Towards an Automatic Gait Recognition System using Activity Recognition (Wearable
9.3 Scenario and Proposal
9.3.2 Design and Proposal
É fundamental trazer à tona as discussões mais relevantes a respeito dessa estratégia, desde os precursores (GOFFMAN, 1967; GRICE, 2006 [1975]; LAKOFF, 1973; BROWN, 1979; LEECH, 1983; BROWN & LEVINSON, 1987) aos contemporâneos (RODRIGUES, D., 2003; VILLAÇA & BENTES, 2008; LEITE, 2008; BRAVO, 2004a, 2004b; KERBRAT- ORECCHIONI, 2004, 2006 [1943], 2014; MARCO & BRIZ, 2010; HAVERKATE, 2004; BRIZ, 2004, 2008, 2014; CULPEPER, 1996, 2010, 2011; LAKOFF, 2005), vinculadas aos dados de pesquisa, que incluem relatos informais; participações no grupo focal; registros de imagens e reflexões prévias do pesquisador; e, por fim, visionamentos e reflexões êmicas com os participantes do estudo.
Retomando inicialmente Goffman (1967, p. 36), existe, para ele, questionamento automático e constante do interlocutor acerca de que face preservar: a própria ou a do outro. Como esse jogo de faces é, em geral, comum nas estratégias de polidez, estamos, frequentemente, refletindo entre minimizar ou maximizar a imposição, a depender dos nossos objetivos interacionais. Assim, cabe ao sujeito optar por neutralizar ou não “incidentes” dessa natureza (ibid, p. 12-3), que ferem, segundo Culpeper (2011), a equidade de direitos [equity
rights].
Caso optássemos em seguir à risca o Princípio Cooperativo e as Máximas Conversacionais, propostos por Grice (2006 [1975]), poderíamos enfrentar diversos problemas nas atividades dialógicas. Ao fornecermos, por exemplo, apenas a informação
solicitada ao interlocutor (conforme a Máxima da Quantidade) e de forma breve (segundo a Máxima do Modo), estamos, com isso, optando por estilo mais direto e, consequentemente, menos mitigado. O resultado dessa escolha provavelmente selecionaria turnos conversacionais mais impositivos e, por conseguinte, menos polidos, o que pode gerar certo desconforto na interação. O excerto a seguir ilustra a opção de Estela, a professora de português, por estratégia indireta para chamar a atenção de Ayelén quanto ao uso frequente de termos do espanhol.
A4E1: Os estudantes foram direcionados a criarem uma propaganda de um dos produtos sugeridos pela
proposta do material didático, utilizando o grau superlativo. Depois da apresentação de Filinto, chegou a vez de Ayelén.
/.../ 1 Estela: ((+)) 2 Ayelén: eu? ((+)) 3 Estela: ((+)) 4 5 6 7
Ayelén: ((lendo)) “dgen↓te↑ (.) en esta loja nos tenemos boníssimos preços para os belíssimos óculos de sol (.) o-os óculos de sol mais exclusivos do brasil (..) vocês van ficar felicíssimos (.) sim é: ((meneio de cabeça para a direita)) (.) felicíssimo ((+)) sim você compra nostro óculos de sol↓ (.) vocês luciran↑ ótimos”
8 Estela: [[você:s o quê? 9 Ayelén: eh:: luciran↑
10 Estela: luzirão?
11 Ayelén: eu non (.) e lucir?
12 Estela: [[lucir né↓ FIcarão (.) ficarão ótimos 13 Ayelén: ah (.) vocês fic-ficarão ótimos
14
15 Estela: isso (.) e aqui no começo você não falou português ((aproximando-se de Ayelén na distância de, aproximadamente, 15 a 40cm)) (.) gente (.) NESte (.) 16 Ayelén: [[é: ah (.) neste
17 Estela: [[( ) 18 Ayelén: neste
19 Estela: [[nesta loja 20 Ayelén: [[nesta loja 21 Estela: temos
22 Ayelén: [temos
23 Estela: ãh::: (.) só no espanhol né↓ 24 Todos: ((R))
/.../
Estela, a partir da leitura de Ayelén (linhas 4 a 7), percebeu a interferência explícita da língua espanhola. Quando a estudante pronunciou a palavra luciran, sem qualquer aproximação com qualquer termo da língua portuguesa, a professora resolveu questionar a estudante (linha 10), simular certo acordo com Ayelén (linha 12), com o intuito de preservar a
face da aluna e não ser impositiva, para, enfim, utilizar a suavização você não falou português (linha 14). Logo, a indiretividade adotada no conjunto das ações da docente infringiu as Máximas do Modo e da Quantidade, pois a estudante já havia percebido, na linha 13, não estar utilizando item lexical em língua portuguesa. Estela revelou no visionamento que não seria adequado intimidar Ayelén.
