta demanda de alunos e pelas particularidades da população atendida na escola, essa instituição surgia como um espaço muito produtivo e cheio de vida. Era visível o prazer com que muitos professores trabalhavam, buscando constantemente desenvolver o espírito coletivo.

4.1.1 Apresentando a professora

À época da pesquisa, a professora Renata18 tinha 55 anos de idade. Casada, mãe de dois filhos e avó de dois netos – dos quais muito se orgulhava –, contava com vasta experiência no campo da educação. Atuava havia 27 anos na área e apresentava um percurso profissional interessante: assistente técnico-pedagógica, auxiliar na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e professora de classes de aceleração. Nos últimos 12 anos, dedicou-se a classes de alfabetização (antiga 1ª série ou atual 1° ano).

As mediações que foram constituindo a vida profissional da docente possibilitaram seu contato com diversos cursos de formação continuada: Projeto Ipê, Teia do Saber, Letra e Vida, Programa Ler e Escrever. Como complemento curricular, estava cursando Pedagogia em uma faculdade particular. De família humilde e numerosa, perdeu o pai aos dois anos de idade. Depois do falecimento, a mãe e os filhos receberam apoio de familiares próximos por um período. Diante da falta de emprego e da impossibilidade de dar sequência aos estudos, a família mudou-se para Lins, no interior de São Paulo, em busca de novas oportunidades.

A ida para outra cidade e as dificuldades enfrentadas pela mãe para cuidar dos filhos levaram Renata, desde muito pequena, a trabalhar e contribuir para o sustento da casa: “com 11 anos, eu já trabalhava, só que assim: eu era ajudante numa loja de tecidos de uma prima minha. Mais isso era mais para [me] ocupar, para ter uma rendinha e ajudar minha mãe”. No decorrer de sua história, já atuando na área administrativa de uma empresa de consórcio, realizou o curso técnico em Contabilidade.

Ainda morando em Lins, casou-se aos 22 anos, afastando-se de suas atividades na área administrativa, pois trabalhava aos finais de semana e o marido – cuja situação econômica era bastante confortável – queria que ela se dedicasse mais à família. Após dois anos devotados aos cuidados do lar e à criação de seu primeiro filho, na época com apenas um ano de idade, decidiu voltar a estudar, optando pelo curso Normal para tornar-se professora. Formou-se em 1984 e começou a atuar como docente em 1985. Desde então, dedica-se à carreira, que, segundo ela, lhe proporciona muito prazer:

18 Nome fictício.

[...] quando meu filho mais novo tinha um aninho, eu resolvi voltar. Aí, eu disse: ah, eu acho que vou fazer Magistério! Aí eu fiz o [curso] Normal, o Ensino Médio, e foi onde eu me identifiquei. Em 1984, eu me formei; só que estava grávida! E, aí, nasceu meu segundo filho. Na verdade, eu já estava atuando, mas eu comecei mesmo em 1985, depois que ele nasceu. E estou até hoje.

Por decorrência da vida profissional de seu marido e também de seus filhos, mudou de cidade algumas vezes. Morou em Brasília, onde trabalhou na Apae; voltou para Lins e assumiu novamente o magistério. Em 2006, instalou-se em São Paulo. Na época da pesquisa, trabalhava em uma escola pública estadual de ensino fundamental I e havia sido aprovada em um concurso público para a Prefeitura de São Paulo; porém, não havia sido contratada por motivos médicos: voz rouca e postura curvada. Para Renata, mesmo em final de carreira, a aposentadoria na rede municipal era financeiramente mais atraente do que a oferecida pela rede estadual, ainda que isso a obrigasse a trabalhar por mais alguns anos.

No decorrer das observações na escola, foi possível perceber que a professora empenhava-se em buscar novas possibilidades para desenvolver suas atividades. Mantinha bom relacionamento com seus alunos, colegas professores, gestoras e pais de alunos. Em virtude de sua vasta experiência em aulas de alfabetização, era considerada uma referência para os colegas, que buscavam seu auxílio quando tinham dúvidas sobre o processo de alfabetização dos alunos.