Com o fim do governo Herrmann Neto, e o retorno de Adilson Maluf nas eleições de 1982 representando o grupo conservador abrigado no PMDB em oposição ao grupo do ex-prefeito e agora deputado federal Herrmann Neto (nas eleições de 1982, Herrmann Neto foi eleito Deputado Federal), teremos uma interrupção da participação popular na definição das políticas públicas local. E isso terá reflexos importantes nos rumos da gestão municipal em Piracicaba.
Assim que tomou posse em 01 de fevereiro de 1983 Adilson Maluf, diferente do primeiro mandato (1973-76), procurou aproximar-se da imprensa e da elite conservadoras da cidade, (que haviam sido hostis ao governo Herrmann Neto), e conseguiu também obter maioria na Câmara de Vereadores. Essas circunstâncias garantiram a Adilson Maluf relativa tranqüilidade no 2o. mandato (Netto, 1992).
As transformações econômicas vividas pelo país no início dos anos 1980 com a forte crise econômica, tiveram seus reflexos em Piracicaba, pois o desemprego e a piora na distribuição de renda local, contribuiu para que o movimento popular pressionasse o novo governo de Adilson Maluf, principalmente no aspecto habitacional. Entre as organizações populares mais ativas nesse período merece destaque a atuação da Associação dos Favelados de Piracicaba (ASFAP).
Sobre a relação entre o movimento popular e a administração Adilson Maluf, Vanderlei Dionísio ex-presidente da FOPOP e vereador entre os anos de 1989-1997, relata o que segue: “Entre os pontos negativos temos: o atrelamento das poucas lideranças
populares aliadas ao Prefeito, a falta de uma política para a participação da população. Tais fatores entretanto não podem constituir-se em defeitos da Administração Adilson Maluf, uma vez que desde o início foi deixado bem claro pelo Prefeito sua intenção de não se deixar envolver com o movimento popular da cidade, ou seja, a Administração assumiu seu papel anti-popular, centralizador e autoritário. Os resultados foram o fracasso da candidatura de Antonio Faganello (sucessor de Adilson Maluf) e mesmo da candidatura do próprio Adilson em 1990 a Deputado Federal. Porém pode-se paradoxalmente apontar pontos positivos para o movimento popular neste período: o fortalecimento da própria FOPOP que mesmo “na marra” conseguiu definir alguns pontos de prioridades do governo Adilson Maluf, a desvinculação das lideranças mais progressistas do aparelho governamental e o nascimento de uma nova concepção de organização popular nascido das experiências tidas no Governo Herrmann e o contraste do período Adilson Maluf”9 (Orsi, 2004 p. 48 citando texto de Vanderlei Dionísio, apresentado na discussão do II Seminário de “Movimentos Populares de Piracicaba” ocorrido em 2002).
O governo de Adilson Maluf significou a interrupção da participação popular na definição das políticas públicas, significou a interrupção do Planejamento Participativo, da gestão aberta a participação. A postura centralizadora do prefeito não permitia qualquer forma de gestão compartilhada. Essa experiência de governo centralizador significou um retrocesso ao acúmulo vivido pelo movimento popular no governo anterior, desarticulou a organização popular.
O prefeito Adilson Maluf procurou imprimir um novo ritmo ao governo, distanciando-se dos programas que foram implantados na gestão anterior. Os CEPECs da gestão Herrmann Neto foram sua primeira “vítima”, mudando radicalmente a forma de organização da educação infantil e cultural no município. A sua relação com o movimento popular foi no sentido de minar as organizações populares e com isso acabou por desfazer as parcerias dos programas da prefeitura com a UNIMEP (as posições “progressistas” do Reitor Elias Boaventura e a forma de atuação da Universidade iam contra as posições conservadoras de Adilson Maluf). Entre as organizações populares a que mais fez oposição ao governo de Adilson Maluf foi a ASFAP, devido a forte organização desse movimento e
também a forma como o prefeito Adilson Maluf encaminhava as questões relativas às favelas “Na área da habitação – com os barracos das favelas multiplicando-se, a ineficiência dos PROFILURBs (Programa de Financiamento de Lotes Urbanizados) – a prefeitura não obteve êxito, sendo difícil e atritante o seu relacionamento com a Associação dos Favelados. O prefeito negava-se a dar continuidade às conquistas que aquela associação havia alcançado” (Netto, 1992 p. 219).