Entretanto, a professora decidiu oferecer mais informações à aluna, deixando de ser breve. Essa decisão teve o intuito de reforçar, mesmo que indiretamente, a necessidade de maior monitoramento por parte da estudante (linha 14). Por fim, a docente percebeu que não houve qualquer constrangimento por parte da aluna e utilizou, na linha 23, ironia (maiores detalhes na seção 4.2.16), a fim de reforçar, ainda mais, a necessidade de atentar-se para o emprego de termos na língua alvo.
Embora em estudo ainda inicial acerca da polidez, Lakoff (1973, p. 298) recomenda que não sejamos impositivos com o interlocutor, oferecendo-lhe, consequentemente, opções. E ainda acrescenta que essas duas regras128 (não ser impositivo e oferecer opções) estão fortemente interligadas, pois, quando não há imposição, há liberdade de escolha (ibid, p. 298- 301). Além disso, ainda ressalta que as sentenças2 menos impositivas são, geralmente, construídas na voz passiva; em expressões impessoais; ou em expressões pessoais, por exemplo, ao pedirmos permissão para o outro (estratégias que são discutidas ao longo deste capítulo).
Dez anos depois, Leech (1983) aborda a polidez em perspectiva mais sociopragmática, tratando da polidez absoluta (universal) e da relativa (cultural) (ibid, p. 83-84). Em se tratando
128 Embora Lakoff (1973) demonstre claramente em seu texto influência da pragmática mais ortodoxa, seja na
escolha lexical (na seleção da palavra regras – que favorece pensar em uma fórmula fixa), ou na perspectiva frástica (análise somente até o nível sentencial), não podemos negar que seu estudo nutriu, e ainda nutre, diversas pesquisas de natureza sociocultural sobre o tema.
de atos impositivos129, há, segundo essa distinção, impolidez absoluta (a ordem, por exemplo) e relativa (o uso de imperativos, por exemplo). Entretanto, em razão da influência de uma pragmática ortodoxa nos estudos do autor, discordo da existência plena de polidez absoluta, pois, conforme a comparação feita por ele mesmo (ordem – impolida versus oferta – polida), não é incomum imaginar, por exemplo, ofertas intensas que possam ser avaliadas como impositivas. Precisamos, então, relativizar essa generalização dicotômica, assim como ilustra o excerto a seguir.
A7E2: A professora solicitou que os estudantes pensassem em dois costumes que os brasileiros têm,
diferentemente do país de origem dos alunos, e apresentassem para os demais colegas. /.../
1 Estela: ((olhar voltado para Filemón)) ((+)) vamo lá? 2
3 Filemón: ((+)) minha sogra é brasileira e ela tem a costume de oferecer MU:::ita comida toda hora ((–)) ((palma das mãos voltadas para fora)) e mais de uma vez (..) 4 Estela: [[((R)) 5 Dulcinea: [((R)) 6 Ayelén: [((R)) 7 Nora: [((R)) 8
9 Filemón: eu a-acho que:: não precisa (..) se eu quiser (.) eu posso pedir (..) outra coisa é que ela coloca sem pergunta MU::ito açúcar no meu café 10 Estela: [[((R))
11 Dulcinea: [((R)) 12 Sumalee: [((S)) 13
14
Filemón: aí o café tem o aspecto muito mal (.) o café é bom (.) mas o jeito que preparam (..) é isso
15 Estela: ((R))
/.../
Filemón reforçou, na linha 2, o exagero da sogra na oferta de comida e, na linha 3, sinalizou negativamente essa ação. O estudante ratificou, nas linhas 8 e 9, sua avaliação negativa relacionada à oferta, deixando claro que a sogra, na visão dele, deveria ter ofertado somente aquilo que, de certa forma, foi solicitado. Assim, o relato de Filemón explicitou que, para ele, a sogra não obedeceu ao Princípio Cooperativo (linhas 8 e 9) (GRICE, 2006 [1975]), sendo avaliada, ao contrário do que postulou Leech (1983), como impositiva e impolida.
