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Background and Related Work

2.2.3 Basic System Errors

Oito anos após o estudo de Goffman (1967) sobre a face, Grice (2006 [1975]) propõe o Princípio Cooperativo, desdobrado em quatro máximas denominadas por ele Máximas Conversacionais. O autor (ibid) parte do pressuposto de que a conversação consiste em atividade organizada com determinadas propostas comuns, ou, pelo menos, mutuamente aceitas.

Por esse princípio, de natureza genérica, entende-se constituir contrato que orienta os interagentes a “tornarem sua contribuição conversacional proporcional ao que é solicitado, no momento em que ela ocorre, seja pela aceitação do que é proposto ou pelo direcionamento da troca conversacional em que (os interagentes) estão engajados” (GRICE, ibid, p. 67-8). Fraser (1990, p. 222), de modo bem direto, resume esse princípio como aquilo que “você deveria dizer o que você tem de dizer, quando tem de dizer e da maneira como você deve dizer”22.

Para esclarecer mais sobre o Princípio Cooperativo, é importante abordar as Máximas Conversacionais (GRICE, 2006 [1975]), responsáveis por guiar a interação face a face no que diz respeito à quantidade, à qualidade, à relevância e ao modo do enunciado.

Em relação à Máxima da Quantidade, ilustro-a com a percepção da colaboradora de pesquisa Mary (estadunidense), sobre o uso excessivo de mitigadores. Para ela, o brasileiro

22 Tradução minha para o seguinte trecho: ... you should say what you have to say, when you have to say it, and the way you have to say it.

“perde muito tempo” utilizando amortecedores, pois estes deveriam ser suprimidos do enunciado a fim de que a interação acontecesse de maneira mais objetiva. Para Grice (ibid, p. 68), a máxima recomenda fazermos com que a nossa contribuição ocorra na medida do que foi solicitado pelo interlocutor, e Mary estranha o uso de tantos mitigadores por não haver, em momento algum, qualquer solicitação do interlocutor a respeito da seleção léxico-gramatical desse recurso.

A Máxima da Qualidade indica que nossa contribuição deve ser verdadeira, ou seja, não deve ser dito nada falso ou sem evidência adequada. Ressalto que as condições de verdade são difíceis de serem avaliadas, uma vez que partimos do pressuposto de que, em determinada interação, os sujeitos estão sempre sendo verdadeiros, a não ser que o locutor seja avaliado como mentiroso ou forneça pistas de que não está dizendo a verdade. É claro que ser verdadeiro nem sempre é recomendado socialmente; e esse aspecto é abordado mais detalhadamente ao longo do capítulo.

Já a Máxima da Relevância solicita que as interações devem ser relevantes, e isso dependerá do objetivo das interações e dos seus interlocutores. O próprio autor (ibid) menciona certa dificuldade em selecionar o que é relevante, deixando esse assunto para ser mais explorado em trabalhos futuros. Nas aulas de português para estrangeiros, ministradas por mim, percebi, da mesma forma, ser subjetivo tratar de relevância, pois os estudantes apresentavam diversas necessidades e, evidentemente, objetivos diferentes, ou seja, poderíamos pensar em contextos aparentemente irrelevantes para uns, como comentar sobre receitas culinárias, por exemplo, mas que poderiam ser relevantes para outros.

Por fim, a Máxima do Modo apresenta diversas submáximas, a saber: a esquiva da obscuridade, a esquiva da ambiguidade, a brevidade e a ordenação. Durante a realização da tarefa23 proposta por mim denominada “Polidez no Brasil” (vide apêndice A), conversei com os estudantes a respeito da percepção acerca da imagem 1, que possibilitaria várias leituras (vários significados), tornando-se a interpretação obscura e ambígua.

23 O termo tarefa justifica-se, para Coughlan & Duff (1994, p. 174-5), por ter como foco os objetivos

educacionais (propostos pelo mediador), isto é, constitui diagrama comportamental [behavioral blueprint] a fim de atender a funções estritamente pedagógicas. Já o termo atividade, que não se aplica a esse contexto, relaciona- se com as atividades cotidianas dos sujeitos, não sendo o destaque para os objetivos pedagógicos, mas sim, para os pessoais, negociáveis com os pares.

Figura 2 – Questão 6: Tarefa “Polidez no Brasil”

Fonte: Elaborada por mim.

Sobre esse olhar (imagem 1), Mary mencionou tratar-se de olhar não recomendado para sua cultura; Camila (venezuelana) já associou a olhar amoroso entre duas pessoas do mesmo sexo; para Carla (argentina), não havia significado algum em sua cultura; já Ricardo (peruano) o avaliava como olhar de quem buscava conflitos; Luana (chilena), por sua vez, creu que fosse olhar recomendado em funerais. Assim, como professor, concluí que a tarefa não alcançou o seu objetivo por não ser clara e deveria ser reformulada.

Em suma, consideramos que o sujeito obedece ao Princípio Cooperativo quando segue as recomendações das quatro máximas conversacionais e, na visão de Kramsch (1998, p. 31- 2), essa percepção das máximas e, consequentemente, do Princípio Cooperativo variará de cultura para cultura, pois haverá interpretações diferentes do que é verdadeiro, suficiente, claro e relevante, conforme já explicitei, em decorrência da subjetividade inerente ao construto griceano (crítica a ser enfatizada por Lakoff (1973) na próxima seção).

Assim, Grice (2006 [1975]) assume que os interagentes cooperam uns com os outros quando obedecem às máximas. No entanto, o próprio autor (ibid) deixa claro que existem outras máximas, tais como a recomendação “Seja polido”. Para Bravo (2004a, p. 7), ser cortês constitui pré-condição para que os interlocutores cooperem entre si.

Sobre essa necessidade de cooperação, Watts (2003, p. 208) adverte que os pragmaticistas griceanos desconsideram as inferências do interlocutor acerca da enunciação do locutor, ou seja, as intenções dos interagentes são negligenciadas, assim como ocorre nos estudos pragmáticos mais ortodoxos. Entendo que esse aspecto distancia, de certo modo, as reflexões de Grice (2006 [1975]) da perspectiva intercultural devido ao caráter universal, com base exclusivamente no acordo conversacional.

É claro que, em alguns momentos, optamos por obedecer à determinada máxima e a escolhemos estrategicamente e podemos, em consequência dessa ação, infringir outra, como, por exemplo, no caso da Máxima da Qualidade e da Polidez, cujo dilema entre ser verdadeiro

e ser polido, ao mesmo tempo, constitui escolha do próprio interlocutor, o que fragiliza as recomendações griceanas.

Em sala de aula, certa vez, levei para o debate o tema sobrepeso, tabu especialmente entre as mulheres brasileiras. Se uma brasileira perguntasse a alguém se ela havia engordado, o que deveríamos fazer? Essa resposta não é tão fácil, mas, no geral, com base em aspectos de nossa cultura, não se diz confortavelmente que alguém engordou, mesmo que isso tenha acontecido. Seria comum: negar (atitude mais polida e menos sincera), usar muito mitigadores para disfarçar a resposta (atitude mais polida e menos clara), e, em frequência menor, confirmar (atitude menos polida e mais clara).

Nesse caso, obedecer ao Princípio Cooperativo seria faltar com a verdade e violar a Máxima da Qualidade, ou ser impolido e violar a Máxima da Polidez? Kerbrat-Orecchioni (2006 [1943], p. 100) adianta que se trata de um conflito entre ego (egoísmo) e alterego (altruísmo), ou seja, sinceridade e polidez estão na balança. Na próxima seção, damos sequência a esse tópico com Lakoff (1973).