Assim como no primeiro mandato, o governo de Adilson Maluf foi marcado pela realização de um número impressionante de obras: 150 km de asfaltamento de ruas, alargamento de pontes sobre o Rio Piracicaba, 40.000 metros de galerias pluviais, retificação de córregos e ribeirões, ampliação da rede de água e esgotos, criação de 7 varejões, remodelação do Parque da Rua do Porto. Com o apoio da prefeitura instalou-se o Shoping Center Piracicaba, e concluiu-se o novo Fórum, Construção do Centro Cívico – prédio da nova prefeitura, ampliação para duas pistas da Av. Armando de Salles Oliveira. Na área da Saúde promoveu uma mudança radical eliminando os programas nessa área implantados na gestão Herrmann Neto.
Adilson Maluf mostrou no 2o. mandato sua característica de “feitor de Obras”, mas totalmente desarticulado do movimento popular. Era outra forma de fazer política. Se na gestão Herrmann Neto havia participação popular na gestão (ainda que não fosse deliberativa), com Adilson Maluf (o prefeito era engenheiro civil) não havia participação “No entanto o político desaparecia diante do engenheiro, a ponto de, mesmo nos bairros beneficiados, o prefeito ser impopular e mal-recebido. Adilson Maluf não se aproximava fisicamente dos bairros e das pessoas. Conhecia a cidade e determinava as obras a serem realizadas na prancha de engenheiro, em reuniões de gabinete (...) Adilson Maluf tinha a preocupação de fazer obras, sem consultar os beneficiados, sem importar-se com a opinião da população, especialmente a mais carente que continuava influenciada pelo carisma pessoal de João Herrmann Neto” (idem, 1992 p. 220). Corroborando com essa afirmativa sobre o não interesse de Adilson Maluf em estimular a participação popular na gestão municipal, Orsi (2004, p.56) afirma: “O segundo mandato do Prefeito Adilson Maluf, durante os anos de 1983 à 1988, não se interessou em dar apoio à organização popular, pois a ausência de uma diretriz única válida para todas as secretarias dificultou a continuidade do processo de participação popular iniciada. Houve predomínio do aspecto
administrativo sobre o político-social. Grandes obras foram realizadas, mas não houve preocupação em incentivar a participação popular, as organizações não foram relevadas e aos bens e serviços não se deu a ênfase ao nível de conquista popular, mas como uma prestação de serviços inerente ao poder público”.
Outro fato que ajuda a explicar, ao menos parcialmente a impopularidade de Adilson Maluf junto à esquerda e ao movimento popular, está relacionado ao episódio ocorrido em 1985, quando houve a tentativa de deposição do Reitor da Unimep Elias Boaventura e seu vice-reitor Almir de Souza Maia pelo Conselho Diretor da Universidade. Ocorria que a ala conservadora da Igreja Metodista tentou impedir a abertura que o Reitor possibilitava aos movimentos de esquerda e popular abrigados no interior da Universidade, além da postura progressista de Elias Boaventura. Durante toda a crise da Universidade nos meses iniciais do ano de 1985, enquanto Herrmann Neto apoiava o movimento de resistência impedindo a posse dos novos interventores na Reitoria, Adilson Maluf ignorou o que ocorria com a Unimep, no fundo apoiava a tentativa de golpe para depor Elias Boaventura. Passada a crise, Elias Boaventura permaneceu no cargo, ficando agora mais nítida a separação entre a “esquerda” e os “conservadores”.
Ao final do mandato em 1988 Adilson Maluf podia apresentar um “rol” de obras e realizações, mas deixava a prefeitura desgastado e impopular junto a população, principalmente à população periférica, justamente a que ao menos em parte fora beneficiada por obras e serviços públicos, resultado da sua insensibilidade e falta de articulação com o movimento popular que “consideravam um retrocesso a orientação de ordem social dada pelo prefeito”, no fundo discordavam da forma como Adilson Maluf encaminhava a solução dos problemas de forma centralizada e pouco participativa.
O segundo governo de Adilson Maluf a frente da prefeitura significou a interrupção do Planejamento Participativo, ocorrido na gestão anterior, significou a desarticulação do movimento popular. Fato decisivo em termos de substância participativa, quando se pretende implantar políticas públicas a partir da participação popular como é o caso do orçamento participativo. Nesse aspecto o segundo governo de Adilson Maluf, assim como ocorreu também no seu primeiro mandato, contribuiu negativamente para a organização do movimento popular.