Percebi, assim, que eles estavam em frames distintos, pois a sogra, oferecendo comida em demasia, acreditava estar sendo polida (e cortês também, nesse caso) com Filemón. Ainda que o fato de adoçar o café não fosse, para ele, agradável, para ela, constituía ato de polidez e cortesia. O cafezinho, para os brasileiros, é servido em geral puro, forte e com muito açúcar,
129 Segundo Fraser (1990, p. 226), o conceito de polidez negativa proposto por Leech (1983) consiste na
havendo, inclusive, fama de que nessa cultura as pessoas tomam açúcar com café (RECTOR & TRINTA, 1986, p. 29).
Na linha 13, Filemón utilizou o elogio e a impessoalização como atenuadores de crítica feita ao café brasileiro, poupando a própria face e a nossa (dos brasileiros). O estudante, inicialmente, afirmou que o café tem o aspecto muito mal e, posteriormente, reparou a ameaça à face dos brasileiros com o elogio (o café é bom). Utilizou conjunção adversativa, indicativa de discordância; porém, igualmente, atenuou o desacordo, impessoalizando o agente da ação (o jeito que preparam).
Ainda que distante da perspectiva sociocultural, Brown & Levinson (1987) asseguram que os interlocutores têm necessidade de se sentirem livres nas suas escolhas, optando, assim, pela esquiva de modo geral. Todavia, a generalização dos autores consiste em território arenoso, em razão de em certas culturas, como a brasileira, por exemplo, o distanciamento entre os interagentes poder sinalizar pouco envolvimento, excesso de formalidade e/ou pouco interesse nas necessidades do outro.
A partir de olhar mais sociocultural, Rodrigues, D. (2003, p. 481) afirma que devemos considerar os valores semântico-pragmáticos que envolvem o estudo da cortesia. Dessa forma, tempo e modo verbais, por exemplo, não podem ser estudados apenas sob a ótica das construções modais, mas, sobretudo, “dos valores que adquirem em contexto” (ibid, p. 481), tornando-se, assim, menos/mais impositivos, a depender da estrutura, da significação, do discurso e da cultura. Mais adiante constatamos que a perspectiva semântico-pragmática não é totalmente suficiente para o estudo da polidez.
Villaça & Bentes (2008, p. 38), ao transcreverem determinada conversa entre dois brasileiros, chamam a atenção para os fatores linguísticos e para os extralinguísticos presentes quando dado locutor pede a opinião de seu interlocutor acerca de determinado assunto. Ao tomar o turno conversacional, esse interlocutor usa uma vez a expressão esse é o meu ponto
de vista; repete a expressão para mim; e reforça, com aumento do volume de voz, a palavra
eu. A partir desses dados, as autoras avaliam que tal interagente, por meio dessas pistas, desejou ser modesto, não optando por ser impositivo ao opinar sobre o que lhe foi solicitado, manifestando, assim, sua visão de mundo sem que isso denotasse verdade absoluta.
Além de a imposição ser avaliada sob o prisma cultural, devemos também considerar o gênero discursivo. Sobre isso, Leite (2008, p. 76) esclarece que em entrevistas profissionais não é considerado impositivo o questionamento do entrevistador para o entrevistado, desde que essas perguntas não embaracem e não aviltem a imagem pública do candidato. De modo
similar, a sala de aula oferece espaço para questionamentos, sem que os turnos de fala sejam avaliados como impositivos.
Assim como Bravo (2004b, p. 28), também considero que o estudo da polidez adquire mais sentido quando levamos em conta as idiossincrasias dos grupos e a dimensão individual dos sujeitos. Associadas a esses dois fatores, não consigo perceber as convenções de polidez desprovidas de uso estratégico (ibid, 2004a, 2004b), pois é a partir desse uso que obtemos
níveis de distância interpessoal, como, por exemplo, quando em uma entrevista de trabalho, o entrevistador escolhe tratar por Usted o entrevistado, apesar da juventude deste último, ou níveis de proximidade interpessoal, como, por exemplo, mediante apelidos carinhosos no espanhol de Buenos Aires (gordita, mi amor, corazón etc.)130
(BRAVO, 2004a, p. 9-10).
Pensando, então, que a polidez funciona de maneira estratégica, relaciono isso ao redimensionamento dado por Morato (2002) à função reguladora131 da linguagem (de Vigotski). Para a autora (ibid, p. 18), a linguagem funciona como mediadora entre a interioridade (aspectos biológicos) e a exterioridade (mundo social). Isso não seria diferente com as convenções de polidez, por estarem vinculadas à nossa competência interacional de regular as necessidades sociais (nível interpessoal) com as intenções individuais (nível intrapessoal).
Relacionados ao uso estratégico, encontram-se os aspectos ideológicos que, conforme Eelen (1999, p. 170), podem ser distintos a partir da visão de mundo do interlocutor, dos aspectos culturais partilhados e do “uso em situações específicas e direcionadas a pessoas específicas”132, fruto da interação biologia (interioridade) e sociedade (exterioridade).
Ao criticar o viés etnocentrista de Brown & Levinson (1987), Kerbrat-Orecchioni (2004) esclarece não ter o imperativo sempre carga impositiva (LAKOFF, 1973; LEECH, 1983; e BROWN & LEVINSON, 1987). Como exemplo, Kerbrat-Orecchioni (2004, p. 49) cita a expressão Sirva-se [Help yourself], que não é avaliada pelos estadunidenses como rude,
130 Tradução minha para o seguinte trecho: ... se obtienen niveles de distancia interpersonal, como, por ejemplo, cuando en una entrevista laboral el entrevistador elige tratar de Usted al entrevistado, a pesar de la juventud de este último, o niveles de cercanía interpersonal, como, por ejemplo, mediante apelativos cariñosos en el español de Buenos Aires (gordita, mi amor, corazón etc.).
131 Embora haja certo paradoxo, Morato (2002, p. 36) utiliza a expressão função reguladora fluida, responsável
por “explicitar o funcionamento da linguagem”, isto é, a palavra reguladora não assume caráter normativo, e sim, fluido, mutável, adaptável.
mas como sinal de concessão de autonomia ao interlocutor, assim como havia avaliado Mary, nossa colaboradora do estudo-piloto (vide capítulo 1). Para os britânicos, por sua vez, dar um conselho constitui ato impositivo, ao contrário do que pensam os falantes de espanhol (MARCO & BRIZ, 2010).
Lakoff (2005, p. 32-3) exemplifica o caso de dada companhia telefônica que priorizou o uso de olá [hi] em substituição a por favor [please]. Essa opção foi mantida em razão de olá [hi] ser mais curto que por favor [please], além de o primeiro uso, ao contrário do segundo, constituir marcador de polidez positiva: cumprimento. Apesar da substituição do modalizador
por favor [please], a imposição pôde ser minimizada por meio da forma de cumprimento utilizada, diferentemente do que é proposto pelos estudos precursores na discussão acerca da polidez negativa e positiva. Percebemos, por meio desse exemplo, que Lakoff (2005), após 32 anos, amplia as perspectivas investigativas ao utilizar esse dado com forte viés cultural.
Adentrando a cultura hispânica, Haverkate (2004) assegura que os falantes de espanhol não processam o uso de imperativo como mais impositivo em razão de esses usuários terem cultura orientada para a solidariedade, isto é, há, para eles, princípio pragmático geral que, em prol de “uma etiqueta de solidariedade, se subentende o direito de reduzir a liberdade de ação do interlocutor” (ibid, 2004, p. 60)133.
Marco & Briz (2010, p. 244) ressaltam que o conselho, por exemplo, apresenta, na ótica dos estudos pioneiros, caráter ameaçador. Na percepção dos falantes de espanhol, revela-se como sinal de autonomia134, possibilidade de formular ideias próprias, não constituindo, assim, ato impositivo.
Bravo (2004b, p. 29), em complementação a esse dado, assegura que os espanhóis não julgam ser importante a discussão acerca da territorialidade, mas que a “autoafirmação positiva (...) predomina como traço que deve ser respeitado para manter-se a individualidade”135. Em consonância com esse dado, Haverkate (2004) reitera que os espanhóis constituem povos de cultura mais sensível para a polidez positiva e menos sensível para a polidez negativa, isto é, eles têm mais tolerância em relação àquilo que seria percebido por outras culturas como invasão territorial.
133 Tradução minha para o seguinte trecho: ... una etiqueta de solidaridad se sobreentiende el derecho de reducir la libertad de acción del interlocutor.
134 Apesar de o termo autonomia ter sido empregado pelos autores, considero mais esclarecedor utilizar liberdade.
135 Tradução minha para os trechos: ... autoafirmación positiva. (...) predomina como rasgo que debe ser respetado para mantener la individualidad.
Para esclarecer ainda mais esse pensamento, Johnstone (2008, p. 147) assegura que a preservação de face negativa pode ser relevante para sociedades com características bastante individualistas, que são autossuficientes. No entanto, para aquelas que se voltam para os interesses do grupo, essa preservação de face não é importante, e sim, a face positiva (cf. BRAVO, 2004b; HAVERKATE, 2004).
Ao tratar de aspectos socioculturais, Marco & Briz (2010, p. 248) distinguem as culturas de proximidade e as de distanciamento a partir da observação à distância social, aos espaços interpessoais e à confiança mantida entre os interlocutores. Os autores (ibid, p. 249) esquematizam essas culturas, da seguinte forma, no quadro a seguir.
Quadro 16 – Proximidade x Distanciamento
Fonte: Marco & Briz, 2010136.
Observando o quadro de Marco & Briz (2010), podemos visualizar a minimização dos atos impositivos como estratégia de cortesia mitigadora. O continuum mostra que quanto maior for a proximidade entre os interlocutores, menor a preocupação com o uso de atenuantes e com o distanciamento adotado por eles. E, evidentemente, o oposto ocorre com culturas de maior distanciamento. Para os autores (ibid), os espanhóis são considerados povos de maior proximidade, inserindo-se nas características da primeira coluna, da mesma forma que os hispano-americanos (HAVERKATE, 2004, p. 62) e os brasileiros.
É Briz (2004) quem discute os limites entre a cortesia codificada e a interpretada (vide capítulo 1), constatando que as sentenças, no geral, variam do maior ao menor grau de cortesia e, em casos de insuficiência da convenção, é solicitada a interpretação do interlocutor para tal enunciado. Contudo, a análise desse pesquisador incide única e exclusivamente na
136 Apesar de o quadro ilustrar processo situado em continuum, a apresentação em duas colunas dá ideia de
aspectos dicotômicos. Por essa razão, traduzo a coluna da esquerda, abaixo de proximidade [acercamiento], como: menos atenuantes, mais cortesia valorizadora, mais intervenções colaborativas, mais fala simultânea, mais proximidade física ao falar e mais temor ao silêncio interacional. Já na coluna da direita, abaixo de distanciamento [distanciamiento], há: mais atenuantes, menos cortesia valorizadora, menos intervenções colaborativas, menos fala simultânea, menos proximidade física ao falar e menos temor ao silêncio interacional.
presença de atenuantes linguísticos, não realizando, portanto, qualquer avaliação relacionada a aspectos extralinguísticos, paralinguísticos e, tampouco, não linguísticos.
Ao estudar conversas coloquiais, Briz (2008, p. 231) analisa a interação entre pai e filho e mapeia alguns elementos responsáveis por minimizar a imposição no ato de pedir. Para o autor (ibid), o menino emprega fórmulas carinhosas [papi]; suavizadores que incluem justificativa [es que, quería]; atenuantes da quantidade de dinheiro que é solicitada [algo de
pasta]; intensificadores reforçando obstáculos [no tengo un clavo]; e outros argumentos reforçados para conseguir aprovação [Te lo juro el sábado...] etc. Com esses dados, o autor conclui que atenuação137 e intensificação, nessa conversa, são estratégias utilizadas com a mesma finalidade: conseguir o dinheiro, rompendo, assim, com a ideia dicotômica entre as estratégias apresentadas.
Considerando que Brown & Levinson (1987) utilizaram, de algum modo, as contribuições dos trabalhos de Goffman (1967), Grice (2006 [1975]), Lakoff (1973) e Leech (1983), e que abordaram, diretamente, a imposição apenas na 4ª estratégia da polidez positiva, constato, a partir de meus dados de pesquisa, a necessidade de ampliarmos esse olhar.
Essa ampliação torna-se necessária em razão de as convenções de polidez, incluindo a modalização de atos impositivos, transcender os limites fixados pelos autores em estratégias isoladas. Nas palavras de Kerbrat-Orecchioni (2006 [1943]), os atos impositivos são negociados no curso da interação, e esse acordo depende das pressões contextuais que envolvem os interlocutores.